sexta-feira, 20 de abril de 2018

Where do they all belong?

À conta do tema e cumbersé no post abaixo, musicóles para aqui, musicóles para ali, dei por mim num momento facepalm ao me dar conta que esqueci de mencionar (e com as devidas honras) aquele que é talvez!, quiçá!, o filme musical que mais me influenciou, marcou, emocionou, alegrou, e cujos temas ainda hoje cantarolo tantas vezes nesta cabecita de vento.

Sim, sim, o Yellow Submarine. Não faço ideia da idade que teria quando o vi pela primeira vez, mas era criança, não teria ainda dez anos, julgo, foi de certeza no tempo dos dois canais de tv. Fui levada por um conjunto de factores que eram total e completamente enganosos: desenhos animados + cantoria, ainda por cima dos Beatles (tooooda a gente sabia quem eram os Beatles, tooooda a gente já tinha ouvido uma ou cinco deles, toooda a gente gostava dos Beatles, incluindo a minha heroína de papel, a Mafaldinha). Tinha que ver, e fiquei a ver.

E tau, não era nada, nada o que esperava. Os desenhos, pá, os desenhos animados não eram nada do costume! Mesmo para uma garota habituada a todos os experimentalismos koniec apresentados pelo querido Vasco Granja, e que já levava no curriculum inúmeras visualizações de O Bichinho Gaspar (ainda alguém se lembra deste desenho animado?), a coisa mais fora que já tinha visto, aquilo era muito, muito bizarro. Muito colorido e histriónico, ou como sei agora, psicadélico. Que raios. Mas agarrou-me logo, não sei se graças aos Blue Meanies, se à Glove, dear Glove. E depois aquele pedaço mágico, em que o submarino entra num mundo real de recortes monocromáticos e em movimento aflitivamente repetitivo, e entra o Eleanor Rigby. Céus, alguma coisa acordou e nunca mais adormeceu em mim. All the lonely people. All the lonely people. De onde vêm, onde pertencem. E a música, credo, a música, a coisa mais bela, melódica, una de sempre. Uma sinfonia à e de solidão.


Havia quem soubesse de nós, quem percebesse estas existências. A dos eternamente sós num lugarzinho dentro de si. Que não sabem de onde vêm, para onde vão, onde pertencem. Num mundo de bulício e rebuliço estridente, a constante da solidão.
Parece triste, mas não é. Não é triste que uma garota tão nova soubesse identificar o sentimento, passados todos estes anos sei que não seria, decerto, caso único. E não é triste porque naquela música encontra-se conforto, o calor do reconhecimento. Além de que, apesar de all the lonely people, há uma casa onde um capitão de marinha bate à porta, gritando help!, help!, e onde recebe de resposta thanks, we don't need any. Ainda hoje me rio, só de pensar nessa cena. E há um submarino (amarelo!), uma missão de salvamento - que no caminho também inclui salvar um nowhere man que também reconhecemos e tememos um dia sejamos nós - uma terra de onde foi abolida a alegria e a música, mas esta volta graças à Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, YAY!, os Blue Meanies derrotados. E continuam a ser derrotados, hoje e sempre, nem que seja à força, à bruta, ao estalo. E pode-se sempre começar com esta aqui, do mesmo bando de despenteados. Recomendo vivamente. It's all in the mind, dizia o George no filme, e a mind é nossa, fazemos com ela o que nos apetecer, ora.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Como perder duas horas e oito minutos desta já curta vida

Empenhem-se num acto de fé, daqueles tipo "caraças, havia boas críticas e até foi nomeado", e vejam o La La Land.
Que. Grandecíssima. Seca. E. Refinadíssima. Bosta.

Lá a ver, às postas, pequeninas, a ver se consegue mastigar melhor.

"Ai, é uma história menita e remântica".
Então não é. Está para a complexidade dramática e romântica como aquelas novelas em papel jornal da colecção Arlequim*. Passo.

"Ai, tem o Ryan Gosling e a Emma Stone, e fazem um casal tan menito".
Sim senhora, o Ryan é um belo exemplo do seu género, mas para quem já mostrou do que é capaz em "Lars e e Verdadeiro amor", não sei que lhe deu para se meter nisto. E há pares de jarras também muito lindos, o que não significa que façam uma boa decoração.

"Ai, tu és mazé uma intelequetualoide e não gostas é de musicóles"
Ai não que não gosto. Até mais do que seria decente confessar. Admito: sou uma parolona por musicais. Vem-me de miúda: já vi o "Música no Coração" tantas vezes que nem as consigo contar. E trauteio o My Favorite Things em situações críticas da vida, não necessariamente trovoada, gosto de trovoada. E canto muitas vezes a me mate "How do You Solve a Problem Like Maria", quando ele asneira. E nem me façam lembrar do Mary Poppins, que nunca mais saio daqui. E depois vocês precisavam de uma Spoon full of Sugar para ler o post até ao fim.

