sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

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[estou numa corrida contra o tempo e a minha capacidade de dar resposta a um deadline que é mais uma line que dead, que não morre ninguém se não conseguir, embora exista a possibilidade de me lixar com f maiúsculo se não cortar a meta, anyhoo, suspeito que dead é o estado em que estarei se o fizer dentro dos tempos fixados, mas hoje almocei uma sopa o que foi uma fofa e saudável alternativa ao meu variado menu - sandes de queijo / tosta de queijo - dos últimos tempos; vegetais, do your work, que quem percebe disso diz que tomar vitaminas só contribui para uma urina mais cara, mas neste momento eu já me agarrava a qualquer crença que me mantenha de pé, pensante, e dedinhos ágeis e teclantes, mas o chocolate também é - maioritariamente - vegetal, e se não resulta mêmo, mêmo, ao menos consola, vamos a isso, mais uma volta e se isto correr bem até acabo antes da tal linha de morte, pausa para gargalhadas, ahahahahah, chuif]

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Um subsídio, uma bolsa para estudar isto e arranjar uma cura

Me mate está constipadíssimo, e pronto, podia acabar aqui e ficava o post e imagem sobre este difícil momento familiar já completo.
Não fosse um pequeno senão, uma pequena nuance, uma mínima divergência: decerto fartinho de me ouvir fazer pouco da man flu, e encaixando todo esse gozo como justíssimo, merecidíssimo, e assente em factos reais, desta vez prometeu-me que não senhora, não ia fazer fita, nada de gemidos de sofrimento, népia de suspiros, muito menos queixumes lânguidos, pieguices em geral e birrinhas em particular.
Está a cumprir. Em 90%, vá, sejamos magnânimas.
Mas desde que começou com os primeiros sintomas, naquele malfafado e aziago sábado, que não se cala com a constatação de que "hã, olha que desta vez, hã, estou a portar-me bem, hã, ainda não me queixei, hã".
Se alguém não consegue ver a ironia da coisa, pá, juntem-se a ele, fundem um grupo, reunam de preferência já, e tirem-mo de casa, antes que os meus olhos saltem das órbitas de tanto os girar. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Se calhar é por isto que ninguém me atura, e não os tenho :(

Tenho de desafafar, tirar esta pedra que carrego no peito: não entendo, não gosto, e não entendo quem gosta de Friends. Não percebo o hype, a fandom, a loucura, e quem dê dinheiro por uma techérte com o logo. Ou pior, as fotos dos moinantes.

Aaaaaahhhhh. O alívio.

Atenção, não quero com isto insinuar que sou uma pessoa com melhor cómico-série-gosto que azoutras (que até sou); não estou a desfazer, intelequetualmente, em quem gosta de Friends (too easy), não me estou a por num pedestal de superioridade relativamente a quem gosta, idolatra, ama Friends (já lá estava)*.

Não, agora a sério. Porquê?
E não me venham com o "ah, se calhar nem viste", porque vi.

Quer dizer, fui vendo. Estava a passar num canal qualquer, calhou apanhar e pensei "ora aqui está uma oportunidade de por à prova o meu preconceito" - que existia, sou çinçera. Dei, portanto, uma oportunidade à coisa. Não é a primeira "coisa" relativamente à qual tenho a ideia que vou odiar e, em dando uma oportunidade, até passo a gostar. Exhibit A: Brooklyn 99. Odeio o Samberg, ergo, já odiava a série antes de ver um segundo. Vi um só episódio e já adorava a série, e considerava a hipótese de, numa realidade paralela, até ser amiga do Samberg. Friso: realidade paralela.

Voltando à vaca fria, Friends. Não vi só um episódio, porque ao fim de um continuava a não perceber/gostar. As personagens pareciam-me desinteressantes, zero empatia, zero vontade de as conhecer melhor, planas, unidimensionais, superficiais, sem interesse de maior ou sequer.

