sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Day In The Life

Hoje faz precisamente vinte e cinco anos que acabei o curso (de direito, já agora). Oral de Processo Civil II, cadeira do quarto ano que tinha deixado para trás porque só fiz Processo Civil I, curricularmente do terceiro ano, enquanto frequentava o quarto ano. Só isto já diz qualquer coisa sobre como encarei e fiz o caralhete daquele curso: como achava melhor, que fazer as cadeiras todas direitinhas, ano a ano, nope, não era para mim. Ou antes, aconteceu apenas no primeiro ano, depois ganhei algum juízo, curiosamente quando praticamente o perdi, no segundo ano (resumidamente: ansiedade descontrolada, ataques de pânico, depressão). Decidi o quê e quando, só frequentava as aulas de avaliação contínua quando o assistente valia a pena (nota de rodapé: raras vezes valia a pena), e na maioria das cadeiras estudava sozinha (a percentagem de aulas teóricas que valia a pena era ainda menor), fazia exame escrito com a preocupação de sacar o mínimo para ir a oral (sete valores), e fazia oral (funny fact, não foi uma nem duas em que entrei com nega e saí ou aprovada - nas cadeiras de merda bastava-me issso - ou com uma boa positiva. nunca esquecerei a cara de tacho do meu assistente de Direito Internacional Privado, um cadeirão com justa fama de dificílimo, que me deu dez a avaliação contínua, me viu entrar na oral com oito de exame, passar a cara de puro espanto durante a prova, ao se dar conta que afinal eu percebia daquilo. fiquei com doze. nada mau, considerando).

Foram os piores seis anos da minha vida, e acho que alguém me deve uma indemnização qualquer por, no folclore, estar bem assente a ideia de que a faculdade é a melhor época da nossa vida. Não foi a minha, e penso que é seguro afirmar que muita gente concorda. Vim do liceu uma miúda cheia de gosto pela escola e pela aprendizagem, cheia de ideais de que a universidade seria moldada à imagem daquele fresco em que na ágora Aristotles e Platão debatiam, e os alunos bebiam o seu saber. 'Tá bem abelha. Se me pedissem para retratar a minha visão daquele antro de egos, chusma de salazaritos, amontoado de sebentas velhas, onde se privilegiava não o saber mas o empinanço puro e simples, faria uma coisa muito pós-moderna, usando como meio lixo decomposto e que nem serviria para reutilização ou reciclagem. É que não obstante entrada planando em nuvens diáfanas acabei a chafurdar num aterro imundo e pestilento. True story. 

Persisti e acabei e curso apenas por teimosia. E despeito. E porque prometi ao meu pai. Acabei quase acabada, sem quaisquer perspectivas (o nepotismo e amiguismo é fortíssimo, naquela instituição, e eu não tinha passe para o caminho das pedras), mas lá me amanhei. Arranjaram-me um Patrono (um clínico geral da advocacia, sem pergaminhos, conhecimentos ou fama) que me pôs a trabalhar (de borla, claro) comó caraças, e foi então que comecei a perceber para que servia aquela merdunça toda que me obrigaram a enfiar na cabeça. Toda, não: cerca de metade, que o resto do curso serve (servia?) apenas para encher chouriços e dar emprego a medíocres. Fiz de tudo: bater conservatórias, notários, repartições de finanças; ir para o tribunal com uma listinha de processos para consultar e tomar notas e, já agora, recolher guias de pagamento, ou ir para a fila da distribuição com petições novinhas em folha, dar entrada de peças. Assisti a muitas diligências judiciais (acompanhava o meu patrono a todas as que fazia) e fiz os sessenta julgamentos / diligências que o estágio obrigava a assistir. Bastava uma por dia (vinte a crime, vinte a cível, vinte a trabalho), mas muitas das vezes deixava-me ficar a assistir a mais. Porque estava a aprender, finalmente. A absorver tudo. A construir a minha estrutura de profissional, mais do que de licenciada numa porra qualquer. A amanhar peixe para depois o saber cozinhar bem. A perceber, enfim, para que servia o Direito.

E para que serve, hein? Para os outros não sei, para mim serve para resolver problemas. Simplesmente. E se a resolução que a lei aponta é chocante, bizarra, aberrante, é porque não se está a fazer Direito, está-se a aplicar mal a lei parvamente. Não, dura lex não sed lex. A lex não é um fim em sim mesmo, o Direito é um sistema, e é preciso ter mais que a capacidade de ler e decorar os canhenhos e transferir para o caso. É preciso imaginação (quem diria, hein), sentido crítico, duvidar metódica e constantemente, principalmente perante resultados que ferem a mais elementar noção de justiça e adequação, voltar atrás, estudar mais, pensar e, nunca esquecer, ter sempre presente que somos falíveis, facilmente nos atolamos em atavismos que facilitam a vida mas não aliviam a consciência, mas temos a obrigação de fazer o melhor possível porque a lei - o Direito! - serve a sociedade e o cidadão, e não o contrário.

