quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

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Tenho uma carga de trabalho que nem sei já a quantos estamos. Andamos em arrumações de cat-proofing, i.e., legos e traquitanas pequenas antes fechadas numa divisão agora devidamente acondicionadas em duas vitrinas - yay, espero ter sido a última vez que limpei o pó a legos, ninguém merece. Idem para livros, donde, houve muita montagem, muito limpa pó, muito acarta, mas já se vê o tampo da secretária. Preciso de encomendar os estores de rolo, mas saio antes e chego depois da loja abrir / fechar. Pondero trocar a mobília de quarto, porque preciso de uma cómoda a sério e não o brinquedo sem arrumação que lá temos. Também em apreciação a aquisição de mais estantes, mas ninguém sabe a loucura que é arranjar coisas estreitas e que caibam onde as precisamos: é para livros, não preciso de espaço à frente para bibelots, thank you very nice. Selina continua a antibiótico, à cautela, e sente-se muito melhor, o que se nota nos sprints que ela e Mad Max fazem interpolados de sonecas, sendo que ocasionalmente também temos corridas de obstáculos, sendo estes as duas almas cansadas que por acaso calha estarem a dormir. Ah, Selina brindou-nos com o seu primeiro cio, cereja no topo do bolo. Yay, a felicidade, principalmente porque não está em condições de ser operada tão cedo. Dana Scully e Fox Mulder mostram que antiguidade é posto e olham com desdém - manifestado, no caso de Scully - as diabruras dos júniores. Ainda havemos de ser uma família feliz - e sugadita. Estou cansada. Tenho um cabelo estilo esfregona, se as esfregonas tivessem raízes grisalhas. Preciso de renovar o silicone na base de duche. Pendurar quadros e fazer os respectivos furos. No fim de semana passado não tive tempo para fazer uma sopa e este estômago que agora emite ruídos não vê um vegetal desde sei lá quando. A ementa da semana tem variado entre sandes e tostas. E maçãs, que isso temos. Quero fazer um bolo. Preciso de dar um jeito ao pátio. Tenho gente a almoçar lá no sábado. Gostava muito de encetar os novelos que já comprei há mais de dois meses. Levo mais de um mês a ler um livro, porque duas páginas e desfaleço. Tenho fome. Tenho sono. Tenho frio. Não tenho paciência. Não tenho vagar. Não tenho nada de relevante para dizer ou acrescentar à sociedade. Mas gostava.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Cat Diaries (17)



Selina Kyle* está muito doentinha. Selina Kyle está, desde ontem, internada. Selina Kyle está, desde domingo, diagnosticada com uma pneumonia e a antibiótico duas vezes por dia. Todavia, Selina Kyle piorou, de repente.

Selina Kyle começou a ter uma tossita seca na primeira semana em que esteve connosco, tossita que passou a mais ruidosa no fim-de-semana seguinte. Selina Kyle foi levada prontamente ao vet do bairro, onde auscultaram, desvalorizaram (que seria uma bronquitezita, toma lá antibiótico de largo espectro, mas provavelmente é viral e blablablá o sistema imunitário vai funcionar). Selina Kyle continuou, como sempre esteve até aí, aliás, muito bem disposta, ronronante, e comilona. Até que no domingo passado volta a tosse cavernosa e, encostando o ouvido ao pequenito tórax, se nota uma farfalheira do caraças.
Corremos para o hospital veterinário, onde somos atendidos por uma vet que sabe da poda: pela primeira vez, primeira vez, repito, tiram-lhe a temperatura e observam a boca (sim, achei estranho que a vet novinha no coiso lá do bairro não o tivesse feito, afinal já vamos no 5º felino, mas eles é que tiraram o curso, né) , felizmente não tem febre, mas há a notícia que ela será mais velha que pensámos (já tem dentição definitiva), é mas é pequenina, passou fominha e privações. Sabemos lá há quanto tempo estaria na rua, como foi tratada antes, o que isso lhe fez ao desenvolvimento e sistema imunitário, e explica a vontade e alegria com que comia, que pelo menos numa semana e meia aumentou meio quilo. A vet ausculta, fica com a certeza mas faz raio x para confirmar: pneumonia. E pronto, medicada, cheios de recomendações, voltámos a casa.
Ontem de manhã estava, como habitual, comunicativa, bem disposta, tinha despachado todo o granulado que lhe deixámos, e ainda aviou quase meia latinha de patê com o comprimido lá disfarçado. Ao fim da tarde estava apática, olhar perdido, arfante, e recusou o patê (!!!). Ambos tivemos a mesma premonição negra e corremos para o vet, onde se fez novo raio x e se confirmou que não estava melhor, pelo contrário. Ficou lá, e nós fomos para casa com a lágrima a rebentar (ah, fosga-se, chorámos, ok? so what? ), tentar dormir, e pronto. Hoje de manhã já se ligou e a menina está estabilizada, continua com uma frequência respiratória muito acelerada, continua com prognóstico reservado, e vão avançar para um antibiótico mais agressivo, porque os benefícios são superiores aos potenciais riscos (atraso no crescimento, que se lixe, prefiro uma gatinha bonsai mas viva).

