quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

The story so far

A via sacra


Zanguei-me muito. Irritei-me imenso. Quero crer que, em 90% das ocasiões, com razão. Perdi a cabeça umas vezes, felizmente poucas. Com razões para tanto, mas nunca há vantagem, em perder a cabeça. Liguei à terra e percebi isso, espero que a tempo. Aturei muita merda, e muita gente merdosa, mesquinha, quezilenta, conflituosa. Em duas ocasiões, já disse, perdi valentemente as estribeiras. Não me posso dar ao luxo de o fazer, dependo disto para viver, é o único rendimento que tenho e nada que me ampare se falhar. Fiz reset. Ponderei. Decidi recuar e deixar de me importar (tanto). Decidi reconhecer o que é óbvio para todos, o sistema está feito para falhar, e os néscios naturalmente apontam o dedo a quem faz parte do sistema, embora não o domine. Lembrei-me de D. Quixote e dos moinhos, embora (ainda) não tenha lido D. Quixote e só conheça o episódio dos moinhos do folclore. Declarei derrota e decidi ser mais formiguinha. E depois lembrei-me da Liberdade do Quino, e do seu "uma formiga não consegue parar o comboio, mas pode encher de comichão o condutor", e percebi que ninguém muda, mesmo que se adapte, ligeiramente. Sou quem sou. Tenho de o aceitar. Um tom abaixo, apenas.

O Gólgota


Arrancaram-me um pedaço e julguei que não sobrevivia. Sobrevivi. Ainda dói, a cauterização. Decidi dar um salto de fé. Dei. Estou agora como os desenhos animados, suspensa no ar, sem poder olhar para baixo. Quando o fizer, e notando que nada me sustém senão a fé de ter chão debaixo dos pés, sei que cairei. Não olho para baixo, portanto. E sigo. Há quem saiba e me veja no ar e tenha a amizade de não me dizer nada para além de palavras de incentivo. Mas sei que, intimamente, não entendem a quimera. Há quem não saiba o propósito e menos entenda, o ver-me assim suspensa. Tenho a sorte de não me desviarem o olhar, ainda assim. E há as insistentes evidências e uma voz que só eu ouço, a pedir que volte para trás, enquanto é tempo. Não vou voltar. Sei os riscos, sei-os muito bem. Sei do preço a pagar, e que é demasiado alto e não tenho como o solver. Se e quando chegado o momento, o credor me cobrar a minha libra de carne, far-me-ei Portia. No entretanto, mantenho a fé inicial, por pura teimosia. A dúvida faz parte, faz-me prestar mais atenção ao caminho imaginário. E se e quando chegar a terra firme? Olhos em frente. É possível. Não será amanhã, mas amanhã logo se verá. Afinal, amanhã será um novo dia.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

And now it's "you know who" I got the "you know what" I stick it "you know where"

E em 2016, aqui no blogocantinho?, prognósticos? Em geral, é mais ou menos isto.
[sim, tudo isto é cansaço]






 [bem explicadinho, com todas as letrinhas, aqui]

Great Expectations

Sim senhora, é a tradição da época, acabemos já com isso que ninguém tem tempo para remoer estas merdas.
Balanço de 2015: foi uma real bosta.
Pedidos para o Ano Novo: que não seja uma real bosta. Uma bosta simples já era uma melhoria.
Resoluções para 2016: que não me atasque com tanta frequência na bosta.

domingo, 27 de dezembro de 2015

A puta da barcagem

Duas coisas aprendidas neste fim-de-semana: à uma, o Acp é a melhor, maior, mais benfazeja organização de que tenho o gosto de ser associada, e à qual desejo longos anos de próspera existência; às duas, eu tenho muito azar às viaturas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Foi assim que aconteceu

De repente, sem nada que o fizesse prever, levantou-se o cinzento e recupero o meu mojo: quero ler, consigo escrever, as palavras já me saem de jorro e os dedos voam no teclado, uau, uai, cheia de pica e vontadinhas, e calha bem, que há muito para ler e escrever, o xervixo acumula e é preciso dar vazão, mesmo a tempo, ufa, o meu super-poder é a procrastinação e eis que me detém um pedacinho de kriptonite benfazeja. Vai daí, segunda de manhãzinha, ali pelas oito e trinta, já me sento pronta a fazer brotar torrente de palavrinhas, e asinha, que este aqui tem de sair antes de almoço, liga o bicho, clica aqui e ali, e encrava tudo, programa não arranca, word não abre, ai mãezinha, clica no reiniciar e népias, desliga à bruta e religa, e fica ali a remoer, re-remoer, ainda não são nove e já estou a ligar para os santinhos da informática, ninguém atende, vai-se ao café, tenta-se de novo, um nadica antes das nove lá me atendem do cento e quinze laboral, vem o bombeiro de serviço, ouve as queixas, clica e reclica, ui, se calhar é disco, eu uivo, ele tenta de novo a sua magia, nã, tenho de o levar, eu uivo mais, explico a minha urgência, e o bom anjo promete-me um tareco que ainda terá de desencantar algures para eu conseguir trabalhar. Espero, num só pé; troco de pé; decido que preciso de ambos os pés; começo a cirandar por aqui como uma barata, à roda, à roda; aviso quem é preciso avisar do atraso previsível; nos intervalos uivo; chega o santinho com um chaço debaixo do braço e monta-mo aqui; explico que preciso dos meus docs, ou só um, vá; jura que já mos manda; uivo de novo; toca o coiso e atendo logo à primeira, já sei de cor a extensão e é a que me interessa; veja lá se está aí o que lhe interessa, e eu que sim senhor, muito obrigadinha, todos os deuses lhe paguem; já são onze da manhã, tenho uma hora para costurar esta fantasia; força, força companheira Izzie; acabo apenas com meia horita de atraso, envio, vou a correr avisar que enviei, volto, acendo um cigarro, e ligo a perguntar novas do doentinho, responde-me que está em coma induzido e amanhã talvez; uivo e explico que me acontece tudo, que o de casa também me deu o peido mestre e o jeito que me dava na falta do de trabalho, para adiantar umas cenas no fim-de-semana, e arcanjo dos arcanjos diz para o trazer que também lhe dá uma olhadela, agradeço muito e rasam-me de lágrimas os olhinhos.
Entretantos, hoje é quarta, o animal continua de cama, e lá a ver se não precisa de um transplante de disco que não existe em stock, continuo a contar só com o ferro-velho que rosna enquanto funciona, acata ordens com a velocidade de um caracol asmático em subida acentuada, conclusão, não há aparelho que possa por debaixo do braço e levar comigo, o que me parece mal, afinal estamos em época onde mobilidade, versatilidade e multifuncionalidade são palavras-chave, e olhem, faz-se o que se pode, ao diabo a motivação, a vontade - e necessidade - de produzir, logo às seis ala, de mãos vazias, e segunda que vem cá estamos outra vez.


[lembrei-me entretanto que, por extrema curiosidade, o equipamento informático já está, por decurso inexorável do tempo, a chegar aos limites; não tarda nada - tipo, uns mesitos - está mesmo obsoleto e imprestável para as necessidades, e logo agora, nestes tempos em que a palavra despesa é palavrão. também por curiosidade, todo o actual equipamento foi renovado em tempos de governo pê-ésse - esses despesistas! - usou-se e gastou-se entretanto, e em tempos de governo pê-ésse-dê começou a atingir o fim da sua vida útil. curiosamente - ou não - vai ser durante este novel governo pê-ésse que se vai verificar a absoluta necessidade de renovar o equipamento. mais tarde ou mais cedo lá teria de acontecer. claro que, fosse o pê-ésse-dê governo, e não aconteceria, que essa boa gente, frugal e poupadinha, seria completamente indiferente ao facto de se conseguir trabalhar ou não com o que há, e ainda nos diriam para ter paciência e dar à manivela. recordo, sem saudade, aqueles já longevos tempos de uma fotocopiadora que cuspia pó de toner e triturava folhas a-quatro, e uns computadores que a gente chegava, ligava, ia à bica, trocava larachas com quem encontrasse e, quinze minutos depois, com sorte, já estavam a funcionar. às vezes não, e era preciso reiniciar. giro-giro. tantas as vezes que às dez, onze, ainda não se conseguia. e depois não sei quê que não se produz. pois não. não se faz limonada boa a espremer os frutos à mão.]

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Que seja um bom Natal, para todos nós

E ainda não chegámos às vésperas e já temos um belo, belo presente no sapatinho: um banco! Novinho! Pronto, usado mas estimado! Pronto, nem por isso estimado, mas não sejam esquisitos. Espero que tenham pedido talão de troca, que eu cá, bancos, nhéc. Se é para ficar com um negócio falido, prefiro uma loja de chocolates. E acreditem, na minha mão uma loja de chocolates ia à falência: hoje há stock, amanhã não. Hã, não há talão? Então, mas eu vi um papelucho colado à caixa e... quê, é a conta? Ai o presente não é para mim? Havia uma cena tipo amigo secreto da banca e toca quanto a cada um? Epá, aqui não tenho, posso ficar a dever? Tipo, continuam a ficar-me com parte dum subsídio e mais uns xis por cento do ordenado, vale? Então não vale. Que faria se não valesse. E nem um piu de queixumes, que provavelmente ia gastar tudo em porcarias, como o empréstimo da casa, supermercado e tal. Mais vale ficar com quem realmente sabe o que fazer ao dinheiro, e impulsiona a economia e tal. Já agora, continua-se também a cortar naqueles despesismos desnecessários, aqueles luxos supérfluos, que o dinheiro não nasce nas árvores, ora, e não chega para tudo. Os velhos que peçam esmola à porta da igreja; os desempregados que arrumem carros e colectem latas; os putos que se façam uns empreendedores e aprendam sozinhos, em casa, a ler legendas e fazer contas às montras d'O Preço Certo; os doentes que tomassem melhor cuidado, se agasalhassem e não andassem a respirar escapes; e o cidadão comum, ora, o cidadão comum, que se desabitue de luxos que somos um país pobre, e se menos comer menos engorda e não dá despesa com castróis altos e corações falhos, não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades. E tudo isto vale a pena, claro que vale! Juntos, sacrificadinhos, pobrezinhos mas honrados, pagaremos o que devemos, capital, juros e correcção monetária, faremos um brilharete lá fora e, cá dentro, poderemos levantar a cabeça de orgulho, porque este é um país onde nunca!, jamais!, teremos de encarar o opróbrio de ver um banqueiro, um CEO, um CFO ou um presidente de conselho de administração a cear paloco, com meia batatinha, ovo não que faz mal, uma folhinha de couve, tudo regado com azeite cortado a óleo, em vésperas de tão importante efeméride.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Do you believe in fairies?