Vinte e cinco anos passados, valeu a pena? Meh. Tenho um trabalho que me paga as contas, me proporciona uma vida confortável, e até me traz algum prazer (em dias muito alternados). Por outro lado, falhei redondamente. Não segui uma "vocação". Não deixei tudo para trás quando percebi que aquilo não me fazia feliz, e não insisti num sonho que (obviamente!) seria alcansável, para tanto bastaria que eu acreditasse mesmo e me esforçasse o suficiente. Verdade seja dita: a minha vida não se assemelha, minimamente, à vida que um dia sonhei para mim (and there's nothing wrong with that). E pronto, para os vendedores de banha da cobra do self-help, coaching e tretas do género, falhei redonda e retumbantemente. Para uma pessimista como eu - sendo que a minha definição preferida de pessimista é a de um optimista bem informado - acho que até me safei muito razoavelmente. Sou independente e não peso a ninguém. Tenho uma vida melhor que a de muitos. Esforcei e continuo a esforçar-me, mas tenho noção de que também tive muita sorte. O que de melhor tenho na vida não aconteceu apenas em virtude de qualquer esforço ou mérito, mas muito porque calhou. Tal como as coisas más não serviram para me castigar: simplesmente calhou acontecerem. Padeço muito de overthinking, self-doubting e sou uma poster girl do síndrome de impostor; continuo a batalhar com a ansiedade e depressão, não me alimento saudavelmente, fumo, não cuido de mim como devia, canso-me com facilidade, cedo mais do que gostava ao ennui. Ou seja, não tenho nada a ensinar a ninguém sobre a inefável arte de viver. Nem quero, credo. A minha ted talk seria não só uma das mais curtas como deprimentes de sempre, e terminaria com um "isto é mesmo assim, geralmente calha cocó, e um gajo tem é de saber lidar, muita forcinha".  

Mas cá estamos. Lidando (uns dias mais, outros menos) e botando (muita, chata, interminável) faladura. 
Muita forcinha, hein? Hein.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Entretanto




Na simpática vila balnear onde costumamos passar férias, e para onde rumámos no fim-de-semana na expectativa de uns dias descansados longe do inferno lisboeta, as pessoas baixaram o ficheiro "férias" sem o anexo "pandemia", e passeiam-se alegre e despreocupadamente sem máscara. Tudo bem que na praia não a usem - desde que respeitem as devidas e higiénicas distâncias, nada contra. Mas saem da praia sem, andam pela rua de cara ao fresco, passam umas pelas outras, conversam, convivem, enfim, vivem la vida loca sem paninho na boca e nariz. Apanhámos um camadão de nervos, tive várias vezes vontade de desatar a vociferar com estranhos na rua - mais valia, ao menos afastavam-se, que a loucura assusta mais que um vírus - e começamos a imaginar umas férias sui generis sem esplanada, com um único trajecto casa-praia-casa, zero sardinhas, nicles de pizza em forno de lenha, e muito sedoxil.

Haters gonna hate

Frugal sou eu. 
Os holandeses são é somíticos, unhas de fome, sovinas, avarentos, fonas, mesquinhos, agarrados, forretas, fuinhas e forra-gaitas (esta desconhecia, adorei).
E não têm muito sentido de comunidade, além disso; excepto quando toca a facilitar a domiciliação de empresas e a empochar os impostinhos destas.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

O ar é de todos

Via tuíter (again) tomei conhecimento de uma polémica relativa à ciclovia da Almirante Reis, ainda a estavam a construir: parece que muita gente - alegadamente residente na zona - se opunha, e até foi constituído um grupo no feicebuque, denominado "vizinhos de Arroios", onde se reclamava a reposição da via no seu esplendor anterior.

Cusca como sou, e porque também tinha em vista ir espreitar umas utilidades domésticas à Vicrilana, fui ver. E pá, çinçeramente, há gente que deve ter uma vida muito fixe, porque só reclama e se chateia com merdelhunças que haja noção. Lá a ver.

A ciclovia suprimiu uma das quatro faixas disponíveis, e apenas no sentido ascendente, que nem por acaso é aquele que costuma ter menos tráfego (disclaimer: não é ciência, é a impressão de quem vive na zona há 17 anos). Está delimitada por pilaretes porque isto aqui é um país de sociopatas que só não comete a bela infracção se tiver um polícia mesmo à sua beira. Fica livre para Sua Excelência, Alteza Sereníssima, o Automóvel, uma faixa nesse sentido, que é também a que tem carris e onde passa o eléctrico; portanto, a faixa mais à direita. 

Sobre se a dita ciclovia está bem planeada e implementada, se constitui um risco - ou não - para ciclistas, não me pronuncio; não sou ciclista, ergo não tenho conhecimentos para dar bitaites (não que isso impeça seja quem for, mas eu tenho um nico de noção). Este é o argumento a que, em última ratio, se agarram os puristas do asfalto: depois de desfiarem o triste rosário de como a cilcovia vai piorar a) o trânsito de superfície, porque acumula carros numa só faixa; b) o calvário dos comerciantes, agora onde é que vão deixar o carro - em segunda fila - para fazer cargas e descargas ); c) e o estacionamento, jasuscredo, que não há, vai diminuir ainda mais (?) e óspois quem sofre é o comércio local.