Anyhoo, estamos os dois cá com uma motivação para trabalhar que nem vos digo, nem vos conto. Numa angústia que esperei nunca voltar a sentir. Numa ansiedade que não se explica. Com o coração com o exacto tamanho e formato de uma uva passa.
[qué a minha bebecas boa e de volta]


*acabou por ser escolhido Selina Kyle por razões de temperamento: à nossa frente um anjinho com cara de quem não parte um prato, mas na primeira noite que a deixámos na divisão onde habita - escritório - com a porta da jaula aberta, armou cá uma barraca, jasus, trepou onde achámos que não conseguiria trepar, escavou um vaso e provou uma planta (não é tóxica, a casa está cat-proofed), além de que achou giro jogar areia na exacta direcção da porta da caixa. Uma santa de dia, uma cat burglar do mal de noite. Confere.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Let's look at the traila

Não, ainda não subscrevemos o Netflix. E já não tenho pressa: com o pacote de cabo que temos já não nos sobra tempo, quanto mais. Ultimamente tenho / temos racionado muito, que às nove e meia, dez da noite estamos podres de todo (é isto, a meia idade?), mas no fim de semana vingo-me, porque nunca consigo dormir para lá das oito e meia (sim, deve ser a meia idade), e ponho episódios em dia.

E não, também não vamos ao cinema. Desde logo, sessão da noite, a gente adormece (definitivamente, é a meia idade). Acresce que somos seres anti-sociais e claustrofóbicos, para quem estar numa sala fechada já é complicado, mas junte-se a isso gente que não consegue estar duas horas a apreciar uma história, calada, sem olhar para o telelé, ou sem mastigar, e temos as condições perfeitas para um ataque psicótico. Não faz mal: espera-se e passa nos canais de filmes.

Então o que tem passado na tela lá de casa, quase vos ouço, a explodir de curiosidade (façam-me a vontade, a minha vida não é muito interessante):

- Dois filmes muitíssimo janotas, para lá de bons, e que até é pena não ter visto numa tela a sério: Três Cartazes à Beira da Estrada e Moonlight. Adorámos ambos os dois, apesar de, em estilo não terem nada a ver.
Nem era eu se não mandasse a boca, cá vai: aquelas pessoas que dizem que não há cá nenhuma discriminação nas nomeações para prémios, porque não há filmes escritos / protagonizados / realizados por negros, e que isto deve-se a não haver quem os faça, olha, ide-vos fornicar, ponde os olhinhos neste e de caminho no Straight Outta Compton, que é cá um estoiro de filme, pá, e olhem que eu abomino, odeio rap. Se não há mais é porque não os conseguem fazer, digo eu, aposto eu. Porque gente de altíssima qualidade não falta. Acesso, acesso é privilégio que certas pessoas não têm. end of rant.

- De caminho acedi a fazer companhia a me mate num dos seus fetiches (western spaguetti), e vimos o Django. O original. Adorei. Como acompanhamento, tive direito a palestra de me mate sobre o género, o realizador (Sergio Corbucci - que parece que era uma beca comunista, e nota-se), Franco Nero, e por aí fora, mais a promessa (ameaça?) que um dia destes me punha a ver Giallos. Deves.

- De séries, começámos Escape at Dannemora, que parece sim senhora, mas a ver vamos. Já eu, aproveito o (pouquíssimo) me time para o meu fetiche, isto é, o género policial. Se for de produção britânica, ainda melhor; mesmo que levezinho como o Father Brown entretém e satisfaz q.b. Para dias em que uma pessoa aguenta e almeja algo mais encorpado, tenho lá a terceira temporada de Shetland para aviar. Adoro, pá.

- Na secção comédia, tenho que confessar que o preconceito puro, bruto e burro nos ia privando de uma série que deve ser das coisinhas mais bem escritas e montadas dos últimos tempos, e com um elenco que upa-upa. Embora tenha sido precisamente o preconceito quanto a um dos actores que nos afastou até recentemente - eh pá, o que eu embirro com o Andy Samberg, aquela cara é mêmo boa para um par de estalos. Não tanto como embirro com o Adam Sandler (vómito), mas quase. Falo de Brooklin 99, que é awwwwwsome. Tão bom. Tão bem escrito. Com tanto ritmo. Com personagens tão bons. Com tanto absurdo e tontice. A nossa dose diária de descompressão. E o que eu amo o Capitão Holt? Emoji carinha com corações nos olhos.

E pronto, estamos assim.
Como é habitual, qualquer recomendação, faz favor, a gerência agradece.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

[o estado a que chegámos]



[já me aconteceu.
também já aconteceu parar o carro, enfiar o casaco, por mala a tiracolo, pegar na demais tralhôncia que tinha para carregar, abrir porta, não conseguir sair, verificar se prendi saia/casaco/alça da mala em qualquer coisa, não, voltar a tentar sair, que raio, estou presa, preeesaaaaa, aahhhhh, que feitiçaria é esta, socorrooooo, ah, o cinto. tirar o cinto. pois.
não puxar o travão de mão, parar e esquecer de desligar a ignição antes de tirar os pés dos pedais: paletes.
e tomo eu vitaminas, que faria.]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

The Cat Diaries (16) Decisões, decisões

A bolinha de pelo, o novelinho de breu, continua viva e recomenda-se. Não estou a tentar ser engraçadinha: isto dos gatinhos bebés é muito fofinho, muito queriduchos, mas são muito mais frágeis que um (gato) jovem ou adulto, e de um momento para o outro pode dar-lhes uma coisinha má. Quando levámos o Max para casa dormi mal uns dois meses. O primeiro com esse medo, o segundo já com medo que me matasse ele (diz que a meio da noite era costume trepar-me pela cara, assentar arraiais no alto da minha cabeça, onde cardava o cabelo até fazer uma caminha a gosto. sofri muito.)