Não me belisca minimamente que exista quem não goste de Star Wars. Não me incomoda um nanosegundo que haja quem não entenda o fenómeno, e pasme perante o mesmo. Não me chateia, e até brinco com o facto de, haver quem confunda ou não distinga Star Wars e Star Trek (pagãos!, ateus!, hereges!). Cada um gosta do que gosta, cada um é para o que nasce, inserir aqui mais um chavão respeitador da diversidade de gostos, etc, viva o amarelo. O que já me causa alguma perplexidade é a alegria quase cinzenta e engravatada com que algumas pessoas se distanciam disto tudo. Uma alegria com o suave odor de acinte e uma nota de bazófia. Ó pá, tudo bem, não gostas não comes, isto não é o refeitório da escola, não há menu único em que no dia de iscas passa tudo fome. Mas fazer pouco da "cena" não é uma inocente manifestação de opinião. É raro ouvir um simples e singelo "não gosto, não é a minha onda." Não raro, a opinião é polvilhada de considerações sobre os que mergulham histeriamente ou mais discretamente nessa onda. E é isto que não percebo. Ou antes, até. Precisam mesmo de se sentir importantes, superiores, melhores, é isso, não é? 'Tá bem, levaide a bicicleta. Eu (e muitos) ralada. Sou capaz de apostar que os fãs não são virgens nisto do achincalho. Lembro, sem saudade, aquela vez em que um indivíduo - que nem era meu conhecido, antes daquele dia, mas ali estava como amigo de conhecido - me gozou intensa e longamente por causa de... um álbum de BD. Uma jóia de pessoa, cheia de predicados e interesses elevadíssimos, decerto, que não teve problemas em me gozar intensa e longamente por "ler aquela merda". "Aquela merda" por acaso até é a nata das natas, dentro do género, mas adiante. Um gajo não dá conversa a caralhetes. E não o mandei para a meretriz que o deu à luz porque, apesar de tudo, tive mais consideração pelas pessoas que o tinham trazido à boleia que por ele.
Anyhoo. Cada um gosta do que gosta. Não preciso que me expliquem porque não gostam de Star Wars, como não preciso que me expliquem que não gostam de chocolate, há (des)gostos para tudo, credo. Mas, já agora, um livro de estilo. Não precisam de nos explicar, devagarinho e de olhinhos muito abertos, que aquilo é tudo fantasia. Nós sabemos. E vocês, rigorosos realistas, contam histórias do Pai Natal aos putos, inscreveram-nos na catequese?, que bom p'ra 'ocês. Também escusam de gargalhar alarvemente por haver adultos que têm bonecos dos personagens, ou montam legos alusivos, ou até se vestem como os seus favoritos. Se começarmos a escarafunchar, ainda descobrimos que se vestem de matrafona no carnaval de Torres, e nisso não vêem mal algum. Chacun à son goût. Live and let live. Somos todos ridículos, aos olhos de alguém. Tenhamos alguma graciosidade e generosidade em admiti-lo. E há espaço para tudo. E ninguém se define por uma parcela dos seus gostos. Uma pessoa pode, sem qualquer problema e desconsideração, ter Céline na mesa de cabeceira, ao lado de Borges e Blake e Mortimer. Não que eu conheça alguém assim, é só um exemplo. Star Wars não é Fassbinder, nem sequer Fassbender, mas há ocasiões em que uma pessoa só se sacia com panna cotta e outras chega pão com manteiga, e sabem igualmente bem. É a tal maravilhosa da diversidade. E eu gosto mesmo muito de pão com manteiga. E gosto de gostar.

domingo, 20 de dezembro de 2015

A Força Desperta?



Desperta sim senhor.
Lord Vader aprova esta mensagem.


[comentários com spoilers não serão aprovados, que nesta casa não se acredita em roubar a alegria infantil da descoberta a ninguém]

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

The matrix reloaded

Voltei a ler (com vontade, alegria e avidez).
Voltei a escrever* (com facilidade e desenvoltura).
Está tudo ligado Pois está.

*por enquanto apenas para efeitos profissionais, mas baby steps. baby steps.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Todos os gatos são pardos

Aqui há coisa de meia hora a questionar-me sobre se os collant que vesti são pretos ou azul escuros. Às sete eram, garantidamente, pretos.

[note to self: trazer e guardar no bules um par de collant em cada cor. nerfes.]

You underestimate the power of the Dark Side

Em duas breves semanas dei por mim, involuntariamente e por puro dever profissional, por umas quantas e sucessivas ocasiões, arrastada para a mais fedorenta cloaca, onde chafurdei sem galochas nem fato protector. Acho que hoje acabou. Ou antes, acho que hoje atingi a margem e não vislumbro nova enxurrada em quinze dias. Pelo menos. Deve ser isto, a tal da trégua de Natal. Preciso de um duche a ferver e um palha d'aço.

[as pessoas, céus, as pessoas. e ainda há quem ache que só na ficção existem super-vilões. basta querer, e ter vagar para isso.]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

When I get older losing my hair, many years from now

Aquela sensação de antiguidade, para não dizer obsolescência, quando és a única freguesa no cabeleireiro a entreter-se no tempo de espera com um livro, enquanto o restante povo olha e afaga ecrãs.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

'tis the season to be jolly (lalalala-lala-la-la)

Todos os Novembros/Dezembros, mal começam a assomar às janelas deste trapinho à beira-mar plantado pais Natal dependurados, e bandeiras de menino Jesus desnudo, lá em casa suspiramos por, um dia, ganharmos a coragem de pendurar lá fora uma bandeira preta com uma cabeça de bode desenhada.

Enquanto isso, alguém com eles no sítio, encenou um presépio de zombies. E eu choro de inveja.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Santa Claus is coming to town

E vamos a fazer uma lista? Pois vamos, sou amiga do meu amigo e dos pobres desgraçados que, por obrigação familiar, têm de me presentear. Listinha feita, toda ela composta de livriscos, e entregue a quem de direito, i.e., provedora familiar, i.e., mãezinha. Mas, helas, esqueci-me. Esqueci-me d'O Desejado. Ele. Elíssimo. A suscitar suspiros e ais de cobiça desde o verão passado.
Quê? Um ai-fóne último modelo? Um chanato de sola pintada? Não senhor. Isto:

Porca miséria, vou ter de tratar eu do assunto.

(também devia ter pedido um vale faz-tudo e canalizador, que o botão do autoclismo já se estragou há um pedaço, e andamos no sistema puxe-você-mesmo a válvula há mais tempo do que gostaria de admitir. de caminho arranjava-me o estendal, que eu não tenho forcinha de mãos para aquilo. e montava a torneira nova no lavatório, espera!, primeiro ia comprar uma bacia nova e fazia-se tudo. e, já agora, também iam lá os anjinhos que procedem ao polimento de pedras, que as bancadas e chão estão uma miséria. ah, e o estendal de tecto. riscar tudo, ofereçam-me um faz-tudo. agradecida.)

sábado, 5 de dezembro de 2015

Breakfast at Tiffany's

Se me fascina* saber que há quem venda maquilhagem em segunda mão? Claro, mas quem eu gostava mesmo de conhecer* é quem compra maquilhagem em segunda mão.


*eu adoro, adoro, adoro observar gente esquizóide, maluque, apanhada da mona.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A long time ago in a galaxy far, far away

Há pijamas do Star Wars para rapaz? Há, sim senhor.
Há pijamas do Star Wars para homem? Há, sim senhor.
Há pijamas do Star Wars para rapariga e mulher? Nicles. Népia. Néribi.
Deve ser aquela cena do "não sou feminista, sou feminina". Ou então o mercado, afinal, não funciona.

There is a light

Olá, eu sou a Izzie, e não leio desde Setembro. Bom, ler, leio. Melhor dizendo, não leio nada novo desde Setembro. Acabei Agosto (e as férias) com a Viagem ao Fim da Noite a Meio e assim ficou. Até hoje. Sentadinha, para não se cansar. Não voltei a abri-lo, nem violei mais nenhuma página virgem. Como ler é um hábito, para não dizer vício adição, vou lendo letras já usadas, já moldadas, que não me causam bolhas. Novo, só notícias. E poucas, parcimoniosamente pesadas e consumidas. Voltei ao conforto aconchegante da titi Agatha, os cinco de Tommy e Tuppence, para encher, para disfarçar a sensação de vazio. Comecei pelo fim, Postern of Fate, e segui a ordem inversa. Fiz batota no penúltimo, atalhei para o meu favorito da série, e passei o Secret Adversary à frente do Partners in Crime. Estou a acabar este. Comecei-o seguramente há mais de um mês. O ritmo lento, arrastadíssimo, tem sido ditado pela abertura da pestana, que só se tem mantido por página e meia, duas páginas. Depois colapso. Presumo que este fim de semana se acabe. E depois? Nada. Vejo as lombadas perfiladinhas, inteiras, por quebrar. Tenho-as na mesma ordem de Julho, à beira da cama, intocadas. Já me habituei à sua imobilidade muda. Como também me habituei ao monte sobre a secretária, regressado de férias e ali colocado, e abandonado. O burburinho das histórias por conhecer deu lugar ao silêncio resignado. Se me incomoda?, já incomodou mais. A suave inquietação desta incapacidade deu lugar à apatia modorrenta. Olá, eu sou a Izzie, e não leio nada novo desde Setembro.

sábado, 28 de novembro de 2015

Exterminate! Exterminate!

Ouvido ao almoço, numa mesa ao lado: "E a ministra da justiça, que é preta?"

Tanta bala perdida. Tanta.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Hay gobierno? Soy contra.

Não sei se Freud explicaria, mas gostava que alguém o fizesse, que caneco de mania de grandezas é esta de se achar que para governar este piqueno e rústico retalho de chita, este ledo e nem por isso florido quintalinho, é preciso tanto ministro, e tanto secretário de Estado. Caneco, pá, um gajo ainda não tem idade para ter um piquinho de alzheimer e já não consegue recordar tanto cargo.