Ahééém. Izzie ispilica. 

Ponto a): A faixa que agora é ciclovia estava quase permanentemente bloqueada. Facto: regular ou mesmopermanentemente, aquilo era o parque de estacionamento não pago de comerciantes, habitantes e outros meliantes, pelo que argumento a), já foste. Ali não se circulava, estacionava-se. Ou parava-se, como preferem dizer. Sim, sim. Parava-se umas horitas, enquanto se ia tratar de vidinha.
Ponto b): Ao longo da faixa mais à direita há lugares de estacionamento e mesmo lugares dedicados a cargas e descargas, donde, os comerciantes que acordem cedinho, que a quem madruga diz que deuz ajuda. Se por um estranho acaso, nunca antes ocorrido (ironia), pretenderem deixar a viatura comercial todóóóó dia ali perto, mais à mão, nunca se sabe, a vida desta gente é tão complicada, de repente é preciso não sei quê, fazem como o resto dos cidadãos, entre os quais os moradores de Lisboa que têm a ideia de levar um automóvel para ali: parque pago. Há um no Martim Moniz, mesmo a jeito para os comerciantes, olha que conveniente.
Ponto c) Estacionamento há, mas a pagar, vide ponto anterior. É pouco? Pois é, aquela parte da cidade foi construída quando quase ninguém tinha automóvel. Aquela e outras. Mas quem se queixa até parece que não tem a opção de deixar a carripana num local onde até nem se pague estacionamento, e apanhar o metro. É só uma ideia, fica a sugestão. Quarenta e nove anos, e nunca na rameira da minha vida levei o carro para a Baixa ou arredores. Achava eu que por ser uma pessoa prática e fuínha (olha pagar parque, só quando tem mesmo de ser), afinal é porque não gosto de andar às voltinhas, a gastar combustível e paciência, e a malhar em quem gere a edilidade. Donde, a falta de estacionamento não é obstáculo para o freguês do comércio local. Na loucura, apanhem um táxi, um uber, um ataque de caspa, mas não se queixem (mais) da falta de estacionamento no centro. Tema além de estafado, muito chaaaato.

Resumidamente: há espaço para todos, é preciso é saber partilhar, distribuí-lo por todos, de acordo com as suas necessidades. Sim, é marxismo rodoviário. Ou, como eu prefiro, puro bom senso. Corolários?
- A cidade pertence a todos, residentes ou visitantes.
- As estruturas da cidade têm de servir todos: peões, ciclistas, motociclistas, automobilistas; e garantir que todos podem circular em segurança.
- Nenhum dos apontados tem mais direitos ou prevalência sobre outro (engraçado, muitos até se inserem em mais que um grupo);
- Donde, automobilista só muda de faixa depois de olhar para os retrovisores e accionar pisca (pode lá vir um motociclista), todos páram nos vermelhos, páram nas passadeiras, circulam abaixo de 30km/hora nas imediações de escolas ou zonas residenciais, não estacionam em cima do passeio ou passadeiras; todos respeitam limites de velocidade; ciclistas também não passam vermelhos de peões; motociclistas não fazem razias, que há pessoas de coração fraco. Ah, e se os automobilistas tiverem a consideração de não se posicionarem em cima da linha separadora de vias, é um favor que fazem à circulação de motas. Eles agradecem. A sério, agradecem mesmo, eu sei.   
- E perante as necessidades de muitos, os poucos cedem, isto é, quem pára em cima de carris de eléctrico, faixas de trasnporte público, ou bloqueia paragens dos ditos, é uma vergonha de pessoa. Aliás, é meramente uma peçoa, que está ali rés-vés peçonha.
 
Pronto, ide lá à vossa vida, que hoje não vos maço mais.

(disclaimer: não sou ciclista, já andei mais de transporte público, actualmente sou 80% automobilista e 20% peão. mas a minha avó era uma senhora que insistia muito que é preciso é respeito e educação, ficou-me.)

Para os saudosistas, ficam umas imagens da almirante Reis, do tempo em que havia espaço à larga para automóveis (e estacionar, the good old days, snif):







quarta-feira, 8 de julho de 2020

Sem embargo, FML

Porque no total e considerando aqueles produtos em específico me ficava mais barato, resolvi dar uma segunda chance à Tiendanimal. Afinal já passou um (dois?) anos desde que a transportadora deles (seur) fez o número de registar entrega falhada porque não estava ninguém, e eu a receber o email do incidente... em casa, de onde nunca tinha saído.
Ora hoje, nas minhas contas, é o terceiro dia em que a encomenda deveria ser entregue (no primeiro fizeram o número, os agendamentos feitos no site e não rejeitados por este parece que foram para o espaço). Encomenda de 29.06, primeira (falsa) tentativa de entrega dia 2.07.
Eu sei que custa alombar com quatro sacos de areia de 14 quilos cada; por isso é que mando vir. Derivado de uma cena nas costas ficaria entrevadinha se os fosse buscar ao vosso pick up point (que é o que eles querem, piretes). Por isso, e como terei mesmo de ir comprar à loja (já fui buscar um remedeio, mas há três caixotes para mudar, já não vamos lá de remendos), já mandei mailzinho ao simpático comerciante (que não tem um simpático operador de call center, já agora) para ficarem com a fideputa ruim da mercadoria e me devolverem a bagalhoça.
Anyhoo, zooplus, de joelhos peço perdão, não mais te atraiçoarei. 