A pequenita come bem (nos dois primeiros dias parecia um aspirador, comia tudo num ápice, bebia imensa água. donde se conclui que estava mortinha de fome, abandono, quase de certeza), usa a areia, já percebeu que mantinha é fixe, e está a perder a timidez. Já lhe fazemos festas e ela gosta: ronrona, dá a cabeça, rebola e oferece a barriga, uma loucura. Começámos este fim de semana a tirá-la da jaula e pô-la ao nosso colo, numa mantinha; das primeiras vezes pareceu assustada, escondia a cara, mas já está a habituar-se, até adormeceu ao colo de me mate (tenho um bocadinho de inveja, assumo).

O Max está curiosíssimo, e acompanha-nos nas visitas. Cheira tudo, só lhe soprou uma vez, não está mal. Não os deixamos tocar-se, por enquanto, porque vírus. Aliás, apesar de ela parecer muito bem, com apetite, de vez em quando tosse, e hoje vai ao senhor doutor.

Agora o problema: sim, já lhe tínhamos dado nome. Mas agora estamos indecisos, porque personalidade. A personalidade também pesa nesta decisão, e há que pensar também como a vamos chamar (primeiro, segundo nome), enfim, uma canseira.

Donde, vamos a uma sondagem (resultados não vinculativos, e sabe-se lá se será um destes, que nós somos como os malucos, depende do vento):


Mrs. Emma Peel


Selina Kyle


Diana Prince

(ainda não há fotos - decentes - porque não é fácil. esconde-se, confunde-se com o fundo, e tentem lá fotografar uma mini-gata enrodilhada numa manta ao vosso colo. aliás, nem me lembro de puxar do telelé)

sábado, 24 de novembro de 2018

Então essa bléque fraidei?

Tudo comprado? A descontos muito bons? Uma grande correria nas superfícies comerciais (grandes, médias, piquenas)? Houve estalada, ou conseguiram sair ilesos?
Enapai, que bom.

A nossa foi maizoumenos igual: muita correria, nervos, joelhos no chão, apanhando frio e vento, paciência e espera, e tudo para adquirir um grande molho de brócolos ao preço de duas ou três fatias de fiambre e duas latinhas de gourmet gold.

Yep, apanhámos uma bolinha de pêlo. Andava a deambular perto do meu trabalho, num parque de estacionamento, a esconder-se debaixo de carros, e a miar a quem passava. Calhou passar me mate, que pericaso vinha almoçar comigo (está de férias). E pronto, foi o que foi, é o que é. Levante a mão quem conseguia deixar um bebezolas ao relento, morto de fome, num local onde não há nenhuma colónia (ou alguém o largou, ou apanhou boleia num carro). Pois.

Anyhoo, graças à nossa insanidade, e ajuda de pessoas-anjos que ainda existem, umas que param e dão uma mãozinha a dois trapalhões, outras a quem basta pedir que estendem a ajuda que podem, já mora lá em casa numa jaula emprestada, numa divisão isolada, a fazer a sua quarentena e adaptação. Isto depois de uma passagem pelo vet para ser desparasitada e onde armou uma fuga digna de filme de Hollywood e uma perseguição e captura que nos vai valer ou uma recordação para contar em eventos familiares ou sermos banidos daquele vet para todó sempre.

Visto que já lhe demos nome, parece que coiso.
(até ontem, dizia eu na brincadeira, estava one cat short of crazy cat lady, entretanto parece que já não)
Ah, é uma menina, toda pretinha e uma manchinha branca no peito. Winda.
(sempre disse que adoraria ter uma gatinha preta. toma e embrulha, diz o universo, a rir-se.)

(o nome segue a tradição familiar de personagem de filme / série. dadas as características físicas da ferinha, alguém ousa adivinhar? esta é difícil :P)

(agradeço comentários de apoio e a dizer que nããããão, não somos nada doidos varridos, e fizemos muito bem e tal, vá, venha daí esse reforço positivo que ainda não estou em mim, e o senhor Mad Max já topou que há marosca e anda a cheirar e arranhar a porta feito louco, já nem falando que está mais doudo/ciumento que o habitual, ai a minha vida.)

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Coisas muito boas

O que faz uma pessoa que todos os dias, ao raiar do dia, se vem enfiar em areias movediças, e, à noitinha, chega a casa exausta do esforço de se manter à tona? E nem contando com o resto, tal como as condições atmosféricas favoráveis a nevoeiro, granizo ou furacões que são o estado habitual da sua pobre cabeça?

Comédia, claro.
(já nem falando dos químicos, 'cause if you can't make your own neurotransmitters, store bought are fine)

Portanto, cá vai a receita do dia. Andy Kaufman.

(não será grande novidade para quem viu este - espectacular, maravilhoso - filme, mas hey, o original é sempre melhor)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Too soon?

