segunda-feira, 7 de outubro de 2019

E o que bai na tubisão, hum?

Pronto, sim senhora, temos um facho (de merda, pardon my french, mas no meu pobre léxico a palavra "facho" faz-se sempre acompanhar do epíteto "de merda"; eu sei que é uma redundância, mas é o que temos) no parlamento, podemos beber para esquecer, podemos chorar, podemos uivar que não foi para isto que se fez o 25 de Abril, podemos sei lá eu o quê, ou podemos congratular-nos de ainda viver num regime democrático que, não obstante o facho (de merda, não esquecer) e o coisinho do partido que acha que a palavra subsídio é um palavrão (mas que vai passar a ser assalariado do Estado, a mamar na tetinha do, a viver dos impostos pagos por todos, oh a ironia) , ainda se dá dinheiro às boas, benfazejas, queridas cigarras cujo propósito na vida é criar coisas sem valor de mercado mas que nos dão tanta alegria. Claro que há excepções, ele há cigarras muito pouco talentosas, mas que haja uma genial e já vale a pena.

E é um mui aprazível produto trazido à luz do dia por um grupo de talentosas cigarras que venho recomendar. Depois da série Sara (ovação!), o canal público mostra o propósito da sua existência e serve-nos a série Sul. É um policial, tem excelentes interpretações que, não desfazendo, também só são possíveis com uma boa história, boas personagens, e muito boa escrita, e tungas, estamos agarrados, e lá em casa vota-se para nos darem já todos os episódios com a finalidade de um binge, que esperar dez semanas para ver tudo é tão dois mil e pouco.

Ide espreitar, ide; e depois dizei coisas.

[o ritmo é lento, respira e deixa respirar, para quem goste de resoluções em 40 minutos é esquecer. eu cá gosto. aliás, como fã de Shetland, Vera, Broadchurch, não havia como não gostar. uma boa história policial não vive apenas do descobrir o mau depressinha e dar-nos o sossego de saber que o castigo nunca tarda nem falha, é tudo o resto que a faz valer a pena. e esta vale.]

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A minha vida dava um (mau) quadro de revista [ou mais um dilema Olívia patroa, Olívia costureira]

Exma. Sr.ª Dr.ª Arq.ª Eng.ª Izzie Benedita Cayettana  Betttttencourt Saaaavedra Melllo,
Presidente do Conselho de Administração de Izzie Unipessoal [muito] Limitada,
Excelência:

Inicio esta cândida missiva apresentando os mais sentidos, vibrantes, entusiasmados cumprimentos, de que aliás V. Ex.ª vem sendo reiteradamente merecedora desde o início de seu auspicioso mandato, o qual vem, dia a dia, hora a hora, honrando com a mais briosa, honesta, rigorosa prestação de que há memória.

Versando agora o assunto que me leva a incomodar V. Ex.ª, distraindo-a quiçá de seus muito exigentes e elevados afazeres - mas decerto não a fazendo esquecê-los!, que seria! -, com certeza não olvidou a medida urgente de contenção que foi imposta na transacta semana - e merecidamente!, -  devido a um desvio orçamental imprevisto e que - mea culpa!, mea culpa! - me é inteiramente imputável. Não pondo em causa a premência, a necessidade, mais, a finíssima justeza de tal medida, venho, todavia, perante V. Ex.ª, de mãos postas e cabeça curvada, solicitar que a reveja. Não peço que a revogue, que a vergonha que ainda me faz ruborescer as faces ao recordar o episódio não permite que tenha tal desfaçatez! Ouso apenas apelar a que, procurando no âmago de seu espírito benfazejo e magnânimo, me conceda uma singela moratória, por ocasião de se me ter atravessado uma oportunidade aquisitiva que se afigura não só oportuna como sensata e até contida.

Concretizando, o mais sucintamente possível, que já lhe adivinho o cenho franzido, o semblante carregado de quem não possui o luxo de poder perder tempo com miudezas e frioleiras de economato, cruzei-me com um singelo vestidinho, muito composto e adequadíssimo às funções que venho humilde mas, creia-me, muito empenhadamente desempenhando nesta unidade produtiva, e a um preço compatível não só com a minha importância como funcionária, como também com a minha mediania como pessoa. Sucede ainda que, calhando estar precisada de substituir o blazer preto de meia estação, encontrei um muito capaz, muito discreto e apropriado, que faria - feliz coincidência! - um agradável ensemble com o referido vestido, cumprindo o seu custo monetário os mesmos requisitos de moderação que o sobredito.

Certa de que este inusitado e, concedo, insolente pedido merecerá a mais benévola e complacente apreciação, coloco-me à mercê de V. Ex.ª, aguardando se digne favorecer-me com uma sábia e ponderada resposta.

Com a maior estima e consideração desta sua empenhada colaboradora, amanuense, criada para todo o serviço,
Izzie Maria da Conceição Silva

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

The kids will win



Aqui há atrasado estava eu num quiosque da nespresso, à espera de vez, quando o indivíduo à minha frente, já escolhidas as cápsulas, todas postas no saquitel e a fazer o pagamento, é perguntado pela senhora que faz o atendimento sobre se pode colocar um saco verde que empunha junto do aviamento. O fulaneco, já entradote, aliás bastante entradote, denunciava-o não só a cabeça branca, acompanhada de careca e rugas, mas também o autefite típico de bélhote féchion (camisa de manga curta aos quadrados a fazer pandâ com calça bege puxada o mais acima que o gancho permitia), dizia eu o cota, não, cota sou eu, o ginjas, fica meio surpreendido, pareceu-me que pergunta sobre o dito saco verde, e a senhora explica, da recolha de cápsulas usadas, quando estiver cheio fecha o saquinho e depois deposita-o no sítio onde aponta, penso que explicou mais, provavelmente que usam o café para composto e o alumínio é reciclado, que a conversa não é tão curta assim, e o bélho, talão já na mão, faz um aceno negativo, daqueles muito displicentes, a acompanhar um aceno de cabeça de "estou lá para isso".

Ora eu, já a ser atendida, e que ia aviar um horror de cápsulas porque queria uma máquina nova aqui para o estaminé, fiquei parva e pasma, ali a cair para a indignação fervente que costuma anteceder eu meter o bedelho onde não sou chamada e interpelar alguém. Como estava a ser atendida e a contar sleeves, e me baixou um certo pingo de noção, pá, já tive tão más experiências quando me dá para ceder ao impulso de educar estranhos, um dia conto a do lugar de estacionamento de deficientes, fiquei-me, a ecoterrorista cá dentro aos pontapés e a berrar "pois, qualquer dia morres e queres lá saber, né, ó velho do c@ralho".

É que se fossem só os velhos, mas nestes noto mais incidência, mas se fossem só eles, que até nasceram e cresceram sem plástico, mas tanta, tanta gente a não querer saber. São decerto os mesmos que acham uma patetice estas greves e marchas pelo clima, acham a Greta uma criatura bizarra, risível, e não se coíbem de o dizer, e alguns até negam evidências de quem estudou e sabe mais que o comum cidadão, com aquela atitude blasé de quem não vai estar cá para ver. Se calhar eu também não, mas ao menos pensassem nos filhos, netos, sobrinhos. Ao menos prestassem atenção, lessem umas coisas, a burrice é doença crónica mas a ignorância é uma opção, cura-se facilmente. Basta haver vontade.

[claro que reciclo cápsulas, bem como as respetivas embalagens de cartão, e todo o material reciclável vai parar ao devido contentor. até tento, juro que tento, consumir o menos plástico possível, reutilizar papel, e faço compostagem. se calhar não chega, bom, não chega mesmo, que a responsabilidade individual enquanto consumidor é uma ideia muito bonita, mas sem que quem tenha poder de decisão a larga escala cumpra o seu dever estamos largados num caminho sem retorno. mas porra, custa muito recolher umas meretrizes de umas cápsulas e levar quando se vai reabastecer, caroço?] 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Eu não tenho palavras, eu não tenho vinho

Ontem apareceu-nos isto nas recomendações do iutubas. É demasiado bom para a) não partilhar; b) ficar esquecido nos confins de uma plataforma.
Enjoy.





 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Crime e Castigo

Ena, já cá não vinha, ó.

(perdi a noção do tempo e, a bem dizer, não há nada de relevante a assinalar. a vida aqui nas trincheiras continua a mesma de sempre: lama e trampa até aos joelhos, muita coceira, muito palavrão; de quando em vez até me vem à ideia um assunto sobre o qual me apetecia dissertar, mas depois dá-me o "nah" ou o "isto não interessa nada / a ninguém" principalmente, não tem interesse - ou perde-o - para mim. ando assim, e ao que julgo saber não há medicação eficaz contra a apatia, atonia, ou simples indiferença. feito este parentesis - que na verdade não interessa nada - adiante)

E o que me faz vir é mais um sentido de dever aliado à função de almanaque, agenda, repositório de efemérides ou memórias que também é um blog.

Passou-se então que fui autuada.

(pausa para choque, desmaio, tempo para a criada - fardada, que isto aqui é um sítio chique - ir buscar os sais ou o copo de brandy, conforme o gosto)

Verdade. Bloquearam-me o carro, espetaram-lhe um autocolante no vidro do condutor, e enrolaram-no numa fitinha festiva.
A culpa foi 100% minha, que não vi / optei por não ver / ignorei a presença de um sinal que dveria ter lido devidamente. Estava onde não devia estar, exercendo o estacionamento em vez do carregamento / descarregamento.
Podia enumerar atenuantes como i) tentem lá encontrar um buraquinho onde por o carro no Saldanha às cinco da tarde; ii) sim, mesmo a pagar; iii) tinha onde estar dali a pouco; iv) apanhei o lugar quando um anterior ocupante acabava de sair, e foi maior a exultação que a cautela. Mas isso não limpa a culpa, mea culpa, minha máxima culpa. Ganda totó.