De meio vazio a meio cheio, ou o comprovado efeito psicoterapeutico da schadenfreude

Uma pessoa até pode acordar do lado errado da vida e passar o dia inteiro a sentir-se a latrina da humanidade, mas depois vai ao twitter e vê uma carantonha (infelizmente) conhecida a ser caracterizada como a Karen* do twitter e, parecendo que não, melhora.

[internacionalizou, é certo, mas eu é que fui a primeiras a cunhar-lhe o cognome de maria vieira da blogosgera]

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Bummer, não boomer

Aqui há dias, por ocasião do meu quadragésimo nono aniversário, o meu sobrinho adolescente (*suspiros*) olha com ar sarcástico (que passou a normal, nele, derivado de *suspiros*) para os meus pés e sai-se com "não sei se ainda podes usar desses ténis". Pontos por não ter dito "não tens idade". Ou antes, tinha levado pontos - no posto de saúde - se tivesse dito "não tens idade", mas adiante. Estava implícito, eu sei, mas ainda se aprecia a delicadeza no trato (considerando e descontando *suspiros*). Respondi de imediato "claro que posso: a) gosto deles; b) tenho dinheiro para os comprar." São uns ténis por acaso bem giros, rosa fuschia. E, no campo do téne colorido, nem sequer são filhos únicos, e ele já me viu com outros calçados. Mas resolveu ser engraçadinho, benzó deus, que eu já não tenho paciência. Em três meses de distânciamento social o catamiço cresceu bem um palmo, mudou de voz, e refinou a palermice. Por exemplo, continua a, ocasionalmente, responder-me com o já mítico "ok, boomer". E isto dá-me nervos, não porque enfie qualquer carapuça, mas porque já tive oportunidade de lhe explicar que nem me enquadro na referida faixa etária, como o termo não tem, em rigor, aplicação em Portugal. Eu e o pai, cheios de paciência, já tivémos oportunidade de lhe explicar o que é um baby boomer, e que tal fenómeno se restringe a um país. Mas ele, népia. "Ok, boomer", e ri-se muito. E a mim chateia, porque se está a rir da sua própria ignorância (que, neste caso, é opcional e insistente), e falta de sentido crítico. 
Sinceramente, pá. Deviam passar dos dez, onze para os vinte, e pronto.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

The Cat Diaries [20] You've Got a Friend in Me

Ena, ena, ena. vai quase um ano que não actualizo o The Cat Diaries, se dúvidas houvesse que nunca sobreviveria como cat influencer via um kitty blog, estão afastadas.

Estão todos bem, felizmente. A meio de Março a Scully começou com uma tosse esquisita, decidimos aguardar dois, três dias a ver como evoluía, e como estava tudo na mesma resolvemos ligar para o vet. Em pleno período covid, e como só atendiam casos mesmo, mesmo necessários, lá relatei os sintomas e recebemos o ok para levar a moça, hora marcada e pronto. Depois é que foi. Custou-nos mais a nós que a ela, literalmente. Nem falando da conta calada que um exame completo implicou (raio x, hemograma, etc), apanhar e engaiolar Sua Alteza foi o filme que já se esperava, ficando eu com marcas que o comprovam, apesar de usar luvas de jardingem que, hélas, não me protegeram os pulsos.
Nada nos pulmões, voltámos com comprimidos de cortisona que resolveram a situação, ufa, não foi preciso antibiótico. É que dar medicação a esta Senhora Doutora é outro filme, resultou o estratagema de misturar no paté, mas ela já estava desconfiadíssima, só nos saem gatos espertos e com pelinho na venta.
A má notícia é que a Ex.ma Senhora Dona está acima do peso (é a bucha do bando, come só porque sim, por tédio, porque sei lá eu) e com uma glicémia elevada, ou seja, obesa e pré-diabética. E como se põe uma gata em dieta, pergunto eu, quando os outros três estão elegantes e finos, e comem só o que precisam? Não faço ideia, mas comprei ração específica para diabetes que passei a misturar na outra. A ver vamos, um dia destes ganho coragem para marcar outra consulta a ver se nos recomendam um plano exequível.
Tirando a ciumeira louca que tem da mais nova, Dana Scully continua uma fofa-fofa-mimosa, que já ronrona imenso e adora mimos e ser escovada (bem precsia, é uma fábrica de pelo).
Bombom da mamã.