Treze (treuze, treuze!) anitos acabados de fazer, já muito respondão e com a mania que sabe tudo (suspiros, sabe nada, é ele e o Jon Snow) e que tem imensa piada (às vezes até tem, sublinho: às vezes, e ainda lhe falta sentido de timing, mas eu não desisto de tentar incutir-lho), taradinho de Star Wars (abençoadinho), mas ainda não se afeiçoou ao Star Trek nem conhece o Doctor Who (temos tempo); doudo-doudo-doudo por super-heroísmo e papa todó filme e série sobre (está a cair-me uma lágrima); seríssimo aficcionado de Lego (um lencinho de papel, por caridade), e também jogos de playstation e em app (que não faço ideia do que são porque pá, também tenho os meus limites, lá em casa só há um gamer e não sou eu).
Donde, presente de aniversário, o dilema. Lego, já nem sei o que tem (ele e o mai'novo), o que quer ou lhe falta. Action figures?, podia ser, não sei se gostará dos pop vynil, fica para averiguar. Vai daí, pensei que se calhar já era altura de uma bedêzinha mais madura, mas encontrar traduzida, 'tá bem abelha, raisparta as editoras e, principalmente, as livrarias, que o que há não têm.
Vai daí, atirei-me à (magérrima, aliás, raisparta as livrarias) prateleira de fantasia / terror, porque, ainda não disse, menino já vê filmes que eu até acho que upa-upa, mas gaba-se que não lhe faz impressão nenhuma, anda a melgar me mate pelo Pesadelo em Elm Street. Halloween e Sexta Feira Treze ó, há uns tempos, mas só com autorização parental.
Bom, trouxe o Carrie (Stephen King) e o Neverwhere (Neil Gaiman). 

Amável público: é de ir trocar, ou sim senhora?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Good morning sunshine!

Sobre a semana passada nem vou falar, mas esta foi estreada com uma avaria macaca no quadro eléctrico que me "apagou" metade das tomadas da casa, as da sala incluídas. Nota: só temos um televisor. Na sala. Ou seja, ontem leu-se imenso e fez-se muita sesta. O que veio mesmo a calhar, dado que estou muito doentinha. Quer dizer, muito doentinha na perspectiva da própria, dado que sinto cada mílímetro da garganta, respiro mal, dói muito a cabeça, e os ouvidos e ossos também começam a dizer "estou aqui!, estou aqui!". Do ponto de vista de um médico de família mediano, estou porreiríssima e em condições de trabalhar - nem sequer tenho febre ou pus nas amígdalas, ahahahah, coisas de meninos, para a classe médica. Donde, não fui perder tempo numa qualquer urgência, tenho paracetamol e ibuprofeno em casa, tanquiuverinaice. Enquanto o ibu faz efeito não me dói tanto a garganta, enquanto o paracetas faz efeito não me dói a cabeça; não se pode ter tudo, mas parece que também têm de ser tomar alternados, fuquit. Ainda não disse, mas estou enjoada como, olha, não sei, como alguém que ande sempre muito enjoado, derivado de meu estômago não se dar com o ibu e andarem ambos à bulha. Supimpas.
Para acamar, mate recebeu a notícia (verbalmente, lol) de que vai ter de mudar de local de trabalho no fim do mês, sendo que ainda não lhe disseram qual o novo local de trabalho. Digamos que se algum dia vos inquirirdes porque os tribunais de trabalho estão a abarrotar, uma das respostas possíveis poderá ser o facto de a) o pessoal dos recursos humanos não saber contar prazos; b) o pessoal dos recursos humanos não ter lá grande formação jurídica, ou então têm um código do trabalho só deles e que só eles é que conhecem. Se funcionam assim com uma merdiquice de alteração de local de trabalho, nem quero pensar no resto, adiante. Já que estou com a mão na massa, não sei porque se insiste em chamar "gabinete de recursos humanos" a uma categoria/área profissional que, na verdade, faze é "gestão de pessoal", para não dizer "de existências", ou também "esses chatos". Esse é que é o "core"  deles, não é assim que se diz? Afinal eles não trabalham para nem se focam nos tais "recursos humanos", mas gerem sim os ditos "recursos humanos", portanto, sejamos honestos, o pessoal, os trabalhadores, e de acordo com os interesses e directivas da entidade patronal. Nada de errado nisso, note-se; escusava-se era de fomentar esta hipocrisia linguística, e que se insiste em actos mentirosos de "estamos aqui por vós". Tretas. Já agora, também se deixava de gastar em formação tipo gustavo santos dos gestores de pessoal, e estes escusavam de fazer figura de idiotas ao empregarem larachas motivacionais que, em situações de alteração da vida das pessoas e, portanto, geradoras de stress e incerteza, acabam por se revelar dichotes um nadinha insensíveis, se não mesmo ofensivos.
Anyhoo, parece que já arranjei um electricista lá na freguesia, cuja primeira pergunta foi se eu fazia questão em recibo com NIF. Suspiros, desisto. Já desisti, aliás. E que me há-de ligar. Se calhar. Quando puder. Donde, vou arrastar um dos, O monstro de trabalho desta semana, todo ele um monumento ao desperdício de recursos do Estado em favor de um idiota teimosão que acha que tem, tem que ter razão. Bom, alguém tem de se chegar à frente e assumir a trabalheira de matar o bicho bem matado, antes que nos continue a sangrar. Claro que, da perspectiva dos progenitores do bicho, o Estado blablabla, uma vergonha, não liga (buhu) aos direitos dos cidadãos contribuintes, e leva (buhuhu) um tempão para resolver seja o que for, ainda que este "tempão" tenha sido essencialmente gasto pelos tais progenitores com papelada que não lembra ao diabo, e o "seja o que for" consista numa quimera montada por quem não tinha mais do que fazer ( e eu tenho, tenho tanto mais que fazer, incluindo babysitting a outras quimeras, tentando separá-las das pobres criancinhas desvalidas que despejam amiúde aqui na roda dos expostos que é o meu xervixo, e que, essas sim, precisam mesmo de atenção, solução, e rapidinho).
Boa semana para todos, caso ainda não tenha dito. Com lágrimas. De sangue.