Algumas notas, que me parecem relevantes, no estilo Reader's Digest que este post assumidamente assume:

- Até ontem às 17.06 horas tinha o cadastro limpo. Carta com quase a mesma idade que a minha licenciatura (mais uns meses), uma multa de estacionamento em 1998 ou 1999 que foi amnistiada por via de uma visita papal, e em 2019, pumbas, para o lixo uma reputação e historial imaculados.

- Derivado do supra revelado, não fazia ideia a quanto ficava uma multa, mas doze contos não achei muito. Ainda sou do tempo de multas (coimas, em rigor) de estacionamento de cinco contos, e na altura doía mais, ainda dizem que o país não evoluiu. Já os tre(U)ze contos para me tirarem o coisicho com que adornaram a roda dianteira direita, achei carote. Enfim, é pagar e não bufar. Feitas as contas, é preciso amortizar o investimento no material, a mão de obra dos funcionários, o gasóil da viatura, pronto, já não digo nada. É o mesmo que paguei para me aranjarem um autoclismo, e o dito estava colocado em propriedade privada, no espaço a tanto destinado, sem embaraçar qualquer profissional de entrega de cenas que precisasse do espaço.

- Tirei o tiquê de estacionamento às 17.00 horas, às 17.06 toparam-me o veículo em infracção e bloquearam. Ainda dizem que a justiça não funciona, ou é lenta, ou o caraças.

- Entre ligar para o número de telefone que estava no autocolante, ser atendida por um sistema automatizado, inserir o número de série do autocolante e chegar a simpática viatura com os afáveis funcionários da EMEL decorreu o tempo exacto de ir comprar um cornetto de chocolate (e um magnum amêndoas para me mate), ingerir o dito, e acender um cigarro. Ainda dizem que as instituições não funcionam, são lentas, ou o caraças.

- Pus o funcionário da EMEL a rir quando, enquanto tirava a fita, reclamei "ao menos deixe-me ficar com a fitinha, caramba, pelo preço TEM de estar incluída." Deu-me a fitinha. Não me deu o prémio da freguesa do dia (quiçá semana, quiçá mês, arrisco mesmo ano), que aposto que não têm recepções destas com frequência. Devem ouvir boas, devem. Têm (quase todos) um ar de stress pós-traumático que não se aguenta.

- De resto, tudo com a maior normalidade: mostrar cartão de cidadão, carta de condução, documento único não foi preciso (mas tinha-o comigo) porque bastou inserir a morada que facultei no computas, e tau, multibanco, introduz cartão, verde-código-verde, sai o papelucho da mini-impressora, assine aqui, este é para nós, esta é a sua cópia. Muito eficiente.

E pronto, fiquei mais pobre em cento e trinta euros (cento e trinta e dois e cinquenta cêntimos, se somarmos o pagamento do estacionamento), muito aborrecida com a minha falta de cuidado, e estou inibida pelo meu conselho de administração de qualquer gasto supérfluo, fútil ou recreativo até ali ao Natal.
Merecido.


[disclaimer final: não odeio a EMEL e muito menos os Emelitos, que se limitam a fazer o seu trabalho. pelo contrário, sou total e empenhadamente a favor da gestão do espaço público de estacionamento, e do respetivo pagamento.]

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Zona de conforto

Uma pessoa volta de férias cansada como foi; uma pessoa cai na sua terra natal, a bela capital, cheia de planos para arrumações, trabalho, dar a volta a cenas, e ainda por cima o tempo está fresquinho, ajuda, e começa o calor a sério; a pessoa sofre muito com o calor, fica uma plasticina, um blob, uma cerelac; pessoa em causa acaba a fazer menos de metade do que queria, mas ainda faz qualquer coisa, hey, festejemos!, sejamos positivos!, o motor de felicidade da nossa vida!, a atrair boas energias cósmicas!; nã, cinco minutos e passa; afinal a pessoa, bem pesadas as coisas, continua a medíocre, vá, não exageremos, a mediana de sempre, não adianta nem atrasa, creeeedo, porque tuuuudo custa tanto, tuuuuudo; e entretanto voltam as dores de cabeça, moinhas de dois três dias, com dores musculares para acamar; vontade de nada, motivação para nenhum; pessoa capacita-se que tem de contrariar este estado natural de coisas, pessoa imbui-se de raivinha no sentido de andar em frente; pessoa precisa de dar uma volta a isto; pessoa calha ir dar uma volta para espairecer e acaba a comprar um vestido preto.
Mais um.
Vestido preto.
Bem giro, por sinal, um bom negócio, também, mas.
Um vestido preto.
Ainda bem que não há um limite legal, ou já estava presa por crime de vestido preto. Agravado por tentativa de vestido preto, em que o (pouco) branco ou outra cor neutra, ou só umas sarapintas de cor afastam o crime consumado. E nem falemos em calças. Ou sapatos / sandálias / botas.
Portanto, um vestido preto.
Bem giro, e que me fica bem.
Às vezes é preciso que nada mude para que não fique tudo na mesma.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Enquanto a Amazónia arde

Ao que se sabe, pelo menos há 15 dias, e sem que a comunicação social ligue puto - juro, sigo uma mão cheia de jornais no face, soube ontem à noite pelo Twitter, e finalmente hoje os media começaram a cobrir - a gente segue com a sua pacata e corriqueira vidinha, assistindo a um presidente de um dos países mais poderosos no mundo oferecer-se para comprar parte do território de um outro país, ao decretar-se a requisição civil de pessoal de voo de uma low cost privada que não tem ligações aéreas exclusivas e relevantes em termos estratégicos, a continuar a haver barcos carregados de gente desesperada no Mediterrâneo, enfim, e isto é o novo normal, same old, same old, e só me ocorre que decidir ter filhos, hoje em dia, ou é um acto de extrema coragem, ou optimismo, ou inconsciência, ou todos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Ora cá estamos

Em primeiríssimo lugar, quero esclarecer que não possuo, nunca fui dona de, nem pretendo adquirir o actualmente famoso objecto que dá pelo nome de jerrican. Sim senhores, que atestei na quarta, porque tinha o depósito a menos de um quarto, e já foi uma festa: normalmente só me dou ao trabalho quando está na reserva. Na quinta vi filas nas gasolineiras, na sexta e sábado nem imagino porque não passei por nenhuma. Tive gasolina suficiente para voltar, e depois logo se vê, quer'lá saber. Também não fui fazer nenhum aviamento ao supermercado, s'a lixe. Se o meu povo entra nestes extremos de histeria por causa de combustível, nem quero imaginar se um dia acontece o apocalipse zombie, chiça.

De resto, acho que desaprendi de trabalhar. Estou aqui há mais de um par de horas a ver se me recordo, mas não, ainda nada. E agora tenho fome. Só ralações.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Como ia dizendo

Não, não ia: não tenho muito para dizer. Estou viva, e acho que isso já é de notar. Tudo o mais é assoberbamento, cansaço acumulado e extremo, um stress que paralisa. Não faltam temas, não; nem opiniões sobre os ditos. Mas a realidade desenvolve-se a uma tal rapidez que uma pessoa está a maturar o que pensa sobre x e já y tomou conta da actualidade. De permeio, o trabalho, embora interrompido uma semana, volta a receber-me como o fantasma da casa: sem susto, sem surpresa, mas responsável pela habitual sensação de desconforto e constante inquietação. É então que entra o stress, agudo, pesado, a pregar-me e não deixar sequer começar, evoluir e muito menos acabar. Hoje foi o dia de olhar para o ecrã e texto e não sair de onde se ficou. Ontem foi bonzinho, daqui a quinze dias melhor será, espera-se.

Vou parar quinze dias, portanto. Ainda não decidi que livros me acompanharão, mas serão decerto mais que os que conseguirei ler e menos dos que me apetecia. Não acabo um livro desde a Páscoa, as minhas últimas férias. Não que isso me preocupe, faz parte da saturação de letras que se torna a minha vida, nesta altura. Mas aborrece-me. Porque ler era, e quero que continue (sempre) a ser, o escape, a alegre fuga. E tenho tanto para ler, e desse tanto quero muito ler tudo. Mas o vício de comprar livros, fruto de uma insaciedade constante, está a tornar-se francamente embaraçoso, face a esta inércia. Caramba, não preciso do stress da pilha a crescer. Não preciso, mas isso não me impediu de carregar uma mala com mais sete quilos que à partida - ainda me dói o braço direito, o fideputa do metro de Londres tem sempre uma escadinha a galgar ou descer, com vinte quilos ainda que em cima de rodas é dose. E não trouxe uns três que bem me apetecia (dois eram repetidos, mas são clássicos em edições bem mais bonitas que as que tenho, canudo, grande tentação, à qual não cedi, e não me arrependo, quando topei com um capa dura de Good Omens que quero, tenho de reler), e nem tive o tempo que gostaria para vasculhar tudo ao que ia.

Fui, de novo, a Londres, voltar onde sou sempre feliz. Desta vez com companhia nova, um par de olhos virgens. E fui, de novo, muito feliz. Melhor que regressar aos nossos portos preferidos é ter o privilégio de os partilhar. Já quero regressar. Agora para conhecer a Londres pós- Johnson (piada seca), voltar aos sítios de sempre e acabar em sítios onde nunca antes. Há-os, ainda. Esta certeza acalma enquanto entusiasma. Pode levar dois, três anos, mas volto sempre. Cruzando os dedos para voltar a acontecer com um voo Tap que sai a horas tanto à ida como à volta (sim, aconteceu; estou cá eu para testemunhar. já não me lembrava da última.)

