quinta-feira, 13 de setembro de 2018

P'lo direito a uma m'lher se passar (valentemente) da marmita

Menina e moça minha mãe me educou para o feminismo: que nós podemos fazer tudo o que eles fazem, menos xixi de pé. Quer dizer, até se pode, mas há uma grande probabilidade de correr mal. Direitos iguais, deveres iguais (consequente e naturalmente), e que nunca me deixassem convencer do contrário. Também me introduziu nas falácias do argumentário opositor: não, o facto de um homem, por princípio, conseguir acartar uma saca de batatas às costas não prova que há diferenças naturais e físicas (e outras, suspiro, nem entro por aí, ainda sou do tempo do estribilho "as meninas não têm jeito para matemática", fica para outro dia), ergo, isso da igualdade é parvo. Uma mulher também gera filhos, um homem não, e depois? Igualdade de direitos e deveres não equivale igualitarismo, o que se pede é igual dignidade, igual tratamento perante a lei, igualdade de oportunidades e de acesso a estas, ou seja, que ninguém seja discriminado em função do género, tal como ninguém deve ser discriminado em função de cor de pele, religião, orientação sexual, e por diante.

Alertada também fui que a luta pela igualdade não implica que se mimetize comportamentos normalizados e aceites ao género masculino, e que são em si errados ou censuráveis: cuspir para o chão, por exemplo, é feio, seja-se homem ou mulher (ou transgénero, ou seja o que for). Nesse aspecto, fazer igual é má criação, não é libertação. Idem aspas para outros tantos comportamentos, como o piropo ou assédio, andar à bulha, ou praguejar. A minha mãezinha é muito coisinha com o uso do palavrão: não aprova. Mais que um "merda" dito em ambiente seguro e/ou familiar é feio, muito feio. Logo lhe havia de ter saído uma filha com costela de carroceira, já lá vamos. Já noutros aspectos como depilar ou não depilar, usar calças (a minha mãe é do tempo em que menina ou mulher séria não usa calças), ter cabelo curto ou grisalho, cada um/a que faça como lhe aprouver, são coisas de foro pessoal e inatacável.

Ora se tudo me fez muito sentido, sim senhora, e ainda hoje faz parte do (mais alargado, atenção, isto não é só nem tudo) núcleo duro do meu feminismo, a parte do praguejar e bulhar (embora excluindo o confronto físico) é que me caiu muito mal. É que eu tenho uma visão muito libertadora da actividade de barafustar, e uma prática muito livre do uso do palavrão. Como uma taça de gelado, uns quadradinhos de chocolate, meio quilo de cerejas, é algo que às vezes me cai tão bem. Mesmo o que precisava para acalmar uma arrelia, para me resolver uma contenda ou acabar um dia especialmente mau. E, tendo sido fadada com um feitiozinho muito especial, daqueles que (já menos, felizmente) me leva do zen ao holocausto nuclear em sessenta segundos, caramba. Não se faz. Eu preciso e, em calhando, eu passo-me dos carretos. Eu preciso e, em se ocasionando, eu uso uma linguagem de fazer corar as pedras da calçada.

Dito isto, não, não é característica de que me orgulhe. Aprendi a lidar com ela, nisto a idade de facto traz sabedoria, mas pronto, sou assim, uma bestinha que faz favor, em se reunindo as condições adequadas. E essas condições adequadas, que também podemos definir, mais doutamente, como estímulos externos, nem sempre são justas ou justificativas do passanço. Ou seja, pode acontecer barafustanço / praguejanço face a situações que o estavam mesmo a pedir, ou não. Sou humana, pá. Também tenho dias maus, susceptibilidades, fraquezas, e pode suceder estar num dia em que me vire para o outro lado pela casca de um alho, ou, também possível, aquela casca de um alho que veio acumular a muitas outras cascas de alhos, e pronto, calhou azar, foi aquela que me fez saltar a tampa.

Sou pior por isso? Se calhar. Em minha defesa, alego que o meu último passanço ocorreu quando num evento social me sentaram em frente a um patet'holístico anti-vacinas. completamente justificado, hein, não aceito contraditório. Consegui parar antes de  me sair um "burro do c*r*lho" ou pior, já não é mau. A Izzie de 15, 16 anos espantar-se-ia. Mas também já aconteceu - e ninguém ficou mais espantado que eu, apesar de os olhares de quem me conhecia de outros e mais exaltados tempos terem sido também de puro espanto - ter-me levantado durante um jantar para ir fumar um cigarro a meio de uma diatribe racista de um outro conviva. O "ir lá fora fumar um cigarro" tem-se revelado um grande coping mechanism, já agora (ainda não tinha usado uma palavra em ixtrancheiro, hein!).

Sumariando: a) passo-me da cabeça; b) em acontecendo, pode suceder acumular com ser muito malcriadona ao nível do uso da caralhada; c) não, não é bonito ter esta característica; d) mas tenho; e) a maioria das vezes descarrilo em situações em que presencio actos indefensáveis, ou alguém desata a expor ideias / opiniões completamente ofensivas ao nível de direitos humanos, respeito básico pelo outro, ignorância atroz, civismo, enfim, coisas mêmo, mêmo; f) mas também já aconteceu descer do salto e rodar a baiana em situações de cúmulo de picanços por merdinhas a que não devia dar importância; g) também já descalcei a chinela e pus a mão à anca em ocasiões completamente injustificadas, fruto de ou i) uma excessiva susceptibilidade; ii) mal entendido; iii) errada interpretação  / leitura (minha, só minha) da situação.

