sábado, 14 de janeiro de 2017

Revirar d'olhos da semana

E este foi logo a fechar, com as reacções à notícia que o rapaz agredido pelos ricos filhinhos do embaixador do Iraque tinha chegado a um acordo com esta gente e ia receber uma indemnização. Nas várias notícias online diversas pessoas, decerto encharcadas de elevadíssimos sentimentos de honorabilidade, vociferavam com o rapaz e respectiva família. Interesseiros era o mais simpático que lhes chamavam.

Ora vamos lá trocar isto por miúdos. O rapaz levou uma valente tareia que o atirou para o hospital em estado lastimoso. Várias fracturas, uns tempinhos em coma, enfim, e por baixo, podemos concordar que aquilo doeu e moeu. Os perpetradores beneficiam de um regime de imunidade diplomática, ou seja, para responderem em tribunal pelo crime praticado - ofensa à integridade física agravada, crime público que não depende de queixa do ofendido - depende-se da boa vontade do Estado iraquiano, para a levantar. Que foi pedida, mas podemos esperar sentados, e num sítio abrigado. Segundo a lei portuguesa, qualquer vítima de crime pode deduzir pedido de indemnização civil, com vista ao ressarcimento dos danos patrimoniais e não patrimoniais (dores, sofrimento, etc) sofridos.
Tal pedido de indemnização tem de, obrigatoriamente, ser deduzido no processo crime. Ora como já se viu, o processo crime não vai ter seguimento (de certezinha, nunca acerto no euromilhões mas nisto apostava em segurança), porque não vai ser levantada a imunidade, e não porque a justiça é uma porcaria e tal (como defendiam tantos comentadores online, ai, a ignorância é um bem tão equitativamente distribuído).
Seria então seria admissível deduzirem pedido de indemnização nos tribunais cíveis (não me vou por aqui a maçar com artigos e tal, é assim). Agora vamos lá hipotizar como seguiria esse processo cível: citar os réus. Boa sorte e tudo de bom. Ia ser um sarilho que não levaria menos que um ano.
Imagine-se que finalmente eram citados pessoalmente (yeah, right) ou, não sendo, eram citados editalmente, sendo representados processualmente pelo Ministério Público. Siga para julgamento, apresentação de prova, sentença, aqui já se ia, na melhor das hipóteses, em ano e meio, dois anos. Imaginemos que a sentença era favorável, e condenava os dois facínoras a pagar uma indemnização boazinha.
E agora? Boa sorte para executar a sentença. Acham que os tipinhos têm património ou rendimento em Portugal, ou sequer num país da UE? Boa anedota, siga. Ou seja, o desgraçado, além da tareia, ia ter um longo calvário na justiça, com os inerentes custos e gasto de tempo, para no final ter uma sentença para emoldurar e plantar na salinha de estar.
Em vez disso, o advogado negociou um acordo, directamente com os fulanecos, ou antes, com o papá, a embaixada, seja quem for. Chegaram a um consenso sobre quantias (que se desconhecem e não temos de conhecer, mal fora).
Ou seja, trocou o calvário acima descrito e riscos necessários por um dinheiro certo, que ao menos o compense das dores, humilhação, sofrimento. O que há de errado nisto? Nadinha. Zero. Tomara que toda a gente que é vítima de um crime, acidente, ou qualquer outra situação causada culposa ou dolosamente por alguém ter esta conclusão.
O processo crime seguirá, obviamente, visto que o ofendido não pode desistir da queixa. Vai esbarrar contra uma parede de betão, muito provavelmente; mas ao menos o rapaz não fica com as dores e ainda a frustração de ter sido todo amachucado sem qualquer compensação.
E pronto.
Mas para a populaça isto não chega, diz que se vendeu, e a honra onde fica, que não há dinheiro que pague. Tá bem, abelha. O dinheiro não paga, mas é o único "castigo" que aqueles meliantes vão ter. E ao menos a vítima não fica totalmente desprotegida, sendo que, como já expliquei, muito dificilmente obteria reparação pela via judicial (e, mais uma vez, não, não é porque a justiça é uma porcaria, é porque as leis e a vida são como são).
Tudo visto, esta é a melhor solução possível, e eu fico sinceramente satisfeita pelo rapaz. Ainda bem que obteve alguma reparação. Quem dera que sucedesse o mesmo com todos os que passam por agruras semelhantes.
E o povo ululante? Que s'a fodam, com toda a franqueza. E nunca se vejam numa situação parecida, que aí quero ver-vos, mais à vossa honra, justiça e o caracinhas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Legalmente, eu