Lá a ver: há assim tanta produção agrícola, tanta cana de pesca e traineira, que seja preciso um ministro para cada um? E, já agora, onde fica a criação de galinhas, hein? E a suinicultura? Ninguém pensa nos bacorinhos? Acho mal. Mandasse eu e num só ministério agrupava-se a agropecuária, mar e pescas, e ambiente. Yup. Porque no ambiente cabe a cena das florestas e coiso, pelo que é mais o que os liga que o que os afasta. E depois, para compor o ramalhete, três secretários de estado, um para cada pasta, e já gozas. Ah, é muita coisa? Trabalhem, ora, que é para isso que vos pagam, tendes staff que nunca mais acaba, máquinas de café e até secretárias que podem ligar para a telepiza. A gente aqui nas trincheiras não tem nada disso, beberetes nem vê-los, e lá se vai dando conta do recado. A ver se aprendeis o que é fazer o trabalho de dois.

Outra: Ministério da Educação, Ciência, e Cultura. Sim, tudo em um. A menos que a função dos ministros seja andar em festarolas e inaugurações, um dá conta do recado, e depois é aviar o resto em secretários de estado (da educação, da ciência e ensino superior, da cultura) e respectivo staff. Feito, adjudicado, não me forniquem.

Também não entendo a cena de autonomizar um ministério do planeamento e infraestruturas. Sério? A sério? Isso, mais a coisa da tecnologia, não devia estar no ministério da economia? Não diz tudo respeito ao desenvolvimento/investimento e lá-lá-lá? Isso.

E pronto. Ah, mas tu não eras toda iu-huuu, governo de esquerda? Pois sou, mas não hipotequei a capacidade de pensar, nos entretantos. Eu sei que o pessoal das direitas, habituado a dizer amén a medidas como rezar por chuva e similares, não encaixou ainda, mas é isto, a democracia. Discordar, debater, e ainda assim arranjar um compromisso. O facto de eu achar que dividir em tanto ministério o governo deste triste baldio estéril e salobro é um bocado incompetente, não me impede de, ainda assim, conceder o devido período de estado de graça. Mas vou refilando, ai isso vou. Má sorte ser esganiçada.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Oh happy day

A cabeça finalmente mais leve.
Um dia de trabalho que se previa horrendo a tornar-se levezinho.
Os botins que andava a namorar há dois meses com 30% de desconto.
Com tanta bonança, tanta bem-aventurança, acalento até a secreta esperança de um dia conseguir entender quem menoriza um partido porque as dirigentes são "gajas boas" (embora esganiçadas, credo, jasus, melheres com opiniões, e a dizê-las, onde é que isto vai parar), mas também tem uma palavrinha de desdém por um grupo parlamentar / governo onde há representantes do sexo feminino que não são modelas, uma delas até, ahém, hum, uns tons mais escura que o Obama (deve ser para agradar lá às esganiçadas, só pode) um (por acaso excelente) ex-autarca de linhagem étnica nãoseiquê (jesusmariajosé, Etelvina, guarda as pratas!) e uma senhora que não vê (credo, vai-me derrubar os limoges todos lá do ministério, a marota).

Ah, Thanksgiving, indeed. Demos graças, enchamos o bandulho, e depois saqueemos os nativos. Devia iniciar-se esta tradição por cá. Oh, wait...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A Little Princess

Hoje acordei em modo Sara Crewe, convicta que sou, de facto, uma princesa, não porque daddy told me so, mas porque estou doentinha e, apesar de ser coisa que acontece raramente, quando acontece toma proporções de catástrofe, não pela gravidade da doença, mas pela insuportabilidade do feitio da enferma, que não está bem na caminha porque grão de ervilha, ai, ai, ai, dói-me aqui; não está bem a pé porque não-sei-quê e agora dói-me acoli, não está bem sentada porque tem frio e se sente sojiiiiinha, chuif. Percebe-se porque não adoeço muito, não é derivado de um sistema imunitário upa-upa, é porque o universo em geral e seres vivos em particular (um felino, um humano) que partilham espaço comigo não podem, não aguentam, não têm de. A sério. Princípio de Arquimedes, aplicado a mau-feitio: não podem ocupar o mesmo espaço, ou há intolerável fita minha, ou há universo. Se se der um cataclismo e esta cena implodir toda foi porque me deu uma (mais uma) monumental birra, causada pela ausência de mufadinhas na posição certa (estou toda empunadiiiiinha, buáááá), chá na temperatura desejada (ind'agora o fiz e já 'tá fiiiiio, chuif), ou outra coisa qualquer (dói gagaaanta e sinto-me fráááááágil, snif).
Pronto. É só isto.


(mas estou a trabalhar, que isto de ir de madrugada para a fila do centro de saúde é bom para bâlhas que têm, ao que parece, saúde para isso. e eu só posso faltar com justificação do sns ou adse, sendo que médico adse mais próximo é longe pa caneco, e do sns até é pertinho, mas é constantemente vítima de hostile takeovers pelas bâlhas da freguesia. juro. mal abre o centro já não há senhas para urgências. havia de haver centros de saúde só para bâlhas. nem era preciso médicos ou enfermeiros: bastava um écrã interactivo, que fosse respondendo às queixas com ahãs, ai, coitada, a senhora é um Cristo, todos temos a nossa cruz, essa sua nora, realmente. e passasse umas receitas novas. até podiam ser os mesmos princípios activos, mas com outros nomes; os bâlhos não confiam em quem não passe muita coisa, e nova. porque eles têm problemas novos toooodos os dias. e terríveis. mas que não os impedem de às sete já estarem à porta do puta do centro de saúde.)

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Midlife crisis

Adoro, que adoro, aquelas pessoas que sentem uma irresistível necessidade de nos enumerar chiquérrimos bens que possuem e respectivo - e altíssimo - preço.


[como se eu, que até visto na zara, e sou alegre proprietária de um rodinhas usado - e sem vergonha nenhuma, anote-se - precisasse de um reminder do meu médio-classismo financeiro. nope, não me sinto minimamente inferiorizada, you lose.]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

The only thing we have to fear is fear itself

Recordo-me daquele dia seguinte ao atentado de Atocha, em que estaquei no topo das escadas do metro, na minha cidade. Lembro-me também daquele momento em que senti o início de um ataque de pânico, no apinhado elevador monta-cargas da estação de metro londrino, na minha primeira ida após os atentados: um metro à minha frente, um sujeito de cabeça coberta por um hoodie, mãos castanhas a segurar as alças de uma mochila que carregava às costas. Sim, estaquei um momento mas entrei no metro. Sim, irracionalmente subiu por mim acima uma inquietude, uma falta de ar, mas chamei-me estúpida muitas vezes, acalmei, e cheguei já calma à plataforma da linha piccadilly. Senti medo, dominei o medo, e segui com a minha vida. Tive muita vergonha de ter quase sucumbido ao medo. Principalmente na segunda ocasião, em que tive medo de uma pessoa em concreto, uma pessoa que não conhecia, mas cuja imagem correspondia a um estereotipo. Estava um dia de chuva molha tolos, que facilmente explicaria o capuz na cabeça; era jovem, se calhar a caminho do trabalho ou da escola, o que explicaria a mochila; tinha pele escura, como milhares de habitantes daquela cidade. Mas a conjugação destes factores desencadeou em mim uma resposta de medo, físico, atroz, puro. Senti-me mil vezes estúpida. Eu própria um estereotipo. A (potencial) vítima, acossada, sequestrada pelo terror. Não pode ser. Não pode. Nunca mais aconteceu. Não deixo que aconteça.

Na sexta feira senti, principalmente, tristeza. Muita tristeza. Por cada vida que se extinguiu prematuramente às mãos de gente cujas motivações não consigo entender e me recuso a entender. Mas é preciso fazer um esforço. Há, pelo menos, que tentar entender o que querem causar com estas acções, e fazer exactamente o contrário. Querem-nos aterrorizados, fechados em quatro paredes, com medo de fazer uma vida normal, apanhar um transporte para o trabalho, ir tomar um café, ouvir uma banda, viver com a despreocupação e leveza das pessoas normais? Respondamos "não". Querem fazer-nos crer que está em curso uma guerra civilizacional, em que somos nós contra eles, que temos de pegar em armas para sobreviver, que há que retaliar, e com as mesmas armas, a mesma violência, antes que eles nos exterminem? Gritemos "não". Querem despertar-nos o ódio pelo outro, pelo diferente, pelo estrangeiro? Mais um "não". Querem que tranquemos as portas a todos os que, também em desespero, nos procuram como abrigo? Simplesmente: não. Querem-nos despir da alegria, ver-nos sucumbir ao medo irracional, recusar o abraço, a empatia, a humanidade? Definitivamente, "não". Não ao ódio, à vingança, à desconfiança. Não, não serei refém voluntária desta gente. Não, mil vezes não. E não me tornarei o reflexo deles, mil vezes não.

E, no meio dos relatos de horror, há algo que sobressai e sobreviverá: a solidariedade de gente anónima, o apoio de pessoas que abraçaram, consolaram, salvaram até outras pessoas. Aí sim, está a resposta. Tantos exemplos.
Quanto aos outros, repito e subscrevo John Oliver: fuck these assholes. Aqui.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Rage, rage against the dying of the light

Vinha dizer coisas mas entretanto varreram-se-me as tais das coisas, na verdade nem era bem dizer coisas, era encher chouriços, encanar a perna à rã, dar uma de produtividade bloguítica, mas varreu-se-me a vontade, que a verdade é que não posso com uma gata pelo rabo, tenho apenas a energia suficiente para abrir a caixa de mon chéri quando chegar a casa e, finalmente, assentar rotundo traseiro em superfície almofadada, e tenho de a guardar bem, a energia, que esse momento não se anuncia próximo, antes ainda há umas cenas para fazer, tem sido a constante da semana, toooodos os dias a despertar ainda de noite, toooodos os dias a sair ainda não badalaram as oito, toooodos os dias a chegar depois das oito, mas da noite, e ali um dia já rés vés as onze, outro as dez, e hoje sei lá, mai'logo falamos; os motivos?, pois nem todos são maus, pontas soltas e coisas minhas que só a mim interessam, não é trabalho mas cansa à mesma, e já nem me lembrava da quantidade pornográfica de gasolina que se gasta em se transportando cinco dias casa-trabalho em viatura motorizada, mais voltas extra, chiça, haja reposição de salários, para a semana acabou-se e volta o motorista privado, fardado, que é de todos nós, e se lenin quiser, não será privatizado, essa é outra, tenho acumulado muitas irritações nestes últimos tempos, mas, vide supra, não posso com uma felina pela extensão posterior da coluna vertebral, e o cansaço tem um efeito milagreiro sobre a nervoseira ideológica, e um gajo nem consegue sequer alinhavar dois bem merecidos palavrões merecidamente dirigidos a qualquer misógino que eu não queria nem dado, assado no forno com batatinhas e cortado às fatias, ou embrulhado em papel prateado, e esta é só uma, a que me recorda assim de repente, as outras são mais complexas e precisariam de outros pares de palavrões, e agora não podemos, derivado daquilo de estar cansada e não poder com, já sabem o resto, e pronto, é tudo, assim de repente, vão para dentro que de noite já refresca, aqui na arca frigorífica onde ganho o pão refresca todo o santo dia, pés gelados, adiante, bom descanso, daqui a umas horinhas eu também, beijinhos a quem é de beijinhos e abraços a quem é de abraços e, ah, não se sintam esquecidos, piretes a quem é de piretes.