E agora, desde já parabenizando quem conseguiu chegar aqui, o ponto da questão: ainda assim, defendo e exercerei o meu direito ao passanço. Mesmo correndo o risco de ser injustificado. Ou exagerado. E não admito, porque não admito mesmo - e aí a expressão "holocausto nuclear" assumirá logo um contexto quase literal - que, em me passando e, quiçá invectivando, seja admoestada porque "te fica mal", "não é um comportamento de uma senhora", "ai que figura", "estás histérica", "não sejas ordinária", "não passas de uma arruaceira", "estás a deixar mal a/o tua/eu [inserir tema ideológico em causa]", "pareces uma peixeira", "estás completamente descontrolada", "deve ser aquela altura do mês", "não tomaste a medicação", "estás descompensada", "uma doida varrida", "falta de homem"; quando um homem, nas mesmas circunstâncias, até poderá ouvir que "passou das marcas", "exaltou-se", se calhar até "exagerou" ou "não havia necessidade"; mas, mas, mas, afinal é uma pessoa com "ideais muito arreigados", "muito assertivo", "defende aquilo em que acredita", "é natural, sentiu-se ofendido / atingido" e "quem não se sente...", além de que "já sabem que é assim, não o provocassem", ou "caramba, é genioso".
É que aí solta-se a Izzie de criação suburbana e, além do chorrilho de asneiredo, ainda levam uma cabeçada à Cais do Sodré que andam a cagar dentes uma semana; um rotativo nos queixos que têm de comer a sopa por uma palhinha; ou com uma tábua nos cornos que para verem televisão têm de por os óculos na nuca.


[este post poderá - ou não - ter sido inspirado num episódio de passanço da vida real - alheia - mal/não/in/justificado, e principalmente nas reacções que se lhe seguiram]

terça-feira, 11 de setembro de 2018

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Aqui há dias metia-se um colega comigo, para eu ter calma que ainda vou andar nisto mais vinte anos. Bingo, são mesmo vinte. Certinhos. Desconfio é que vão custar mais a passar que a primeira metade, ou então não estou cá para cortar a meta. Donde, a ver se ganho juízo e me deixo de maratonas, a ver se poupo o corpitxo para a marcha longa e lenta.

(jesussenhor, salva eu, salva)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

First World Problems

Nada como uma ida à superfície comercial da zona, a partir das seis da tarde, para soltar o Agecanonix que vive em nós.
Nada contra os estrangeiros, de facto, desde que entulhem lá os estabelecimentos deles.



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Chapéus há muitos

E livros também, E quer para uns e outros há soluções de arrumação para implementar, só me falta um discurso motivacional suficientemente poderoso para me fazer mexer.

Então diz que nas férias se lê, e eu li. Livros para além de consultas técnicas, quer-se dizer. Material não me falta, basta dar a volta a uma das pilhas (desarrumadas) em cima da secretária, mesas do quarto, e até cadeira do escritório. Pode ser que pegue, este mood de decoração, e assim já não preciso de solução de arrumação. Como a cabeça já esteve melhor e viu dias mais risonhos, optei por coisas mais leves, e resolvi dar uma chance a escrita em português (lamento, Agustina e Aquilino Ribeiro ainda vão esperar).

Abalei então com, para além do mais, Os Loucos da Rua Mazur na mala, uma oferta que por lá estava. Sim senhora, gostei. Não foi assim um gosteeeeei, mas gostei. Competente, bem escrito, sem cagança, sem gorduras para raspar. E bem investigado, nota-se que há ali trabalhinho: aprecio isso. Não será alta literatura, mas também não é literatura de aeroporto - uns bons furos acima de Rodrigues dos Santos, ou melhor, do único que lhe li.

Vai daí, e numa visita à Bertrand mais caótica e desorganizada do universo* - juro, eu vou lá para apanhar camadões de nervos, transtornar o meu aliás ligeiro transtorno obsessivo compulsivo, mas também elevar a minha autoestima quanto ao estado de (des)arrumação livreira lá de casa - vejo o Perguntem a Sarah Gross em formato de bolso, e tungas, veio comigo.

Primeiro que tudo: comprem livros de bolso, caraças, a ver se continuam a editar nesse formato. Mais baratos, mais leves, o conteúdo é igual. Invistam nisso, poupem as costas e a carteira. Tudo bem, não fazem uma estante tão bonita (é-me indiferente, adiante), mas eu sou do tempo em que quem se preocupava em ter uma estante bonita e composta comprava aquelas edições completas e encadernadas de escritores consagrados, e que nunca lia:parolice alert. Pior: me mate recorda que se vendia e comprava só uma estrutura de capas, que se enfiava na estante a fazer de conta. Isto já roça a demência.

Ah, o livro. Gostei. Gostei bastante, muito mais que o outro. História muito bem relatada, bem construída, bem escrito e, novamente, sem cagança (um dos piores defeitos, para mim, do Rodrigues dos Santos, é querer armar ao Eça e sair-lhe uma prosa tipo edições Harlequin, siga). Novamente muito bem investigado, este ainda tem mais trabalhinho por detrás, e nota-se. E eu aprecio, e faço a minha vénia. Dado o tema - tal como o outro, época nazi, Polónia - não posso dizer que se trata de literatura levezinha, bem pelo contrário, mas não é um As Benevolentes.

Anyhoo, sim senhora, sim senhora, temos escritor, e se calhar toda a gente já sabia, mas eu não, e pronto, fica aqui a minha opinião. Só tive uma pequena "dificuldade" com o Sarah Gross, que não passa de uma embirração muito embirrenta de um aliás quezilento e notório mau feitio: chamar Kimberly à protagonista, ó pá, que nome mais cocó, tão Ruben André, tão Soraia Cristiana, credo pá. Não havia necessidade.