Já tenho carta de condução desde Abril de 1995 (sei-o porque vi há pedaço), e desde 1998 que já não resido na morada que lá consta. Sim, ainda é daquelas em cartolina cor-de-rosa, dobrada em três, uma coisa de museu.
Na minha carreira de condutora já fui mandada parar em operações stop, ou fui sujeita a vistoria de documentos, pelo menos três vezes. Na primeira nada a declarar: soprei no balão, viram o selo, a vinheta do seguro, os faróis, e ala, que os senhores guardas tinham já uma fila de ébrios para autuar. Na seguinte não tive tanta sorte. A seguir ao balão fizeram-me notar, com ar muito repreendedor, que as moradas do bilhete de identidade e carta não coincidiam, e isso era contra-ordenação, dá direito a coima, aiaiai. E eu, cidadã pacata e respeitadora, suspirei e expliquei que tinha lá tempo para as filas da DGV, compreende, senhor agente?, e ele sorriu e compreendeu. Não precisou de saber, e também não lhe contei, que já ia na segunda morada depois daquela, adiante. Agradeci à grande sorte, jurei a mim mesma que tratava daquilo, nas próximas férias, asap. Não tratei. Mudei outra vez de casa. Contribuinte, sim senhora; eleitor nem por isso (andei uns bons dez anos a votar no concelho ao lado, siga). Calha um dia uma indivídua muito colérica abalroar-me, e preferir armar um barraco a preencher a declaração amigável. Chama-se a autoridade que, chegada ao local, percebe logo o que se passou, e tem uma conversa firme lá com a douda. A senhora agente, papelada na mão, aponta de novo a divergência de moradas, desta feita entre o documento único e a carta (do cartão de cidadão já não consta essa devassa), aiaiaiai, é contra-ordenação, coima e tal. E eu de novo, o meu ar de bambi, de poizé, sabe lá da minha vida. Ela, pelos vistos, sabia. Vá lá, desta passa, trate disso e que não se repita. Não sabia, porque eu omiti e também ninguém perguntou, que tivesse eu o carro anterior e um bilhete de identidade, seriam três as moradas divergentes, mas adiante. Agradeci a todos os santinhos em que não acredito, e que desta é que era, à terceira não falha e papo mesmo com a coima, vou mesmo tratar disto, nas próximas férias, asap. Não tratei.
Foi hoje. Porque já dá para fazer online. Na internet!, essa invenção recente. Finalmente já é possível logar no IMTT com o NIF e respectiva senha, e pedir a prostituta da alteração da meretriz da morada, e pedir para emitir uma rameira de uma carta toda linda, modernaça, naquele modelo que já vigora aí há uma década e picos. Tchinapai. Custava muito, custava?

(agora só me faltava ser fiscalizada neste ínterim, mas vamos acreditar na sorte)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bochechas

Apesar de ter fortíssimas antipatias por diversas personas políticas, não me lembro de alguma vez ter odiado alguma a pontos de lhe desejar a morte, ou rejubilar com a mesma. Por isso não entendo quem alimenta esse tipo de sentimentos, e menos ainda quem os manifesta. O Cavaco, por exemplo. Desejei muitas vezes que se fizesse de morto e desaparecesse, mas que morresse? Nem por isso. Falando na peste: já se dignou a vir a público dizer alguma coisa sobre a vida, a propósito da morte, do seu congénere? Não pois não? Bem me parecia. Aguardo impante a sua aparição em alguma das cerimónias fúnebres. Mate aposta que não vai acontecer, mas eu ainda tenho alguma esperança que lhe reste um mínimo de noção e sentido de Estado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Então cá estamos

E que melhor forma de desejar um feliz ano novo? Com boas notícias. Esta série. Esta. Série. Netflix, cá vou eu.