"Ai, não percebestes nada, é uma homenagem, um back memory lane, de quando Óliuode era um sítio para sonhar e assim"
Uma homage, dizeis vós? (puxa fumaça do cachimbo imaginário). Ó valhamedeuz. Homenagem era as pessoas conhecerem os clássicos onde este pretende colar, ou, como dizeis, homenagear, para verem que é como oferecer um molhinho de trevos e azedas a quem tem um roseiral. Mas já lá vamos.

"Ai, a música é muita winda, e as cenas de dança também"
Drogais-vos? Ou nunca visteis um musical a sério, foi? Já disse que sou uma parolona (embora não necessariamente uma especialista) por musicais? E que passei muita féria escolar a papar Fred Astaire e Ginger Rogers? Sapatear é isto. E isto, se quisermos avançar para a outra lenda, Gene Kelly. E quereis mais romântico, e com música que, por si só, é um regalo? Então pegai no balde de pipocas e gritai Kelly!, Gershwin! Isto sim, é romântico. E se não amais por aí além a dança, que tal a natação? Yay Esther Williams!
Agora a sério, qual homage?  Amerdalharam os clássicos, isso sim. Ou tentaram, que não se consegue.
E se não sois de lamechices, bom, não falta escolha. Também temos o bizarro. O musical no ácido - e acho que não é só figurativamente - como este (não encontro nenhum clip completo , buá), com a assinatura Brian de Palma. Se quiserem um bizarro mais user friendly, mais icónico e não tão obscuro, bom, é dar uma chance ao Dr. Frank-N-Furter, tão bom, pá.

Até o Chicago, nem que seja pelo Cell Block Tango, dá quinze a zero a este La La Blah.



*sim, eu li uma. por pura curiosidade. gasto muito mal o tempo que me foi dado nesta existência. mas ópois estou habilitada a dizer mal. que estou.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

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(a trabalhar uma pessoa não chega lá, pois não; sem embargo, submeti hoje a declaração de irs e a simulação de reembolso é muitíssimo animadora. dá para muita carcaça e pacote de manteiga, ó se dá. e toblerones daqueles tamanho jumbo? ui.)

terça-feira, 3 de abril de 2018

Menina não entra

Estava eu aborrecida que dava dó, e com disponibilidade para bater perna numa catedral do consumo, dito e feito, fui. Calha que tal local tem várias lojas dedicadas ao calçado desportivo, e eu ando há que séculos augada por um téne amarelo, ou verde, vá, em não havendo do primeiro.
Loja um: népias, só os adidas da moda e mais outros em branquinho, já tenho do género.
Loja dois: meu petit coeur acelera, lá estão eles, os puminhas 'marelos!, yay!, ó senhor, ó senhor, é disto em 38! Não há. Desses aí - modelos coloridos - só vem de 40 para cima. 38 só estes - os sensaborões, consensuais adidas, pumas e outros pretos e azul escuro. Zanguei. Inquiri: então não há isto em colecção de senhora, ou não mandam vir números baixos, ou quê? Não mandam vir, não sabe porquê. Amuei.
Loja três (por acaso logo ao lado): yay! uma prateleira cheia de ténes coloridos!, tan giros!, e há 'marelos!, yay! e entretanto levanto a cabeça e vejo, encimando o expositor em tábua rústico-chique, a palavrinha "MEN". Olha, que caraças. olho para o lado contrário, confiro, é "WOMEN". E é vómito, também. Ele há branquinho, ele há cor-de-rosinha, ele há verde-auguinha, ele há zulinho-bebé, ele há o tal de nude - para pessoas como eu parecerem descalças, e também marelinho, mas clarinho e da pele ralinha da adidas, que ainda por cima anda nos pés de toda a gente (já num quero, pertanto). Cores assim para o vivaço, e que, já agora, não fiquem todas cagadas a uma semana de uso, nadinha.
Quase manifestei, quase birrei, quase chorei.
Ponderei pesquisar internetes por um zingarelho esticador de pés, a ver se atinjo os almejados e não discriminados 40. Mas, em vez disso, fui-me a uma loja online. Daquelas onde certos modelos existem desde o 36 ao 47. Como rondei muito o bicho pretendido, mandaram-me um cupão, nesse dia. E tau, estão a caminho.
Piretes, piretes a rodos para os caralhetes do comércio local e lojas físicas. Hão-de ter muita freguesia, com essas manias. Vocêzes e os outros que só vendem meias com menecos a partir do 41. Nas internetes custam o mesmo e há para todos. Feios.

quinta-feira, 29 de março de 2018

The Cat Diaries (13)

Então e a pinxeja? A menina? A do meio? A bolachinha?
Está óptima, obrigada.
Pronto, era só isto. Não era nada. A coija boa, embora ainda tenha tiques e toques de medo, de vez em quando ainda se solte um instinto primitivo de, vendo-nos a caminhar na sua direcção, dar um pulo e fugir, está um doce que só visto.
Começou, primeiro, por demonstrar excelentes e meritórias qualidades domésticas, desde que descobriu que mantinha é melhor que chão, e se estiver a dita mantinha em cima de superfície fofa, olaré.