Já a mai'nova, fonte da referida ciumeira, continua linda que só ela, cresceu um bocado (mas vai ser sempre uma gata pequena), e adora, adora, adora todos os manos. Olha para o Fox Mulder com uns olhos de admiração que não se descreve, e sempre que o apanha a jeito dá-lhe um abracinho (juro, patinha em cima do pescoço do outro que, se de início estranhava, agora até acha bem). Faz a parelha da parvoíce com Mad Max, correrias e brincadeira que, infelizmente, muitas vezes incluem corrida de obstáculos sobre corpos humanos às tantas da madrugada. E continua a tentar seduzir a mana mai'velha, com aproximações estudadas. É frequente estarem as duas a fazer a sesta na mesma almofada grande (do ikea, recomendo vivamente, é um sucesso lá em casa), mas com distância de segurança. Já foi possível manter as duas, mas por pouco período de tempo, lado a lado no sofá, entre nós, mas de vez em quando há patada da Scully, só para mostrar quem manda. Como eu disse, pelinho na venta.

A pequenina Selina Kyle, reconheça-se, é insistente e tenho a esperança que um dia se alcance um estado de convivência pacífica, unida, amiga entre ambas. O esforço está todo do mesmo lado: nunca vi uma gatinha tão sociável, com tanta vontade de fazer amizade, com tanta inteligência emocional, patente no relacionamento diferenciado que mantém com cada uma das personalidades felinas residentes.

Aqui há tempos tivémos a demonstração que não é só com gatos que demonstra esta facilidade no trato social. Chego eu ao quarto, já numa hora de lufa-lufa-temos-de-sair-não-tarda, e está me mate sentadinho na cama a olhar para a janela. Faz-me sinal para ficar em silêncio e sentar também, e que espectáculo se desenrolava? Selina no parapeito, a olhar para a rua, e um pássaro pequeno (fui verificar a um site da especialidade, era uma fuinha-dos-juncos) aparece a esvoaçar e a piar mesmo em frente à cara dela, desaparece, e volta a esta negaça. A pequenita estava encantada: arrulhava (sim, ela não mia, arrulha) de felicidade e espanto, olhava para nós e para a janela. Nos dias seguintes voltou ao mesmo poiso, à mesma hora, ficava a fitar o lá fora, à espera do seu amigo, que não aparecia, e arrulhava de desapontamento.   

Amigos, amigos, são todos potenciais amigos. Ainda dizem que os gatos não sei quê. Gotta love'hem.


Selina e Max a dormir no seu colchão preferido, esta que vos escreve.



Não, não é fácil fotografar (bem) gatos pretos :/


Ei. Tázaí a fazer?

terça-feira, 2 de junho de 2020

[ ]




Tempos houve em que eu estaria comidinha para botar faladura e com um formigueiro nos dedos que nem um tubo de fenistil me impediria de aqui vir debulhar tudo, tudinho, tudooo o que me vai na alma neste momento do tempo e da história, mas olha, não sei se cresci, me tornei mais indiferente (aos outros, que aos assuntos continuo na mesma inquietação dolorosa de sempre), que nope. Não tenho idade nem vocação para educar ou esclarecer ninguém, e muito menos quem resiste estóica e heroicamente a deixar-se convencer do contrário que defende, apesar de o facto de se envolver em toda a polémica ou discussão pública assim faça crer aos mais ingénuos.
Eu também já fui isto e aquilo, já acreditei e defendi coisas que hoje me fazem corar de vergonha; mas entretanto calhou cair-me uma ficha que me cai amiúde, que se resume num "e se eu não tiver razão e estiver a fazer uma valente figura de parva" (bendito síndrome de impostor, alguma valia havia de ter). Acto contínuo, vou ler / ouvir / aprender mais sobre o assunto, de preferência bebendo as palavras, ideias, sentimentos de quem directamente é afectado pelo assunto em causa. E não é que já mudei de ideias muitas vezes? Isto r'almente. Sair da caixa, do nosso lugar de conforto, para mim é isto: assumir a desconfortável possibilidade de estarmos enganados, em erro, a não ver bem a coisa; ir procurar mais respostas, pensar aturadamente, reflectir com seriedade, e não ter medo de assumir que estávamos a ser um pedaço besta.
Muitas vezes tenho sorte, e a nova perspectiva apresenta-se sem que eu tenha de fazer este esforço todo. Dou com ela de frente, olha-me nos olhos, abana a cabeça em reprovação, e eu não a corro à vassourada, é este o meu "trabalho". E pensar, claro. Nem que seja para rejeitar  - acontece - mas ao menos fez-me pensar. E reflectir para rejeitar também nos faz encontrar novos argumentos que fortalecem a nossa visão.
Enfim, como em tudo na vida, não ter sinapses de betão pode conduzir-nos a processos altamente desconfortáveis, mas caneco, a sensação de se avançar um pedacito que seja em direcção a uma maior empatia, compreensão do outro, aceitação de realidades diferentes, e até que não sabemos nada e estar calado, sem abdicar de ser aliado, pode ser a melhor conduta, é uma recompensa bestial.
E pronto, não era para dizer nada e disse mais do que queria (devia?). Parto do princípio que as outras pessoas têm os mesmos meios que eu para se educar e informar, vieram equipadas de origem com um cérebro que funciona, pelo que usem-no, se quiserem, se não quiserem também (já) não contem comigo para discussões patetas.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