domingo, 28 de outubro de 2018

Gente feliz com lágrimas

Fui ao lidl por mor de fruta e ovos, e havia disto. Ah, esqueci-me dos ovos, já não há bolinho, mas não faz mal.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Liquidação total

Hoje estou com uma telha tal, com um nervosisco tão intrusivo, com uma bad vibe tão aaaarrghh, irritante, que mais vale dar vazão e evitar roer uma unha até ao sabugo, até porque não me posso repetir, e esse foi o programa da semana passada.
Donde, vou aqui destilar, quiçá vomitar (para quem não concorde) uma série de opiniões - aliás não solicitadas, porque ninguém quer saber - sobre as últimas polémicas. Algumas já não são frescas, mas olha, estão em saldo, é o que há.
Começando.

1) Claro que não se deve obrigar crianças a dar beijinhos seja a quem for, conhecidos ou desconhecidos, família ou não. Idem para abraços ou outros contactos físicos. Julguei que isto já nem levantasse celeuma, mas pronto, vivendo e aprendendo. As crianças, como os adultos, têm direito à autonomia, e a negar contacto físico. Ponto. Diferente é cumprimentar: isso sim, deveria ser incutido, porque se trata de a) reconhecer a presença do outro; b) uma simples simpatia / cortesia; c) chama-se socialização.

2) Nem tenho palavras para definir o cagaço que me vem inundando quanto mais se aproxima a segunda volta das presidenciais brasileiras. Nem m'acredito que vão eleger um trapaceiro racista / xenófobo / apologista da ditadura, tortura, violência / machista / homofóbico. Não perdoo aos auto proclamados "moderados" que se recusam a tomar posição, e que ainda têm a lata de vir a público justificar o não voto no Haddad. Tinham muito a aprender com o nosso PCP, esse partido da extrema esquerda - dizem eles, os "moderados", em matéria de engolir sapos, a bem do mal menor e interesse nacional. Alguém acha que não custou - custou pouco, custou - ao Cunhal apelar ao voto no Soares? O homem deve ter andado semanas sedado e a tomar banho com lixa grossa. Mas tinha mais sentido de Estado na unha do dedo mindinho que estes "moderados".

3) Se uma instituição particular prossegue um fim que por acaso é bem meritório, a sua actividade assegura o bem estar e sobrevivência de muitas vidas, e depende inteiramente, para seu financiamento, da boa vontade alheia - caridade, com todas as letras - não tem o direito de se armar em esquisita, e recusar donativos só porque não gosta da cara de quem os oferece, ou não concorda com a ideologia de quem os faz. Ai a gente semos pelos animais, não aceitemos 500 quilos de ração de defensores de tourada? 100% a nível de princípios, mas os princípios nunca deram de comer a ninguém. Além de que se perdeu uma bela oportunidade de dar uma bofetada metafórica naqueles de quem se discorda, acolhendo um bom gesto com graciosidade, sem deixar de frisar a discordância ideológica. E recusar uma parceria com a blogger mais influente deste nosso luso-canto, porque usa sapatos e malas de pele? Nem tenho palavras. A não ser para a blogger, que é melhor pessoa que eu e, ainda que tendo esta farpa na memória, fez uma doação. Eu não faço. O dinheiro é meu, dou a quem quiser. Ah, os animais é que sofrem. Pois, mas eles também passam fome noutras instituições, e nessas não tive a experiência humilhante e poucochinha por que me fizeram passar nesta. Pelo contrário, encontrei pessoas mesmo muito boas e altruístas.

4) Outro tema onde não consigo encontrar palavras é o do assassínio do jornalista saudita Kashoggi. Pela prepotência, pelo horror, pela total ausência de respeito pela vida, democracia, liberdade de expressão. Não vai acontecer nada, pois não, porque petróleo. E isso deixa-me doida.

5) O que também me anda a deixar doida são as midterm nos EUA. Ando aqui toda torcidinha, e nem é nada comigo - ou se calhar é. Por um lado temos quem nos aumente a esperança na humanidade - Beto!, a candidata na Georgia! - mas depois temos o Trampa em total redemoinho de insanidade, e a loucura da voter supression, onde, onde, claro, na Georgia, promovida precisamente pelo candidato e ainda senador que está rés-vés de ceder o lugar. Lá está, faltam-me de novo as palavras.