 



Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events é capaz de ser a melhor série de livros infantis que já me passou pelas retinas. Impossível encontrar por cá, traduzido - juro que tentei, para infectar os meus sobrinhos, mas parece que desistiram a meio -, a única solução para o leitor curioso passa pela encomenda via net. A nossa colecção veio de Nova Iorque, pela mão de me mate, treze livrinhos de capa dura (e lindos), pesa p'a caraças, mas ei, ir a Londres ou NI e não trazer uma mala atafulhada de livros é capaz de ser crime. A história? Oi. Recheada de tragédia, aventura, desventura, mistério, momentos de suspense de cortar à faca. Depois da morte imprevista, súbita e... suspeita de seus pais, os manos Baudelaire vêem-se sozinhos na vida, e sucessivamente entregues a tutores que variam entre o puramente malvado, completamente desvairado, ou simplesmente bizarro. O primeiro e sempre presente desses tutores é o sinistro Conde Olaf (interpretado pelo Neil Patrick Harris!, lágrimas de alegria!), que os persegue incansavelmente, com o propósito de lhes sacar a fortuna herdada. Estou em pulguinhas, de joelhos e mãos postas rezando ao santinho protector das adaptações para que não saia uma coisa tão rofenhé como o Preacher (vi o primeiro episódio, não vejo mais, lamento; a vida é curta e tenho muito chão para passar a pano).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

fail again. fail better.

Como começar, bom, começando. Já está, ultrapassado aquele momento embaraçoso de iniciar seja o que for que nem sabemos muito bem no que vai dar. Como este blog, ou qualquer outro que tenha tido, por exemplo. Mentira: antes custava menos. Capaz de ser um daqueles momentos de alinhamento planetário que só se dá de tantos em tantos anos, mas é isto: não sei o que dizer escrever.

Não é que se tenham acabado as opiniões chatas, parvas, desagradáveis, exaltadas, quiçá despropositadas; nopes, continuo a ter. Mas muito anémicas, fraquinhas que dá dó, optam por se enrolar numa mantinha no sofá, enquanto dão vazão a um pacote de bolachinhas. Das boas. Com chipas de chocolate.

Não que me faltem trivialidades ou historietas enfadonhas; disso também temos, e sempre em demasia, que a minha vida é uma sinuosa vereda num bosque polvilhado das mais aborrecidas e repetidas espécies. Mas acabam a partilhar a mantinha c'as outras, ou não são minhas, só minhas, e não me cabe partilhar. Estas são muitas, aliás, e andam ali num frenesim louco, guinchando, rodopiando, na arrecadação onde as fecho a modos de conseguir um bocadinho de concentração para fazer aquilo que me dá a ganhar o pão.

Aborreço-me, portanto. Por vezes, numa tonta tentativa de alternância, maço-me, somente. Deixei de ter novelos de palavras para desfiar com a ponta dos dedos. Ou esfumam-se numa preguiça sem fim. Opto pela indolência de ficar encostadinha a uma parede, vendo as dos outros passar. Às vezes digo-lhes adeus, outras nem isso. Não tenho confiança com a maioria, e quase nenhumas me conhecem; não quero que me tomem pela tolinha do blogobairro.

E se calhar é aqui que está a coisa: isto gentrificou-se; a maltinha da minha criação mudou-se para subúrbios menos turistificados, e eu acabo por preferir reunir com quem conheci (também) aqui, mas se mudou, nesses outros bairros. Perde-se em diversidade, talvez, mas ganha-se em profundidade. É possível ter uma conversa com princípio meio e fim, seja ela dedicada a livros que sim senhor, séries/filmes que também, ou a forma correcta de cozinhar verduras (true story, e é um assunto mais fracturante que à primeira vista se possa imaginar). E ganha-se também em sossego.

Juro que de há uns tempos a esta parte isto tudo me parece aqueles bailes de província tão bem descritos por Jane Austen: reencontra-se velhas e boas amizades, põe-se conversa em dia, mas ainda assim há muito peralvilho e flausina a rondar, a insistir em se fazer notado, a interromper ou, ao menos, incomodar com a estridência da sua presença. E nem um Darcy para nos aguçar a vista. Nem um Wilde para nos espicaçar o neurónio. Tudo muito a armar, muito alta burguesia convencida que é nobreza, e depois lá vêm as manas enfadadas de Mr. Darcy escarnecer de todos como que mostrando o que é a verdadeira sociedade, aquela onde rodam, mas que apenas as atura não mercê dos seus encantos pessoais, mas da sua heráldica e rendimento. Quando uma pessoa dá por si já arredou dos abafados salões e está a apanhar um fresquinho na varanda, com os velhos conhecimentos do costume, mas ainda assim, irra!, não há maneira de os ditos outros espampanantes deixarem de passar, fazendo-se insistentemente notados, sem que alguém ali os queira notar. Ah, se ao menos desse para fechar a porta. Encosta-se, pronto, já está. Ou não, credo.