Nos entretantos, até já.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

[ ]



(na verdade vão ser cinco dias, mas uma pessoa é uma diva, uma pessoa precisa de mais tempo)

sexta-feira, 12 de julho de 2019

The Cat Diaries (19) Mother of Cats

Tenho o equivalente a um cadáver bem encorpado na mala do carro: dois sacos de areia (15l cada), dois sacos de ração (10kg + 3 kg). O espaço ocupado é seguramente o mesmo, e o peso, atrevo-me a alvitrar, andará por perto: a raça da areia é fina e compacta, pesa que se farta. Visto que aquilo terá de ser acartado da garagem (atenção, não é no prédio, avença mas vá, na mesma rua) e subido até ao primeiro andar, tenho os instintos maternais um bocadinho em baixo. É que se a vantagem de ter gatos é que vão à casa de banho sozinhos, a desvantagem é que somos nós a levar a casa de banho até aos gatos. Finórios.

O que também não ajuda o enlevo maternal é o facto de Mad (indeed!) Max viver num fuso horário diferente do nosso, e achar que às cinco da matina já chega de cama. Ou antes, já é hora do pequeno almoço. Some-se a isto o facto de este meliante se ter tornado o mentor de Selina Kyle, que aprendeu com o melhor todas as patifarias possíveis, e está o circo armado. Quer dizer, os dois que vieram da rua não partem um prato; tinha de vir um pequeno demónio adoptado em bebé e uma ladra trepadora (mais uma vez, acertámos no nome) que esteve ali vai-não-vai duas vezes, e que tratámos com tanto amorrrr, tanto desvelo, para nos acabar com o sossego. E a paciência.

Max inspecionando a máquina da loiça, e achando tudo conforme

Anyhoo, um resumo e um update: a Selina, encontrada a miar debaixo de um carro, trazia consigo uma pneumonia; por duas vezes achámos que se finava, mas em tempo a levámos ao vet. Da segunda ficou internada, e a fazer um ciclo de dois antibióticos, com o risco de ficar com o crescimento comprometido. Antes anã e viva, e viva está ela. Dois meses, dois!, a dar antibiótico de manhã e à noite, misturado com o paté; aqui a ursa sentada no quarto de colher estendida enquanto ela se fazia rogada, por vezes a segui-la de gatas, porta fechada com o Max a miar do outro lado e a distrair a pequena, e nem pensar em deixar o Max na mesma divisão porque é um gatuno lambão que comia o paté todo, com ou sem antibiótico. Ao fim de dois meses e uma última radiografia temos ordem de suspender, e manter vigilância. Estava fina. E com o cio. Marcou-se logo a esterilização, que correu lindamente, excepto a parte do body, que a pequena odiou. Andava como se estivesse aleijadinha, fazia uns olhares que davam dó, aqui a estronça pensa que se calhar tem dói-dói na cicatriz e abre o body para ver, e a pequenita filha de satã saltou-me do colo como uma pulga atómica, sacudiu a vestimenta, e quem é que a apanhava para lha vestir? Pois. Na consulta de revisão lá aparece esta incompetente com uma gata embrulhada numa manta dentro da caixa (única forma de a apanhar, a manta), o body na outra, e um sorriso de "perdão, sou estúpida e deixei-me enganar por um nico de gata". Tudo bem, a bichinha sarou lindamente, e pronto. Fica a faltar as vacinas, mas tomámos a decisão de a deixar estar uns tempos, a ganhar confiança (é mesmo, mesmo muito difícil apanhá-la, topa à légua que vai haver asneira, e arranha que é uma beleza).

no início da nossa relação, pucanina, pucanina


Suspirámos de alívio, a besuga está viva e de saúde, agora é engordá-la e deixá-la habituar-se à casa e nova família. E eis que na véspera de termos um avião para apanhar, a biscas vomita um líquido claro mas rosado (em cima do tapete, claro. só temos 3 tapetes naquela casa, mas é sempre em cima do tapete, faz parte do livro de estilo da gataria, e este ainda por cima é clarinho). Fui buscar toalhetes para limpar, um bocado ralada com o rosado, e noto que nos toalhetes estão uma espécie de grãos quase brancos, com um rabinho, parecem sementes de quinoa, aiminhanossasenhora, a quinoa está viva e a desenrolar-se. Yep. Lombrigas. E muitas. Pânico. Ligámos para o vet, tentámos apanhá-la, fomos lavar o sangue dos braços e mãos, desistimos de a apanhar, metemo-nos no carro e vamos ao vet para ao menos comprar desparasitante. E yay, somos informados que temos de desparasitar todos. Todos, incluindo os bons selvagens a quem não é possível agarrar e enfiar um comprimido goelas abaixo, nem tampouco disfarçar em paté, porque topam e não comem. E yay, somos informados que já há desparasitante em pipeta, e not-yay, bem mais caro, mas yay, resolve o problema. Dão-nos o calendário de desparasitação, e abalamos cheios de pipetas e comprimidos (a Selina só assim, ninguém a segura, nem à traição). Já agora, havendo parasitas, comprovadamente, não chega administrar uma vez, o desparasitante só mata a bicheza adulta. É preciso esperar 21 (acho) dias para que os ovos e júniores cheguem à idade de serem massacrados, e pumba, segunda dose.
Bom, conseguimos pipetar e comprimidar toda a gente, e fomos de férias. Voltámos, esperámos, repetimos, e quero crer que não há mais inquilinos indesejados.

Selina pós-op, ao colo de mamãe

E a Selina, passado tudo isto? Continua um bocadinho mini - quando a trouxemos aparentava uns 3, 4 meses, mas já teria passado dos seis, segundo a vet, porque não sei quê placas fechadas que se via no raio x - mas, é com orgulho e baba escorrendo, que anuncio que ganhou corpo e peso. O que também se deverá a já não ter de alimentar uma comuna de ocupas. Está linda, fofa, mimosa, mas continua fugidia e desconfiada. Vem para o nosso colo raramente, aceita festas mas só se sentir segura (sapatos da rua calçados? get thee behind me, satan), o seu spot preferido é deitadinha numa almofada do sofá ao lado do papá, e dorme em cima de mamã - ela e Max, fui promovida a colchão de gatos, e já acordei com nós nas costas e pescoço à conta da graça. Está uma brincalhona, adora bolinhas, e imita toda a asneira que o Max entende fazer. O Max adora-a, fazem corridas - às vezes de obstáculos, calhando esses obstáculos serem os corpos adormecidos de papais, suspiros - e envolvem-se em lutas acrobáticas que fariam inveja a um wrestler.

Max e Selina, bff

Tudo a correr bem, portanto. Até ao dia em que formos de férias - já decidimos que ela e Max vêm. Aí teremos mais histórias para contar e braços e mãos para desinfectar, mas não me rale agora com isso.

coija má boa

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A thing of beauty

Foi um dia merdoso elevado ao quadrado, com stresses vários e muito legítimos de parte a parte. Some-se a isto uma logística que obrigou a uma deslocação de carro (bof), uma opção por ir à volta em vez de atravessar a cidade em hora de ponta, para acabar a encalhar numa fila (ao que parece) pré-acidente, uma saída estratégica para Sacavém, ir dar a volta aos cus de Judas, entrar no parque a quinze minutos da hora, mais filas porque parece que ainda há gente (notoriamente sem gosto) que escolhe ir passar fins de tarde, inícios de noite, naquele suburbão e entope os estacionamentos disponíveis e muito estreitos, diga-se, e há sempre os cognitivamente subdesenvolvidos que insistem mas não sabem estacionar de rabo, ou os que não têm acuidade visual para reconhecer linhas delimitadoras e desenham as suas, enfim, passámos a porta às oito em ponto, ainda há música ambiente, ufa, uma ida ao bengaleiro porque fomos uns dos felizes e aleatoriamente seleccionados para deixar mochila (alegadamente de dimensões  não sei quê) lá, subida, escolher lugares que ainda há muitos, abençoado nacional atrasadismo, sentar. Aaaahhhh.
Menos stressado? Sim. E tu, menos stressada? Sim. Tudo bem.
Banda de apoio, porreirinha, intervalo e home parte na sua demanda pela habitual t-shirt (compra sempre), liga a avisar que está na fila da cerveja, sem stress, volta um minuto antes de baixarem as luzes.

E depois. Depois. Caneco. Melhor. Concerto. Ever.

E tive a felicidade de, pela primeira vez na vida (que já conta com alguns concertos naquele espaço) experimentar uma acústica se não perfeita, lá perto; não sei porque no segundo balcão (que já não me lembro porque escolhi, se por forretice ou porque já não havia mais, os bilhetes já contavam mais de meio ano de existência lá em casa) é onde se deve estar, ou se alguém soube engenheirar o som como deve ser; a verificar-se a última, abençoado seja por toda a eternidade, e saiba passar o seu conhecimento às gerações vindouras. Hoje, zero tinidos, zero zumbidos, e caraças o que tememos, sofremos em antecipação quanto à possível qualidade do som, Tool é para ouvir (sentir, fluir, entrar, revolver) nas mesmas condições que merece uma orquestra sinfónica. E assim foi e assim aconteceu.

Tão, tão, tão bom. Alma cheia.
Ainda não estou velha para isto.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Cá se vai andando

Uns dias melhor, outros pior, sendo que esta aqui, depois de duas levas de grupos de ingleses xófens no airbnb de baixo, estava vai não vai para ter um ataque de tremuras que deixava o da tia Angela a um canto. Juro, pá, que gente. Andaram os antepassados a morrer em Dunquerque (e não só) para isto.