*Torres Vedras, no centro comercial. a sério, devia ser incluída num circuito turístico. ou então realizar gincanas do tipo "encontre o livro" - ordem alfabética é conceito quase desconhecido, por lá. o espaço é muito pequeno, o que também não ajuda.
ideia para série de posts futuros: guia de Bertrands. sim, eu tenho um top.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

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Sinceramente, acho que seria muito feliz a fazer vida da jardinagem, mas parece que paga muito mal.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Nem sei que diga

Caros senhores que vão ao cabeleireiro, quiçá barbeiro, com a espoNZa atrelada, e é esta que dirige os trabalhos, isto é, comunica ao profissional como se faz o corte, se está bem, um bocadinho mais aqui, assim acoli: epá, emancipem-se.

Caras senhoras espoNZas supra mencionadas: nem sei que vos diga. Estou aqui disposta a aventar que, às tantas, é por causa de vocês que certo(s) barbeiro(s) proíbem a entrada de mulheres. Ou mesmo que sois do tipo de espoNZa que depois se queixa que eles não "ajudam" nada lá em casa, mas também, coitados, não sabem fazer nada, não é?

Anyhoo, aqui desta que estava (como de costume) a apanhar a maior seca, kudos pelo espectáculo, nunca pensei, ainda por cima com artistas mai'novos que eu. Se apanharam os meus eye rolls ou sorriso trocista: sorry, not sorry. Achava eu que não havia nada mais creepy que aqueles casais que se tratam por pai-mãe, afinal, ó, vivendo e aprendendo.

Silly Season

A Maria Vieira no feice, o Arnaldo Matos no tuíte.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

We all float down here

Olá, eu sou a Izzie, e consegui ver o It sem sobressaltos, sem pulos no sofá, sem gritaria histérica, sem tapar os olhos, sem hiperventilar, e até dormi lindamente, depois.
Qualquer dia ainda me apanham no Motelx. (nããããããã....)

Agora a sério: não só vi e não morri de susto, como adorei, adorei, adorei. Não que o filme seja adorável, bem pelo contrário, mas achei tão bom que até, por breves minutos, tive vontade de pegar nas mais de mil páginas do livro (nãããããã... passou-me).
O elenco juvenil é maravilhoso, e é extremamente credível - falam como putos de 13 anos, e não como os adultoa acham que falam putos de 13 anos. Só isso faz(-me) uma diferença fenomenal. Quanto ao mauzão, Pennywise, the dancing clown, ó que caraças. Nunca vi a versão com o Tim Curry (e agora quero), mas o pequenito Bill Skarsgard tem uma expressividade física e facial que ó-ó. Medinho misturado com pura admiração, foi o que passei todas as suas aparições, desde uma magnífica cena de introdução só com a sua carinha enquadrada na sarjeta, até aos seus bailados grotescos e movimento de ataque a fazer lembrar aqueles palhacitos de corda que tocavam tambor ou pratos (alguém se lembra destes brinquedos? tinham o mesmo movimento de braços e menear de cabeça, taliqual, assustador).
Mas o verdadeiro monstro do filme nem é tanto Pennywise, este é só a cereja no topo do bolo. O horror pode ser (e tantas vezes é) mais mundano, próximo e familiar que uma figura sobrenatural maléfica. Os monstros são os adultos daquele pequeno universo: os que infligem dor e os que, vendo-o ou sabendo-o, nada fazem. Juro que nenhuma cena com o Pennywise me deu tantos arrepios como aquela em que os bullies maltratam Ben e passa um carro com dois adultos que vêem e seguem caminho. E esta foi só um "aquecimento". Neste contexto de maldade entranhada e enraizada às tantas até o palhaço maléfico, que rapta e se alimenta de crianças, surge como um libertador das suas alminhas. Ou não. Se calhar um mal é apenas uma consequência natural de outro. Enfim, divagações minhas.
Fico à espera da segunda parte, em pulguinhas. (gostei tanto, já disse?)

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Blitzkrieg

Depois da apreensão inicial por sabermos ir passar a viver em cima de um AL (alojamento local, para quem ande totalmente out), suspirámos de alívio quando os primeiros hóspedes vieram e foram sem alarme. Fiquei de sobreaviso quando dei conta da meia dúzia de teenagers (ou quase) franceses. mas estes, apesar de passarem a noite toda na palheta e na bubereta tinham um excepcional sentido do volume da sua voz e aparelhos electrónicos. Sim senhora, mais de um mês e tudo corria bem; bom, "bem" nem tanto, há o pequeno problema de a empresa que explora a coisa fazer limpezas, atulhar o caixote do prédio, até deixar volumes fora, e depois ala e os condóminos que lhes façam o trabalho, e de borla. Como somos muito tortinhos, dessas vezes nem pomos lá mais lixo, nem acartamos o caixote para a rua. Não há palhaços, não há criados.
Ainda assim, ainda assim; já ouvi contar pior, vá lá.
Até que chegaram os alemães.
(inspira. expira. inspira.)
Nós, os latinos, é temos a fama de ser barulhentos, expansivos, armar cagaçal, não é? Pois sim, mas o proveito, o proveito.
Primeiro grupo teutónico, e lá tem me mate de ir bater-lhes à porta, fáxavor de baixar o som, tanquiú.
Segundo grupo, idem aspas, e com a agravante de a música ser bem pior (electrónica). Lá baixar, baixaram, mas pouco. E falam entre o muito alto e o berro. E batem com a porta do apartamento e do prédio. E entram e saem a horas que faz favor. No segundo dia (ontem) voltaram a sair para a náite, ali cerca da meia noite, e eu sei porque: a) portas a bater; b) tudo a falar aos berros; c) e aos berros continuaram a falar, e inclusive a cantar, à porta do prédio, até chegar a a boleia (dois carros); d) altura em que também ouvi um distinto barulho de cacos, presumo que de garrafas a embater em caixote. Voltaram em duas levas, uma delas às cinco e trinta (acordei eu) e outra antes (acordou me mate).
E é isto. Não demorou muito a descambar. Ai, a Europa do norte, tão evoluídos, tanto sentido cívico, ai. Estou aqui a matutar na estratégia a adoptar, mas a vontade de lhes voltar a bater à porta é nula - além do mais, são umas vigas que faz favor, e têm um aspecto de gunas que nem vos conto.
Unglaublich. Grandes fisdeputa.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Iaca