E o que fazer disto, não é? Que uma pessoa até pode estar momentaneamente calaceira, mas tal talvez derive mais de não saber o que fazer disto do que de propriamente falta de vontade de fazer. Assim me encontro, num mar de sargaços de tema. O que fazer disto.

Talvez destacar-me. Recortar-me. Reservar o que é reservado para onde seja apreciado ou, pelo menos, bem acolhido. Talvez espaçar. Talvez seleccionar. Talvez apreciar os silêncios. Os entretantos, Talvez optar por outro caminho, outra linha. Talvez tentar voltar a ter prazer com isto. Tentar outra vez, talvez falhar, mas falhar melhor. Vem aí um ano novo, é um marco como outro qualquer, e diz que se apresenta novinho em folha, por estrear. Cá estaremos.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Oh brother where art thou

Continua a (minha) saga da busca da mesa de centro perfeita adequada. Faz em Fevereiro um ano, se não me engano. Volta e meia faço um périplo por lojas, sempre para chegar à conclusão que a) é demasiado grande; b) é horrenda; c) cara comó caraças; d) quem é que compra isto? Já tive a feliz fortuna de acumular todas, só eu. Regularmente vou ainda ao olx, porque sou crente, ou masoquista, ou já nem sei.

Como sou uma pessoa extremamente altruísta e empática, e porque pode andar aí outra boa alma na mesma empresa, deixo aqui umas boas sugestões encontradas nesse mercado virtual (e que eu não aproveito porque minha humilde morada não é digna de tais peças):





Correi, correi que isto são exemplares para desaparecer num ai.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

42 ou o Sentido da Vida

Ainda não tenho a certeza, porque dá muito trabalho a investigar e númbaros não é o meu forte, mas o que sei é que vi o Deadpool e me diverti como uma tolinha. Um dia todos os filmes de super-heróis serão assim. Uma hora e quarenta, muito palavrão e piadas só para adultos, ritmo, mortes macabras mas muito warner bross., e sem super-herói. Já ninguém tem paciência para palhaçadas messiânicas de três horas, e muito menos para monos a fingir um ar pensativo/intenso como o Ben Affleck.
Falando em psicopatas ricos com poder de compra para brincar ao super-heroísmo, acho que vem aí a uma versão definitiva:




 Yay.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

De tanto bater o meu coração parou


Amélie (aka Patinhas, Puski, Bibisca, Bichinho do Demo, Mimiskas, wtv) 21.06.2002 - 05.12.2016

Obrigada pelo privilégio de fazeres parte da nossa vida. Até já, minha querida.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

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A Bibiscas está muito doente. Completa-se hoje uma semana do seu terceiro internamento depois de três dias cada um. Não come, tem de ser alimentada à força e de seringa. Não se lava, fica prostrada a maior parte do tempo. Ao menos reconhece-nos, que não faltamos uma visita; mia ao nos ver, não sei se para ralhar pelo abandono ou nos dar as boas vindas. Ronrona muito, enquanto lhe fazemos festinhas e a envolvemos em palavrinhas meigas. Mas não come, e não lhe podem dar alta sem que o faça, de livre vontade. É que se os valores da insuficiência renal crónica já estão controladas, a falta de alimento causa outras, e teme-se a falência hepática. A Miminhas está muito fraca, e triste e abatida. Foi num pulinho que aqui se chegou, dois meses apenas, e análises feitas ainda em Junho não faziam adivinhar. Não sabemos o que nos espera, apenas este buraco no meio do peito que a sua primeira ausência em quase 14 anos nos cavou é uma certeza. Alternamos a esperança perante um novo resultado animador, a notícia de que comeu 20 gramas, um ar mais animadito, e o desânimo de um outro dia de apenas sete gramas, e um cansaço persistente. Voltamos a casa todos os dias para a falta de um pelo fofo e ronronante no colo, um par de olhos luminosos à nossa espera à porta da casa de banho, uma valente espreguiçadela quando o despertador toca. Trocamos frases feitas de bons augúrios pontuadas de suspiros fundos ou simplesmente cedemos a um choro silencioso. A Patinhas está muito, muito doente, não sabemos o que aí vem, se desistiu (nós não), o que podemos mais fazer se não a já diária romaria de carinho e amor desesperado.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Irritações