 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Dreaming of a White Christmas



(lá a ver se o Tarantino se encontrou, outra vez. pena é já não haver telas para projectar isto, mas o grande teimoso não se deixou demover por isso)


And a Happy New Year


(pronto, já tenho uma deadline para ler a série. a mesma pessoa que me recomendou Sandman jura por ela, é boa recomendação.)


(Ah, o James Bond, o Spectre? deixem lá isso. aiaiaiai.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Stupid is who stupid does

Aquele momento em que clicas num link, e dás com um texto onde, em apenas dois parágrafos, encontras expressões como "velha pureza da fraternidade masculina", "uma certa agenda gay", "revisionismo gay", e "recalcamento gay". E, antes de clicar para continuar a ler o texto, te lembras da saudade que não tens de fortes crises de azia.

(pá, empalhem o gajo e enfiem-no num museu de história natural, pelamordedeuz)

A child of five would understand this. Send someone to fetch a child of five.








quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Chapéus há muitos

Razão têm os existencialistas, com aquilo da angústia da escolha.





(o que vale é que os porkpie me ficam muito mal, menos uma angustiazinha. mas a boina, oh, a boina. e o trilby. tudo daqui.)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Yeah, well, you know, that's just, like, your opinion, man.

Gilmore Girls (os sacanas dos dealers da zóne já me viciaram no play. vou pagar, está visto). Vera já acabou (oohhhh), mas há Lewis. (yay!, os ingleses são mesmo bons nisto dos policiais. com pathos. resmas de pathos.) Borgen. Estou a apreciar de-va-ga-ri-nho. (faltam-me dois. lágrimas). Homicide. Diz que é uma espécie de precursor de The Wire, (best. series. ever.). Também em Baltimore, e um bocadinho mais que o policial habitual. Muito bom. The Big Lebowski. Ao contrário da corrente, o adorável (hum) vagabundo não é o meu personagem preferido. Não fazer nenhum todo o santo dia, sim senhor, sou capaz de simpatizar, ser um porquicho e viver num chiqueiro, nunca. O Walter, sim, o meu preferido. (com esse feitiozinho de merda, já se estava a ver? olha, shut the fuck up, Donny).  E What We do in the Shadows. Corram, corram que só está no el corte inglés. O problema de ir ao eci é depois um gajo ter de ir ao quarto piso buscar o catálogo de brinquedos (tenho de fazer uma recensão: uma desilusão no capítulo do lego, uma anedota no resto. a sério que há quem compre mini-audi, mini-bmw, mini-range rover para os petizes?). E depois há o perigo de um gajo sair de lá com isto debaixo do braço. Cuidado. quem vos avisa amig@ é. Para a semana há Spectre. (quê? uma feminista de esquerda gosta de 007? yup. shut the fuck up, Donny.)
Ah, diz que foi um fim-de-semana de chuva. Cheers.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Forget the hearse 'cause I never die

Paradote, sim, isto anda paradote. Agora escrevia aqui um post necessariamente sucinto a explicar que há muito trabalho e tal (ó eu armada em esquerdalha diligente, naquela de derrubar preconceitos), e que a vida lá fora (que evidentemente tenho!, claro!, dúvidas houvesse!) nãoseiquê, mas apesar de sim, também, a verdade é que nem por isso. Creio, aliás, que o factor "muito trabalho" nunca me demoveu de blogar, bem pelo contrário. Faz parte daquela idiossincrasia muito minha, i.e., lamento público + procrastinação. A verdade é que estou como a mula: empacada. E nem é por teimosia, é mais porque não me apetece andar, e não, não tem a ver com o facto de ter o pé direito lesionado com a mega-bolha (nunca, mas nunca mais trazer sapatos novos em dia em que me transporte a pé+carris+metro). Foi assim que aconteceu: aqui há atrasado estava entretidíssima mas não divertidíssima com uma pilha de horrores para dar avio, pus-me a pensar em cenas a modos de descansar um bocadinho o cérebro do pavor burocrático, e veio-me à memória um filme para lá de espectacular que me apeteceu rever, e vai daí pus-me a viajar na maionese sobre o dito filme, fui cuscar no youtube e lá estava ele inteirinho, iiihhhhh, vou guardar esta cena para um dia destes, colei aqui numa folha em branco, e segui dando umas tecladelas sobre dito filme e a tal da maionese. Nem uma frase completei. Soou uma sirene na parte sensata da minha cabecita, a guinchar algo como "'Péééééra lá, isso vai dar merda." Ora, perguntaides vós, que merda poderia dar um post sobre A Place in the Sun? Boa questão. Ia dar merda. Ou não. Mas não me apeteceu arriscar. Não por medo, mas porque não me apeteceu. Não me apeteceu deparar com a eventualidade de ter de fechar, outra vez, comentários num post. Ou fazer um post explicativo. E, no entrementes, ter de levar com boas, adoráveis, fascinantes pessoas anónimas a dizer-me que a) sou parva; b) tenho a mania; c) quem sou eu para passar lições de moral. Porque isto tem vindo a ser assim, de quando em vez. Alguns dos posts que escrevo, com opiniões sobre cenas e tal, são, certamente, indubitavelmente, dirigidos a alguém. Eu não sei bem quem, mas são. Porque há alguém que acha que sim. E que eu estou, via post, a dar um responso a alguém. Ou alguéns. Não sei quens. E não tenho moral / direito / coluna / integridade / razão para o fazer. Pronto. Suspiros. Não é a questão do incómodo, de me virem chatear com parvalheiras que não me interessam (e lixando logo o ambiente a quem venha comentar na boa - para isso existe a moderação de comentários), ou medo de comprar uma guerra (para a qual sou recrutada sem saber onde é, contra quem, e porquê), ou haver gente-bicho que pelos vistos anda a monitorizar o que escrevo na esperança de encontrar criar inventar polémica. Não é auto-censura. É só fartura. Muita fartura. E nem das boas, polvilhada a açúcar e canela. Não me apetece. Só isso. Ele há alturas da vida em que um gajo já tem sarna suficiente para se coçar, não precisa de se fazer isco para pulgas.
A ver se mudo isso.


[Don't try to push your luck, just get out of my way]

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Like a Virgin

Quarenta e quatro anos de vida, e o primeiro lombo de porco assado na perfeição. E ainda há quem ache que o masterchef não serve para nada.

(na verdade, o mérito não é todo meu: termómetro de carne, best buy ever. no ponto.)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Hay gobierno? Soy contra!

Então, ainda está tudo a discutir de quem é a bola?


[eu ainda sou do tempo em que um aluno que falasse em "eleições para o governo", ou dissesse que o primeiro-ministro era eleito, chumbava imediatamente a constitucional, mas já não sei, mudam os tempos, mudam as vontades.]

(o verdadeiro) MasterChef Portugal

Morreu. Foi com ele que aprendi a cozinhar, pá. Mas atenção, não estou com isto a atribuir culpas pelos fracos resultados, hein. Eu sempre fui mais da escola desta senhora: enfiar a galinha no forno e tirar as empadas compradas na pastelaria da esquina.



(anda tudo tão ralado com um tal de vazio de poder, que ninguém fala do que é verdadeiramente importante)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

I heard the news today oh boy

Ando há tanto tempo a sentenciar que a esquerda está condenada a entender-se, que já tinha perdido a esperança de viver para os ver cumprir a pena.


(a primeira peçoa a atirar que o pê-ésse não é esquerda ganha o primeiro lugar no concurso clichê do dia, premiado com a terrina couve tipo Bordallo. eles arrumaram o socialismo na gaveta, eu lembro-me que já cá andava. felizmente ainda se recordam em que gaveta e, vai-se a ver, conservou-se bem, sem ómidades.)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

It's bigger on the inside

Não, não é muito cedo para começar a lista de Natal.

[com a sorte que este rectângulo à beira mar tem, isto não chega cá. sim, que ainda estou à espera do Kwik-E-Mart. bandidos regionalistas.]

terça-feira, 6 de outubro de 2015

talking sweet about nothing [cookie i think you're]

Blessed are the cheesemakers

Agora que já provei, juro que não sei de que raio ri a vaca.


[aquilo é queru um bocadinho mais rijo, e quem gosta de queru não pode gostar de queijo. também não entendo quem compra aqueles flamengo-bonsai. se é para levar na lancheira, ok, eu também caí nessa com a ruminante risonha, mas mais vale comprar a bola e levar uma fatia, pela minha saudinha]

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

This is your life

[e agora, também na internet]

- Não, repare: o que está aqui a pedir não tem fundamento porque [explica, explica, explica], além de que, se quisesse ter esse resultado/benefício, teria que ter procedido/ocorrido [explica, explica, explica], compreende? Na situação actual, em que me expõe que [tal, tal e tal], não pode pedir que [coiso, e coiso, e coiso]; não se integra na previsão, teria que ter ocorrido/feito/verificar-se [explica, explica, explica]. Entende?
- (...)
- (...)
- (...)
- Hum?
- Mas eu continuo a achar que tenho razão, e alguém tem que fazer alguma coisa.

O povo é quem mais ordena

Para o PS em especial, e restante esquerda em geral, o período de reflexão inicia-se hoje. Tomara que o aproveitem bem.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

E anda com uma cara, o infeliz


[ando desde o início da semana a pensar escrever qualquer coisa sobre as eleições, a campanha eleitoral, o plafonamento e outros temas realmente importantes, mas entretanto amarrota-se-me o raciocínio, embrulha-se-me o estômago, e não sou capaz de desatar este nó de tristeza e desânimo.]

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Chariots of Fire

Se a aldrabice fosse modalidade olímpica, Portugal já tinha um palmarés que vou-vos contar.