Curtindo o fofinho, numa boa

Seguiu apreciando valentemente o quentinho que se liberta daquele objecto estranho a que os humanos chamam radiador (ligado em permanência, junto às caminhas), ou do outro, o melhor amigo do mano, que irradia cá um calorzinho que até se consola.
O primeiro ronrom chegou perto do final do ano passado, em reacção a umas festinhas gostosas. De início, éramos nós a tomar a iniciativa: menina deitada qual odalisca, na sua caminha fofa e macia, e nós a fazer uns afagos (depois de pedir licença, que lá em casa é tudo gente muito educada). E ela gostou. Foi-se habituando, e gostou. Aos poucos fomos alongando as sessões de mimo e, um belo dia, temos ronrom. Não posso jurar, mas tenho quase a certeza que foi com me mate (traidora!, bandida!, vendida!).



Dona do pedaço

Daí em diante a evolução tem sido digna de nota. Se já se demonstrava uma garota muito curiosa, que de quando em vez apanhávamos a espreitar o que estávamos a fazer, passou a fazer aproximações deliberadas, como que pedindo atenção, especialmente a ele (a dengosa!, a serigaita!).

Fazendo o stretch em frente a papás babados

Festas, festas, afasta um pouco, aproxima de novo, festas, festas. Um dia demos com a biscas deitada no sofá, em cima de uma almofada. Quando nos viu saltou para o chão; mas voltou ao mesmo poiso. E começou as rondas: nós sentados, e lá vem ela, um miadito tímido, festas, festas, e dá meia volta. Até ao dia em que salta para cima do sofá quando lá estamos sentados. E nós aos gritos por dentro, soltando um foguetório. Salta para sofá, festas, salta para o chão, vai embora. Mas um dia fica. Julgo que se passou comigo: eu sentada no lugar do costume, ao lado uma almofada (A almofada), e ela salta, sobe para a almofada e aceita, não, pede festas. E deita-se. Ajeita-se e fica. E eu deixo-a ficar. Vai repetindo a rotina, mas só com um de nós no sofá. Um dia, adormece na mufadinha. Neste dia:


Coijamáboa. Muxigata dos papás. Lontrinha que tarda nada está a senhas de racionamento.

E pronto, o resto é história. Entretanto já se decidiu que estar no sofá, entre papá-mamã, não é má ideia, até porque há o dobro das mãos festeiras à disposição. Aliás, já reclama o seu lugar, na sua almofada (A almofada), e todas as noites há sessão de mimo, com muita festa, ronrom, escovadela (e bem precisa, que larga pelo que é uma loucura), e amassar. Também já é frequente ouvi-la ronronar lá de uma das suas caminhas, onde se enrola e adormece, depois de amassar devidamente. E brinca, brinca muito. É uma campeã de bola: seja de papel, alumínio ou corda, faz uns passes, uns dribles, uns remates que é um espanto.

Ferradinha

O único problema é que come como uma condenada. Por gulodice, por não ter mais nada para fazer, por enfado, come, come, come. Já sabe a que horas é o pequeno almoço (um terço de gourmet gold, a dividir entre todos) e reclama se atrasa (o que acontece quando o mano mai'velho demora o passeio matinal). Tem me mate na palma da patinha, e não digo que me tem a mim também porque o blog é meu, e aqui tenho o direito de definir quem sou, e o que sou é uma cabra insensível.

quinta-feira, 22 de março de 2018

The Cat Diaries (12)

Epá, que vergonha: fui aos arquivos e desde Novembro que não dou notícias dos bichanos. Tarda nada ainda começa o boato que os vendi para peles, ou ando a degustar coelho à caçador todos os domingos.
Não, não: descansai, almas inquietas. Confirmo que no news is good news, os putos estão bem. E nós também vamos andando, obrigado por perguntarem.