Muito enervada com as reacções à morte do Fidel. Muito. Aliás, muito enervada com as reacções de certas pessoas de esquerda, e sua dificuldade em definir e identificar uma ditadura / ditador. Não há liberdade de expressão e/ou imprensa livre? É ditadura. Não interessa as (boas) intenções, não importa se é melhor ou pior que no país x ou y, que fulano ou sicrano: é ditador, é ditadura. A ditadura não se caracteriza apenas pela maior ou mais branda violência policial ou de Estado, pela intensidade da repressão, ou pelo fim com que é instituída. Não basta afirmar que se faz pelo bem do povo para se legitimar um regime; não basta que o regime imposto seja melhor que o anterior para se desculpar o autoritarismo. É mau, ponto, e é mau porque os meios não justificam os fins, e mesmo quanto aos fins, bom, acho que qualquer pessoa informada está conversada.
Fidel era um ditador, Cuba é uma ditadura, e não nos cai a ideologia na lama por o admitir e escrever com todas as letras. Fidel derrubou uma ditadura e instituiu outra, ainda que de sinal diferente. Sim, sou de esquerda, mas quanto a ditadura, soy contra. Fidel foi um importante e carismático líder revolucionário até ao dia 1 de Janeiro de 1959; daí em diante, ao não ter entregado o poder e livre determinação ao povo, instituindo um regime democrático, tornou-se apenas uma caricatura e perversão do que defendeu. E não deixa de ser irónica não a sua morte na black friday, mas no dia em que em Portugal se comemora a derrota de um tentativa igual, de substituir uma ditadura por outra, de sinal oposto. Que isto pode ser uma choldra, que até é em parte, mas é uma choldra livre e onde a esperança, a opinião, o futuro depende de mais que da vontade de poucos impondo-se a muitos. E em Portugal, pelo menos, o hasta la victoria, siempre, ainda se faz, é possível, e sempre, mas sempre, com a livre voz da maioria popular.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

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[entretanto, no outro lado do grande lago, e quando a diferença total de votos entre os dois candidatos já soma os dois milhões, Jill Stein em grande no crowsorcing para financiar uma recontagem. Hillary, espertíssima, mantém-se caladinha. querem ver que?]

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Haverá sangue

Deve haver alguma falha na formação dos profissionais de saúde* que os leva a concluir que, só por uma pessoa ser sincera e admitir logo à partida que tem fobia de um determinado procedimento (no caso, agulhas, ou aicmofobia), tudo o mais que diga é exagero, tontice, parvoeira, e não digno de levar em conta. Ou pior, que estão a lidar com uma descompensada, histérica, ou hipocondríaca.
No-pe. É para vos ajudar a melhor fazer o vosso trabalho. Melhor: para garantir que façam o vosso trabalho.
À uma, se fosse hipocondríaca, não tinha respondido que já não me lembrava da última vez que fiz análises de sangue (a resposta é um bocadinho mentirosa, que tive foi vergonha de dizer "há mais de dez anos"). O hipocondríaco até calha ser o tipo de pessoa que não larga os médicos.
Às duas, se fosse histérica, se calhar não tinha falado num tom tão calmo, nem explicado tão eloquentemente que a) a artéria de serviço está no outro braço; b) já com duas horas de jejum é muito provável que a tensão arterial e pressão sanguínea estejam para o baixote; c) é uma ideia gira porque testada (e resulta!) tirar-me sangue deitadinha.
Não me ouvem e depois ficam frustrados, né, eu sei que é chato não conseguir extrair uma gotinha, quando era essa a vossa tarefa. E ligeiramente aborrecidos com a subsequente nega, porque o meu limite de picadas por dia semana mês ano quinquénio é uma. Não foi por falta de aviso. Tiveram a vossa chance, para a próxima é ouvir o paciente. Não, não são só "coisas da nossa cabeça", "fita", "mania", seja lá o que for.
Continuação.