[ele há dias em que, derivado de circunstâncias, desenvolvo uma anormal simpatia por Vlad Dracul, e a sua obsessão em empalar]

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

This show contains scenes that some viewers may find disturbing

The Lucifer Effect

E depois há os que agridem escolhem agredir porque podem. Simplesmente por isso. E isso do "poder" não corresponde, tão somente, ao escolher fazê-lo porque acordaram para aí virados. Nem toda a gente, mesmo querendo, pode escolher agir livremente de determinada forma. Os que agridem porque podem são aqueles que nasceram, ou encalharam, ou se movimentam num determinado círculo - familiar, social alargado ou mais restrito, profissional, sei lá - onde certas condutas não só não são censuradas ou reprimidas, como são entendidas como manifestação de superioridade, e exaltadas. É assim mesmo. Ou és caçador ou és a caça, that's how they roll. Escolhem agredir porque podem, e podem porque - já o sabem à partida - o acto não traz quaisquer consequências nefastas. E depois, claro, há milhentas graduações. Desde o sociopata puro que, ao comando de uma empresa, afirma sem vergonha que paga o menos possível a quem para si trabalha, ou aqueloutro que comercializa um medicamento que é a diferença entre a vida é a morte para tantos, mas hélas, o mercado manda, e vamos de o aumentar para preços incomportáveis. Passando pelo cão de fila que não é mais que um poodle, mas não perde oportunidade de mostrar os dentinhos e latir esganiçado, pensando que com isso alcança algum estatuto melhor que o mero bicho de estimação - good dog!, you good dog! - não tendo a inteligência de perceber que nunca passará do colo ou da porta de entrada, um capacho conveniente. E depois há o resto. Os deslumbrados com os olhares de receio, e que acumulam endorfinas cada vez que põem alguém na ordem, a nu, no seu lugar. Os que fazem claque, tão parecidos com os poodles, os bobos, e até os espectadores silenciosos. Tomar consciência do que nos motiva, reflectir, ter a coragem de dizer não, isso é que era. Mas dá tanto trabalho, nenhum homem é uma ilha, e correr o risco de ser segregado ou, pior, passar a linha ser empurrado para o lado dos agredidos, isso é que não.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Help, I have done it again, I have been here many times before, hurt myself again today, and the worst part is there's no one else to blame

Esta é a uma explicação que encontrei, é tão boa como outra qualquer, mas serve-me bem e, ao menos, permite-me encontrar um sentido em muita coisa: a grande maioria dos actos de agressão, e principalmente os gratuitos, vêm de uma necessidade extrema de defesa. O primeiro a agredir defende-se porque assim já não é agredido, ou assim o acredita. Sente-se seguro, resguardado. Mais forte. E, portanto, uma pessoa que se sente entalada, que diabo, uma pessoa que está, vive, é uma entalada, prefere escolhe agredir. E, inevitavelmente, acaba a atingir também quem lhe estende a mão para a segurar, condenando-se à inevitável queda.
Tenho a sorte de a vida me ter ensinado, a duras penas, que vale a pena escolher arriscar a vulnerabilidade. A mão estendida pode revelar-se traiçoeira? Seja. Acolha-se a dita com um sorriso e voz calma. O resto logo se vê. É melhor, ainda assim, que viver numa eterna desconfiança triste de acossado.

[unfold me. and breathe me]

É sexta-feira (yeaaahhh)

Tive aqui um maluques a gritar comigo, e ainda são quinz'oras,

(posso ir embora alegando emotional distress?)
(desculpinhas por a expressão ir em estrangeiro, mas ando a ler naquela língua e não me ocorre agora semelhante tan linda e sonora na língua de Camões)
(culpo os meus pais, que não me fizeram herdeira ryca)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Strange days have found us, and through their strange hours, we linger alone

Acho que ontem a minha mãe me fez um bruto elogio. Não daqueles tipo a minha rica filhinha é a mailinda / elegante / fofinha / criatura mais espectacular, mas daqueles que interessam mesmo. Acho, porque não tenho a certeza. Não temos muita prática nisto, nem uma como emissora, nem a outra como receptora. São muitos anos nos papéis de Mrs. Understated e Miss Designated Cuckoo-Bananas, nesta família.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Outside of a dog, a book is a man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read.

Ah, acharam que o post é sobre livros? Também. Mas é mais sobre irritações, e muitas e variadas cenas e situações. Irritar é bom. Faz-me melhor que correr. Não me liberta endorfinas (e quem as quer libertar?, fazem-me falta aqui!), mas liberta-me muitas toxinas. Sou uma pessoa muito doente dos nervos, se alguma coisa me irrita tenho logo de ligar a ventilação.

Vamos a isso. Pintrest: inscrevi-me, e tenho andado por lá a passear. E a coleccionar ideias das boas, ena tantas coisinhas lindas para eu acrescentar à lista das excelentes ideias que nunca porei em prática. Adiante. Por razões de necessidade, pesquiso muito sobre estantes, prateleiras, arrumação de tralha em geral e livros em particular. E eis que o coisinho me começa a sugerir imagens como estas aqui:



Isso. Arrumação de livros por cores. Parece que é tandance.
Tiremos sessenta segundos das nossas atarefadas vidas para reflectir.


Epá. A sério. A sério. Quem é que inventou esta merda. Quem. Quero o/a responsável amarrado ao pelourinho, o mais tardar ao meio dia e meia hora. Ah, mas admite que o efeito é muito lindo. Opiniões. Um livro não é um pano de cozinha, que se escolhe para combinar com a barra dos azulejos. Um livro não é um objecto decorativo, embora se possa arrumar de forma mais decorativa, ou, vá, de acordo com aquilo que nos parece ser mais agradável à vista. Eu tento, mas desde já admito que aprecio muito a anarquia de cores e feitios das lombadas, acho que acrescenta um não-sei-quê de alegria e imprevisibilidade a qualquer divisão.

Mas vamos também a questões práticas. Como é que os seguidores desta moda encontram seja o que for? Como? É que por autores, por temas, um gajo ainda lá chega, mas por cores? Um exemplo: o meu exemplar de Pride and Prejudice é azul escuro, o Mansfield Park, Emma e Northanger Abbey são amarelo clarinho, e o Persuasion é cinza antracite, (o Sense an Sensibility não m'alembra). Nem vou falar das milhentas cores da minha colecção completa de Agatha Christie. Cuméquié, separa-se? Põe-se Jane Austen a conviver com Jo Nesbo? O Snowman a estraçalhar-me a pobre Elizabeth Bennet? Ou o Raskolnikov a encher a paciência da sonhadora Catherine Morland? Não pode ser. Questão de bom senso, o mesmo que aconselha arrumar em prateleiras distintas os Lobo Antunes e os Saramagos (que não quero discussões lá em casa).

Outra: cuméquié a cena de comprar livros? Já imagino as cenas nas Bertrands desta vida: este Eça não vem em turquesa?; Diz que este rapaz escreve muito bem, mas já tenho a secção dos verdes preenchida; Boa tarde, podia indicar-me uma edição de bolso em tons de laranja, mas não mais grosso que isto?

Pá, sinceramente. Aliás, çinçeramente. Tende juízo. E respeitinho. Olhó respeitinho.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Note to self

Um dia em que me sinta menos esfarfalhada e com níveis de humor um bocadinho mais elevados, compor um post, tipo National Geographic, dedicado ao tema "O Bicho-Doutor, essa criatura feroz". Neste preciso momento, o projecto de vida mais imediato é encontrar um bom terapeuta especializado em stress pós-traumático, mais especificamente nas sequelas após confrontos com o referido animal.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Com um simples vestido preto

Queria daqui dar os meus vigorosos cumprimentos à Zara, e ao seu esforço em incentivar a poupança, reduzindo o consumo interno:


É todo um programa macro-económico, kudos.

Eu é mais bolos

O prémio do melhor pastel de nata que já fez o percurso digestivo desta vossa vai para o da Manteigaria União. Melhor dizendo, "os", que uma pessoa não se pode fiar nas primeiras impressões, há que ter um certo rigor científico e repetir a experiência para verificar resultados. Verificadíssimos. Massa fininha-fininha; estaladiça-estaladiça; natinha cremosa-cremosa, e nada enjoativa (o mal de muitos é o excesso de açúcar, nhéc).
Sim senhora, já sei que a Aloma é que ganhou o prémio da melhor natinha lisboeta, mas não me fica em caminho, lamento. Sim senhora, já sei que abriram um balcão no ECI, hei-de tratar disso. Mas, até ao momento, e na categoria there's a party in my mouth an everyone's invited, a União 'tá lá. Além de que o atendimento é muito querido, há que dizer. Aquilo costuma estar empacotado de gente, turistas, na sua maioria, que é a única razão para não ter lá ido há mais tempo. Mas a um domingo pós-sessão intelectualoide* ali no Ideal, é exequível. E, pasme-se, os tugas são bem-vindos e mui bem tratados. Conquistaram-me definitivamente ao ver a forma carinhosa, familiar e galanteadora com que trataram um par de velhotas domingueiras, decerto clientes habituais, que foram ali ao seu lanchinho. Cinco estrelas.