Começando pelo mai'velho, ainda continua um bocado anti-social, não gosta especialmente que lhe toquem, e ainda olha para nós com um laivo de desprezo. Excepto quando é hora da paparoca, o vendido. Continua a dar as suas voltas pelos logradouros (não há ligação à rua, descansai; e é nestes pastos verdes que vive uma colónia que está muito bem tratada. alguns deles com muitas semelhanças com os nossos, suspeito que são todos filhos do mesmo pai). O magano planta-se à porta da cozinha, de manhã e à tardinha, e aberta esta, lá vai. Tem como poiso preferido uma árvore que vemos da varanda, mas não vira costas a muro ou talude nenhum. É feliz assim, e fica manifestamente impaciente e irritado se está muito tempo fechado em casa. Afinal viveu dois anos na rua, não é em menos de um ano que mudará de hábitos.

No tempo mais frio regrávamos as saídas, porque de início ele não respondia aos chamados e a única solução era deixá-lo lá fora (e lá íamos nós, a sangrar por dentro). Portanto só saía quando vinha a empregada, que lhe podia abrir a porta; quando chegávamos a casa já estava no seu posto de comando, a fazer a sesta.

(sestinha descansada, e só a metro e meio de mamãe!)

Por vontade própria, não sai quando chove: vai à varanda, constata a pluviosidade, olha para cima com ar de q'esta merda, e volta para dentro. No último mês já responde aos chamados, até porque criámos uma rotina: antes de sair de casa, latinha de mousse a dividir pelos três, e o bandidão não quer perder o pequeno almoço. Ele há dias em que, se demora, a Scully vai chamá-lo, a gulosona.

Ando a tentar criar outra rotina, a saber, chego a casa e, além de o cumprimentar, estendo-lhe os dedos. Conforme a reacção faço uma festa, ou não. Se estiver simpático e pelos ajustes, há escovadela, o rapaz não desgosta. Mal manifeste desconforto, pára-se.

Entretanto, e para além de uma paciência de santo para aturar o Max, continua com muito bom feitio. Pensamos que já considera aquela como a sua casa. Adora de paixão o aquecedor, e, volta e meia, em dias especialmente frios, encosta-se ao dito com ar suplicante, mal chegamos a casa. Ok, ok, percebido.

(Fox Mulder e o seu melhor amigo, Ótecepote da Silva)

Já ter a lata de pedinchar, e andar de cauda erguida são muito bons sinais. Embora ainda se amedronte e fuja todo descordenado se entende que estamos demasiado perto. Mas o maior e mais surpreendente sinal de socialização, manifestou-o esta semana. Embora os almofadões onde os criaturos dormem as suas sestas estejam sempre cobertos por mantas polares, e estas sejam regularmente lavadas, decidi esta semana lavar também os almofadões, para aproveitar esta trégua no dilúvio. No mesmo sítio pus um almofadão mêmo, mêmo fofo e jeitoso que comprei no ikea, que cobri com uma das suas mantas. Pá. A cara dele. Eu sentada no sofá, e veio plantar-se à minha frente, sentado no tapete, com o ar de reprovação mais intenso que se imagine. E ainda não se deitou lá.

(olhar de vocês não mandam nada, eu não votei em vocês)

Enfim, devagar, devagarinho. Já ando a sofrer por antecipação com a renovação das vacinas, mas para isso é que se inventou o vet tranquil.

terça-feira, 20 de março de 2018

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Aquele momento em que começas o dia a responder a um polícia de trânsito, e a rematar a interacção com um "deve ser, deve".
Ou preciso de dormir mais, ou tenho de passar a tomar café antes de sair de casa, ou ando já com um piquinho de demência, ou então não é defeito, é feitio.


[era um gratificado. e eu não aceito lições de trânsito de um mercenário fardado, derivado à minha velha opinião sobre o Estado comercializar serviços de segurança e ordem pública, emprestando a actos privados uma aparência de conformidade legal glaceada de autoridade pública. anyhoo, não o vi sacar de bloco de notas nem tomar nota de nada, o que me poupa a trabalheira de ir estudar se um agente de autoridade em serviço gratificado pode autuar. cheira-me que não. e podendo, we'll always have constituição.]

segunda-feira, 19 de março de 2018

Assessoria on steroids

Mamãe teve a gentileza de me informar que, da próxima vez que pretender trocar de carro, vai comigo. Não foi bem assim, mas adoro um bom e retumbante eufemismo. A conversa nem era sobre carros, mas sobre trânsito; eu constato que mesmo com os violentos aguaceiros da semana passada o pessoal muda de fila de trânsito sem pisca, se encosta, força entradas, e ouço um "quando fores comprar outro carro vou contigo".