Mudando completamente de assunto, calhou ontem ter ido a uma livraria e ali só de relance dei com três romances (?) em cujo título se mencionava a pessoa x (a saber, tatuador, bailarina, bibliotecária) de Auschwitz. Ó pá. Vinha já eu toda lançada para largar aqui umas bojardas a propósito, que passavam - mas não só - pelo facto de, assim de repente, ter havido mais campos que podiam servir de tema, porquêêêê sempre este, mas fui antes pesquisar online, e parece que se baseiam todos em histórias reais. Ups. Verdade ou não, tira um bocadinho a vontade de gozar, e assim de repente sugerir temas como O Sapateiro do Gulag ou O Acordeonista do Tarrafal deixa de ter piada.

O que teve mesmo piada, ao contrário das graçolas do envolvido, foi ter-me apercebido que adquiriu alguma "viralidade" um post do Nilton, com uma foto de um carro de um amigo vandalizado por uma trotinete. O que tem piada não é este facto, em si, mas o pateta ter logo saltado a perorar sobre a praga das ditas trotinetes, apontando o dedo à Câmara de Lisboa, ao google e à uber. Sucede que nem a uber nem a google comercializam ou exploram o negócio das trotinetes, e atirar responsabilidades para a câmara por um acto de vandalismo praticado por um qualquer desconhecido, huuum, é esticar a corda. E se há onde e o que os responsabilizar. Hilário, mesmo hilário, é uma pessoa atentar na foto que o coisinho publicou e verificar que o amiguinho fez o favor de estacionar a viatura to-ta-men-te em cima de um passeio, encostadinho a um muro, ou seja, alguém ter-se passado dos carretos e rebentar com o rodinhas armado de uma troti, aiaiaiai, mas pensar um bocadinho que o amigalhaço vandalizou espaço público, destinado a peões, não senhora. Não está bem, que não está, mas confesso que é sonho húmido de muito lisboeta, eu incluída, ter um sólido taco de baseball - ou um cajado, valorizemos o produto nacional - quando se depara com um popó a fazer o seu ó-ó no passeio, e se é obrigado a circular na estrada. Ah, mas não há onde estacionar, ó Izzie, onde é que a gente há-de meter o carro? Bom, eu dava uma sugestão, daquelas que envolve cavidades, mas a melhor de todas é pensar nisso antes de comprar a latinha. É que o conceito de aqui não estorva é muito subjectivo, e no caso dos passeios, não é negociável, lamento.


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Há quanto tempo não alinha numa boa teoria de conspiração?

Por mim falo, nunca; mas ele há dias em que a realidade me assoberba e (quase) cedo ao menor denominador comum, alinho os neurónios por baixo e zás, sai-me a parvoeira. A última que me vem agastando e tomando forma é de que a Câmara Municipal de Lisboa foi toda tomada por uma seita de odiadores de lisboetas e, secretamente - ou nem tanto, tururu, música dos X Files - anda a dar o tudo por tudo para que os lisboetas desistam de o ser, e abalem de vez para o subúrbio, o campo, ou um asilo de loucos. Novamente, por mim falo: ele há dias em que a tentação é grande, a de por uma tabuleta à porta, agrafar uns valentes cobres e ir para outras paragens. Onde também iria ter de desembolsar uns valentes cobres por uma habitação equivalente (a loucura imobiliária já se alastrou por toda a grande Lisboa, e não estou - não estamos - nessa de mudar radicalmente de vida), passar outras valentes horas no trânsito. Abdicar, enfim, da vida que escolhi, dos quinze, vinte minutos de trajecto casa-trabalho-casa, do verde nas traseiras, do metro ali perto, do bairro que tem tudo, do luxo de (querendo) ir à Baixa ou Alvalade a pé (conta como exercício, e de borla), Feira da Ladra ao sábado de manhã e almoço de peixe grelhado do bom, fresquinho, numa tasca ainda não muito conhecida mas onde já nos conhecem, e onde os portugueses ainda fazem a grande maioria dos comensais. Dos passeios de eléctrico já abdiquei há muito, nem no inverno se consegue uma viagem agradável; aflige, para além das multidões de turistas, a sua rudeza, ninguém diria que são oriundos, na maior parte, dos tão afamados países nórdicos hipercivilizados, mas onde pelos vistos também sabem ignorar uma mulher grávida e com um pequenito pela mão, uma idosa que mal se tem de pé, São Turista no seu lugar sentado, como se de uma conquista intocável se tratasse. Chiado e Baixa no verão, só se tiver mesmo de ser; e durante os Santos, se possível, sair - este ano não deu, mas por obra e graça meteorológica o vento não favoreceu o banzé, e apenas os selvagens brit no airbnb nos estragaram o feriado. Apenas, diz ela já quase conformada, quando a verdade é que, quanto mais turistas ingleses lhe calham ao caminho, mais cai no furioso e revanchista desejo que lhes saia o Boris e um hard brexit na rifa, a ver se levam o tratamento e afastamento que merecem (depois arrependo-me, mas só um bocadinho, por todos os nossos que lá fazem vida).

E como se encaixa a CML nisto tudo, ora, é a economia, Izzie Maria da Conceição, habitua-te, está a entrar dinheiro, aguenta e não chora, quem está mal que se mude. Sim, sim. Então não. Só que não.

A CML, essa, deixou de fazer parte da solução, e parece querer fazer parte do problema, abdicando de exercer os seus deveres de defender a cidade e quem cá vive. A CML está como aqueles polícias que vêem roubar e nada fazem, é o que é. A CML bate palminhas ao dinheiro que entra, mas não se percebe muito bem o que faz com ele, que as papeleiras abarrotam e têm pilhas de lixo na base, as eco-ilhas idem aspas, o chão mete nojo, os tags alastram (até a minha zona, tantos anos virgem, já serve de pasto ao c@br@o do geco e outros tantos anónimos), o lixo dos alojamentos empilha-se à porta dos prédios, sem ser separado. Autuações, fiscalização?, cá agora. A CML, agora gestora da carris, e querendo ser também gestora do metro, não reforça carreiras, nem batalha por reforço de comboios. A CML e a sua polícia municipal faz vista grossa a infracções de ruído de vizinhança, desvaloriza, que tenhamos um bocadinho de paciência, falemos com eles, afinal se os turistas vêm para cá para se encabrar durante toda a estadia, ao som de colunas portáteis que incomodam toda a vizinhança e a impedem de também aproveitar varandas ou pátios, os incomodados que tentem resolver - e o giro que é, (tentar) falar civilizadamente com ingleses ou alemães grandes que nem postes e embrutecidos de grades e grades. E o ruído de vizinhança nem é o pior, embora seja o que mais me aflige. Mas há que ser justo, há o resto, e o resto é de doidos. É que hoje em dia, a avaliar pelo pouco que vejo (e o muito que passei a ver, num grupo sobre o problema no feicebuque, e me deixou verdadeiramente chocada) a CML emite licenças especiais de ruído como se estivessem em saldo. Bailaricos e festarolas, com música ao vivo ou gravada, amplificada, e transmitida por potentes PA? Vale, afinal é o mês das festas, yay, e somos um povo bonacheirão e folião. Obras ao fim-de-semana? Vale, afinal a reabilitação urbana é tão necessária (que é), e ali vai nascer um novo hotel para termos mais turistada, yay, queremos mais eurotostão a pingar, e que se lixe se o martelo pneumático a britar em full power incomoda tanto o habitante como o turista. Barcos de cruzeiro que parecem blocos de prédios, atracados no porto e com música noite fora? Qual o problema, francamente, turista, eurotostão, etc, é o mercado, a economia, tal como também deve ser o mercado e a economia o horror de poluição que estas embarcações cá deixam.

Enfim. Em cima de tudo isto, um regulamento de alojamento local que tarda em aparecer, coroando decerto uma lei que, na prática, por falta de meios (e quiçá vontade) de fiscalização já deixa os habitantes na base da cadeia alimentar, mercê da mercantilização predatória do alojamento baratinho.

Como lisboeta, aqui nascida e aqui retornada após uma infância e adolescência nos subúrbios, sinto-me tratada como uma excrescência, um incómodo, um estorvo. Que esta cidade já não é para mim nem para os muitos que, com algum sacrifício, aqui compraram ou arrendaram habitação, e aqui desejavam permanecer. Que mais valia ir para longe, fazer o trajecto de ida e vinda apenas para trabalhar, deixando mais espaço e à-vontade para quem nos visita. Como lisboeta sinto-me mal amada, muitas vezes mal tratada, posta em segundo plano. Sinto-me triste, desmoralizada.
Já como cidadã dotada de um intenso mau feitio e personalidade teimosona, sinto-me tomada de um sério espírito de contradição, uma feroz vontade de resistência. Não passarão, carago, não passarão. Como os irredutíveis gauleses, resistir. Até quando, essa é a questão. Que uma pessoa é de ideias fixas, mas não é super.




sexta-feira, 7 de junho de 2019

A modos que não sei quê

Ainda a ressacar violentamente das duas semanas de trabalho mais alucinante, stressante, e intenso que, e ainda sem ter a certeza se preciso de dormir 24 horas seguidas, um balde de gelado ou um dia de spa, penso que posso riscar esta última, porque descobri, recentemente, que não tenho categoria, finura, pedigree para coisas boas que fazem bem a pessoas de categoria, finura e pedigree.

De facto aqui há tempos, num daqueles rasgos que me dão de quando em vez, do tipo "eu mereço!", com ponto de exclamação e tudo, decidi que bem podia investir mais uns cobres nos meus cuidados capilares, considerando até que isto de ter cabelo pintado o torna um bicho exigente e estragadiço.

Vai daí, e embora não esteja de todo insatisfeita com os resultados obtidos com produto de supermercado, encomendei um pack kérastase, champô, amaciador e um óleo. Toda ufana, testei e o cabelo sim senhora, pareceu gostar do mimo: uma lindeza, todo brilhante, soltinho, fácil de pentear.