(*passada mais de uma semana, ainda não decidi completamente se gostei d'As Mil e Uma Noites, mas acho que sim, porque quero ver os restantes volumes. o que é contraditório, eu sei. aquilo tem momentos de génio, mas depois tem os habituais e constantes e maçadores defeitos de tooodo o cinema português, a saber, o abuso da narração e voz off, uma certa deriva, o excesso de linguagem rebuscada. mas acho que gostei. sim, gostei. mas também não sei explicar porquê. credo.)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Teen spirit

Gosto e sempre gostei do cheiro de petróleo, gasolina, diesel e fuel; sempre gostei e continuo a gostar dos cheiros de álcool, acetona, verniz, tinta d'água, sintética, de esmalte; sempre gostei e gosto do cheiro de tabaco de cigarro, cachimbo ou charuto, alcatrão, diluente, aguarrás, cola uhu, patex, todas.
Sinceramente, com esta ligeira inclinação para a desgraça, é um milagre eu não ter acabado numa qualquer valeta desta vida.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Goodness gracious me

Não sei a que propósito, mas ocorreu-me enquanto andava a ler uns comentários sobre actualidades no feicebuque, a recordação de uma professora que me calhou no Instituto Britânico, quando lá andei (nos idos de oitentas e tais, na época em que os animais ainda falavam). Era uma senhora já de uma idade venerável, típica bélhota inglesa, com o seu cabelinho branco, pronúncia muito cuppa tea & I say, com aqueles saia casaco de tweed ou imitação, a figura parecia a encarnação de uma personagem da Agatha Christie. Vivia aqui no rectângulo já há 35 anos, a anciã. E falava um português semelhante ao verbalizado por qualquer vocalista de banda que passe por cá para dar um concerto, e se vê na contingência de cumprimentar com um "owbrigawdo Portiugawl". Juro. O vocabulário da senhora limitava-se ao estritamente necessário à sobrevivência. Trinta e cinco anos e falava pior português que eu inglês, e eu só contava 16/17 de vida. E ainda fazia humor relativamente aos nossos quirky, funny ways of life, pequenitas coisas que nenhum brit aturaria ou alguma vez acolheria como seus. Dear me.  E ainda usava aqueles sensible shoes ingleses, a pobre, daqueles que eu achava que eram uma obra de ficção, já esquecida nos anos cinquenta, sessenta, com um ar supinamente confortável, mas feiinhos que doía, biqueira larga, sola de borracha mas daquela cor creme semi-transparente, portanto, ainda nem tinha descoberto, no abundante comércio local, a qualidade e estética do calçado português. E pronto, era só isto. Penso que, atendendo à proveniência da criatura, tal reticência em se integrar, ao menos falando um português que não deixasse o padeiro, o empregado de mesa, o talhante, o merceeiro, com um esgotamento nervoso, remeteria para a qualificação da indivídua como excêntrica. Ou dona de um feitiozinho, vá. Agora querer correr com ela por isto e por, às tantas, deitar leite no chá, duvido que alguém o exigisse. Perspectivas.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Gateway drug theory

Sempre achei que é melhor ler-se o Correio da Manhã que não ler nada; e que será melhor ler-se MRP ou JRS* que ler o CM. Ou nada. Um gajo tem de começar por alguma coisa, a esperança não morre e a evolução é possível. Mas também não tenho problemas em afirmar: é leitura de merda. É. E é porque há melhor, e não me venham cá com coisas que os gostos não se discutem (educam-se, mas pronto), isto não é uma questão simplesmente de gosto. Há melhor, ponto. Escreve-se, publica-se e lê-se muita merda. E não vem daí grande mal ao mundo. Acho. Para além do óbvio arboricídio. Eu, aliás, leio (e gosto de) muita merda. Mas ao menos sei que é merda, admito que é merda, e não ando por aí a fazer cavalo de batalha da qualidade de algumas das minhas leituras. O que chateia, digo, o que me chateia é haver quem leia muita merda e, porque lê, se dá ares de doutor (da mula ruça) por isso. Não há nada mais deprimente, bolas. É como não se gostar de Shakespeare - perfeitamente legítimo - mas defender que não presta - falta de noção. Não.


*esqueçam o Chagas Freitas: é melhor ler os rótulos do detergente, que ainda se aprende alguma coisa. nomeadamente, a não ingerir. obviamente, o CF não leu os rótulos dos detergentes.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

So long, and thanks for all the fish

Sim senhora, isto é tudo muito giro, muito engraçado, mas, passada esta semana e um dia, já chegámos à conclusão que não é para mim, paciência, até ver, arranjem alguém que ainda se interesse e tenha gosto em aturar estes maluques todos, esta chusma de celerados que não pára de me bater à porta, caneco, tanta coisa boa em que ocupar o tempo e escolhem perturbar a santa paz em que esta desgraçada podia viver, francamente, cadê esse espírito cristão e tal e tal, ide, ide, desamparai, e amanhã logo se vê se eu volto, que seria desta vida sem um bocadinho de suspense, hein.

(claro que volto, o ordenado ainda dá jeito) (para coisas e assim) (como o quemer, diz que é um vício que se tem, e logo umas três vezes por dia) (a culpa é dos meus pais, que não me fizeram herdeira ryca) (ainda os processo)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Aconteceu no Oeste

Ai as férias, ai que saudadinhas, ai que estou aqui que nem posso, reformava-me amanhã se pudesse. Pudera. Trabalhar, iaca, que coisa de pobre. Ainda se me pagassem para mandar vir (wait...), digo, para mandar vir (melhor), e em part time, isso é que era. Entra às nove, bitaites, bitaites, bitaites, agora vou ali tratar de coisas realmente importantes, até amanhã. Olha, inscrevesses-te num partido a tempo, escolhesses melhor as amizades na faculdade, e quem sabe; agora, chucha.

Anyhoo, porque recordar é viver (mentira, é sofrer, mas um sofrer manso e nostálgico do que já não temos), vamos lá voltar ao bom que foi. E como passei eu as férias? O mais possível na horizontal, que sou uma pessoa muito doente. Inclusivamente dos nervos. Vai daí, escolhi a melhor psicoterapia possível: letrinhas juntas a formar palavras, que por sua vez se juntam em simpáticas frases, que formam lindas histórias.

A abrir, algo leve e alegremente pateta (ei, eu gosto do Zink, é o tipo de pateta que faz muita faltinha, abençoados sejam os desta estirpe, que dos outros até sobram). Leitura risonha.

Diz que na blogosfera ele há muitas personagens. Mas antes disso existir, na vida real já as havia. E se o Pacheco era uma personagem. Mais: uma figura. Adorei esta colectânea de entrevistas, e estou agora mortinha por lhe ler os escritos (já na minha quilométrica wishlist).

Como a vida não são só alegrias, não podia faltar a leiturinha para cortar pulsos enquanto se inala gás e se espera que os soníferos façam efeito. Isto não é bem um livro, é uma experiência. Daquelas que envolvem uma carga de porrada, e somos nós a apanhar. Caneco, pá, tão bom, tão bem escrito, tão pungente, tão cortante, que nada que diga lhe pode fazer justiça. Uma Obra, com maiúscula e tudo. São letras e letras que nos escorrem pela consciência deixando sulcos indeléveis. O bloquinho é para tirar notas: e tirei muitas, citações inteiras que não quero perder (sou contra sublinhar livros).
Esta foi a leitura principal, intervalada pelas outras, e ainda em curso. Os outros não sei, mas disto tenho de consumir doseadamente, sob pena de cortar pulsos enquanto enfio a cabeça no forno com o bucho cheio de comprimidos, e isso era uma chatice, que não gosto de deixar livros bons a meio.


Why so serious? Ora, também comprei a Vogue Brit. Não por cagança, mas porque se uma pessoa vai gastar guito em futilidades, que sejam das melhores. Não me façam falar das publicações "femininas" tugas, aquelas que têm por missão ensinar-nos a ser mulheres fortes, decididas e independentes, com carreiras brilhantes e compensadoras, mas muito bem vestidas, calçadas e maquilhadas, nunca esquecendo o nosso lado feminino de mulher, amiga, amante, espoNZa e mãããããe. Dispenso. Isto é para entreter as vistinhas, a Brit tem anúncios mais catitas, produções de moda mais jeitosas. E tinha uma entrevista à Emma Watson (que nem era nada de jeito, mas prontes).
Mas aprendi uma coisa: não é que o Maiquél Córes afinal faz maluchas bem lindas? Tirando o facto de não serem para a minha carteira, até aposto que destas não se vende cá. Nem têm símbolo nem nada, pschhhh. Assim não vale. Ópois cuméquié c'a vaca do terceiro frente sabe que sou mais ryca e estilosa que ela, a invejosona?

terça-feira, 1 de setembro de 2015

And now, for something completely different

Bom, já que cá estamos, embora nessa de abrir hostilidades com a abordagem de mais um tema relevantíssimo e excepcionalmente fracturante. Embora? Embora.

E que tal chegar à conclusão que já chega de fazer sofrer as retinas, e decretar-se o decesso dos sapatos/sandálias/botas com sola de toucinho?
Sim, estas assim:



(olha alguém a prever este movimento e a tentar empandeirá-las no olx. boa sorte e tudo de bom, saudinha.)

Não, não é bonito, não favorece, não fica bem a ninguém. Pronto. A ver lá disso.

And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger

Sim, voltei. Ontem. Não, não ganhei o euromilhões, tenho de continuar a trabalhar para o sustento. Sim, ainda estou em estado de choque. Não, não estou feliz e até excitada com este novo período que se abre perante o meu horizonte, e não, não pretendo enfrentá-lo com mantras gostosos e motivadores. Sim, consegui passar de um tom branco-albino para um branco-norueguês. Não, não dormi/li/borreguei tudo o que queria/precisava. Sim, é melhor que nada. Não, não acho bem. Sim, tenho muito sono. Sim, desaprendi o ofício. Não, não me lembro como é que se faz o básico, quanto mais. Sim, a minha vida não interessa nada. Não, ninguém me perguntou nada. Sim, eu calo-me.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

domingo, 23 de agosto de 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Orange is the new black

É impressão minha, ou as maiquél córes destronaram as luís bitão no pedestal das preferências wannabe, titias e similares? Caneco, o mercado da contrafacção sempre a dar cartas.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Então pode ser um copinho de vinho branco

Ou a cola zero sem cafeína é uma grandecíssima aldrabice, ou temos aqui um problema de insónia crónica que uó-ó. A minha vida é uma tragédia numa rua sem flores.

Rosemary's baby

O problema da feiura interior é que não há sabão que a desencarda, lixívia que a branqueie, amaciador que a perfume.

The Itchy and Scratchy Show

Por razões que não vêm ao caso, calhou os mês bracinhos terem sido sujeitos a um bom período de exposição solar sem protector. Os resultados são menos que hilariantes, e acho que a minha relação com o astro rei entrou em processo litigioso. Já era a branquela de protector 50, agora segue-se a praia das nove às onze, chapéu de sol e tampinha de abas largas, tudo ao mesmo tempo, e cheia de sorte de não ter de adoptar o burkini. Sofro horrores.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Obladi oblada, life goes oooooonnnnnn

-então essas férias, Izzie?, bom, as da minha empregada devem estar a correr bem, obrigada.

-a próxima vez que alguém me vier com teorias parvas sobre a imigração, lembrem-se que eu sou a pessoa que conseguiu um maço de tabaco a um domingo, às nove da noite; só à terceira loja, amigos bengali, vamos lá a ver disso, luckies não deviam ser produto raro, mas kudos, de qualquer forma, amo-vos muito, beijocas.

-ainda pensei que devia haver alguma razão mística para cobrarem um euro e dez por uma bica no starbucks, mas afinal não.

-o desespero já era tal que estava preparada para largar trinta e muitos euros num furminator, mas no lidl encontrei um coiso parecido por cinco - 5 - cinco aerios, e funciona!, com o selo de aprovação de Sua Excelência Imperial, claro. 