Não é preciso muita hermenêutica, apenas conhecer a interlocutora (47 anos de experiência, e devia ser curriculum relevante) para perceber que a) não, não era uma oferta de companhia, para o caso de me sentir sozinha e ignorada num stand; b) não, não era uma oferta de ajuda para um evento a longo prazo e/ou hipotético (o último veículo foi trocado com dez anos, ainda falta um pedaço para este chegar lá); c) e não - esta até poderá ser surpreendente - era uma demonstração de falta de confiança na minha capacidade de entender mecanês transmitido via comercialês.

O que mamãe quis dizer, muito resumidamente: a) tens de trocar de carro, depressinha; b) eu vou contigo, para não voltares a fazer asneira. E a asneira nem é comprar uma viatura automóvel a) acima das minhas possibilidades, que sou brutalmente forreta com carros; b) que não preste, apesar de, até ao presente, ter tido sempre muito azar nos lemons que me calharam; c) escolher uma cor feia. Não. O que senhora minha mãe quer é que eu compre um carro a "sério", por oposição às caixinhas de fósforos por que insisto em me apaixonar. Sim, para mamãe um yaris entra nessa categoria. Para mim representou um compromisso por um carro de "pessoa crescida", ou seja, cansativamente indistinto, banalmente citadino, aborrecidamente prático. O que eu queria, mas queria mesmo, era um Fiat 600! Fofão. Lindão. De cor menta. Não! 'marelo. Não! 'zul cueca. Mas lá está, sou uma pessoa crescida, a casa não tem arrecadação, e preciso de uma bagageira onde caibam as embalagens de skip compradas a 60%, mais o amaciador em promoção, o carrinho de transporte, cangalhada vária, uma ou duas sacas de areia dos bichos, e ainda dê para enfiar as compras da semana. Não podia ser. Fui-me então à toyota, com o coração a arrastar pela calçada; lá chegada, obriguei-me a cortejar o yaya, mas sempre de olhinho grande, cobiçoso, no aygozinho, ai tan giro, ai tan mimosinho, ai tan compactozinho, ai tan fonfon. Enchi-me de força, porque já sou cres-ci-da!, e pronto, tratei do assunto. Saída do strand, ainda fui dar umas miradas tristes na montra em frente, que o opelzinho adam é tan crido, ó, com duas corzinhas, coijinha má-boa. Mas mantive a verticalidade, o propósito: comprei o sacana chato e aborrecente.

E, nem dois anos corridos, já andava a salivar pelo meu antigo smart, que me deu tanto desgosto e despesa. Ou antes, pelo novo smart, ai que 'tá tan mais giro, ai que este é que era. Nem falando do mini, que entretanto transformaram numa banheira sensaborona, e aliás já era caro demais para a popó-forreta. Eu quero é um carro giro. Pronto. Sou veículo-adolescente. Eu quero é um boguinhas, um me-mobile, um besugo ágil e pucanitcho, uma coisa que não seja igual a 2.167 outros estacionados no mesmo piso da superfície comercial.

E agora surge mamãe, que após aquela inusitada interpelação, completou: precisas de um carro sólido, que te proteja. Pânico. Mamãe imagina-me numa banheira, se calhar daquelas de hidromassagem a que se chama suv. De repente sou de novo a chavalita de 15 anos, a argumentar com a progenitora nos provadores de Os Porfírios: não, mãe, eu gosto é disto, não, mãe, esse é colorido demais, não, mãe, o preto usa-se sempre. Ó mãe. Pá. Que chata, pá. Deixa-me 'tar.



quarta-feira, 14 de março de 2018

Aaaaaaaaaaaai a minha vida



Fosse eu pessoa de fé, e já tinha uma fortíssima candidata a santa padroeira: Nossa Senhora da Asneira.
Aliás, mesmo não sendo pessoa creste, e muito menos devota, começo a acreditar que existe esta santinha, e é ela a responsável por tudo, tudo!, o que esta pobre macaca erecta e letrada tem sofrido nos últimos tempos.
Não há condições. R'almente. A uns sai o euromilhões, outros fazem carreira montados em CV que são obras de ficção (e mestrados com umas conclusões escritas pelo senhor que estava no banco do lado no autocarro, aquele senhor que é disléxico com vírgulas mas consegue elaborar um parágrafo onde não diz absolutamente nada e onde encaixa várias palavras de sete e quinhentos), e eu aqui, ó, enterrada em papel, e ora cercada por gente que parece ter saído do casting dos Sopranos, ou acossada pelo gémeo ainda pior do Gordon Gekko, ou então tenho sorte, e apenas me calha um molhinho de Looney Tunes. Ou os chimpazés do 2001, ainda não tenho a certeza.