Segunda lavagem, e o entusiasmo capilar desce uns pontos: cabelo brilantezinho, sim, mas mais pesadote, e ao segundo dia a evidenciar um aspecto de que já via outra dose de água-champô-amaciador-coiso. Chatice, pá, eu que costumo aguentar dois dias impecável, um terceiro aceitável, e um quarto que ou não há tempo e ainda disfarça apanhado ou se lava de novo. Insisto, ainda assim, que afinal a coisa é suposto ser de qualidade ali supé, ao menos a avaliar pelo preço, muitas vezes o que normalmente pago pelo anterior, que por acaso até aproveito descontos de 50% e tudo. Uma desgraça: começo a ficar com um ar de cabelo oleoso de quem passou o dia a fritar rissóis, e logo ao fim do dia da lavagem.

Donde, passei a alternar o kéras com o gliss, e acabando aquele acabou a peneira. Com franqueza. Sinceramente. Olha que coisa. Uma pessoa a querer doutorar o cabelum em cosmética de primeira, e o malandro a exigir o reles comum, está como as outras, não distingue a manteiga whizzo de um caranguejo morto,

Não posso ter nada bom, que o bom não quer nada comigo, é o que é. De um ponto de vista positivo, ao menos não me calhou uma peruca que só se dá com sabão macaco, demos graças pelas pequenas coisas (ou então, se calhar, às tantas...)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

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[então essa semana, Izzie? lindamente, está a correr lindamente. e ainda hoje é quarta.]

sexta-feira, 24 de maio de 2019

The Cat Diaries (18) The Dude Abides

Caramba, long time no write sobre gatunfos, aposto que algumas almas mal intencionadas já pensam que os fizemos em estufado e estolas.
Nope, tudo vivo e de saúde.
Cumpre, portanto, actualizar este boletim, que qualquer dia já não tenho direito a usar a faixa de cat-blogger.

Comecemos pelo mais velho, 'tadinho, tantas vezes esquecidinho e relegado para último plano, é a sina dos sossegados e paz d'alma, concentrados e arreliados que andamos com as loucuras dos mai'novos.

A notícia que importa: deve ter sido lá para meados de Novembro passado, a mesma altura em que encontrámos a nossa (espero que) ultima e mai'nova, que senhor Fox Mulder nos resolveu brindar com o primeiro ronronar. Começou como uma espécie de pigarro, estava a ligar a máquina e devia precisar de ser oleada, ou exercitada, porque foram muitas as discussões lá em casa: "eieieieiei" me mate, todo entusiasmado "fiz uma festa ao Fox e ele começou a ronronar. E eu, senhora dona Tomé, fui ver, fiz festa, e ou zero ronrom, ou um som que era tudo menos semelhante a. "Não ronrona nada", dizia aqui a péssima mother of cats, e espoNZa ainda pior, a seu mate, que continuava a insistir que era sim senhor.

E era. Como disse, começou rouco e baixinho, hoje em dia é um definitivo, audível, expresso ronrom. Depois de mais de ano e meio com a mesma rotina - falar sempre com voz delicodoce; iniciar aproximações com vara com penas;  abordá-lo sempre de lado ou por trás, nunca de frente; iniciar tentativas de escovagem e perceber em que parte do corpo era mais receptivo (cabeça); estender a mão, deixá-lo cheirar e, se a postura corporal o manifestasse, festa com a mão - chegou ao ponto em que estendia a mão, ele cheirava, e baixava a cabeça: hurra!, sinal inequívoco de que quer a festinha, não a vai meramente tolerar. E assim fomos, até que se soltou e se entregou.

Actualmente senhor Fox já pede festas e escovinha. Sim, pede. Gosta de estar no mesmo plano que nós, portanto salta para cima da mesa da sala, fica a olhaaaar fixamente, e pronto, já sabemos, valente escovadela e festunças na cabeça, atrás das orelhas, queixo, tudo ao ritmo de um ronrom muito quentinho.


O seu primeiro amor: o aquecedor

Caraças, foi um longo caminho, mas valeu a pena. Se ele não capitulasse também não fazia mal, cada um é como cada qual, gostaríamos dele à mesma. É que mesmo quando esquivo e desconfiado o Fox sempre revelou ter um feitio muito especial, e muito adorável. Primeiro, não é nada briguento, nem maniento, e tampouco caprichoso. Desde que chegou à nossa casa que se mostrou muito protector da sua companheira Scully, e depois do Max (apesar de este ser um chatinho). Observou-nos sempre, SEMPRE, com muita atenção, quando interagíamos com a Scully e com o Max, e agora com a Selina já baixou um bocadinho a guarda. Quando o Max fazia asneira ficava especialmente atento à nossa reacção (que nunca foi violenta, apesar de muito se ter ralhado). Espera sempre que os manos estejam servidos e de tacinha à frente para atacar a sua parte de paté.

Mantendo os idiotas dos humanos debaixo de olho, like a boss




Curtindo o ar livre, like a boss

Gosta muito de dormir e, no verão, ao sol, de preferência numa cadeira com almofada. Mesmo com os 40º que fizeram o ano passado preferia estar na varanda, à sombra, vá lá, que dentro de casa. Não dispensa a sua voltinha pelos logradouros - ainda me lembro do clique, da alegria dele quando se apercebeu do local, da vastidão, e pode matar saudades da liberdade. Já sei que muita gente condena estas voltinhas mas volto a avisar: a) ele é um gato de rua; b) estes logradouros não têm acesso à rua-rua; c) não é um gato briguento, a colónia está esterilizada e ele também. E volta sempre. E já responde ao nosso chamado. Às vezes com mais vagar, afinal é gato, suspiro, e que atire a primeira pedra quem, numa situação semelhante, também não seria apanhado a argumentar com um calmeirão laranjão, sentado num muro a fingir que nos ignora, que já são horas de ir para casa.

Pose "eu não conhecho echta chenhoura"

É um tipo bestial, o nosso Fox.
Um bonzão.
Um pachola bon-vivant.
Um amorzão.

Curtindo uma soneca no braço do sofá, like a boss

E forjou com me mate uma amizade muito especial: são ambos os (feitios) protectores da casa, e já sabe que o home nunca deixará algo de mau acontecer-lhes. Aliás, é me mate o "chamado" à escovadela vespertina, função que cumpre com muito zelo e gosto. E a mim dá gosto vê-los.



Enfim, like a boss


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Portanto, resumindo

Carros estacionados em cima de passadeiras, deixa 'tar;
Passadeiras quase apagadas, num faz mal;
Passadeiras em locais mal iluminados, paciência;
Pessoal a circular a mais de 50 k/h em localidades, e perto de locais onde se prevê atravessamento de peões pelas, tcharaaaaam, passadeiras que lá existem, que s'a lixe;
Haver gente encartada que desconhece aquela regra de que em mudando de direcção, mesmo à direita, têm de dar prioridade ao peão, cagámos;
Existirem alminhas que acham que estando verde para popó o sinal intermitente amarelo com um peão desenhado é para eles terem cuidado a atravessar, s'a foda.

Agora pintar cores entre as riscas brancas da passadeira???? Nem pensar, que seria!!! E não, não é homofobia básica e enrustida, é mesmo ralação com segurança rodoviária e direitos dos peões e assim.
Sniff. Passem-me um lencinho, que sinto uma lágrima a aproximar-se.
[camiões, camiões de piretes para esta gente]

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Irritação de fim de tarde

Põe-me doida, mas assim de cabeça perdida, a girar como a da menina do exorcista (e só não vomito uma papa verdonga porque a) noja; b) não aprecio creme de ervilhas), ver alguém que vive da escrita ou vá, alguém em cuja actividade profissional a escrita tem um peso muito grande, a  usar "quanto muito". Pumbas, paro logo de ler e, em calhando ser um blog ( e ó, se já vi disto em blogs de dizáine irrepreensível, daqueles que não devem facturar pouco), tau, clique na cruzinha.
"Quanto muito": não. Nope. Néri. É "quando". Quando muito. Repetir cem vezes. E, cada vez que vos sentirdes tentados, lembrai: a quanto está a chaputa, quanto muito. Ou outro disparate qualquer, que vos lembre que não faz sentido.
A quem não acredita, é googlar, agora tenho aqui uma cena para acabar e não tenho tempo para links.