Por razões que não vêm ao caso, tive de me deslocar a uma grande superfície de cuidados de saúde. Sucede que se meteu a hora de almoço, e decido forrar o estômago antes de abalar; dito e feito, ala à cafetaria para nhom-nhom. Ora além de público (faminto) em geral, distingo eu uma série de fregueses branquinhos, branquinhos: ena, tantos shoutores e enfermeiras. Estas com a farda, aqueles com a batinha (e estetoscópio ao pescoço). A batinha branca, esse trajo profissional por excelência que distingue os responsáveis máximos pela nossa e vossa saúde; o trajo que não só distingue e diferencia, como também costuma, ou costumava, ser um selo de higiene.
A minha questão é esta: qual higiene, se andam a passear a porra da bata por todo o lado (já nem falando do estestocópio, que é caro e até entendo o perigo de roubo, mas caraças, aquilo é encostado a pessoas alegadamente doentes, desde o tuberculoso até ao constipado; até um cabeleireiro ou esteticista têm melhores hábitos). Até pode estar num branco neoblanc irrepreensível, mas as bactérias e vírus não se vêem a olho nu. E duvido muito que tenham direito a hora de almoço, a apanhar ar, pausa para cigarro, quiçá, ou até, na loucura, acompanhar o clínico na satisfação de uma necessidade fisiológica (nojo). A interdição de passeio entre áreas higienizadas ou até esterilizadas e outras, exteriores ou não, pode parecer um preciosismo, mas caraças, se a bata não for vista e considerada como trajo profissional símbolo de higiene, para que serve, afinal? Apenas distinção, ou seja, cagança? Pá, para isso, pá, amigos na mesma, mas deixem lá o trapinho em casa.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Obrigadinha por nada

Ah, sou capaz de jurar que verti uma lagrimita quando, no respectivo site, me dei conta que o iquêa (iqueia, não. não. é iquêa. não há lá nenhum "i") já disponibilizava aos estimados fregueses a possibilidade de compra online. Só facilidades: fazer registo, juntar os artiguinhos à lista de compras, inserir os dados pertinentes, pagar, escolher data de entrega, já 'tá. E só por €45 (para o meu código postal).
Oh pá, oh pá. A emoção. Ainda recordo, vivamente, a compra do roupeiro para o quartinho de vestir. Foi em duas vezes, cá por razõ€s, mas, de cada uma, céus. Por as embalagens no carrinho?, sim, sim; fazeis ideia do que pesam tabuonas de dois metros e pouco. Nem se mexiam, as embalagens, até um funcionário ver o triste circo e se apiedar desta aqui. E empurrar o carrinho até à caixa e depois ao balcão do transporte? Credo. Houve um bonus pater familias que também se apiedou, bem haja, deunossosenhor ou equivalente lhe dê saudinha.
Por isso, estando eu assim a modos que de férias só-que-não, mas podendo ficar em casa em qualquer dia; e estando extremamente precisada de alguns móveis dormitório para cangalhadas diversas e principalmente livros, que já moram em pilhas em cima de que superfície plana calhar, fui fazer a listinha. Hihihi, ria eu, vendo o amontoado de tábuas, vidros e ferros que não teria de arrastar. Fui até clicar lá no coisicho onde se vê o peso da embalagem, e toda eu era alegria: pura, doce alegria. Inseri tudo o que pediram, escolhi dia, lailailai, e chegou à parte mais dolorosa. Saca do cartão de crédito, digita número, validade e código de segurança, o ecrã faz aquela ventoinha que nos diz "'péra aí", e zás: pagamento não conseguido, ou lá o que é, fale com o seu banco. Ora eu não preciso de falar com o banco, que sei qual é o plafond e o que lá tenho, donde, insiste. Necas. Bof, saca do outro cartão (é, eu sou assim, ryca e phyna. não: tenho duas contas e numa prefiro só ter cartão de crédito, porque tem associado um seguro para compras online, ou lá o que é), digita lá os númbaros, clica, ventoinha, e pumbas: outra vez na trave. Ai o caraças. Insiste. Népias. Por via das dúvidas vai à netbanco, sim senhoras, tenho plafond, insiste, nicles. Ai o caracinhas, não foi caracinhas, mas pronto. Se calhar é do sistema, tento outra vez amanhã ou depois.
Hoje foi o "amanhã ou depois", e o "sistema" continua nicles, néribi, batatoides.
Pá. Pá. Pá.
Não faz isso a eu. Pu favô. Não faz isso a eu.

(lágrimas de sangue, a minha vida é isto, um vale de lágrimas, e de sangue. olha, fizesses musculação.)


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Dica da Semana: não seja um pequeno burguês de fachada socialista


Eu também me finjo pobre :'(
(ou então sou só forreta / prática / frugal, e não vejo razão para dar vinte - ou trinta, ou quarenta - por algo que pode custar dez e serve o mesmo propósito)

terça-feira, 31 de julho de 2018

E eu, que nem gosto (aliás detesto) caviar?