A cidade está deserta

Sim senhoras que acabou o confinamento a modos que obrigatório, e eu lá arranjei coragem para ir ao cabeleireiro tratar da piruca que, ela sim, já estava em estado de emergência, a parecer uma esfregona com muito uso.
Para além de tratar da fachada e ganhar confiança na circulação e entrada de serviços, acrescia o teste de esforço ao uso da máscara (quatro horas, no total, non-stop, credo). Já a questão da deslocação confesso-me caguinchas e não consegui ir de metro: a pé, ida e volta, um total de seis mil oitocentos e poucos passos, até nem é aterrador.
De caminho comovi e entristeci, por voltar a ver uma cidade que já não conhecia assim há anos, e nunca num mês de Maio. Eléctricos vazios e sem filas na paragem, ruas só com autóctones (muitos sem máscara, meliantes) e, ainda assim, uma meia dúzia de turistas que não faço ideia de onde vieram, como ou porquê. Ao passar à porta de um café sai um senhor a falar ao telemóvel e que "isto não está mau, está péssimo"; as poucas lojas abertas quase sem freguesia - tirando a zara, tinha fila à porta, pode comprar-se na net, pá - é um bocadinho desolador.
Ali à roda das cinco e meia, seis, era este o panorama na Baixa, num dos semáforos e passadeira mais concorridos todo o ano:





Mas os jacarandás estão lindos.
Isso estão.
E zero encontrões. E é possível caminhar em linha recta.
Ainda não sei se gosto deste oito, se bem que a verdadinha é que não gostava mesmo nada do oitenta.

(e tenho uma grande e sincera pena de quem trabalha ou depende do turismo, que tenho)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Atira-me água benta

Uma pessoa, depois do assédio inusitado e mesmo cruel a que foi sujeita segunda e terça por ocasião de trabalho presencial, decide reconfinar-se e teletrabalhar quarta e quinta, a ver se faz alguma coisa de jeito sem que esteja constantemente a ser interrompida. Uma pessoa levanta-se às horas do costume (muito cedo, é sempre demasiado cedo), deixa cara-metade no trabalho, volta a casa e, devidamente fardada de jeans e sweater, está pronta a produzir, a contribuir para a sociedade, a justificar a remuneração auferida.
Disto ninguém fala, mas há um poderoso inimigo do teletrabalhador. Não é o pijama e a falta de vontade de o trocar (pelamorsasanta, somos adultos, pijama durante o dia só no hospital, we'll always have jean&sweater/t-shirt), não é a proximidade do frigorífico, não é a preguicinha. É o bicho, o monstro do Antes-Porém.
Passo a explicar.
O Antes-Porém é um ser inefável que paira nas nossas existências, mas incorpora com extrema rapidez, precisamente quando mais desatentos e desguardados estamos, ali no exacto momento em que esquecemos a sua ubiquidade, a sua uber maldade, e achamos estar a salvo do ataque.
Exemplifico.
Uma pessoa está ali motivadinha e mortinha por trabalhar, já se orienta na direção do escritório para abrir o computador quando PUMBAS, Antes-Porém vou ali apanhar a roupa, que já deve estar seca. Claro que se apanha a roupa, que nem leva assim tanto tempo, e já pego ali no serviço, mas ainda se está a dobrar a última toalha e já nos cai a ideia que Antes-Porém, aproveito estar aqui no quarto de vestir e arrumo os cachecóis e troco-os pelas écharpes. Realizada esta tarefa, e ainda antes de termos tempo de começar a programar a tarefa laboral que primeiramente iremos executar, eis que nos surge o Antes-Porém já agora também arrumas as roupas interiores de inverno e as substituis pelas t-shirts e tal.
Acho que me fiz entender.
Esta manhã tive umas cinco aparições de Antes-Porém e, julgando eu já estar safa da sua influência nefasta, baixa-me Entretanto (esse outro bicho maléfico e oportunista) já se fez hora de almoço, e pronto; vitória, vitória, era bom que se tivesse acabado a história, mas cheira-me que nem o mais reputado exorcista me livra desta triste desdita. 

terça-feira, 19 de maio de 2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Inspira

Finalmente a OMS veio dizer publicamente aquilo que o meu pessimismo (esperançoso sempre que se engane) já me sussurrava ao ouvido: a situação passou de "o novo normal" para "o normal". A doença existe e vai ficar, é lidar e aprender a viver nesta realidade. Ainda me lembro muito bem do pânico da SIDA (era adolescente), de não se saber bem o que era, como se transmitia, como se tratava, e tantos anos depois não temos vacinas mas temos tratamentos muitíssimo eficazes, e temos práticas incutidas para evitar contágio e disseminação. Sim, esta transmite-se pelo ar, o que nos limita muito mais; não se conhece tratamentos eficazes nem se sabe bem os efeitos a médio e longo prazo da doença, mesmo nos recuperados. Mas ainda agora isto começou. E é preciso viver, se não da forma como antes o fazíamos, pelo menos é preciso continuar. De boquinha e nariz tapado, mãozinhas constantemente lavadas e higienizadas, mas continuar.