Insisti, portanto, vivas ao método científico. Não correu bem.
Para além de confirmar o que já intuía acerca das personagens, soma-se a banalidade do texto. A pesada, aborrecidíssima, patente banalidade. Piadas óbvias, ao nível zero da inteligência, muitas delas abaixo de zero, sim, estou a falar do humor (?) sobre aspectos físicos, por exemplo. Quantas piadas sobre gordas é possível fazer até matar alguém de tédio? Para quem escrevia aquilo, infinito mais um, ao que parece.

Isto é inédito, mas nunca ri, física ou mentalmente - os outros não sei, mas muitas vezes as minhas gargalhadas são apenas mentais. Exhibit B: Seinfeld e Curb Your Enthusiasm.
Ou seja, no total devo ter visto uns vinte episódios (pronto, já aí vem a turba do "aaahhhhh, sem ver tudo não percebes a dinâmica, o entrosamento, a táctica, a ligação"; lamento mas percebi, tão óbvio aquilo é, como na maioria das telenovelas uma pessoa pode saltar n episódios que apanha logo no seguinte, temos pena) e é tempo que não recupero, mas ao menos não morro inguinorante.
Pronto, posso afirmar de cátedra que aquilo é uma real, valente, fumegante poia**.
No hard feeelings.


*estou evidentemente a gozar. vejo, consciente e deliberadamente, muita merdinha e pasme-se, gosto de imensa merduncha. ainda anteontem assistimos, felicíssimos como dois basbaques com severo atraso cognitivo, ao Con Air. e está a dar Murder She Wrote?, vejo e ainda me gabo. e por aqui me fico, que já têm material para me gozar daqui à lua. mas sei que é merdéque, e não a quero fazer passar por alta arte ou coisa de merecimento. é o que é. 

**não é única, no meu rol de "séries com aclamado sucesso que odeio", Exhibit C: Cheers, que é uma farpa no meu casamento, mas é lidar.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

*suspiros*

No 12º ano tive um colega uber-mega-hiper palerma que passava a vida a contar, entre outras sem graça nenhuma, piadas racistas. Tal como as outras, não tinham graça nenhuma porque a) racistas; b) eram más, mesmo - se isso fosse possível - tirando o factor racismo.
Quando estes surtos piadistas me tinham como público involuntário, para além de não me rir e eventualmente revirar os olhos, fazia-lhe notar que já deixava de ser um traste racista e de estar sempre a debitar graçolas sobre o tema. A resposta era sempre a mesma: "é só uma piada!", seguindo-se o rame-rame do "não tens sentido de humor". Ter, tinha; e tenho, mas era e é um bocadinho, só um bocadinho mais sofisticado e exigente. Adiante.
Na altura ainda não estava em voga o argumento do "politicamente correcto que vai acabar por matar o humor" (chuif, que tragédia), vá lá. Mas já existia o argumento do "até tenho amigos que são", e se o gajo o estafava. É que na turma havia um, apenas um, colega negro, a quem o gajo vivia colado. Dizia que eram amigos (debatível: esse colega era um tipo extremamente sossegado, introvertido, até; suspeito que aturava o outro por educação, um maior sentido de sacrifício do que eu alguma vez tive, ou simples pressão, incapacidade de, minoria muito minorotária que era, se rebelar), e o amigo não levava a mal, sabia que ele estava só a brincar. Donde, não era racista, lá agora.
Era. Era sim senhora. Além de outras características muito pouco abonatórias, era um poltrão de um racista.

Passou-se isto ali em 1988, 1989 (sou um bocadicho antiga, pois é). Se nessa altura me dissessem que no ano da graça de 2020 este tipo de pessoas andaria por aí de cabeça erguida, a vomitar o mesmo tipo de dichotes com um ar de "quero, posso, e devo", como se não tivesse mal ou importância, como se fosse aceitável, próprio de uma pessoa decente, e que os demais deveriam tolerar sem ruído porque liberdade de expressão, porque é uma piada, porque sim, tinha cortado logo os pulsos e escusava-me à vergonha profunda que este estado de coisas me faz sentir.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O mundo está perdido?