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Redículas

Sabem aquelas pessoas, já ouviram falar, que têm pacotes de bolachas e snacks tipo twix e toffee crisp nas gavetas do trabalho, e logo em packs económicos de três ou quatro, que já não lhes faltava serem lambaronas ainda são pechinchonas, e depois comem aquilo e guardam os invólucros na mala, para jogar no lixo em casa ou numa papeleira na rua, porque têm vergonha que a empregada da limpeza os veja e pense mal delas? Sabem? Ouviram falar? Ahahahahahahah, pois é.
Não conheço nenhuma.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Post com banda sonora*

*é esta. escuso-me a reproduzir o títalo no títalo do post porque eles andem pedalem aí, e o google e não sei quê, ainda me cai aqui a pandilha, com um not all cyclists, e hoje não me apetece


Sinto-me ofendida. Pior: estou profundamente sentida. Sinto-me sentida, portanto. Magoada, traída, espezinhada.
Eu explico: durante aqueles meses de puro inferno em que duraram as obras nas Avenidas Novas, tempos obscuros que se não levaram a um suicídio em massa em plena hora de ponta, nada levará, eu era daquelas que, em oposição à (passe a redundância) oposição direitolas, defendia com unhas e dentes a construção de ciclovias.
"Ah, ninguém anda de bicicleta em Lisboa, nunca vi", e eu "ó que andam, e havendo condições, mais andarão"; "e agora onde é que a gente estaciona, tiraram-nos o espaço para dar aos ciquelistas!", e eu "estacionam no parque, pagam e não bufam, ou, sendo demasiado sovinas para isso, estacionam na rameira que vos deu à luz, a rua é de todos".
Seguiu-se novo coro de aflitos quando se soube que a Câmara ia gastar numa cena de bicicrétes partilhadas: "Só gastam dinheiro em ilusões, não há ciclistas, nunca os vi!", e isto quando nas Avenidas Novas não faltam oculistas que tratam destes problemas.
Passado mais de um ano, há ciquelistas às paletes, ao fim de semana ainda mais, e as biclas-gira estão sempre numa roda viva. Sucesso, portanto. Yay, pensei eu. Menos um cidadão na estrada ou no metro, que é onde eu me transporto. Sim, sou interesseira.
Até ao dia em que nos vemos ali rés-vés de causar a morte ou sérios ferimentos a um ciquelista. E por culpa dele, o que não me iria acalmar e conciliar o sono.
Já perdi a conta, senhores e senhoras, às vezes em que fiquei com o coração prestes a saltar pela boca. Rodinhas em contra-mão: sim. Ciclos a passar vermelhos: confirmo. Pedalinhos a atravessar a estrada em cima da bicla e dando ao pedal,  às vezes com vermelho para peões: olaré. Se em sítios sem ciclovia já é mau, em locais com essa via + sinais para ciclistas + passadeiras para o mesmo público alvo, é indefensável. Eu sei que o Código não os obriga mas, pá, fazer toda uma artéria a 20 à hora, atrás de uma ciclototó, quando tinha uma cilcovia ali ao lado, e das boas... não. Já apitei a um, o palhaço a lixar o trânsito todo, e a ciclovia, livre, desimpedida, ali a dois metros. O animal ficou muito zangado, e teve oportunidade de mo dizer quando fiquei a par, para o ultrapassar, e lhe disse para ir para a ciclovia, ó palerma, arrancando de seguida e legando-lhe as minhas melhores emissões de combustível fóssil. E depois houve aquele que vinha largado, no passeio, e atravessou pedalando numa passadeira só de peões... eu travei a tempo porque já o tinha debaixo de olho, e não confio no discernimento de ninguém. Levou apitadela, mas ainda me mandou estudar o Código. Sim, à única pessoa em causa que comprovadamente fez o respectivo exame, e passou.
A última foi ontem. Animal devidamente fardado com aquele fato-macaco de lycra, vem na ciclovia, e o meu sinal aberto. Não sei porquê - aliás, sei: não confio no discernimento de ninguém, e os ciquelistas não precisam de um atestado para saber se são daltónicos - mas fiquei com a impressão que não ia parar. Não parou, semáforo de biclas vermelho, vermelhão. Até podia jurá-lo, não se desse o caso de ter olhado, a confirmar: é um sítio que conheço bastante bem, e quando abre o verde para a lateral, está também aberto o vermelho-ciquelista. Graças à minha falta de fé na espécie, ao facto de ir a uns 20/30 à hora, consegui parar, e apitei. Ficou muito zangado, barafustou, e ainda mais se alterou quando lhe fiz o sinal universal de "deves ser ceguinho" (mão aberta a passar em frente aos olhos). Caso lhe batesse fornicava-lhe o fémur, pelo menos. Se ele me batesse, além de ficar todo tortinho ainda me lixava a lateral. Com ou sem razão, eu não me safava de me ser levantado um auto, e aberto um inquérito crime. Inerentes dores de cabeça. Estragos no meu carro? Lá iriam para os danos próprios que eu pago, que esta gente só tem direitos, deveres - carta?; seguro? - nicles.