Pronto, já desabafei, já estou melhorzinha, não vou continuar com o assunto ou tarda nada lembro-me do pessoal que acha que nãoseiquê foi uma grande perca, e aí arranjo um problema de nervos que me dura o fim-de-semana todo.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Prosaicamente, que eu sou uma 'soa mui prosaica

Gostava que a amável audiência me esclarecesse se é um problema só da minha zona, ou, mais especificamente, só lá de casa, de propósito para me chatear; ou se em outros pontos de Lisboa cidade, grande Lisboa ou mesmo do país, andam a ser avistadas irritantes, enormes, assustadoras traças nocturnas, em tons de castanho e pintalgados laranja, que se alapam à roupa estendida (assim entrando, à traição, à sorrelfa, na casa de uma 'soa), ou aproveitam qualquer janela aberta sinalizada por luz interior para nos invadir lar, doce lar, provocando inerentes sustos, e uma perseguição e extermínio que dispensava.
É que, tirando a gataria júnior, para quem a coisa é uma sorte grande e arredondamento, dada a diversão proporcionada com as caçadas, os habitantes andam com uns nervos que já não se pode.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

You will never find a more wretched hive of scum and villany





A espécie humana, aquela que caminha a passos largos para a própria extinção, e por mérito próprio, atenção, que nenhuma outra é dotada da necessária racionalidade que lhe permita planear e executar tão metódica e eficazmente a destruição do seu habitat, a espécie humana, dizia eu, da qual nem tenho um rol infinito de queixas porque a) ou sou uma anjinha; b) ou ando muito distraída; c) ou tenho tido uma boa quota de sorte; d) não me dou muito (introverts unite, each in its own home), tem dias em que (me) consegue provar que de facto a misantropia não é uma escolha, uma característica dos excêntricos ou falha de carácter, mas sim uma absoluta necessidade. A espécie humana, e sim, sei que estou a generalizar, que corro o risco de ser injusta, que se calhar isto se deve às actuais (e miseráveis) circunstâncias, essas que há dois anos não sentia na pele porque, lá está, e estou mesmo convencida disso, tive muita sorte com as pessoas que me calharam (e até sabia), por tudo o apontado e mais umas coisas, de facto não merece melhor destino que o que vem traçando, incapaz que é de, nas mais pequenas coisas, ser solidária, empática, colaborante ou até, vá, é pedir muito, ter um mínimo sentido de dever e de comunidade, a espécie humana, dizia, neste momento não me merece qualquer consideração ou simpatia, excepção feita a dois seres que in extremis, mesmo contra os próprios interesses e sem obrigação disso me salvaram o couro, e o que se me oferece dizer sobre a espécie humana em geral, e gente que me calhou desde que tive a estúpida ideia de me mudar de onde até estava bem para onde agora estou, é que estimo que se foda.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Não posso ir a lado nenhum

Que só acontecem desgraças, caneco, ora arde uma catedral, ora há uma greve de distribuição que deixa o país à míngua de combustível, ora há um acidente onde morrem três dezenas de turistas, e nem falando já do Sri Lanka, coisa mais horrível, pavorosa, nem há palavras para descrever o que se sente perante aquele terror.

De qualquer forma, e de volta à rotina, que me recebeu de braços abertos e cheios de papelada, cá estamos. Os gatos sobreviveram, e receberam-nos com a normal euforia felina, que é como quem diz, quem aguenta quatro pares de olhos frios de desprezo, aguenta uma enxurrada de trolls que vieram cá parar só esta manhã, saberá uma qualquer divindade vindas de onde. E logo hoje que não dormi nada de jeito (a box não deixa gravar o GoT!), e tenho aqui trolls a sério que me vão render o dia todo. 


sexta-feira, 12 de abril de 2019

E é por isto que não posso ter coisas boas

Ou vá, gabar-me falar das coisas boas que tenho na meretriz da vida: vem o universo e zumba, castiga-me logo severamente a soberba. Ai já andas aí toda tagarela a falar da viagenzinha?, então pega lá uma revisão + inspecção + mudança de pneus do carro para equilibrar. E que grande equilíbrio: vou deixar na oficina o equivalente ao que custa a viagem e estadia, que bom, apre, mas caraças, tinham os pneus da viatura de se escalavrar todos, hã, uns deles com fissuras que, valha-me isso, foram descobertas antes de meter numa auto-estrada?  Bom, já devia esperar, parece que a vida útil do pneumático é de sete anos, confere.
É para isto que um gajo trabalha e ganha dinheiro: para depois o atirar todo pela janela, abençoadinho.
Vou ficar aqui caladinha, mazé. Chiu. A partir de agora faz de conta que vivo de côdeas de pão e visto trapos.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A minha vida é isto, uma luta de classes constante, se calhar Marx explica

Ora pois então sucede que, embora mui apreciadores do passeanço, não saímos da pátria mãe desde 2015, por vicissitudes várias que não cabe aqui explicar. Sucede ainda que não tenho férias desde 30 de Julho do passado ano (chuif), já estive menos rebentada, e se não me ponho a andar daqui para fora já sei que nas férias acabo a fazer uma perninha. Vai daí, vamos uns dias lá fora, ver se chove.

A escolha faz-se sempre da mesma forma científica: lista de sítios que não conhecemos (ainda são muitos), pesquisa de voos, escolher o que mais conv€m. Não que seja o único factor, no caso a passagem até nem é a mais barata, mas para os dias livres era jeitosa, havia vagas, e o preço do alojamento por lá foi uma alegre surpresa.

Agora entra a parte rezinga, muito derivada da minha luta interior de Olívia patroa, Olívia costureira. Por exemplo, é verdade que a vontade de ver Veneza é imensa, mas eu também sou sinto-me uma vítima da turistificação, e tenho mesmo imensa pena dos venezianos. Donde, corta. Nem calhando, a nossa última saída foi para Praga, cidade que nos parecia fazer caretas a cada esquina, toma, toma, é nisto que se está a transformar a vossa Lisboa. Sou solidária, portanto, com os nativos. Todos, mas nem tanto que me abstenha de ir seja onde for. De qualquer forma, quero crer que lá fora me comporto - e sempre comportei - de forma a representar um incómodo menor: sim senhora, ocupo espaço, mas não faço más figuras, não sou mal educada, tento passar despercebida. Ao contrário do que tenho sentido da mole humana e estrangeira que nestes últimos três anos tem invadido Lisboa. Porcões, arrogantões, gritões, malcriadões, beberrões de merda, pardon my french. Eurotrash, pura e simples. O facto de ter um alojamento local debaixo da minha alegre casinha (cuja lotação é superior aos actuais habitantes do prédio) não ajuda. Mesmo nada. O brexit já foi uma bela gota de água, mas ter um grupo de ingleses por baixo uma semana, ui, nem vos digo o que aumentou a minha xenofobia selectiva. Os alemães também benzós, mas para chegar ao nível destes ingleses ainda têm de beber muita cerveja. Literalmente.

E agora continuem comigo, por favor, sim, isto tem uma lógica, embora não pareça do raciocínio tortuoso supra: nunca tive aquela cagança de dizer que não sou turista, mas sim uma viajante, porque, noção. Claro que sou turista. Zero vergonha nisso. Posso não ser o tipo de turista da viagem organizada, autopullman do ponto A ao ponto B, resort fechado TI, etc, mas sou turista. Não sou é lixo*. E também não sou uma pedante que compra aquelas neo-tretas de ah, e tal, vou ao sítio x e quero sentir-me como se fosse de lá, tázaver, ter as experiências dos locais e coise, p'cebes, ver as cenas pelos olhos deles, dormir onde dormem, comer onde comem. Treta, treta, treta: somos sempre estrangeiros numa terra desconhecida, ainda que seja a décima quarta ida, e até já topemos as tourist traps à légua; não, não somos assimiláveis aos locais, e não, não teremos a experiência de ser local, a isso chama-se emigrar, e ainda assim só se for por uns anos valentes. Donde, a tal local experience que é vendida com o alojamento local, ei, ei, ei, venha viver num bairro local, durma com eles, compre onde eles compram, os nativos, é dos maiores golpes publicitários de sempre, e o pior é que pegou. Os grandecíssimos poios que se alojam lá no prédio são, por norma, uns valentes pés rapados, forretas, ou sei lá eu o quê, e pior, arruaceiros que se estão nas tintas para o descanso e bem-estar dos locais. Sim, sete alminhas num T2+1 (onde enfiaram duas camas de casal, uma single, e um sofá cama), a pagar uma diária, à cabeça, que nem um hostel cobra, são o quê, viajantes, curiosos do mundo e suas pessoas? Poupem-me. E se lhes devo a aliás oportuna abertura de duas lojas auchan nas proximidades, que sempre dão para desenrascar, a verdade é que ali o que mais têm para venda e os camelórios de facto compram são cenas para sandes, cerveja, e vinho mais caro que na concorrência, ao menos isso, chulem os motherfuckers.

Donde, orgulhosamente: não contem comigo para me alojar via airbnb. Ne-ver. Hotel, é que é. O hotel, ou qualquer estabelecimento de hotelaria, paga licenças, compra a fornecedores locais, emprega pessoas (ainda que paguem mal, essa é outra luta), paga impostos e contribuições, tem inspecções, enfim, trata-se de uma unidade económica que contribui para a criação de riqueza. Um AL (e estou a falar de apartamentos ou quartos destinados a tal, não a pequenos hostel) criam o quê? Temos de um lado, a maior parte das vezes, um proprietário que, em vez de arrendar a habitantes, arrenda a uma empresa parasita, afinal até paga menos imposto sobre o que recebe. A empresa parasita (muitas são estrangeiras, o caso da nossa é uma unipessoal cujo sócio é uma outra sociedade com sede em offshore, sim, eu fui investigar, e eu descubro tudo, assim esteja motivada) tem uma sede que não passa de uma domiciliação para correspondência, contrata tarefeiros, a recibo, para cargos tão pomposos e ocos como property manager ou host/ess, contrata empresas de limpeza cujas empregadas são tantas vezes trabalhadoras estrangeiras, a ganhar fortunas de €2 à hora, e uns trolhas para arranjos que aposto não passam facturinha.

É isto. Pedindo, de novo, antecipado perdão pelo meu francês, uma autêntica casa de putas, tudo pela porta do cavalo, por baixo da mesa, nada de emprego, nada de rendimento que acrescenta, apenas lucro fácil que, no fim, feitas as contas, e em termos globais, são trocos. E um dia, que vai chegar, mais cedo ou mais tarde, rebenta. Já aconteceu, e nessa altura fazem o quê às casas, que as pessoas que lá queriam viver não tiveram outro remédio que não se endividar na banca para comprar no subúrbio. Suspiros.

Donde, pqp, turista serei, em hotel me alojarei, e pequeno almoço fufê degustarei. E com um incomensurável menor risco de voltar com um camadão de sarna ou marcas de percevejo. Poizé. Cá por coisas que eu cá sei.