Donde, adiante. Curiosamente, ter a confirmação oficial deste estado de coisas acalmou-me. Não sou exemplo para ninguém, nunca seria, mas estar a viver esta situação a par e passo com um processo de luto pesado tem sido bastante complicado. Mas há mais de uma semana que não tenho crises súbitas de ansiedade, voltei a trabalhar com intensidade (acaba o confinamento e os fregueses não nos largam), e insisti por retomar rotinas. Ir ao supermercado é a pior de todas, já não tenho o luxo de poder dar um pulinho ao Lidl / Continente / Pingo Doce só por meia dúzia de coisas, e confesso que tenho quase de fazer um retiro meditacional antes de me meter ao caminho. Ter de planear com muito rigor tudo o que se come e consome é uma chatice das boas para qualquer desorganizadona adepta do improviso alimentar e domestico como eu, mas cá estamos. Já tenho a empregada a funcionar (minharicasantinha), e o que isso me alivia, caneco, mesmo ateia até ia a Fátima a pé só para comemorar. O cenário é, portanto, pastoso, nubloso, mas possível, exequível. Haja paciência e determinação. 

Cumprindo então o nobre desiderato da normalização da vidinha, prometi-me retomar a emissão normal aqui da chafarica. Haverá ocasionais desabafos e mimimis, que somos todos humanos e toda a gente tem direito a ir-se abaixo, nem que seja pela casca de um alho, mas 'bora lá.

Dou o mote:
Qual foi a cena mais querida, fofinha, ternurenta, alegre, boa onda, comovente, enfim, mêmo, mêmo fixe que vos aconteceu na última semana (ou duas)?

Eu começo:
Ontem, parada num semáforo das Avenidas Novas, vi um casal de patos real à porta de uma pastelaria. Tal e qual como se estivessem à espera de ser atendidos, a um metro e pouco das pessoas, muito sossegados e pacientes. Da pastelaria sai uma senhora de màscara e tigela na mão; acocora-se junto aos patos e começa a dar-lhes pão húmido, que eles comem com evidente satisfação.
Aqueceu-me o coração por uns três quinze dias.


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Pragmatismo é o novo ismo

Tirando da equação o cagaço que admito que tenho com o inevitável levantamento de algumas das restrições covidianas,

(pá, qué lá saber do aspecto, não me apanham num cabeleireiro tão cedo, vapor de água a movimentar-se alta velocidade, hein, nope, nope, é desta que grisalho mesmo, e até estou a gostar do tom das minhas pratinhas, toma)

A falta de fé no juizinho e na cidadania alheia 

(méne, fui ao continente - teve mesmo de ser, e envelheci dois anos naquelas três horas - vi luvas descartáveis descartadas em cima do quê, pois, carrinhos de compras, e com uma papeleira ali a cinco metros, a papeleira onde coloquei as minhas, e não morri de enfarte por lá ter ido; e não me puxem o assunto de o pessoal achar que a máscara é para usar com o nariz de fora, ou puxar para o queixo se estão a falar com alguém, mesmo à distância de segurança, que baixa um carroceiro em mim)

Achei por bem fazer por mim e pelos meus (e também pelos outros, né) e já encomendei uma quantidade jeitosa de máscaras de protecção reutilizáveis. Heroicamente, diga-se, não cedi à tentação de encomendar umas todas féchion, com estampados e coise, e mandei vir em branco, preto e azul escuro, ao menos faço pandâ.
Como o seguro morreu de velho e para alguma coisa servem as entidades oficiais, comecei por pesquisar das certificadas. À venda online encontrei duas, uma com as tais coloridas e estampadas, outra com as normaizinhas. Escolhi esta, depois de ler que são produzidas por uma fábrica textil cujos funcionários se encontram todos em lay off, e que vai começar a laborar em pleno graças a esta adaptação.
Ou seja, vou ter um produto certificado, nem por isso caro ainda que inclua IVA (€20 por lote de 5), que vai devolver produção a uma unidade actualmente parada. Tudo somado, cliente fica bem servida com um produto de qualidade, e contribui-se para que entrem impostos nos cofres, que é bem preciso, e que a segurança social deixe de arcar com uma despesa e volte a receber contribuições. Tudo bom.