A resposta é "está sim senhora", pronto, poupei já o trabalhinho de ler o resto do post.

Para quem tenha paciência e queira saber, não, não cheguei a essa conclusão abrindo um jornal, assistindo a um noticiário, népia. Bastou uma ida ao lidl, muito a correr, para comprar pão (sou especialmente fã daquele de espelta, e de onde vínhamos calhava um lidl de caminho).

Ora lá estamos eu e me mate, com o cestinho com rodas (uma pessoa precisa sempre de mais alguma coisa), a chegar à zona do pão. Para quem não seja freguês, aquilo funciona muito modernamente (e civilizadamente) em modo self-service: o pão está em tabuleiros, separado por tipos; há uma geringonça com que puxamos / empurramos o pão que nos interssa para uma calha, e depois é ensacar. Ora sucede que, para o estimado cliente concluir esta operação, o supermercado tem à disposição a) sacos de papel para o pão, em dois tamanhos; b) luvinhas de plástico, como as da estação de seerviço, para pegar no pãozinho.

Dizia eu então que tínhamos acabado de chegar à zona de pão, estamos a observar as existências, e eu nem tenho tempo de soltar um "oohhhh já não há o de espelta", porque já estamos ambos embasbacados a olhar para o sujeito que sacava da dita calha um pão, manápulas nuas, e pronto, é mau mas o problema seria dele e da sua afeição às bactérias, mas vai daí olha para o pão, o pão não olha de volta mas ele não gostou decerto da cara daquele pão, acto contínuo joga-o outra vez para dentro do respetivo tabuleiro, tira outro, repito, de gânfias desluvadas, e ensaca-o.

Nem tivémos tempo de olhar um para o outro, porque o dito guna volta atrás, tira o pão do saco, joga-o para dentro do tabuleiro, e vai buscar um outro tipo de pão, no qual pega, insisto, em contacto directo patinha - pão.

Finalmente, os nossos olhares cruzaram-se. Estávamos os dois de boca entreaberta e olhinhos esbugalhados. Tu viste aquilo?, Vi, De repente já não me apetece pão, Iá, compramos lá ao pé de casa, meia volta volver.

Eu sei, eu sei que estes sistemas não sei quê, há sempre um porcão a lixar tudo, a gente nunca sabe quem lá passou, mas pá, ó pá, há anos freguesa, há anos a levar pão do lidl, mas no meu lidl nunca vi semelhante.
Cho-ca-da. Fé (a que restava) na humanidade: foi-se. Por mim a extinção está bem.

(capaz de apostar que na estação de serviço põe a luvinha, o jagunço)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

[who are you?]

"Blogs are a conversation no one wanted to have with you."

Disse a Michelle Wolf (num clip de apresentação de um stand up, que vi há atrasado).

E eu ri-me. Porque é verdade, andamos todos aqui a falar sozinhos, como os malucos. Volta e meia aparece alguém que faz a caridade de nos ouvir e, ou segue caminho, ou se mete na conversa. sinal de que se calhar não somos assim tão malucos, ou então somos mais do que pensamos. Uma convenção de malucos, as caixas de comentários. Ou de irredutíveis solitários. Não necessariamente sós, pode dar-se o caso de que os blogs sejam apenas o reduto dos temporariamente solitários, em periodos determinados. Ou dos temporariamente a tender para definitivamente sós.

Eu ri-me porque me identifiquei quase totalmente.
Para que me serve isto, afinal. Pergunto-me muitas vezes. E muitas vezes me respondi que era como a cova que o barbeiro do Príncipe das Orelhas de Burro cavava, e onde ia gritar um segredo impartilhável. A tal conversa que não podia ter com ninguém. Mas vai além disso: é mesmo a "conversa" que ninguém tem connosco, ou porque não quer, ou, numa perspectiva mais suave não pode. Não está para isso, na verdade.