*não, não vamos tirar selfies ou fotos-recuerdo pessoais no memorial do Holocausto. não estou a brincar: já vi dissoem blogs, feice, instagrã: lixo.

sábado, 6 de abril de 2019

Entretanto comprei uma cinta lombar, a minha vida é uma féchion-excitação

Nós no ECI, rés-do-chão, entretidíssima a ver a malaria, ele a acompanhar (e não faz mais que a sua obrigação, lesse o contrato antes de assinar), quando vejo e lhe mostro olha, olha, voltou a usar-se estas bolsas de cintura, e ele isso não é uma "bolsa de cintura" [juro lhe lhe ouvi umas aspas sarcásticas], é uma fanny pack, reviro os olhos, eu sei, mas é um bocadinho diferente das antigas, e ele, é uma fanny pack, uma fanny pack é uma fanny pack, e eu, paciente, pá, reconhece que dá um certo jeito quando uma pessoa vai de viagem ou assim e é mais segu..., e ele insiste, é uma fanny pack, eu até sou muito tolerante, mas não aceito uma fanny pack, e eu, cândida, ok, pronto, mas há umas que são giras, que eu já vi, tipo uma malinha pequena com alças atrás e se prende no cinto, e ele, bruto, é uma fanny pack à mesma, e eu, eloquente, é que não consigo encontrar uma mochila jeitosa, com uma mala a tiracolo e como estão as minhas costas..., e ele, indiferente, eu amo-te muito, mas és tu a aparecer com uma fanny pack e eu fico no aeroporto, vais sozinha, e eu odeio-te tanto, não disse mas pensei, mas entretanto lembrei-me que o moinante já anunciou que vai levar a mochilona, e adivinhem quem vai carregar com os pertences aqui da menina que é uma beleza.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

[...]


Vinha para aqui com um relambório infindável que na verdade não interessa a ninguém senão a mim mesma, mas entretanto lembrei-me que a) odeio pity parties, (embora nas minhas se coma e beba muito bem, nem falando na música, mas, lamento, não trouxe chocolate para todos); b) prometi a mim mesma acabar com esta quedazinha para o oversharing (bom, na verdade foi mais um diálogo interior do tipo ó minha grande estúpida com tendência para o dramático ali a cair para a tragédia grega, filha, deixa-te disso, as pessoas estão a olhar); c) esta coisa de um blogger ser um livro aberto é muito 2015 (quoth the raven, "nevermore").

Donde, e resumindo, levou o seu sweet time, desta vez, mas vai passando.

E não, ainda não acabei. Posso estar um bocadinho acabada das cruzes, nem falando de outras pequenas maleitas, algumas até de nervos, mas ainda não acabei.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Feliz não sei quê

Na lufa-lufa matinal ainda tivemos tempo para lembrar que hoje é o dia dos namoraaaaadooooooos, uuóóóóó, ou seja, o dia das filas à porta do restaurante, do raminho de rosas, da caixinha de bombons (desde quando é preciso um dia específico, amadores), dos cartõezinhos pindéricos.
Como já somos crescidos e vá, um bocadinho cínicos, passamos.
Anyhoo, estava a dizer que vínhamos a falar sobre, e ele lembra-se imediatamente do massacre do dia de São Valentim, eu rio-me e digo-lhe que sim senhora, é um verdadeiro romântico, e ele cala-me lembrando uma das melhores comédias românticas de sempre - comédia, pronto - cuja história tem como pressuposto esse massacre, donde, full circle. Juro, são coisas destas que me fizeram apaixonar por ele, mas não sejamos fofinhos, muito menos hoje.

E o que tendes vós a ver com isso, pois. Nada, só que eu sou uma cínica, uma gozona, uma descrente nestas datas marcadas para amarrrr e namorarrrr, mas vou fazer uma sugestão para quem aprecia filmes bons, mas daqueles mesmo bons, já agora são todos comédias com uma pitada de romântico, mas um romântico em óptimo, isto é, cá lamechices, cá choro e ranho, cá fofinhices, muito humor e substraqueto, como dizia o Zé Estebes.

E vai um, que já vi / ele viu / nós vimos mais vezes que é decente admitir, e se calha passar vemos de novo. Tão bom, senhores.


Já viram? Vejam outra vez, que não vos caem os parentes na lama. E deslumbrem-se com a mais bela história de amor de sempre. Não, não é a do Curtis e Monroe, é a destes:


'cause nobody's perfect.

Apanhando o embalo, e aproveitando que neste ponto já concordamos que Billy Wilder escrevia que era uma maravilha e filmava ainda melhor, arranjem um buraquinho na agenda para este seguinte:




Uma pérola, uma pérola, e agora que estamos todos verdadeiramente empolgados, podemos seguir com este:


Que também, não desfazendo, é daqui, ó.

E pronto, fomos românticos mas com critério e sem azeite, que é o que se deseja.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Actual estado de coisas





Não tenho nada para vender, mas fregueses insistentes não me largam a porta.
E sem música de fundo.

domingo, 27 de janeiro de 2019

É (saber) lidar

I.
Foi na já longínqua década de oitenta (século passado, como dói escrever isto) que comecei, com quinze anitos, a frequentar aulas de inglês no British Council. Passei lá um total de quatro anos, embora não corridos, com preparação e exame do First Certificate (um ano) e Certificate of Proficiency (três anos). Nesta última fase não fiz os trimestres todos corridos, que calhou sobrepor-se a preparação para provas específicas e tal, que tinham (natural) prioridade. Donde, apanhei um grande rol de professores, alguns apenas um trimestre. Não me recordo de todos, obviamente, só me ficaram os mais memoráveis e, como é habitual nestas coisas da lembrança, pelas melhores ou pelas piores razões.
Certo ano calhou-me uma simpática velhota inglesa, daquelas que nos suscitaria, à primeira impressão, um ternurento ohhh, que bom, uma Miss Marple. Bom, para além da cabeleira prata, habitual twinset e saia de tweed, rematado com aqueles horrendos e mui britânicos sapatos sensatos (juro, não havia daquilo cá, de certeza os comprava lá), pouco mais. Vivia cá há trinta anos (nota: os professores do Britânico, entre actividade lectiva, falavam, por norma, muito de si), e pouco falava de português. O mínimo, penso que essencial à sobrevivência, e mesmo esse com uma pronúncia chocante. E não, não nos contou isto em jeito de contrição, mas de algum orgulho, ali a roçar a soberba, brilhozinho nos olhos, sorriso superior. E, credo, não entendia a maioria das nossas "coisinhas", enfim, hábitos tão típicos de uma civilização decerto a precisar de uma preciosa lavagem a sessenta graus que ela e seus conterrâneos aqui desterrados, na nobre missão de ensinar a língua e elevada cultura britânica, haviam abraçado como um ministério. Isto mesmo: não se coibia de partilhar connosco as suas impressões, espanto e mesmo desagrado sobre como se organizava ou funcionava esta cultura latina e suas instituições. Desde pequenas coisas do dia-a-dia, a situações mais... institucionais.
Pessoalmente, achava uma lata do caraças. Não, do caralho. Mas sou uma pessoa educada, eu e os outros, e nunca pensei ou vocalizei um não gostas volta para a tua terra. Tenho a certeza que nas suas inúmeras interacções com os patuscos nativos alguma vez lho exprimiram, ou decerto não deixaria de nos contar. E seria muito desagradável se tal sucedesse, convenhamos.
Outro que me calhou na rifa nem tinha um aspecto agradável de personagem de romance que o absolvesse. Além do mais, recordo vivamente a gravata (quase sempre a mesma!) esfiapada nas pontas, e as calças de linho que pareciam ter sido meticulosamente amarrotadas antes de vestir. Era o que se pode definir como um pompous ass, do tipo que vim a reconhecer, muitos anos mais tarde, no personagem principal de I Like it Here. Juro que foi um espanto e uma aprendizagem lidar com o criaturo, notoriamente tão contrariado por ter de se submeter a viver numa nação notoriamente tão aquém dos seus elevados padrões britânicos. Do muito que se queixava, reclamava, apontava - sempre com um sneer marcadamente sarcástico - nunca constou que o tivessem mandado para a sua terra, se esta deixava tanto a desejar.
A verdade é que, por muito desagradáveis que fossem, tinham direito à sua opinião - embora desprezassem a dos próprios locais. É encolher os ombros e lidar.