Nada me move contra o dinheiro. Pode não comprar a felicidade, mas ajuda muito, lá diz o povo; e, acrescento eu, paga coisas muito giras. Tenho zero razões para defender a abolição da propriedade privada, e muitas contra a apropriação colectiva de bens, designadamente os de produção; donde, conclui-se, nada contra a iniciativa privada. Não sou comunista pura, portanto, mas sou de esquerda: não confio nas boas intenções de ninguém, acho que a ganância não só existe, e aumenta na mesma proporção do dinheiro que se tem, como não é uma coisa boa, pelo que defendo uma regulação do mercado. O tal mercado não funciona bem sem regulação, e temos mais que provas nesse sentido. Aí entra o Estado, no papel de legislador: tem a obrigação de regular, e este regular deve entender-se num sentido muito amplo, não só de intervenção no mercado financeiro mas na economia em geral e, por maioria de razão, na forma como a sociedade se organiza, promovendo políticas sociais que tenham como fim eliminar assimetrias, e assegurar a todos um ponto de partida o mais paritário possível. Traços largos, é isto em que acredito. Sou portanto de esquerda; democrata, socialista, republicana, whatevs.

Dito isto, nada contra o dinheiro em geral, e o dinheiro de cada um em particular. Desde que exista uma política fiscal que tribute e arrecade para a coisa pública conforme os rendimentos de cada um. Desde que exista uma "caixa comunitária" que invista séria e eficazmente nos serviços básicos que a todos servem e a ninguém devem ser negados - educação, saúde, segurança (incluindo a social), justiça. E esses serviços podem e devem ser de excelência, sustentados por todos, conforme as suas possibilidades; e dirigidos a todos, conforme as suas necessidades, sem avaliações de mérito prévias. Para mim, e no modelo de sociedade que defendo, isto é inegociável e irrenunciável.

Posto isto, nada contra quem enriqueça, desde que por meios lícitos e garantido que seja que pagam o devido tributo à comunidade. Se o Martim Manuel, que nasceu já em ambiente social e financeiramente privilegiado, teve acesso a uma boa educação e cuidados de saúde, decide apenas gastar o que tem, seja no que for, problema dele. Se decide investir seja no que for, e com isso aumentar a sua riqueza, nada contra. Se o Joaquim Manuel, que nasceu em ambiente não privilegiado, mas com um fantástico olho e faro para o negócio, decide endividar-se para arriscar um investimento, nada contra, de novo, seja qual for o resultado. Desde que assumam as suas responsabilidades fiscais, legais e sociais (sim, existem; desde logo pela justa retribuição do trabalho, mas não vamos entrar por aí), tudo bem. Se, Joaquim ou Martim, bolsos cheios, decidem gastar a parte que lhes toca em caviar ou patê de sardinha, quero lá saber. E menos quero saber quais as convicções ideológicas ou políticas de Joaquim e Manuel: estas não são critério nem prévio nem póstumo para aferir da justeza com que ganham ou gastam.

Por tudo o que já longamente expus, a minha reacção ao último "escândalo" político foi de encolher de ombros. Bof, um tipo de esquerda, o malandro, que escolheu investir e até parece que lhe correu bem? O dislate! A provocação! Vejam lá, qualquer dia ainda os apanhamos a beber tinto a mais de dez euros a garrafa, a abastecer a despensa no supercor! Este tipo de indignação, muito semelhante àquela que ocupou diversos media que passaram mais que um milissegundo a discutir a marca de um cachecol de um esquerdalho, cansa-me muito. Não perco tempo com isto. O nível de inteligência de quem suscita e de quem embarca nestes arraiais é o mesmo daqueles colegas de me mate que lhe chamam vermelhusco, comuna, e amiúde lhe perguntam porque, sendo de esquerda, não dá tudo o que ganha aos pobrezinhos. Muito baixinho, mesmo rasteirinho, portanto.

No entanto, sucede que sendo dotada do mínimo de espírito crítico (if I may say so myself), e não tendo receio de mudar de opinião, mudei. E tal aconteceu quando tive conhecimento de um pequeno, minúsculo, pormenor que entretanto veio a público: o investimento em causa era, precisamente, numa área alvo de constantes e sustentadas zurzidelas por parte desse tipo de esquerda. Epá. Adquirir património imobiliário, por concurso, para recuperação, tudo bem. Recorrer à banca para tanto, nada contra, normal. Findos os trabalhos de recuperação colocar à venda, pelo preço de mercado actual, ok. O chato é que remodelar um prédio, situado no centro histórico, de modo a que fique dividido em unidades independentes com áreas entre 15 e 40 m2, indicia imediatamente qual o sector de mercado imobiliário onde se pretende obter rendimento. E se o investidor calha ser uma pessoa que foi eleita para um cargo público com base num programa essencialmente assente no repúdio da gentrificação, da remoção de imóveis do mercado habitacional para o de alojamento local, epá, não. Não pode ser. Não é só, ou sequer essencialmente, uma questão de incoerência, essa palavra que de repente se tornou tão cara. É uma questão de traição ao eleitorado, que o mandatou para os representar. Quem votou no partido em cujas listas concorria revia-se naqueles pontos do programa; logo, se a pessoa eleita, mais, a pessoa que teve o privilégio de ser eleito, a responsabilidade de defender aquele programa, age de acordo com interesses privados em sentido diametralmente oposto, essa pessoa perdeu a legitimidade representativa e deve, por inerência e consequência, renunciar ao mandato público em que foi investido via voto popular. Sem espinhas.