-falando em pechinchas, as pessoas que têm preconceito em comprar no Martim Moniz lá saberão da sua vida, mas dois pares de brincos e dois conjuntos de pulseiras indianas por dezanove oitenta, I rest my case.

-como nas grandes superfícies dedicadas a bricolage em geral e jardinagem em nicho desconhecem o produto designado por tela geotextil, lá me desenrasquei com filtros de café; yay for me, e já me pagavam a peso de ouro como chefe de compras das ditas superfícies, é que eu até sei o que é uma adirondack chair e onde se arranja uns knock-off a preços mui jeitosos.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Fierce creatures

Pergunto-me se as pessoas que desejam ou defendem a morte, por vezes com requintes de malvadez, de um indivíduo que, cruel e deliberadamente, e para gozo próprio, causou a morte de um outro ser vivo, no caso, um animal, têm noção da contradição ética que a sua posição encerra. Entendo e/ou defendo a actuação deste fulano? Nem por sombras. Acho que qualquer tipo de actividade que causa sofrimento deliberado e injustificado noutro ser deva ser liminarmente proibida? Claríssimo. Mesmo sendo, por princípio, contra uma certa forma de justicialismo público, através de redes sociais, até consigo achar alguma piada à ironia de ter sido descoberto, e estar a ser encurralado, obrigado a deixar de exercer a sua profissão - aquela que lhe permitiu ter cinquenta mil bombocas para pagar subornar quem lhe proporcionasse a satisfação de perseguir, ferir e matar um bicho raro - nunca disse que sou boa pessoa. Mas defender que lhe devia acontecer o mesmo? Que devia morrer? Pior: que se pudesse, o matava, porque gente desta não faz falta? Ora, ora, ora. Não. Porque não me coloco no mesmo patamar sociopata de quem faz uma cena destas, ponto.
Já agora, novidades. O que não falta por aí são movimentos e ideologias que defendem a morte de certo tipo de "gente", por considerarem que a dita "gente" ofende certos princípios ou regras éticas que são bandeira desses movimentos. Estado islâmico, anyone? Ah, mas esses são maus, e os defensores dos bichinhos são bons. Sim, sim, convençam-se disso. Nós, os nossos ideais, somos tão bons como os meios que escolhemos para os impor, defender, divulgar. Julguei que já toda a gente sabia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Glengarry Glen Ross

Como eu ando aqui só para ajudar, mormente as gerações mai'novas, e como a minha vocação é a instrução, pus-me a matutar, a congeminar, e arranjei um teste muito, muito giro, para aferir a vossa capacidade de sobrevivência neste novel-mundo do empreendedorismo, em que, como todos sabemos, porque já nos disseram milhentas vezes - e não nos iam mentir, lá agora - o privado é que é - yay! - no privado é que encontramos verdadeiros e bons modelos de gestão - yay! - e no público - buuuuuu - não sabem nada de jeito, andam lá só a gastar os nossos ricos impostos - buuuuuu - aquela gente não só dá despesa, é despasa.
Ora cá vai.

Problema: Asdrúbal Ernestino, vigoroso e dedicado trabalhador in/diferenciado, tem seis empreitadas para realizar. Uma delas, especialmente complexa, tomará cinco dias úteis; nas restantes, não gastará mais que um dia útil em cada.

a) É segunda feira. Que empreitada/s deverá Asdrúbal Ernestino realizar nesta semana? Justifique.

b) Pondere agora a seguinte variável: Asdrúbal Ernestino aufere vencimento mensal, cujo valor não sofre qualquer alteração conforme finalize cinco ou uma empreitada. A sua resposta mantém-se? Justifique, e contraponha com a hipótese de Asdrúbal Ernestino auferir vencimento à tarefa (igual para cada empreitada).

c) Considere agora a possibilidade de a empreitada mais complexa ser também a que foi pedida em primeiro lugar. Como deverá agir Asdrúbal Ernestino? Considere as hipóteses de auferir vencimento fixo, ou ser pago à tarefa.

d) Admitamos que Asdrúbal Ernestino aufere vencimento fixo, mas é fortemente pressionado pelas chefias a apresentar resultados, e que estes são analisados estatisticamente. Como priorizaria o seu trabalho, no lugar de Asdrúbal Ernestino? Justifique.

e) Hipotize agora que Asdrúbal Ernestino, além da pressão dos resultados, aufere, para além do salário fixo, ainda uma remuneração variável, um incentivo em função dos resultados, medidos estes pela redução estatística das tarefas pendentes. Mantém a resposta anterior? Justifique.

f) Finalmente, considere, por hipótese, que Asdrúbal Ernestino trabalha num serviço público essencial, aufere vencimento fixo sem incentivos, é fortemente pressionado pelas chefias a apresentar resultados, a empreitada mais complexa foi pedida em primeiro lugar, e da sua finalização depende a concretização de um interesse vital. A conjugação destas variáveis altera a sua resposta? Justifique.

E pronto, é isto.
Pontos extra a quem conseguir:
i) Animar o Asdrúbal Ernestino;
ii) Convencer o Asdrúbal Ernestino que a sua vida laboral faz algum sentido e tem importância;
iii) Demover o Asdrúbal Ernestino de se jogar do último andar.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Titanic

Um gajo compra casa numa zona central, verdade, mas ali na parte mais recuada: rua secundaríssima, de sentido único, pouquíssimo trânsito, um sossego. Um gajo dorme ali virado para a rua, e um gajo aprecia oxigénio em estado novo; logo, um gajo tem janelas abertas desde que pode até dar. Um dia, um gajo apercebe-se que foi ultrapassado pelos acontecimentos, e isso sucede mais ou menos quando, após o compreensível e até apreciado banzé do camião do lixo - que se traduz, por norma, num já apagavas a luz e dormias - o barulho se mantém. Não de trânsito automóvel, mas do outro, bem pior: gente. Acima-abaixo, mas, a partir de certa hora, mais abaixo. Uma Babel, que a tal gente fala de tudo: nativês, brasileirês, inglês, italianês, francês. P#ta-que-pariu-o-airbnb-os-hostels-e-o-falo-que-os-fecunde. Outro dia, o sobressalto: estava quase-quase a vencer a habitual insónia e sou despertada do doce resvalar no ó-ó por um teutónico aos berros na rua. E isto pouco depois daquela cena c'a Grécia, pronto, começou a invasão. Afinal não, foi só exagero de uma pessoa muito, muito cansada, muito, muito ensonada e, porque não dizê-lo, muito, muito germanofóbica.

Anyhoo, pus-me eu a pensar, ou isto perde o gostinho rústico-patusco-colonial e a estrangeirada abranda, ou começam a augar a superbock, ou eu mudo o quarto. E zás, desperta a musa Kridumudêkasias que habita em mim. É isso mesmo: vou mudar o quarto. Afinal, porquê nesta divisão, se tenho outra semi-interior, sugadita, mais pequena, tão adequada, que serve de depósito a um exagerado espólio (tralha)? Caraças, ter aqui um roupeiro não me deterá: mudam-se as portas do dito para uma coisa menos roupeiral, estante, uma chaise longue, aquele cadeirão, o tapete dacolá. Não. E o que faço à mobília da outra divisão? Desfazer-me dela? Olha quem. Faço o quarto no armazém, passo a estante e cama-sofá deste para o escritório, fica uma espécie de zona relax e acomodação extra, o escritório passa para o agora-quarto, e componho ainda no futuro-ex-quarto uma zona de estar e leitura. Eureka! Brilhante: passo a esboços e medidas, fita métrica em punho. Cabe tudo, hurra!

E pronto. O problema é o que se segue à euforia, a saber, o planeamento: assim comássim precisava de pintar o futuro-ex-quarto, pinta-se também o futuro-ex-escritório e o futuro-quarto. Zás, já estou um bocadinho cansada. Até porque, entretanto, ponho-me a pensar na prateleirada já fixa nas paredes do futuro-quarto actual armazém, vão ser uns 459 buracos para betumar, e uma resma de tábuas a dar destino. No problem, já sei onde vou por tudo. Penso, de seguida, no avc que provocarei a papai, quando lhe mencionar planos de voltar a furar tudo o que é preciso furar, e no meu avc, depois de andar de fita métrica e bolha de nível a marcar tudo. Mas há pior: esvaziar duas estantes. Grandotas. Cheiotas. Enfiar tudo em caixotes. Desmontar minimamente as estantes - alguns corpos passarão nas portas, quero crer, e creio com muita força, a fé não move estantes mas ajudará. E, durante as pinturas, onde é que eu durmo? Sim, também é preciso desmontar a cama, esvaziando previamente o que está guardado no sommier, e, para ser uma coisa mesmo bem feita, aproveitava-se para afagar o chão. Ai mãe. Não, que quando lhe contar estes planos, nem a rica mãe me vai valer. Provavelmente deserda-me, só para eu aprender a não ser parva.

Ocorreu-me isto tudo há coisa de dez dias e é oficial: sinto-me mal. Muito doente, aliás. Fraquinha, fraquinha. Bom, fica para o ano. Boa.

[eu queria é ser ryca para me poder dar ao luxo de empandeirar uma série de mobília e começar de novo, mas a) sou forreta; b) a mobília é uma boa mobília, não arranjo equivalente pelo que estou disposta a pagar, e substituir cenas boas por cenas ikea é parvo; c) aposto que ninguém da família tem serventia para meus cacarecos. suspiros. vou jogar no eurocoiso.]

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Shiny happy people

- Yay! Calor! Solinho! Calções! Vestidinhos leves! Saldos fantáááásticos! Não. Nope. Siga.

- Falando de solinho, a publicidade pode-nos matraquear até à exaustão, as 'ssoas menitas até nos podem garantir felicidade eterna e constante e etc., mas não recomendava piz buin a ninguém, ou, pelo menos, a alguém com pele esquisitinha e atópica. Foram uns quatro dias de intensa comichão e coçanço, até ver a luz.

- Por amor da santinha alguém me garanta que o tricot e crochet estão in, para que eu possa discorrer sobre a problemática das agulhas sem número impresso e me gabar de já conseguir tricotar em círculo (yay!), sem me sentir um nadinha deslocada e anacrónica.

- A nova imagem do Tiny-Price está bem catita, o que de certa forma (me) compensa o facto de a Dica da Semana corrente não ter satisfeito as habituais expectativas.

- A propósito de imprensa de cólidade, um jornalista da Visão fez uma caixa onde sumariava o tema do artigo, a saber, o tráfego de mulheres. Ainda não me decidi se inicio uma colecta para lhes oferecer um dicionário, ou se deixe de matutar nisso e vá antes cedo para casa, antes que o tráfico ali nas avenidas se intensifique.