II.
Cresci num subúrbio onde não havia muita variedade racial. A maioria da população era branca, classe média nas suas nuances, desde a remediada até à confortável; ou pobre, desde a mesmo muito pobre que vivia em barracas até à pobre em habitação muito abaixo dos padrões de dignidade e decência. Mas havia, como em todo o lado, as chamadas minorias étnicas, sendo as mais prevalentes a comunidade cigana ou indiana. Mesmo branca, e inserida na classe média confortável, cresci a ver na polícia o inimigo ou, ao menos, a classe profissional a evitar, qualquer que fosse o tipo de interacção. Estamos a falar no tempo em que a simples posse de droga, mesmo um mísero charrito, ainda era crime, e o facto de este ser encontrado nas mãos de um menor não evitava um grande aborrecimento. Não sei se por excesso de zelo, para mostrar serviço, ou simplesmente por bravata, a polícia tinha por hábito ou hobby abordar adolescentes em cujas mãos ou bocas estivesse algo que pudesse ser um cigarro, ou não. Qué que 'tás a fumar. Consoante a reacção do interpelado, que normalmente não era complacente ou agradável (ei, juventude), podia dar lugar a uma mera revista ou uma visita de estudo à esquadra. Apesar da normal desfaçatez e arrogância de qualquer teen, claro que esta última hipótese era sempre de evitar. Porque toda a gente sabia o que acontecia lá dentro. Ouvi muitas histórias, contadas na primeira pessoa. Ouvi muitas histórias de rusgas a cafés ou salões de jogos, em que acabava tudo na esquadra, para um tratamento "informal" da ocorrência, ou no governo civil, para identificação - ninguém ia ao café de bairro com o BI, por norma, mas passou-se a ir.
Nunca me calhou, felizmente. Nunca saí de casa à noite, ou mesmo de dia, sem medo que me acontecesse. Lembro-me de muitas vezes estar no jardim, parque, esplanada com amigos e haver o alerta olhá bófia (os fardados era fácil, os das então chamadas brigadas de justiça já eram conhecidos) e cigarros eram apagados, trocos retirados de cima da mesa (não viesse a acusação de que se estava a jogar a dinheiro e tau, revista / esquadra). Calhou uma vez ao meu irmão, no café de bairro, felizmente ele e os amigos tinham BI. A eventualidade de rusga era uma constante.
Lembro-me afinal que calhou-me uma vez, na rua, em frente ao prédio onde vivia: apanhei o cagaço de uma vida, pensei que os tipos de mau ar que se aproximaram dois de cada lado nos iam assaltar, mas não, era só para nos identificar. Calhou que na altura eu já tivesse mais de 20 anos, curso de direito feito, estágio de advocacia a meio, e código penal e de processo penal bem sabido. Era a única sem BI, aliás, tinha saído de casa só com trocos no bolso e um maço de tabaco, afinal vivia ali ao lado. Embicaram comigo, claro. E à solicitação de nome completo e morada, eu retrucava com a redacção do artigo pertinente, perguntando porque nos estavam a identificar, e dando as hipóteses legais em que o podiam fazer. Nem isso os demoveu: insistiram, e mais queriam saber o que fazia ali, bem antes da meia noite, eu, uma cidadã livre. Fui identificada pelo meu irmão, e acedi a dar o nome dos nossos pais, enquanto eles verificavam no BI dele se estava a dizer a verdade. Enquanto isso, e porque cada vez estava mais zangada, também adiantei que podiam subir comigo ao prédio, onde se podiam apresentar aos meus pais e explicar-lhes porque identificavam a filha na rua, em frente a casa, lhes facultaria de bom grado a consulta do meu BI, e aproveitavam para me deixar tomar nota das suas identificações, como a lei permite.
O episódio acabou por ali, foram-se embora, sem uma explicação, sem me darem nota da razão porque andavam ali a identificar quem calhasse, e dando-se ao luxo de nos aconselharem a ir para casa, que não eram horas de estar na rua. Se não era para nós, para eles também não, e muito menos ali, onde não se passava nada. E, oh, se havia onde se passava. E lá, onde se passava, ou antes, nos arredores de onde se passava, era habitual chegar um ou dois carros, às vezes uma carrinha, e era tudo encostado, revistado, e levado num passeio nada recreativo. Posso dizer que com 15, 16 anos já conhecia as técnicas todas: as toalhas molhadas, as listas telefónicas, e como eram escorregadias as escadas da esquadra, onde os visitantes à força tinham o mau e constante hábito de cair.
Isto passava-se, num subúrbio "branco", e era considerado normal. Só muito mais tarde vim a conhecer a realidade de outros subúrbios, principalmente dos respectivos bairros "não brancos", onde a tal "normalidade" atingia níveis que deveriam chocar qualquer um. Não chocavam.

III.
Ao longo dos anos tive o sincero gosto de ver mudar não só a postura como a actuação da polícia. À medida que entravam novos - mesmo novos, de idade, e com outra e melhor formação - efectivos, as coisas mudavam. Entretanto saí do subúrbio e vim para Lisboa, onde havia muitas zonas problemáticas; mas a "lei da droga" e o paradigma com que se lidava com o "problema" e os toxicodependentes mudou, parecia que sim senhora, as coisas evoluíam. Nos subúrbios, e mesmo na cidade, iam desaparecendo os bairros problemáticos, as pessoas a viver em situações sub-humanas eram realojadas, enfim, ainda havia - e há - alguns focos mas nada que se compare à loucura que existia. Continuaram a existir "histórias" de incursões policiais e "excursões" de putativos prevaricadores ou quem calhava ter o azar de ali estar, mas menos. Havia e há, no entanto, um traço comum que se mantém. Uma, vá, como dizer, "preferência" nos locais e alvos pessoais target das incursões. No centro da cidade, como se sabe, há cada vez menos bairros guetizados, mas tanto aqui como nos arredores ainda existem locais onde a presença policial se faz sentir de uma forma mais musculada. Onde certas pessoas são tratadas como presumíveis suspeitos, e isso é considerado normal. Não é. Não pode ser. O facto de ser pobre, ter determinada cor de pele ou viver num determinado local não é presunção de "alguma anda a fazer". Percebo que em zonas problemáticas a polícia actue com mais nervosismo, pudera, são pessoas, têm medo. Mas o medo, se é aceitável, não pode ser o móbil ou a justificação de determinada forma de lidar com o cidadão, seja ele quem for. Um polícia actuando dominado pelo medo, e sendo esse medo determinado por preconceito, não faz um bom trabalho. Prejudica em primeiro lugar a nobreza da sua função, e, em última instância, a segurança de todos.
É preciso reconhecer isto, e trabalhar no sentido de abordar com coragem, frontalidade e perspectiva este estado de coisas. Reconhecer que ainda falta fazer muito. Ainda não tivemos um Tamir Rice, mas até quando, até quando. Não quero que aconteça.

IV.
Dando a volta, completando o círculo, retomando. Ninguém é estrangeiro na terra onde vive, e muito menos na terra onde nasceu. E muito menos é indesejado por um factor tão aleatório como a cor de pele (ou etnia, ou religião, ou país onde nasceu, ou género, ou orientação sexual, ou seja o que for).
Finalmente, seja um britânico ou um senegalês, têm direito à sua opinião, seja sobre o preço da batata ou a forma de actuação das instituições ou dos elementos que as integram. Podemos não concordar com essa opinião ou com a forma como é expressa, e oh, tantas vezes eu não concordo com tanta coisa, mas vivemos num, somos um país livre, onde todos, mas mesmo todos, têm este direito inalienável à sua opinião e sua livre expressão. Em não concordando, abre-se o debate. O que é inaceitável é a reacção via insulto, apoucamento, ameaça, e muito menos vinda de quem veste uma farda ou exerce uma função do Estado. Não conseguindo reagir de outra forma, que se calem. Lidem. Aprendam a lidar.
Que eu, pelo menos, não estou para vos ouvir, e muito menos partilhar o mesmo espaço com este tipo de gente. Aos quinze, dezasseis, e até aos vinte e muitos e trinta e poucos era aquela idealista que debatia com tudo e todos, que achava que da esgrima de ideias nasceria a luz e a evolução, mas, sinceramente, já me passou a inocência. Não resulta. Debater com um preconceituoso é como falar com uma parede, ainda que esta última hipótese seja mais agradável. Não me podem obrigar a tolerar os intolerantes, nem a dar-lhes voz, amplificação, ou os ouvir. Não finjo que não existem - erro crasso - mas não admito que ponham em causa, com a sua abordagem, ideias feitas, sinapses de betão, os mais básicos fundamentos de uma sociedade democrática e livre, segura e justa para todos, onde tenho, temos, o direito de existir. Em paz, de preferência.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

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Tenho uma carga de trabalho que nem sei já a quantos estamos. Andamos em arrumações de cat-proofing, i.e., legos e traquitanas pequenas antes fechadas numa divisão agora devidamente acondicionadas em duas vitrinas - yay, espero ter sido a última vez que limpei o pó a legos, ninguém merece. Idem para livros, donde, houve muita montagem, muito limpa pó, muito acarta, mas já se vê o tampo da secretária. Preciso de encomendar os estores de rolo, mas saio antes e chego depois da loja abrir / fechar. Pondero trocar a mobília de quarto, porque preciso de uma cómoda a sério e não o brinquedo sem arrumação que lá temos. Também em apreciação a aquisição de mais estantes, mas ninguém sabe a loucura que é arranjar coisas estreitas e que caibam onde as precisamos: é para livros, não preciso de espaço à frente para bibelots, thank you very nice. Selina continua a antibiótico, à cautela, e sente-se muito melhor, o que se nota nos sprints que ela e Mad Max fazem interpolados de sonecas, sendo que ocasionalmente também temos corridas de obstáculos, sendo estes as duas almas cansadas que por acaso calha estarem a dormir. Ah, Selina brindou-nos com o seu primeiro cio, cereja no topo do bolo. Yay, a felicidade, principalmente porque não está em condições de ser operada tão cedo. Dana Scully e Fox Mulder mostram que antiguidade é posto e olham com desdém - manifestado, no caso de Scully - as diabruras dos júniores. Ainda havemos de ser uma família feliz - e sugadita. Estou cansada. Tenho um cabelo estilo esfregona, se as esfregonas tivessem raízes grisalhas. Preciso de renovar o silicone na base de duche. Pendurar quadros e fazer os respectivos furos. No fim de semana passado não tive tempo para fazer uma sopa e este estômago que agora emite ruídos não vê um vegetal desde sei lá quando. A ementa da semana tem variado entre sandes e tostas. E maçãs, que isso temos. Quero fazer um bolo. Preciso de dar um jeito ao pátio. Tenho gente a almoçar lá no sábado. Gostava muito de encetar os novelos que já comprei há mais de dois meses. Levo mais de um mês a ler um livro, porque duas páginas e desfaleço. Tenho fome. Tenho sono. Tenho frio. Não tenho paciência. Não tenho vagar. Não tenho nada de relevante para dizer ou acrescentar à sociedade. Mas gostava.