*enfermeiros, médicos, auxiliares, tudo igual. amores: quando eu faço fita, percebe-se que é fita, e é só para audiências seleccionadas. se eu digo que dói é porque dói; se eu digo que me estou a sentir mal é porque me estou a sentir mal; se eu digo "desculpe, acho que vou desmaiar", é porque já estou a ver tudo negro. fobia não é mariquice. tomar antidepressivos não declaração de descompensação e autorização para desvalorizarem tuuuudo o que paciente diga. palavra de quem já passou um pós-operatório e tirou três sisos muito feios e não precisou de analgésicos na recuperação. mariquice é por exemplo, ainda não ter ido tirar o quarto siso, fica a informação. e ainda há quem se admire de eu fugir de médicos como o diabo da cruz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Honni soit qui mal y pense

Na sexta-feira um taxista mandou-me ir coser meias. Rectifico: na sexta-feira, um excelentíssimo cidadão do sexo masculino que ganha a vida conduzindo automóveis e transportando passageiros, entendeu por bem educar-me quanto ao meu papel social, que é o de ser recatada e do lar, em vez de andar a maçar excelentíssimos cidadãos, mormente do sexo masculino, e ainda por cima condutores profissionais, com a minha presença na estrada e, pasme-se, ao volante de uma viatura, e, infame crime, que me pertence e paguei com o fruto do meu trabalho.

A coisa enquadra-se e conta-se em duas penadas, embora o desfecho até o dispensasse. Poderia até ter andado aos zigue-zagues à frente do indivíduo, que era escusada a reacção, bem como o crescendo que levou a ela. Conto apenas por isso: o crescendo. Muitíssimo interessante.

Sucede que o município entendeu por bem (e mal) alterar os sentidos / obrigação de direcção ali numa zona onde sou obrigada a passar todos os dias. A intenção e concretização é bem notória para quem tem olhos na cara, visto que está pintadinha no pavimento a cor branca reflectora, e para quem anda de nariz no ar o semáforo não deixa enganar. Ora o espertalhuço do condutor profissional ou não reparou (e só nisso seria de censurar - aqui a distraída mor deu por ela logo no primeiro dia) ou não quis reparar (pior ainda) que havia uma obrigação de virar à esquerda para quem seguia naquela via. Se calhar sou injusta, e tratava-se apenas de uma objecção ideológica; no entanto, facilmente contornável, bastaria que seguisse na via correcta, mais à direita, a saber, a minha. Onde entraria muito lá atrás. Se calhar sou de novo injusta: devia estar com pressa para qualquer compromisso importantérrimo, e é sabido que a Convenção Nacional de Palermas não se compadece e marca falta a retardatários. Ora a abécula seguia pela via mais à esquerda, não virou para a dita direcção, seguiu em frente. Transgressão um: não respeitou direcção obrigatória. Transgressão dois: avançou com o semáforo que regula o trânsito da via onde seguia já mudado para vermelho. Transgressão três: sem accionar pisca, começa a fuçar para a minha faixa. Apitei-lhe, não só num propósito pedagógico de o alertar para o princípio de Arquimedes, mas também para que não tivesse dúvidas que à minha frente não enfiava.