Seja uma cova, a gaveta da tralha, um recurso de solitários, um blog serve para o que serve. Este (e outros anteriores) vêm-me servindo como o veículo para a conversa que não tenho com mais ninguém, essa é que é essa. Um blog é um óptimo refúgio para um introvertido que, por acaso, gosta (até) muito de conversa. Se calhar esta esgota, ou a espaços esmorece; é o que tem vindo a acontecer por este poiso. Não sei muito bem o que fazer a isto, e nisto. Sou a mesma e não sou, não sei bem o que me traz aqui, na época em que o blog se tornou obsoleto e o tio velhinho (e chato, e quiçá senil) dos podequéstes, tuítas, instagrãs. E eu tambem já não vou para nova, hein.

Enfim, pode ser muito 2008, fora de moda, gasto, muito visto, coisa de antigos, mas continuo a gostar disto. Mesmo sabendo que corro o risco de estar a falar para as paredes, tendo a notória percepção de que atualmente não tenho interesse nenhum, nem para mim, fartinha de me aturar, credo, e que nem sozinha (como os malucos) me apetece falar.

Mas isto um dia pode dar a volta. E me aprecie mais, a pontos de achar que tem algum propósito plantar um caixote da fruta no meio das internetes e daí botar um discurso que a ninguém, a não ser a mim, interessa. No entretanto, cá estamos.

 



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

[ motivação ]



Esta semana está a ser um bocadinho difícil a nível de pessoas, e por pessoas entenda-se fregueses.

(aquela cena de ouvir e pensar antes de falar, não se comportar como se tivesse o rei na barriga, ou pensar um bocadinho na merdunca que se fez antes de desatar a responsabilizar toooodos os outros ou, isso falhando, o estado - ei, nunca falha - é tão século passado, não é?)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Organizadíssima, concentradíssima

Sábado de manhã, enquanto tomava o pequeno almoço, fiz uma listinha das tarefas que tinha e ia mesmo realizar no fim de semana.
Em boa hora: agora já tenho a lista de tarefas feita para esta semana, o trabalho que eu poupei.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Ah, a primeira vez!

A minha primeira vez a mascar uma pastilha de nicotina (como são profícuos em boas intenções, os primeiros dias do ano) e posso já adiantar que
- o prometido sabor a mentol acaba num instantinho;
- a boca sabe-me pior que se tivesse fumado um cigarro;
- estou li-gei-ra-men-te agoniada;
- e tenho a língua um nadica dormente.
Mas não fumei um cigarro.
E ainda bem, que só tenho dois e ainda pelo menos uma hora de trabalho.

[acho que vou antes experimentar os pensos de nicotina]
[alguém tem uso para 29 pastilhas de nicotina? novas! nunca usadas! estado impecável!]

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

[ahéééém]

Então (como diz que é de praxe) feliz ano novo para todos, muita saudinha e felicidades, etc e tudo de bom!,
(mas, e, especialmente para aquelas pessoas que no dia 1 - um -1 já estavam acordadas às seis e pouco a dar uma cápsula de omeprazol ao filho do demo mai'novo, a suportar os olhares de reprovação da mai'velha por não haver paparoca a noite toda, voltaram para a cama mas puseram o despertador para daí a meia hora, voltaram a levantar-se, encheram as malguinhas da prole felina faminta que asinha acorreu ao chamamento do granulado, e voltaram para a cama de onde arribaram daí a umas parcas horitas com uma inexplicável, surpreendente dor de cabeça. muita forcinha para essas pessoas no ano que se avizinha, e principalmente nos próximos dez dias de omeprazol que o peste mai'novo, que come tudo o que deve e não deve, parece não apreciar por aí além)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

[who are you?]