Isto sou eu, claro, que nem sequer votei no partido em causa (mas aquele em que votei, uhu, que se ponha fino, cá por coisas, começo a ficar sem partidos onde botar a cruzinha, ai a minha vida). Por acaso calha partilhar mesa e eleito com quem o fez, e que anda ali muito desmoralizado com esta treta, oscilando entre o ir à próxima reunião ou assembleia ou lá como se chamam as cenas que o pessoal dos partidos faz enunciar o seu descontentamento, ou passar pela rua da Palma e devolver o cartão, tadinho, parece taliqual o pai da Liberdade (anda com uma cara, o coitado).
Não é uma questão de dinheiro, propriedade, mais-valias, riqueza, investimento, capitalismo: o ser de esquerda, pasmem, não faz voto de pobreza nem vive ou tem de viver modestamente. Não é uma questão de coerência, porque quem nunca. É uma questão de integridade, de legitimidade democrática, de respeitar ideologicamente o mandato atribuído por voto popular. E, se formos justos e levarmos esta questão às suas devidas consequências, além do pirete ao vereador, também deveremos estender o dedo do meio à maioria dos seus críticos, incluindo e principalmente um comentadeiro de sua graça Marques "Captain Obvious" Marques, que devia era ter vergonha na cara e ficar caladinho.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

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Férias-férias terminadas. Iniciam-se as férias-mais-ou-menos-arrumações-limpezas-trabalho-dar-vazão-a-tudo-o-que-se-deixou-pendurado-onze-meses.
Yay.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

This is a local shop for local people. There's nothing for you here.

As opiniões são como as tal-e-tal, verdade, a cada um a sua e quem as quiser dar, que dê. Mas além de as haver para todos os gostos, e validando quaisquer posições, ideologias, pré-conceitos, whatevs, há as que prefiro: maturadas, pensadas, fundamentadas. E dessas não tenho tido muitas, ultimamente. Porque não tenho tempo, nem vagar, nem disponibilidade para as maturar, pensar, fundamentar. Vem alguém e grita: cinza!, e eu olho e parece-me mais um azulito, embora acinzentado, concedo; podia por-me logo em cima do caixote da fruta a berrar ao mundo e a quem quisesse ouvir que não é nada cinza, é azul, 'zuuuuli, mas não é assim que gosto ou costumo fazer as coisas. Precisava de tempo, vagar, disponibilidade para mais que olhar, ver. Analisar com atenção, quiçá ir investigar bem a fonte, que isto dos tons, já se sabe, podem variar com muito copy-paste, e dependendo das definições de luz do nosso receptor. E, em não tendo esse tempo, vagar, disponibilidade, opto por exercer o direito ao silêncio, em vez de arriscar fazer figura de tola. Ah, fosse toda  gente assim, permitam-me esta pequena soberba. É que se lê, ouve tanto disparate. Tanta gente a vender carapau por sardinha, porque foi por esta que o compraram. Nem notam que parece carapau, e nem sabe a sardinha. Não querem saber: eu acho que é sardinha, e tenho direito à minha opinião. Com certeza, claro que sim. Tem direito à opinião, como tem direito à ignorância, a abrir mão do espírito crítico, e a empenhar a capacidade de raciocínio, ou assassinar aquela pequena, singela capacidade de indagar o porquê. Alt-realidade: parece que é um trend. Não, é só uma epidemia de estupidez.

Vai daí, já nem me sobram dedos para contar as polémicas, mais ou menos válidas, mais ou menos néscias, que este ano deixei passar ao largo. Outras realidades falaram mais alto, e pediram mais insistentemente o meu tempo. Some-se a isto um certo cansaço de discutir a qualidade da caliça com paredes, e pronto, ficou este blog despido de discussões e querelas - das boas, aquelas em que se troca opiniões, visões, e se aprende; e das más, aquelas em que os interpelantes fazem como o Nelson, eterno bully dos Simpsons, apontam o dedo e ah-aahhh, e a gente sabendo lá porquê, se não pelo simples ou simplório gosto de ah-aahhh.

Talvez me passe, esta falta de tempo e necessária dispersão e imersão noutros e por outros assuntos. Hum, a avaliar pela lufa-lufa da última semana antes de férias, as tais que vão ser forçosamente reduzidas a metade pelo segundo ano consecutivo, não parece. Ou então, talvez baixe uma melhor gestão de tempo - agora sou a Nelson de mim mesma, ah-aahhh. Samicas me volte a curiosidade por ir ver em vez de olhar, investigar mais, escavar mais fundo; e a paixão pela exposição pública de pensamentos, em escrita. Huummm. Não sei. Ainda estou a tempo de me surpreender. Ou então não. Às vezes perdemos coisas que nos são muito valiosas e não desistimos de as tentar reencontrar; outras, acabamos por nos dar conta que afinal não são assim tão preciosas, e não merece a pena insistir no que já não volta a ser, já não retorna. Quem sabe? Nos entretantos, pois que aqui (ainda) insisto em persistir, nesta enfadonha forma de ser. Nesta miudeza poucochinha que é o relato de coisinhas de somenos importância. Nesta forma de manter alguma âncora de escrita feita, com pequenas pinceladas de trivialidade e ligeiríssima ironia, daquela que não faz mal a ninguém, não ofende, talvez arranque um sorriso ou nem isso, talvez suscite um piscar de olho cúmplice mas não comprometido.

Cá estamos.

sábado, 7 de julho de 2018

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[a uma semana de entrar de férias cai-me um fim do mundo em cuecas na secretária, e isto quando planeava, nesta semana, resolver um carmo & trindade e um fónix só a mim que ainda tenho pendurados. estou muito, muito em forma, dado que já acabei com as reservas de emergência de sedoxil. adoro a minha vida, só que não.]

terça-feira, 3 de julho de 2018

Requiem para tímpanos em guitarrinhas e bateria

Ou, parafraseando Daniel Glover, que o diz recorrentemente antes de se atirar para a tal da dita cuja,  I'm too old for this shit. Pelo menos foi o que pensei ontem, várias vezes, aliás, enquanto tinha a sensação de estar a sangrar dojóvidinhos, derivado da intensidade decibélica e, há que dizê-lo com toda a frontalidade, a rameira da acústica daquele pavilhão atlântico (mudem-lhe o nome o que quiserem, chamem-lhe até pavilhão nutella, mas não contem comigo para vos acompanhar nesse frenesim onomástico).