E é isto. Estou a pensar rever a minha bonomia relativamente ao ciclo-transporte. É que na minha escala de rodo-desastres, estão ali vai não vai de destronar os táxistas; e já ultrapassaram, ó, ao tempo, os peões que atravessam olhando para o telemóvel.
Falta pouco para me plantar em frente a um ministério qualquer, a exigir a terraplanagem das prostitutas das ciclovias, e degredo de todos os praticantes.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

E não nos conhecemos d'ontem

Já é a segunda (ou terceira, já perdi a conta) vez que a minha operadora me liga, para informar que vão premiar a minha fidelidade e longa relação comercial com seis meses de sport tv à borla, basta eu dizer e activam.
Ou tiraram o curso de marketing na Universidade de Alguidares de Cima, ou não querem premiar porra nenhuma, pois não, seus sonsos?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

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Lá na escola do subúrbio onde cresci havia um indivíduo completamente passado da mona. Já não era bem do meu tempo, quem o acompanhou foi o meu irmão - teriam mais ou menos a mesma idade - mas eu conhecia o irmão mais velho do criaturo, que era meu contemporâneo. Não acredito nestas cenas e muito menos em determinismos, mas estes dois irmãos eram a prova a que muitos se agarrariam para argumentar que o mal existe, e a sua semente se propaga em certas linhagens. O mais velho era um bandido da pior espécie, violento, mas de uma forma insidiosa e matreira. Consumia drogas, que suspeito seriam de calibre superior à mera ganza, mas de uma forma controlada, ou seja, não sucumbiu ao vício de modo a acabar um farrapo acampado no Casal, agulha espetada no braço. Possuidor de um espírito empreendedor e oportunista, passou do consumo ao tráfico e, das últimas vezes que lhe pus a vista em cima, andava muito bem vestido e conduzido. Passou de adolescente semi-carocho e homem de mão para quem precisava de costas quentes para um kingpin semi-carocho com uma entourage de músculo subcontratada. O mais novo não tinha a mesma cabeça fria, e consumia mais ávida e descontroladamente. Não que precisasse de drogas para passar do zero aos cem em segundos, bastava um olhar de que não gostasse, um gesto que interpretasse como um desafio. Na escola não havia quem não morresse de medo dele. As tareias que aplicou a um e outro, sem razão ou por motivos absolutamente fúteis, não eram uma lenda, eram um facto verificável. Conhecia um moço que ficou com a cara num bolo porque "se estava a rir para ele", outro que se refugiou aterrorizado em casa umas duas semanas depois de um "estavas a olhar para mim porquê, a gente depois fala". Ainda não tinha os 16 feitos e já tinha ficha na polícia, e a cara gravada na memória de todos os agentes da localidade. Quando fez os 16, recebeu uma prenda da esquadra em peso, e dada em mão. Nessa altura já tinha sido expulso da escola, depois de o Conselho Directivo não ter podido contemporizar ou fechar olhos a uma facada dada a um colega. Apesar disso, continuava a entrar na escola, ou pulando muros, ou coagindo o funcionário do portão, que não tinha nem corpo nem coragem (nem ganhava para isso) para ele. Um dia o meu irmão chegou a casa com uma história, parece que às oito e meia o fulano, já completamente embriagado/drogado, armou uma valente escaramuça no portão da escola, a dizer que ia matar o conselho directivo em peso. Totalmente descontrolado, foi detido pelos agentes chamados ao local; e digo detido no sentido não jurídico, porque era menor de 16, não podia ser "preso". Várias vezes me perguntei, e aos amigos e colegas do meu irmão, como não se juntava um grupo para lhe dar uma lição; era assim que se resolviam os "problemas", ali. Mas a resposta era óbvia: o "e depois", somado ao irmão, na altura já uma figura de peso. Morreu nem tinha ainda os 18 feitos, overdose. Ninguém teve pena. Aliás, a notícia era propalada com um misto de alegria e alívio. Não tenho vergonha de o dizer, foi com esse sentimento que a recebi.