6) Já não vale a pena falar do Ronaldo, do Kavanaugh, de penas suspensas a violadores? Então não vale. É que calha ter uma sobrinha quase a fazer 18 anos, e tenho tanta, tanta tristeza de se estar a fazer mulher num mundo que não fará tanta diferença daquele em que cresci. Se houvesse uma máquina do tempo que me permitisse ir entrevistar a Izzie de 18 anos, tenho a certeza de que esta estaria bem optimista sobre o futuro, e que, quiçá, até aventaria que uma sua sobrinha ou filha não correria o risco de ser assediada, discriminada, ou ver a sua vontade e auto-determinação (sexual, social, toda!) aviltada e apoucada pelas instituições que a deveriam defender e fazer valer contra qualquer prevaricador, e tudo isto enquadrado num bonito, maravilhoso consenso universal e popular. E não. E isso deixa-me tão mais triste do que consigo expressar.

7) Falando em ideologia medieval, fiquei muito bem (not) impressionada por a polícia portuguesa achar que a) tirar fotos a arguidos no momento da detenção; b) e divulgar publicamente tais fotos não só não tem mal nenhum, como é mais que justificado. E que, quando alguns carolas (entre eles o ministro, e muito bem) vieram a público falar de direito à dignidade, e outros direitos humanos e assim, tentaram um spin desprezível com fotos achadas numa pesquisa google, provavelmente, de bélhotes agredidos (e nem se sabe por quem). Já agora, a divulgação dessas fotos também me merece muuuuita reserva. Como cereja - leia-se poia - no topo do bolo de merda que isto já é, saliento a adesão de um corpo policial (militar) ao popular argumento tipo do troll comentador de notícias online, replicado ad nauseam por todo o lado, de que criminosos não devem ter os mesmos direitos que cidadãos honestos. Este bolsonarismo não é adequado, não é aceitável em lado nenhum, e cá ainda menos. Acho que a GNR e PSP estão precisadas de uma parceria com uma editora de livros jurídicos, que faça chegar a cada efectivo um exemplar da Constituição.

E pronto, para já é só o que me lembro e andava aqui entalado.
Boas tardes a todos, que eu vou ali arreliar-me com uma muito boa que me arranjaram, mas ao menos vou de alminha mais leve. Agradecida.


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

E agora

Perguntais vós, aqueles que tiveram a insensata ideia de me subscrever no feedly ou similar, que vem ela agora resmungar, isto enquanto reviram os olhos e, ainda assim têm a coragem de continuar (ponto, parágrafo).

Ora eu sei, que também leio notícias, que o mundo está cheio, mesmo a transbordar, de coisas mesmo importantes a acontecer, e pior, daquelas que bailhanosdeuzz, ainda nos podem trazer gravíssimos amargos de boca. Mas é nestes momentos - e não esqueçam a expressão "amargos de boca", daqui a nadinha fará sentido - que também precisamos reflectir, inquirir, quiçá indagar profundamente sobre assuntos mais comezinhos, triviais, frívolos ou mesmo mesquinhos. E é um desses assuntos que aqui trago hoje, naquela que poderá ser uma verdadeira tentativa de levar este espaço pelos caminhos do blog de investigação. Atentai.

O que diabos aconteceu aos gelados do lidl, que é feito dos gelatelli em caixa de litro? Aha. Sinto que prendi a vossa atenção. Pois qualquer pessoa bem informada e posicionada no sector alimentar da gulodice saberá que, tirando marcas prime, este é o gelado a escolher, aquele que nos trará grandes alegrias papilares, e a um preço mais generoso que um carte d'or que, e isto é só a minha opinião, apesar de balizadíssima, lhes ficam a léguas.

Sim, que catástrofe natural, quem sabe desastrosa decisão comercial levou a que, cada visita a esta superfície comercial, leve à frustração de ver prateleiras frigoríficas outrora adornadas com os bem amados chocolate, pedaços de noz, café (com pepitas) e caramelo (com pedaços que se derretem), agora se mostrem numa nudez desconcertante? O quê, quem, como, quando, onde? E porquê? Porquê!!!!

De início ensaiei uma simples explicação a nível do aumento do turismo lá na minha zona: os maganos dos estrangeiros não só nos levaram a tranquilidade, a rapidez na circulação pedonal, a possibilidade de andar mais à larga no metro fora das horas de ponta, mas também o gelado. Bandidos! Energúmenos! Renegados! Mas, entretanto, entra Outubro, e a normalidade na oferta do simpático produto demora, há mais de quinze dias que nem uma caixinha, nem uma!, para amostra. Estou, francamente, em frangalhos. Apreensiva. Raladíssima. O que nos trará o futuro. Pior: o que será o futuro, e quererei eu imaginá-lo sem uma tacinha dos gelados favoritos? Não! Não.

Apelo a todos os gourmet e gourmand da melhor gama média deste tipo produto: alvíssaras, alvíssaras! Haveis visto gelatelli nos vossos lidl? É uma carestia a nível global? Reagimos? Como? Petição pública, manif no Camões? Pedimos, não!, exigimos subsídios para Hagen ou Ben&? Juntem a vossa à minha voz, juntos seremos muitos.

[Disse]

[qualquer argumento do tipo "ah, acabou o verão, é um produto sazonal, é natural", será tratado com o adequado e até merecido desprezo. sazonal é a abóbora, o morango, a cereja. há quem coma gelados todo o ano e estudos - os meus - dizem que são excelentes pessoas.]