Mas comecemos pelo início, como diria a Menina Maria, a contar esta saga geriátrica. Foi há coisa de dois meses que comprei os bilhetes para mate ir ver o Founding Father (palavras dele) do rock e eu me inaugurar num concerto de metal. Afinal era metal bélhinho, rock pesado, isso aguento, até gosto, pensava eu. Afinal o espectáculo começava às oito, hora bem simpática, uma pessoa lá para as dez e meia já tem os sapatinhos a caminho de casa, a tempo de se deitar a horas decentes e fazer o doce ó-ó, julgava eu. Ah!, doce, inocente, pobre d'eu.

Sucede que não, a tudo. Menos a parte do gostar: gostei. Diverti-me bastante, até. Mais do que esperava. A pontos de sair de lá a sentir pena por já não haver bilhetes para Iron Maiden. Oh. Mas os meujovidos, senhor. E sim, começou a horas, às 8 Judas Priest entravam em palco, mas tocaram quase hora e meia (porque bélhos, mas tesos, apre), entretanto acontece mudança de palco, entra Ozzy, tocam p'a falo, abreviando, saímos ali pelas onze, apanhar táxi, casinha, seis horas, cinco e picos de sono, acordo afónica e com uma sensação de idiotia, o café levou um tempão a bater, ainda estou a ouvir muito mal de ambos os lados, assim não há condições.

Anyhoo, o que interessa. Parece que se confirma, velhos são os trapos. Mais uma para eu guardar na minha caixinha de aprendizagens à custa de muitos "bem feita!".
Andei dois meses a gozar com me mate, que o home ia mazé cantar sentado num banquinho, tipo Paulo Gonzo, com uma senhora enfermeira ao lado a tomar-lhe o pulso a intervalos regulares. Que o home ainda se finava a meio da tornée, e ficávamos a chuchar no dedo. Que provavelmente aquela cabecinha toda mamada já não se lembrava das letras. Que a meio se esquecia de onde estava e começava a deambular enquanto gemia "Shannonnnnnn".
Sim senhora, tudo o que disse? Engoli. A seco, embrulhadinho num wrap de piretes polvilhado com raspas de tafuder.

Pô, grande concerto. Mesmo com a acústica miserável (a sério, gastaram quanto, a fazer aquilo? os projectistas, arquitectos, inginheiros responsáveis pelo auditório do CCB, não estavam disponíveis? não há um santo de um sonoplasta que saiba acertar no som? qualquer coisa? cada vez que lá vou venho com a sensação que se perdeu imenso por causa da sala) foi do caracinhas. O home não só está vivo como se mexe, canta, e nota-se que vibra com o que faz. Já não são vinte ou trinta anos, verdade, mas tomara eu aos setenta estar metade daquilo. E levou uma banda de apoio que faz favor. f-a-z-f-a-v-o-r. Caneco de guitarrista, cujo nome entretanto descobri, de sua graça Zakk qualquer coisa. Um cabelo lindo, já agora, pantene até, embora a barba já levasse uma aparadela, mas quanto à mestria na guitarrinha, u-a-u.
Encontrei isto no iutubas, se quiserem (e tiverem paciência para conferir), faz favor:




Ou seja, tenho uma colmeia muito activa nojóvidinhos, acho que me fizeram uma lobotomia e esqueceram de avisar, preciso de dormir doze horas seguidas asap, sim senhora, se calhar estou muito velha para estas merdas, mas quando é o próximo.

[disclaimer: nenhum morcego sofreu ou deu a vida para realização deste evento]

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Antigamente é que era bom, o caraças

Ai, ai, ai que vai fechar a Suiça! Ai, ai, ai que Lisboa perde mais um dos seus marcos! E?

Parece que sim, que há quem esteja ralado com esta ocorrência. Há até quem, decerto num exercício de rebuscada memória, fale no encerramento da "pastelaria" Suiça. Que o nome é esse, não contesto; mas pastelaria, ei, há limites para o saudosismo, o delírio, a saudade. Aquilo, senhores, e não é de ontem, era sim um pardieiro. Uma espelunca que faz favor. E atenção, nada contra espeluncas: alguns dos nossos mais tradicionais e queridos estabelecimentos vivem disso. Olha a Ginginha do Largo de São Domingos; olha aquela tasca na esquina da Rua da Misericórdia e o Camões, em que da montra se podia apreciar a bela sertã preta retinta com o molho de bifanas mais velho que eu, olha a outra na Praça do Chile (Ribeirão Preto?) com as sandes de ovo mai'rançosas de sempre. E quem não recorda com saudade a Ti'Alice em frente ao Frágil, onde se ia degustar o belo pontapé no genital feminino? Assumidamente e orgulhosamente espeluncas.

Mas a Suiça, uhuuu, com esplanadinha para a praça, empregadinhos fardados e de bandeja, mesinhas com toalha, a cobrar os tintins e cinco tostões por uma bica mal tirada, com um interior a precisar, já nem falo de uma remodelação profunda, ao menos uma limpeza esmerada, uma lixiviazinha ali não entrava há muito, aposto, a fazer fé no cheirete a sujo entranhado. A Suiça não era nada, e já há muitos anos, quanto mais ex libris da capital. Para além de uma tourist trap mal amanhada, para o pessoal nativo não servia mais que de ponto de encontro.

E não me entendam mal: se quiserem alguém para se zangar a valer com o lupanar em que se está a transformar a Baixa, contem comigo, que ia tendo um enfarte quando vi aquela disneylandia do enlatado, aquele tugúrio de neon enfeitado, que dá pelo nome de Mundo da Sardinha, ou lá o que é. Já nem falando das "lojas" de souvenires que abrem porta sim, porta sim, onde antes havia lojinhas bem catitas e fermosas. O coração até me falhou uns batimentos quando um dia topo com uma onde antes estava a Casa dos Carimbos, esta aqui:


Linda, linda, linda. Podiam ao menos ter deixado o letreiro, mas de certeza algum sortudo se afiambrou ao mesmo.