- Ontem a chegar tarde e más horas à minha vizinhança, um gatito minúsculo atravessou-se à frente do carro. Foficho que doía, tive o súbito impulso de largar o carro, ir atrás dele, e levá-lo lá para casa. Estás bonita, estás. Deteve-me a imagem da senhora gata residente, com a xícara de chá levantada, presa entre indicador e polegar, e ar horrorizado. Sim, aconteceria. Sim, estás bonita, estás.

- Li uma notícia que informava que, a manter-se o ritmo de consumo actual, em 2020 não haverá chocolate. Chocante, eu sei. Parem. Por favor. Há pessoas muito doentes que precisam daquilo para viver, não querem esse peso na vossa consciência.

- Agora lembrei-me de outra: semelhante a / parecido com. Repitam 50 vezes todos os dias, logo ao acordar. Agradecida.

- Há dias em que gostava muito de ter nascido tolinha, a acreditar em mantras e soluções impressas em letra munita com fundos floridos. Talvez isso me resolvesse o sempiterno problema existencial de saber diferenciar estados de felicidade daquilo do "ser" feliz. Ninguém "é" feliz. Um terço da nossa vida é passada a dormir, e ninguém pode "ser" um determinado estado de espírito sem consciência. Ganhei. Não ganhei nada, se fosse tolinha e não pensasse nestas merdas é que ganhava alguma coisa. Tempo, por exemplo, tempo para "ser" feliz, segundo alguns teóricos. Ou cozinhar coisas bonitas e fotogénicas. Que iria comer antes de fotografar, anyhoo.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Words don't come easy

Dezoito páginas e cerca de cinco mil e oitocentas palavras depois, resolvido um assunto que me andava a pesar ao pescoço há mais tempo que o que merecia. Alívio? Nem por isso. A coisa resolvia-se tão bem com uma simples frase, seis palavras: eu avisei que ia dar merda.
E pronto, se eu ganhasse a metro, estava milionária. Lucky me.

Shameless

Eu cá não sei, mas por mim tinha vergonha de anunciar, para venda, uma casa ali upa-upa acima do meio milhão, e nas fotografias das casas de banho ser bem visível o surro nas juntas da banheira e poliban.


[sou uma grande fã de sites de imobiliário, porque a) gosto de sofrer e encontrar várias casas de sonho que nunca poderia pagar; b) uma pessoa tira ideias para pequenas obras de remodelação e decoração. é pena é alguns proprietários posh ainda não terem descoberto a lixívia.)

terça-feira, 21 de julho de 2015

I always pass on good advice*

[ *It is the only thing to do with it. It is never of any use to oneself.]

Da minha observação diária do comportamento da espécie, derivado do convívio forçado com as enchentes de turistas que assomam a esta capital soalheira, tenho notado que deve haver graves lacunas nos guias turísticos que esta gente consulta antes de nos visitar. Donde, e porque sou uma pessoa feita de altruísmo, sempre disponível para ajudar o próximo, e porque, principalmente, gostava de não chegar a pontos de loucura que me levem a dar vazão à minha cada vez mais premente compulsão de empurrar turistas para a linha do metro / debaixo de um camião, ofereço-me para preencher tais lacunas, fazendo o rascunho do panfleto que realmente interessa, aquele que deveria ser distribuído no aeroporto, cais de Santa Apolónia, estações de comboios.

1 - Não comprem azulejos antigos. Não disponho de dados fiáveis, mas apostava de 99% têm origem em actos de vandalismo ou gamanço puro. Também não levam pedras de calçada ou uma nica de pedra dos Jerónimos convosco, pois não? Então não comprem azulejos antigos.

2 - Respeite o indígena. Não o irrite, desconsidere, apouque. O povo autóctone ainda não é espécie protegida, mas merece o seu carinho. Além de que é muito mais interessante e patusco se observado no seu habitat natural, sem interferência hostil do observador. Esta é uma premissa básica, muitas das regras seguinte derivarão desta, mas imbua-se de espírito David Attenborough: você não se poria a correr à frente da leoa e levava-lhe a corça, pois não? Não, era má ideia. Interfira o menos possível, e de forma amistosa. Atitudes colonialistas são tão last century.

3 - Não mimetize certos hábitos do indígena. Meu amigo turista: atravessar a rua com sinal vermelho para peões parece fácil, mas não é. Trata-se de uma ciência em que somos formados desde que adquirimos uso das pernas. Começamos pelas mãos de nossos extremosos pais e, um dia, já adquiridos todos os conhecimentos teórico-práticos, é que nos aventuramos. Vocês chegaram ontem, não conhecem os segundos de pausa entre um sinal fechar e outro abrir, ignoram a fórmula de cálculo ruído do arranque/tempo até o carro aqui chegar, não se metam nisso.

4 - Não se plante com ar pasmado em locais de passagem. Desenvolvendo a regra 2, há que precisar que, embora não tenha fama disso, o indígena trabalha. E desloca-se para o local onde. O indígena usa meios de transporte, e precisa de atravessar a plataforma do metro, aquela onde vós estais estacionados, isolados ou em grupo, com o/s fideputa/s do/s trolley/s no meio do caminho. Idem aspas para passeios, escadas rolantes ou não, enfim.

5 - Desodorizante, por favor. Se está familiarizado com o uso da substância, note que devido ao clima notoriamente mais quente e húmido que aquele a que está habituado, precisará de uma dose superior à habitual. Se não tem o hábito de usar tal produto, porque acha que não precisa, duas notas: a) precisa sim senhor/a; b) use o dobro do que acha razoável. Recomenda-se também pelo menos um banho diário, para remoção de suores bafientos, e muda diária de roupa que tenha estado em contacto com ditos suores. Contribua para um ambiente são.

6 - Compre um bilhete de transportes, daqueles verdinhos, recarregável. Por incrível que pareça, o indígena usa os transportes públicos (sim!, eléctrico incluído!) para coisinhas do seu dia-a-dia (ver ponto 4), e as 'ssoas têm mais que fazer que esperar que vocelências contem trocos e comprem o bilhete ao motorista (ver ponto 2). O indígena já esperou pelo transporte, não precisa de esperar que os emplastros se amanhem para usar o dito transporte. O indígena irrita-se com a espera, não o provoque.

7 - Use protector solar. Sim, a estrela que nos alumia, solinho de seu nome, é a mesma que vedes na vossa terra, mas aqui brilha mais forte. Nós, que nascemos aqui, e habituados que estamos a ser tisnados desde nascença, já temos peles mais ou menos habituadas, mas mesmo assim há quem seja sensato e se proteja. Para vossas alvas peles, menos que factor 50 é perigo de morte, no rosto aconselha-se mesmo ecrã total. E cubram as cabeças, santo Deus. E andem pela sombra. E não se estendam a apanhar banhos de sol nas horas mais quentes. Que aflição.

(continua?)
(aceitam-se sugestões)

Sugestões de Rita (e todas muito pertinentes, vou acrescentar só uma coisinha na questão dos recibos)

8- Não vá jantar a uma casa de fados, vá a uma casa de fados depois do jantar. Nenhuma delas é conhecida pela sua cozinha, pelo que não faz sentido pagar por uma refeição corrente o preço de um restaurante com várias estrelas Michelin. Para além disso, o facto de estar aberta depois da hora do jantar ajuda a distinguir a verdadeira casa de fados do antro para turistas. 

9- (decorre também de dois)
Por estranho que pareça, muitos dos nativos não querem aparecer no seu feed de instagram, quer sejam simples traunseuntes ou velhotes very typical. Por isso, se quer fotografar um local, deixe as pessoas passar primeiro, se quer fotografar alguém, peça autorização. E aceite uma negativa com naturalidade, as pessoas não são atrações turísticas. 

10- Se alugou uma casa a um privado, peça recibo. E confirme, antes de reservar, de que vai receber um recibo no fim. Não contribua para a economia paralela ao sustentar rendimentos não tributados a atividades comerciais que estão a por em risco as comunidades dos bairros históricos. Se ficar num prédio residencial, respeite o horário de ruído. [acrescento pedir recibo também ao pessoal dos tuk tuk, pelas mesmíssimas razões]

11- Não compre marijuana a vendedores de rua na Baixa ou no Bairro Alto, a única razão para não serem detidos pela polícia é o facto de venderem apenas uma very typical mistura de ervas mediterrâneas. 

12- Não leve Pastéis de Belém como recordação - alguns bolos portugueses estão comestíveis um ou dois dias depois mas isto não se aplica aos Pastéis de Belém (independentemente dos seus méritos relativos, que já discuti noutro sítio há muitos anos - resumo: não são os melhores pastéis de Nata nem nada que se pareça mas sim, quentes também como dois ou três - basta dar uma dentada duas ou três horas depois para perceber que não vai levar ao seus amigos uma recordação que evoque a experiência que teve na confeitaria). Opte por bolos mais secos, como as queijadas de Sintra, com shelf life mais longa, como os ovos moles (se a viagem for exclusivamente de avião ou não muito longa) ou por queijos ou enchidos.

13 (e por falar nisso)-Prove os queijos. No plural. 

14- Evite viajar nas horas de ponta, é mais desconfortável para si e mais irritante para os locais. Se quer ir cedo para evitar as multidões, vá antes das 08:00, a partir das 09:00 vai andar em transportes sobrelotados e chegar às atrações que quer visitar no momento em que as filas são mais longas - justamente o que queria evitar. 

15- Se estiver numa walking tour, certifique-se de que o seu grupo não está a impedir a passagem dos transeuntes e moradores. 

16- Não coma sardinhas no Inverno. 


Sugestão de Ana:

17 - Não se ponham plantados à frente das portas das carruagens de metro, pois se quem está no metro não consegue sair vocês também não conseguirão entrar!
(infelizmente esta serve também para muitos indígenas que faltaram às aulas de física e não sabem que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo...)

Sugestão de Isabel:

18 - Cuidai que a nossa cerveja é mais forte que à que estais habituados. Bebei com moderação e poupai-nos a espectáculos pouco dignificantes. Além de que rosetas etílicas em peles translúcidas são muito pouco atraentes!

Sugestão de Tum Tum:

19 - Evite empurrar o/a nativo/a para baixo do eléctrico! Evite abalroar nativos baixinhos. Vós sois grandes, pá. Muito grandes. Maiores que nós, vá. Tende dó.


(está aqui o guia definitivo, quer-me parecer)