Há uma (entre muitas) cena / linha de história poderosíssima em Six Feet Under (Sete Palmos de Terra) que me marcou como um ferro em brasa, e se na altura me perguntassem porquê não saberia explicar. Hoje sei.
Sucedia que a matriarca Ruth Fisher, já viúva há uns tempos, conhecia um homem da sua idade (George Sibley, iep, tive de ir ao imdb), um tipo interessante, cativante, que a arrebata. Acabam por casar e, sem qualquer aviso, a pessoa alegre, romântica, encantadora, dá lugar a um sujeito apático, com surtos de mau humor, isto quando sequer sai da cama. Não me recordo com inteiro pormenor, mas quando para o espectador se torna claro que o personagem passa por uma depressão profunda, surge a sua filha adulta, que esclarece Ruth que o pai sofre de doença maníaco-depressiva (ou transtorno bipolar), sendo recorrentes os períodos de depressão profunda após (aparentemente bons) tempos de disposição em alta. George precisa de terapia electro-convulsiva nestas fases depressivas, mas ainda assim o tratamento não é garantia de que "saia" daquele estado, não se podendo prever a duração das fases mais negras.
Ruth sente-se enganada, revoltada, e declara que nem conhece aquela pessoa nem tem condições - ou vontade - de tratar dela. No contexto e história pessoal da personagem entende-se, claro, e é isso que faz da série uma coisa do outro mundo, os personagens têm gente dentro, não são maus ou bons, e os seus comportamentos não são clivados em certo ou errado. Mas o/s espectador/es também são pessoas, e também têm histórias dentro. E o desenvolvimento ficcionado da relação entre Ruth e George, senti-o como um murro no estômago: quando ele regressa de um tratamento em regime de internamento ela arrendou(lhe) uma casinha, para onde o leva, e onde ele passará a viver. Não que eu tenha especiais issues com abandono (que saiba), mas esta resolução indignou-me a um ponto que não conseguia tolerar. E acabou por ser um tema de discussão entre mim e me mate, eu a defender que ele era a mesma pessoa que ela tinha conhecido e por quem se tinha apaixonado, que o facto de ser doente mental não justificava este abandono, que onde há amor e vontade há solução, e que ela estava a ser profundamente egoísta e superficial, para além de ignorante. Já me mate, sem tomar partido, fez-me notar que ele a enganou, verdadeiramente, pois ocultou-lhe sofrer de doença de que bem sabia padecer; e que também era legítimo concluir que a podia ter usado, garantindo através da relação e casamento que teria quem tomasse conta dele. Percebi o ponto de vista, mas ainda assim mantinha a minha posição: não se abandona a família, quem se ama, ponto. Não que acredite em amor puramente incondicional, há e tem de haver limites (mal fora), e há actos que rompem definitivamente qualquer sentimento de lealdade para com o outro. Mas, naquela situação, não achava que fosse o suficiente. Ainda não acho. Entendo, compreendo, até empatizo, mas não concordo com a opção de Ruth.

E vem isto a propósito da ironia que é a vida, por vezes, nos atirar para uma cena / linha de história que vem testar as convicções que com tanta ousadia e até alguma inflexibilidade uma vez defendemos. Não que fosse uma situação decalcada, afinal não se trata(va) de um casamento de poucas semanas, mas de anos; e se uma parte já sabia de parte do problema, embora desconhecendo a complexidade, profundidade e gravidade de determinada condição, a outra parte também não sabia, ou não conseguia, racionalizar o que se passava. Mas desta parte houve ocultação de sintomas, um fazer de conta que nada de mais grave que o que já se conhecia passava. Até ao dia em que o dique, laboriosamente construído e mantido, não conteve a torrente, e passaram a ser dois os conscientemente atascados no lodaçal. Estava ali, não podia um ignorar nem o outro disfarçar (mais). E era preciso agir. Ou não agir. Mas, primeiro, e para uma das partes, impunha-se gerir o choque, assimilar a tremenda alteração de circunstâncias, enfrentar uma realidade que afinal já intuía mas não sabia (se porque não tinha como saber ou também escolheu, inconscientemente, não querer saber, é agora pouco relevante).