E hoje lembrei-me disto porque imaginei que, se calhava ser possível àquele animal entrar numa superfície comercial e adquirir mais que um canivete, sei lá, uma pistola, respectiva munição, ou mesmo uma arma automática, que faria. Que faria, caneco. O meu irmão e muitos amigos, uns quantos irmãos de amigas, andavam naquela escola. Eu, e muitas amigas, andávamos por ali, era a nossa rua, o nosso bairro, a nossa comunidade. Que faria, pá, um doido sem escrúpulos destes ter acesso a uma máquina de matar muito e depressa. Gente desta, sempre os haverá; o que me faz confusão é em alguns países evoluídos ainda haver quem não conclua que a diferença entre uma tragédia ou uma situação mais ou menos descontrolada é o acesso. E permitirem-no, todavia.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Está fresquinho, está

Estou aqui a fumar o último cigarrinho do dia, enquanto olho com alguma satisfação a pilha do "feito", e muita angústia a (muito maior) pilha do "a fazer", ponderando que material levarei para casa para estudar, se o assunto A ou o B ou ambos, e a matutar que para pessoa que acabou o curso a ferros e com asco, que jurou um dia estudar uma coisa que gostasse mêmo, mêmo, mêmo a sério, virar a vida do avesso e fazer só o que gostasse, as coisas estão mêmo, mêmo, mêmo mal encaminhadas, porra, e ou a vida, o universo, sei lá quem tem um sentido de humor muito negro, ou então é mesmo para isto que eu sirvo e aos 46 já tinha aceitado essa inevitabilidade.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Nada mais a declarar

além de que este documentário é mesmo, mesmo, mesmo imprescindível



para quem é cat-lover e, se calhar, talvez, principalmente, para quem não é. O respeito por uma forma de vida, o amor desinteressado pelos animais, a harmonia entre seres (caraças, até os cães!, nem os cães bulem!), deixa-nos um sorriso besta e um calorzinho no peito.

E, pelo meio, também nos dá piquenas prendas como esta perolazita:


O grafito, pah <3

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Qualidade, o caraças

Uma pessoa percebe que o casaquinho deve ser upa-upa gostoso quando se dá conta que, apesar de todos os seis meses gastar umas boas coroas a renovar as pendurezas anti-bicheza, o maldito está todo traçado.

Que desgosto. E se ainda ao menos houvesse costureiras daquelas que sabem virar casacos, mas nem isso.

(vou virar-me para as parkas em poliéster e penas, ó, ó)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Micro Machinhos

Já lá vão mais de uma vintena (não vou contar para não deprimir) de anos de volante, devidamente encartada, e já perdi a conta a sermões, interpelações, e outros ões oferecidos por senhores condutores: ou me mandam tirar a carta (lamento, já tenho; nunca tive muita queda para fora-da-lei), ou perguntam onde a tirei (eh pá, nem sei se ainda existe, e também não recomendava); piretes (dois, que destes guardo perfeita recordação: um taxista e um sôtor com a respectiva no banco do pendura); e, o top dos tops, mandaram-me para casa coser meias. Nunca veio à baila a dita carta ter-me saído por sorteio ou na farinha amparo, e tenho pena, que os clássicos não deviam morrer.

Não sou imune a auto-asneirada, também as faço. Por norma (isto é, se der tempo) peço desculpa, faço aquele ar encavado de "ai, já fiz merda", acompanhado da mãozinha direita levantada. Por casualidade, as três últimas interpelações (e, já agora, todas as que resultaram em sermão) vieram de quem, na situação concreta, estava a fazer merda. E da boa, do tipo, basta ter levemente presentes regras básicas para lá chegar.

Então porque fui eu o alvo de mimos como "vai estudar o código da estrada" (vindo de um ciclista que circulava num passeio sem ciclovia, e resolveu atravessar numa passadeira sem passagem de ciclistas assinalada, depois de levar uma valente buizinadela); ou "quando tirou a carta não lhe ensinaram a marcha atrás?" (de um sujeito que circulava na via obstruída mas achava que eu, já encostada ao lancil do lado direito, é que tinha de lhe fazer o jeitinho). Excesso de confiança no seu conhecimento de normas estradais? Burrice pura e dura? Má-criação congénita? Ou algo mais? Porque acharão estes exemplares, todos eles do género masculino*, que num país em que as raparigas e mulheres os ultrapassam à vontadinha nas pautas escolares; que já são uma confortável e em tantos casos larga maioria nas universidades; que já dão cartas em áreas de trabalho onde há uns tempos nem pensavam e muito menos sonhavam aceder; porque presumem eles que numa situação concreta o conhecimento e a identificação da norma a aplicar, bem como a correcta interpretação da mesma, é a deles? Juro que isto me deixa perplexa. Estatisticamente, ao menos, não.

Mas pronto, é o que é. Ou uma pessoa desenvolve uma elevada resistência à frustração, ou começa a andar com um taco de baseball no carro. Daqueles de alumínio.


*claro que há condutoras ineptas, mas esta aqui nunca teve o desprazer de ser descomposta por uma, e muito menos nos termos descritos. lá ficarão a refilar dentro do seu habitáculo, mas a retinta lata de abordar a contraparte, nunca me aconteceu.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018