Para quem compra nas lojas de feicebuque desta vida paninhos feitos por jeitosos/as, lembrem-se disto: segurança, impostos, contribuições, por o estaminé a mexer, a economia a funcionar. O SNS não se financia com boa vontade, isto está para durar, e pronto, welcome to my ted talk, obrigada pela atenção e saudinha.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Até ver

Ainda não fiz pão. Ainda não pintei o cabelo em casa. Ainda não limpei o pó. Ainda não parti o aspirador, a loiça, ou o fogão à marretada. Ainda não apanhei um pifão. Ainda não arrumei as gavetas todas (ou as estantes, ou o roupeiro, ou a papelada, ou, ou). Ainda não li nada de jeito. Ainda não pus o sono em dia.
Também ainda não dei em maluca, mas estou por pouco.
Vai daí, e desde segunda, passei a fazer quarentena e distanciamento social (também) no local de trabalho. Lavo as mãos infinitas mais vezes? Que remédio. Mas a) isto agora é um sossego, mais ainda que no verão; b) não há trânsito; c) não há quase ninguém; d) consigo trabalhar. 

segunda-feira, 20 de abril de 2020

(suspiro)

Este fim de semana sonhei que a minha empregada tinha voltado (saudade!) e, chegando lá a casa, me dava os parabéns por a ter mantido tão arrumadinha e limpa.
Sarcasticozinho, o meu inconsciente, hein.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Irritações covidianas (parte 2, e desconfio que não última)

Não sei se mais alguém deu conta do fenómeno, mas a mim aparecem anúncios de jogo online, com imensa frequência, nas nets desta vida. Entretanto reparei que também na tv há anúncios a esta praga.

Ora. Portanto. O jogo, sim senhor, só joga quem quer, só que não é bem assim. Também só bebe quem quer, só fuma quem quer, só consome drogas quem quer, desde que tenha a sorte de não ter uma adição / personalidade aditiva. Isto não é ficção, é realidade. Se, para mim, ir ao casino é uma actividade inofensiva e até muito entediante, para algumas pessoas significa um turbilhão do qual podem sair com conta limpa, cartões de crédito no máximo e, no pior do cenários, uma bela dívida a agiotas. Se calhar essas pessoas não fumam, e ó eu, não consigo largar o tabaquinho. É o que é, e não, não se trata de uma questão de força de vontade. Há quem consiga fazer e gerir um consumo razoável de bebidas alcoolicas ou drogas leves, e há quem não pare enquanto não veja o fundo à garrafa - ou garrafeira.

Junte-se a isto a situação actual: pessoas isoladas em casa, muito provavelmente sem acesso aos normais recursos que, em caso de adição em tratamento, as podem aguentar, e a coisa torna-se apenas obscena. Aproveitar o actual estado de lockdown para tentar quem luta contra esta adição e ainda captar mais alguns clientes, parte deles provavelmente com um problema de adição latente e que desconhecem, mas ei, que bela oportunidade para acordar o monstro, hein, e fazer uns cobres à custa da desgraça alheia. Isto também é repugnante, e se há coisas repugnantes que este tempo de excepção tem revelado.

Se há proibição de publicidade a tabaco, restrções imensas à publicidade a álcool, e (óbvia) inexistência de publicidade a drogas, não entendo porque o jogo goza este livre trânsito. Não tenho agora vagar para isso, mas basta uma pesquisa e encontram-se números que demonstram que se trata da adição comportamental mais vulgar, ou seja, não é uma actividade inócua, neutra, e sem qualquer impacto social. Se toda a gente sabe que, no jogo, a casa ganha sempre, é porque o cliente perde. Isto pode ser um entretém passageiro que alguém decide experimentar, ou o princípio do fim da vida de alguém. Já merecia que se pensasse sobre isso com pés e cabeça, e acabasse com esta pornografia publicitária.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

It's not a wonderful life, mas tem dias

Já marquei na agenda do telemóvel a nova data do Nick Cave. Agora é cruzar os dedos para que o Cleese marque nova data, e não se limite a cancelar. Perdi a esperança de em Julho haver condições para um concerto de estádio, mas não perdi a esperança que os Iron Maiden (também) remarquem. É a esperança das pequenas (grandes, grandes!) alegrias, ainda que adiadas, que também nos segura. 

Me mate entra em férias hoje e eu estou yay!, nada nay! OK, é um teste estarmos 24/24 na mesma casa, mas há espaço para todos, e temos ambos uma claríssima noção de que a) primeiro que tudo, respeitar e pagear gatinhos; b) respeitar o espaço um do outro e os respectivos me time; c) o aspirador quando nasce é para todos, e havendo um total de quatro bracinhos os quatro bracinhos limpam, passam, asseiam; d) a promessa de um filme por dia é sagrada; e) dou dois dias para estarmos a almoçar às quatro da tarde e a lanchar ao jantar; f) whatevs, já não vou ficar sozinha o dia todo, yay.

Continua a custar-me muito trabalhar em casa, levo o dobro do tempo a concentrar-me, a pensar e a fazer. Nunca pensei ter saudades da chafarica laboral, mas tenho.


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Irritações covidianas

Aquelas pessoas que vão para as redes sociais queixar-se da quantidade (absurda!, anormal!, inconsciente!) de pessoas que andam na rua, documentar com foto, deixando ainda mais claro que também elas estavam na rua.

[ah, mas ó Izzie, eu tinha uma justificação válida. pois, pois. às tantas, também os outros.]