Está tudo a fechar, verdade. Nem vou entrar pelo assunto "lei do arrendamento", porque a minha opinião não é das mais simpáticas (não, os senhorios não são a santa casa da misericórdia e não, não têm obrigação de financiar comércio local ou tradicional, ou mesmo habitação, a preços que mal cobrem custos com IMI e seguros). É o que é, não é de hoje, é verdade que o assunto turismo está a ser muito mal gerido. Nada de novo. A habitual nacional-inoperância.

Mas depois, depois lembro-me daquela vez em que entrei na tal Casa dos Carimbos, que estava de porta aberta e balcão descerrado; vejo a senhora atrás do dito e lanço um "olhe, podia dizer-me o pre..." e logo recebo de volta um rosnado de "estamos fechados para almoço!". Ah, pronto. Sim senhora. Se me diz assim tão gentilmente, então volto depois - não voltei.

Semelhante aos semblantes generosos, sorridentes, hospitaleiros dos queridos anfitriões que nos atendiam na Suiça. E a Confeitaria Nacional, na altura do Natal? Credo, uma pessoa faz-se religiosa enquanto aguarda o Bolo Rei, que só uns valentes ai-jesus nos aliviam, enquanto assistimos ao bailado lento das senhoras atrás do balcão, algumas até perdidas a olhar para o infinito, decerto ocupadas a matutar nos grandes segredos do universo.

E a gentileza, prontidão, solicitude com que somos atendidos em alguns dos (aliás lindos, lindos) estabelecimentos de retrosaria na Rua da Conceição? Não devem ter ouvido falar da feroz e eficaz concorrência da Retrosaria Zora, preços mais em conta, stocks gigantes, sempre alguma funcionária pronta a atender, e por acaso em locais com estacionamento grátis? E nem me recordem a minha última excursão à Baixa por via de lãs, credo, Brancal, Serranofil, antes encomendar na net, ou, fazendo de phyna, gastar mais no ECI.

Verdade, verdade, há muitos doutores com pressa em desligar a máquina; mas a crua realidade é que o comércio antigo e tradicional da Baixa já há muito que estava acamado, algaliado, agonizando apesar dos cuidados paliativos. Morre de velho, de caduco. É triste, é. Há alternativas mais frescas, mais apelativas, mais simpáticas, mais em conta. Mas, mesmo a receber a extrema unção, aqueles pobres anciãos insistem-se vítimas dos tempos, queixam-se de que ninguém os ampara, ninguém lhes dá a mão, e juram que morrem por abandono e descaso.

'Tá bem, abelha. Quem não vos conheça, adiante.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

It’s my party and I cry if I want to

Faz agora um ano que estava a entrar nos 46 (e a trabalhar, como de costume, embora não afincada ou devotamente) quando recebi o telefonema que já temia mas esperava não chegar a acontecer. Pela enésima vez em quatro anos que já lá vão entrei em modo bombeiro, mas desta vez cm máquina de reanimação, para além da agulheta, escada magirus, e caixa de primeiros socorros. Desta vez era mesmo a sério. Tal como das outras, mas isto do fundo do poço é uma coisa muito gira, quando se pensa ter lá chegado de repente abre-se um alçapão e lá vamos nós outra vez. Isto não é uma ladainha, um queixume de buuuu, estragaram-me os anosssss, calhou lembrar. Este ano não houve crise, embora o novo rock bottom possa estar sempre ao virar da esquina. Não vamos agoirar; mas é o que é. Se há um, dois, três, quatro anos me garantissem que se pode viver assim, eu ficaria pasma. Qual quê! Nunca! Não pode ser! Ou melhora ou rebenta! Mais: ou resolve ou coiso. Não é assim que funciona, ou não é assim que funcionará para mim. É o que é e eu sou o que sou: não arredo. No retreat, no surrender. Não é sempre fácil, mas torna-se mais gerível. E prova disso é que cá estamos, a entrar nos 47 firme e hirta, depois de um ano do caracinhas, do caralho, vá, a bater bolas com não sei quantos Federer (é assim que o tipo se chama?) e a apanhar com muitas em cheio na cara. Auch. Ainda que. Porque. Já esteja ali a uns 60, 70% grisalha, debaixo da tinta; as articulações não me deixem esquecer as muitas horas de cu sentado e computador; o estômago se manifeste cada vez mais caprichoso; as vitaminas tenham passado de suplemento a constante; já tenha de levar uns fideputa de uns ólicos na mala para conseguir ler cenas pucaninas que se me atravessem no caminho (mentira, esqueço-me propositadamente dos óculos e finjo que estou a ver lindamente, embora de bracinho esticado). Mas. Todavia. No entanto. Ainda consigo estudar e ter pica a aprender coisas novas; ainda me sinto a campeã do universo quando deslindo o enigma, encontro a saída do labirinto, coloco a última peça do puzzle; ainda fico com o friozinho na barriga porque vou ter de enfrentar aquele touro muito, mas muito grande e cornudo, e macacos me mordam se o cabrão percebe que estou aos gritos de pavor por dentro; ainda passo demasiado tempo a uivar à lua a cada nova tarefa hercúlea que me caia no colo, ainda que já comece a acreditar que, bom, enfim, talvez consiga - e acabo por conseguir sempre, porra, porque sim, mesmo com o grilinho irritante constantemente  a bichanar-me ao ouvido que me meti a besta, way over your head, vais-te espalhar ao comprido e toda a gente a ver, vão descobrir-te a careca de incompetente, inapta, burra, incapaz e pôr-te na rua, nua, e ao frio e à chuva. No retreat, no surrender. Em nada, por nada, nunca, foda-se, nunca. Vamos indo. Vamos.