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Mas o mesmo, mesmo importante

Catálogo do ikea? Visteze-lio.
Ou seja, para os promotores imobiliários que me enchem a caixa do correio de panfletos, é centro histórico" (quando para lá fui era "perto do intendente", sou antiga), para os entregadores de catálogos, o triângulo das Bermudas. Tanta app, tanto google maps, e é isto.

(dado que o #%&§£ do site não aceita mis tarjetas de credito, sendo que, relativamente a uma delas, verifiquei que tem o modernaço sistema 3D, donde, não é por aí, imprimi a lista de compras e vou directa à mercearia, pedindo ópois que me recolham as traquitanas e entreguem em casa. paga-se o mesmo, mas entretanto uma 'soa aproveita para dar uma voltinha e deixar lá uns cobres, malandrice, que venha aqui confessar-se quem alguma vez saiu de mãos vazias do ikea, e isto inclui a zona de comiduchas, onde vou abastecer do melhor doce de laranja de sempre, e uns remédios para os nervos que sabem a caramelo coberto de chocolate).

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Enjoy the silence




Curiosamente é quando mais tenho (teria?) para dizer que mais me calo, mais me contenho, embora não me reprima (não já), não me recalque. É como se numa revisão qualquer que já não recordo quando foi feita me tivesse sido instalado um travão de emergência, accionado automaticamente em caso de iminente oversharing. Já não era sem tempo, às tantas: uma certeza tenho, não era peça de origem.
Sim, eu sei que isto é muito ao arrepio daqueles actuais chavões de auto-ajuda, auto-conhecimento, auto-indulgência e crescimento do self e o raio que o parta, mas a cena de exibir ou, ao menos, assumir a nossa vulnerabilidade é uma treta do caraças. É preciso muito cuidado a quem se abre a porta, isso sim. Aprendi-o a duras penas, e depois de uns valentes vandalismos que me deixaram a alma toda desalinhada - alguns diriam que estava a pedi-las ou, mais gentilmente, que quem anda à chuva molha-se. Não concordo, mas não adianta debater a questão, o que importa é o que se faz depois do sucedido, de preferência começando logo a ponderar enquanto se arruma a casa. Se bem que, tal como a física - bof, mais vale admitir - a casinha interior nunca atingirá os padrões mínimos de organização. Desarrumada, até caótica, mas sujinha é que não, asseio primeiro que tudo.
É isso, é uma questão de asseio. E se muita da porcaria já nasce cá dentro, inevitavelmente, nem se sabe bem vinda de onde - e caneco, é trabalho para uma vida inteira, esta constante faxina interior - é escusado convidar ou proporcionar que entre mais cotão.
Por isso aqui estamos, entre o silêncio higiénico e o mero partilhar de banalidades. Até pode apetecer mais, mas travão.
Anyhoo, comprei uma saia travada azul muito bonita e elegante. Mesmo rés-vés a época do collant (yay! me likey!) que agora se inicia. E... Ficamos pela saia, então.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Quem vê tevê e não sofre mais que nada

As outras pessoas, não sei; mas eu cá já elegi a melhor série de 2018: The Terror. Faltam três meses para me provarem que estou errada, força nisso, mas não creio.

De qualquer forma, se gostarem de cenas assim maizoumenos tensas, a roçar ou mesmo a mergulhar no weirdo, e não vos seja essencial um final totalmente esclarecedor, recomendo Castle Rock. Gostei. Ainda não sei se percebi alguma coisa, mas gostei.
Se fordes fãs absolutos de Stephen King, acho que têm mesmo de ver, aquilo está cheio de easter eggs que me mate me foi fazendo o favor de explicar, vá lá, além de imdb caseiro e sem acesso à net, faz também as vezes de explicador de literatura de suspense e terror à sua mais-que-tudo.

No entretanto, já anda todáááá net a embandeirar em arco com a série Sara, e tenho a declarar que sim senhora, já vi o piloto (e o bobby - esta piada paga direitos a mate -, foi episódio duplo), e sim senhora, têm freguesa. Se é a melhooooor coisa que já se fez cáááá e arredores, e aimedês que maravilha, ainda não sei, que só me pronuncio sobre o jantar depois de o comer, e não quando vejo a foto no insta. Até lavar dos cestos é vindima, e sou uma pessoazinha amarga e muito desconfiada de qualquer entusiasmo a cheirar a hipster. De qualquer forma, foi um prazer poder constatar, ao vivo e a cores, que o Albano Jerónimo, em querendo, sabe mesmo representar (até há atrasado só o tinha visto em - mau - piloto automático em pedaços de novelas); e um desprazer verificar que em Portugal se continua a fazer muito má captação de som em exteriores. Caneco, pá, vós que estudais para isso não sabeis por o som de fundo, o ruído envolvente, ou lá o que se chama (eu não estudei para isso) a não abafar a voz dos personagens? Chatice, pá, distrai imenso.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Como perder uma hora e cinquenta e quatro minutos

Ah, a curiosidade, a tal que matou o gato e um dia ainda me apanha a jeito e me mata de tédio, de arrependimento, de fúria entremeada de profunda tristeza. Ia acontecendo com este filme, maldita a hora em que maturada e ponderadamente, e após ignorarmos sérias premonições de que nada de bom dali adviria, decidimos - ainda por cima! -  unanimemente enfrentar a coisa. 'Tão vamos lá ver - fúnebres palavras - não pode ser assim tãããão mau como a crítica o pintou - oh, não, não pode - e afinal baseia-se na menina Gata Cristina, não é possível errar taaaanto com um dos mais famosos da menina Gata Cristina - ó se é!