E aqui começa o enredo: respondeu-me com uma salva de tiros de buzina. Acontece de seguida que ficamos parados, lado a lado, já do outro lado do cruzamento, e noto que Sua Excelência asinina está deveras incomodado, e grita que nem possesso dentro de sua viatura. O trânsito demora, e o Senhor Duque da Porcalhota baixa o vidro. Eu, que até então me limitara a reagir como sempre - cara repreendedora e abanando em silencioso "ai, ai!", não sei que me deu. Passei-me. Deu-me uma coisinha. Saltou-me a tampa. 'Tão o caralhete é que atropela umas quantas regras do código, e ainda se acha no direito? Baixei o vidro, e fui imediatamente atingida por uma violência de "o qué que tu queres hã?" Tu. TU. O tipo tinha pouco mais que a minha idade, embora mais estragado - é natural, com tanto fel nas veias. Passei-me mais um bocadinho. Após o ter esclarecido que estava na faixa errada e tinha violado umas regrinhas do código da estrada, perguntei-lhe directamente se queria que chamasse a polícia. Na terceira pessoa do singular, que há quem tenha educação. Não posso assegurar, mas acho que até empreguei a palavra "senhor", porque when they go low, we go high, a minha mãezinha deve ser da mesma escola que Michelle Obama e criou-me assim. Mas ele continuou com o seu "o qué que TU queres", a que colou um "quem é que TE disse que eu não ia em frente" (naquela faixa de onde vinha não podia, adiante), e rematando com "CHAMA, CHAMA a polícia". Fervi, confesso que fervi. Esqueci a cartilha maternal de não se dar conversa a doidos, não se responder a malucos, e não engajar em conversas com machistas de merda. Há dias em que não dá. Há dias em que uma pessoa já acumulou que chegue durante a semana, e não está disposta a levar desaforo de um ser medíocre que calhou nascer com dois cromossomas diferentes e, por isso, já se considera mais capaz, mais competente, mais apto, mais elevado, e com moral para nos ensinar o nosso lugar. Há dias em que, num mundo que contínua e sistematicamente desvaloriza um grab'em by the pussy, uma pessoa enche de calar e comer. Respondi que fosse tirar a carta, e aí ele retornou, enquanto já avançava eu com o dedinho para o fecho do vidro, com a indicação de qual era o meu lugar. A coser meias. Que as cosa ele, eu nem por isso, que não preciso: tomo conta da minha pedi-higiene e não tenho unhacas nojentas a furar tecidos. Já com o vidro a subir, o trânsito a começar a andar, ainda lhe larguei um "Sois uns ordinários, e é por isso que a Uber vai acabar convosco, graças a Deus."

Inspira. Expira.

Eu sei, eu sei, dou o corpo às balas. Fui culpada do crime de generalização. E de invocar o nome do senhor em vão, 'inda por cima sendo ateia. Mas convenhamos. Se um coiso tem o à-vontade para fazer uma cena destas, se um gabiru se acha no direito de falar assim com uma completa estranha, só porque o afrontou com uma (aliás bem mandada) buzinadela, como posso eu sentir-me segura que não toparei com um gebo destes naqueles (já raros) dias em que saio à noite e opto por não levar o carro? Como posso estar descansada que um mono destes, ao ver uma mulher que, na sua mundivisão, já tinha era idade para ter juízo e marido e filhinhos e estar em casa a tomar conta deles, designadamente cosendo meias, não se ache autorizado seja para o que for?

E se este fosse o primeiro. Recordo sem saudade aqueloutro que, a uma buzinadela por estar parado numa a) passadeira; b) numa subida em curva sem visibilidade; c) a bloquear a visibilidade e manobralidade de quem queria entrar num entroncamento; me saudou com um pirete e algo que me soou com "puta que te pariu". Relevei esta. Não generalizei as tristes cenas da greve / manifestação no aeroporto. Mas é a tal coisa da gota de água.
Epá, não. Uberizei-me.

(poupem-me comentários do tipo ai o meu pai é taxista há trinta anos e um senhor muito respeitável e coiso. sabem lá o que eles andam a fazer quando ninguém vê. o Pedro Dias, também diz que era um rapaz muito educado e respeitador.)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O ano do pensamento mágico

Ontem vi um DeLorean. Não foi na tela da tv ou do cinema, não foi numa fotografia ou cartaz, foi mesmo na rua. A circular. Um DeLorean. Sim, igual a esse. Sem flux capacitor - presumo - mas o que conta é a intenção.
Ontem vi um DeLorean, e portanto tuuuudo vai correr bem.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

We shall never surrender

[numa conversa no feice - o pessoal da minha timeline acordou cedo, e estamos numa de psicoterapia de grupo desde as sete menos picos - lembrei-me deste filme. já é velhinho, com um elenco de luxo, e uma história que se torna, hoje, assustadoramente presente]



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

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[uma pessoa até se recorda que tem um blog, uma pessoa até, ocasionalmente, se lembra de coisas giras para dizer ou partilhar, mas uma pessoa não tem tempo porque entretanto lhe acontece trabalho. e pessoas. muito. chatas. muitas pessoas.]