Foi assim que aconteceu, e me vi sem saber quem eu era, o que era, o que vivia, como viveria, então; e fui obrigada a decidir o que queria viver, como, com quem. Saltar fora e seguir, ou ficar. 

Long story short, fiquei. Decisão consciente, tomada livre e esclarecidamente. Não totalmente, é certo, que ninguém tem poderes divinatórios para saber de antemão se é viável, se é acertado, ou se é sequer no nosso (de um, do outro, de ambos) melhor interesse. Não sabemos nada, na verdade. Adivinhamos que não vai ser fácil, que vai ser longo, que não há uma solução providencial debaixo de uma pedra da calçada  - ou na lábia de um qualquer charlatão que ganha e passa a vida a ensinar os outros a viver. Vai doer, vai demorar, vai haver sobressaltos, frustração, tristeza, desânimo, recaídas, recomeços; dias em que pomos em causa todas as decisões tomadas e acções empreendidas, outros em que encontramos ainda uma restiazinha de força e determinação onde se pensava já não existir nem uma nem outra. Vai ser preciso (re)aprender tudo o que julgávamos já conhecer, estudar, acompanhar, amparar, simplesmente estar lá. Vai haver dias em que se desespera, fica muito zangado, apetece desistir e mandar tudo às malvas. E, nos entretantos, é preciso continuar a nossa vida, o trabalho, a rotina; encontrar outra vez o nosso ponto de apoio, dar muitas auto-palmadinhas nas costas, insistir e acreditar que ei, até não estamos nem vamos nada mal, isto vai, ó se vai, que remédio se não ir.

E vai. Vai indo. Hoje melhor que ontem, e esperemos que pior que amanhã. Houve tudo o que esperava e também o que não esperava. É lidar. Ir lidando. Lá vontade (leia-se teimosia) não falta. Nem amor. Muito. Nos dois sentidos. Mesmo nos dias em que, já no limite da paciência e cansaço,  sonho que se materializa ali uma tábua cheia de farpas e pregos ferrugentos e lhe prego com ela nas costas, ou lhe cai uma bigorma na cabeça (à desenho animado warner bross, cada um tem as referências que merece). Nos dias muito bons de risos, camaradagem, conforto, profunda empatia e partilha. Nos dias  assim-assim, em que tenho de me esforçar para moderar a minha impaciência. Vou encontrando o meu ponto de apoio, o trabalho faz-se (que remédio, as contas não se pagam sozinhas), vou voltando a reconhecer-me, a saber quem sou, o eu individual que se sentou tantas vezes no banco a fazer tempo de ser oportuno voltar a jogo. Vou, de novo, sabendo quem sou. Reconhecendo-me em quem sou, ou lá o que é, não tenho muito jeito para balelas meta. Mesmo nos dias piores, e se os houve (e haverá, ou não), sei quem sou.



Não me arrependi. Nem desisti.
Vai começar a quinta volta ao sol desde a grande enxurrada, e cá estou.
Estamos.
Vamos a isso.


[não pude nem quis contar esta história antes. agora posso, e apeteceu-me. não é uma feel good story, não é um conto encantado com uma moral a reter, não é um choradinho a pedir abracinhos, beijinhos, palminhas, encómios vários. é uma história, e calha ser também a minha.]

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Paz na terra e o caraças

Uma pessoa sai à rua no dia 26 e percebe que o espírito natalício tem um prazo de validade mais curto que natas frescas deixadas fora do frigorífico: triste, triste espectáculo de sacalhada amontoada à volta de todos os ecopontos azuis.
Pá. Pá, a sério. Dia 24 e 25 não há recolha de nadinha, de nenhum resíduo, porque o pessoal da higiene urbana também tem direitos. E a recolha de diferenciados não se faz todos os dias. Custa muito acondicionar a papelada num saquito e deixá-la lá em casa uns dias? Bolas, o papel nem cheira, sequer!
Se calhar é o mesmo pessoal que suspira de saudades do tempo em que havia respeito, e tal.
E nem vou falar nos dois doidos varridos com quem nos cruzámos na estrada, no regresso a casa na noite de 24. O fulano que conduzia a pick-up a abrir, aos ésses entre carros, a fazer sinais de luzes a quem tivesse o topete de estar à sua frente!, ainda percebo: devia estar mesmo stressado para ir buscar o fardo de palha para a ceia.
Credo, é mesmo um milagre não morrer mais gente na estrada.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Patetas Anónimos