Qualquer pessoa atenta ao cartaz de anos passados já adivinhou: trata-se de Um Crime no Expresso do Oriente, que viu - antes fosse ceguinho - a luz em 2017, protagonizado por um Kenneth Branagh de reputação - pelos vistos mal - firmada, e escorada num elenco que não é de deitar fora. Mas afinal é, que o papel de embrulho é de tal sorte ordinário que ficaram todos mascarrados.

Eu nem sei que dizer. Quero crer que nem numa peça infantil seria possível encontrar uma pior caracterização e interpretação de Hercule Poirot. Havendo justiça e sentido de humor no universo, a meio do filme apareceria a menina Gata Cristina, e, dirigindo-se ao protagonista, dir-lhe-ia "você não percebeu nada da minha obra". Ou, ao menos, um senhor de armadura que pespegaria com um frango de borracha na cara de alguém.

Poirot é arrogante? Sim, de uma forma modestamente irritante, e não obscenamente descarada. Poirot é obcecado com a simetria, e até há casos em que, em ambientes estranhos, distraidamente alinha objectos? Sim, mas, lá está, distraidamente; não faz notar a ninguém que o está a fazer, porque é um cavalheiro e é discreto, e seria incapaz de criticar a arrumação - ou falta dela - de outrem. Poirot é exigentíssimo com a comida, guloso, até, e sente-se miserável quando é posto perante uma pobre confecção culinária? Sim, mas não é mal educado com quem o serve, sofre em silêncio, quando muito murmura um nom du nom d'un nom. A queixar-se, fá-lo a alguém íntimo, e nunca ao anfitrião. E não, a sua paixão não são ovos escalfados ou cozidos, mas sim omeletes, das quais se afirma exímio cozinheiro. Poirot usa bengala, sempre? Sim, sempre; mas a sua bengala não faz as vezes de um chicote de Indiana Jones. E Poirot não se sujeita aos elementos voluntariamente, principalmente o frio, e muito menos o frio extremo. Poirot abomina o frio. Poirot teme correntes de ar. Poirot sente-se bem numa casa aquecida e bem calafetada. Poirot é enérgico? Sim, no pensamento, no raciocínio. Poitrot não tem a apetência de Sherlock Holmes por correr, calcorrear, apressar o passo. Nem os sempre impecáveis sapatos de verniz, tortura a que se sujeita voluntariamente, vaidade oblige, o permitiriam.

São apenas alguns apontamentos. Aquilo não é o Poirot, é o Ken a armar ao pingarelho. E o final (spoiler alert), onde dão a dica que, não bastando uma catástrofe, ainda lançarão outra ao mundo? Com aquele coisinho a dizer-lhe que é preciso no Egipto porque houve um crime no Nilo? Senhores, matai-me já, espetai a adaga bem fundo para ser rápido e menos doloroso. A Morte no Nilo ocorre estando o eminente detective lá, pô, ele não é chamado para porra nenhuma. Aliás, em nenhum dos mistérios passados no Egipto, que me recorde, Poirot é chamado após homicídio, Poirot faz parte da trama desde o seu início.

Enfim, que tristeza. Não há floresta capaz de fornecer tanto lenço de papel que enxugue as lágrimas amargas desta fã da menina Gata Cristina. Não há. E havendo, escusavam de a abater para o efeito, bastava não produzirem bostas deste calibre.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

The Cat Diaries (15) Obladi, oblada

E começas o teu dia de (pré) trabalho a implorar negociar a rendição e regresso ao cárcere de um evadido muito laranja, que achou que não, não lhe apetecia ir já para casa, e sim, lá fora é que estava bem, e sim, conseguiste tirar-me do pátio, mas só porque eu quis, mas tenta lá fazer-me descer do muro, ahahahah, desprezo, ó tu aí em baixo, despreeeezo, reles humana.
Uns bons dez minutos, dez, de idas e vindas, calça sapatos vai lá ver se o bicho se apieda, escova cabelo e borrifa o perfume e volta, a ver se o bicho acha que já chega de gozação, e isto tudo enquanto tentas que os outros dois, já sugaditos em casa, não tenham uma ideia parecida e ei, se ele pode eu também quero, e zus, fuga.
Finalmente teve pena de mim, o meliante; lá espreguiçou, bocejou, saltou e veio, de cauda levantada, no seu ritmo, claro, ninguém apressa um felino. E eu agradeci (as you should), e recompensei com o petisco "regresso a casa"*.

Nem foi a cena mais humilhante do meu dia, porque entretanto sucederam pessoas, e que pessoas. Jasus, escolhe-as a dedo, o meu triste fado.

(mil vezes um gato rezingão, que já se sente no direito de mangar desta aqui, mas ao menos ainda sente pena e dá uma abébia)


*nós temos imensos rituais e rotinas, e já vemos resultados em termos de comportamentos. pensar que eram dois besugos medrosos e ariscos há ano e meio, lagrimita.