Olá, eu sou a Izzie, e porque tenho vergonha que a senhora da limpeza os veja no lixo e tire daí conclusões (decerto merecidíssimas), guardo na mala as embalagens dos chocolates e todas as outras porcarias que consumo aqui no trabalho, para as deitar fora em casa.

[olá Izzie?... anyone?]

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Resisto a tudo, menos à tentação

Sou absolutamente louca por livros [extraordinariamente] bonitos.









(sim, este foi comprado pela capa. e pelo autor. valeu cada cêntimo. não é para crianças, já agora)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

News flash

Sem tempo? Fobia a espaços comerciais ultra-cheios? Firme crença de que comprar merdunchas para um horror de gente é não só a) financeiramente desastroso; b) ecologicamente (muito) questionável; c) uma perda de tempo que já não volta (e um gajo já não vai para novo); d) um camadão de nerfes assegurado; e) uma forma muito estúpida de demonstrar amor e carinho por quem o merece?
E, em cima disso tudo, ainda há muita comprinha de Natal por fazer?
Izzie sugere, Izzie resolve.
Ide aqui ao link, e resolveide todos os problemas supra. Com o acréscimo nada negligenciável de que estão a oferecer algo efectivamente útil a quem desesperadamente precisa.
De nada.

Finalmente, ainda é cedo, mas nunca é tarde para recomendar uma das melhores contas insta e espalhar a palavra. Tomaide nota.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Ecoponto rosa

A falta que me fazia ter um manto de invisibilidade, para as situações em que não posso deixar de estar, mas me convinha muito, tanto, não darem por mim. É que é sempre para caralhices do caneco, para merdices que valhamecoiso, e para as quais, vá-se lá perceber porquê, me acham habilitada, me procuram. Eu. A deprimidinha certificada desde os vinte (mas angustiada desde que tomei consciêcia de mim). A ansiosa e fóbica social. A introvertida com jeito nulo para lidar eficazmente com 'ssoas em contexto pseudo-psicoterapêutico. E é a esta alminha, não sei por que raios e coriscos, por que raio de maldição ou má fortuna, que calha sempre, mas seeempre a rifa do dar colinho, nomeada mas não exclusivamente à nova aqui do lado que está a espiralar desde passada uma semana de cá chegar; o oferecer o abracinho consolador, o "vá, vá", a palmadinha compreensiva no ombro à outra que tem mais energia num dia mau que eu num dia bom; o dispensar -  a quem precisa, e há muita gente a precisar e a dar-me conta do facto - da palavrinha amiga e esperançosa, o sublinhar que as coisas se resolvem ou a gente adapta-se e acaba a aceitá-las como são; acabando, por norma, a rematar com o suspiro final que sela a irmandade na aflição: "é lidar".
Donde, portanto, resumindo, concretizando, não percebo porque me calha sempre, a mim, à desorganizada mental, à ventania cerebral, ao tornado emocional, esta sina de caixote do lixo das agruras alheias, e é nestes momentos que dou graças pelas costas todas fornicadinhas que me impedem de andar de metro e autocarro, ou ainda acabava a acumular o/s desabafo/s de um/a qualquer desconhecido/a (acontecia-me muito), que tomava a cara de parva aluada de perdida na vida como sinal inequívoco de está ali uma pessoa que quer ouvir, vai empatizar e decerto entenderá (e até ouço, empatizo, e entendo; mas dispensava a solicitação. ou tanta solicitação. porque depois sobro eu. e o silêncio.).

[a emissão segue dentro de momentos]