quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

fail again. fail better.

Como começar, bom, começando. Já está, ultrapassado aquele momento embaraçoso de iniciar seja o que for que nem sabemos muito bem no que vai dar. Como este blog, ou qualquer outro que tenha tido, por exemplo. Mentira: antes custava menos. Capaz de ser um daqueles momentos de alinhamento planetário que só se dá de tantos em tantos anos, mas é isto: não sei o que dizer escrever.

Não é que se tenham acabado as opiniões chatas, parvas, desagradáveis, exaltadas, quiçá despropositadas; nopes, continuo a ter. Mas muito anémicas, fraquinhas que dá dó, optam por se enrolar numa mantinha no sofá, enquanto dão vazão a um pacote de bolachinhas. Das boas. Com chipas de chocolate.

Não que me faltem trivialidades ou historietas enfadonhas; disso também temos, e sempre em demasia, que a minha vida é uma sinuosa vereda num bosque polvilhado das mais aborrecidas e repetidas espécies. Mas acabam a partilhar a mantinha c'as outras, ou não são minhas, só minhas, e não me cabe partilhar. Estas são muitas, aliás, e andam ali num frenesim louco, guinchando, rodopiando, na arrecadação onde as fecho a modos de conseguir um bocadinho de concentração para fazer aquilo que me dá a ganhar o pão.

Aborreço-me, portanto. Por vezes, numa tonta tentativa de alternância, maço-me, somente. Deixei de ter novelos de palavras para desfiar com a ponta dos dedos. Ou esfumam-se numa preguiça sem fim. Opto pela indolência de ficar encostadinha a uma parede, vendo as dos outros passar. Às vezes digo-lhes adeus, outras nem isso. Não tenho confiança com a maioria, e quase nenhumas me conhecem; não quero que me tomem pela tolinha do blogobairro.

E se calhar é aqui que está a coisa: isto gentrificou-se; a maltinha da minha criação mudou-se para subúrbios menos turistificados, e eu acabo por preferir reunir com quem conheci (também) aqui, mas se mudou, nesses outros bairros. Perde-se em diversidade, talvez, mas ganha-se em profundidade. É possível ter uma conversa com princípio meio e fim, seja ela dedicada a livros que sim senhor, séries/filmes que também, ou a forma correcta de cozinhar verduras (true story, e é um assunto mais fracturante que à primeira vista se possa imaginar). E ganha-se também em sossego.

Juro que de há uns tempos a esta parte isto tudo me parece aqueles bailes de província tão bem descritos por Jane Austen: reencontra-se velhas e boas amizades, põe-se conversa em dia, mas ainda assim há muito peralvilho e flausina a rondar, a insistir em se fazer notado, a interromper ou, ao menos, incomodar com a estridência da sua presença. E nem um Darcy para nos aguçar a vista. Nem um Wilde para nos espicaçar o neurónio. Tudo muito a armar, muito alta burguesia convencida que é nobreza, e depois lá vêm as manas enfadadas de Mr. Darcy escarnecer de todos como que mostrando o que é a verdadeira sociedade, aquela onde rodam, mas que apenas as atura não mercê dos seus encantos pessoais, mas da sua heráldica e rendimento. Quando uma pessoa dá por si já arredou dos abafados salões e está a apanhar um fresquinho na varanda, com os velhos conhecimentos do costume, mas ainda assim, irra!, não há maneira de os ditos outros espampanantes deixarem de passar, fazendo-se insistentemente notados, sem que alguém ali os queira notar. Ah, se ao menos desse para fechar a porta. Encosta-se, pronto, já está. Ou não, credo.

E o que fazer disto, não é? Que uma pessoa até pode estar momentaneamente calaceira, mas tal talvez derive mais de não saber o que fazer disto do que de propriamente falta de vontade de fazer. Assim me encontro, num mar de sargaços de tema. O que fazer disto.

Talvez destacar-me. Recortar-me. Reservar o que é reservado para onde seja apreciado ou, pelo menos, bem acolhido. Talvez espaçar. Talvez seleccionar. Talvez apreciar os silêncios. Os entretantos, Talvez optar por outro caminho, outra linha. Talvez tentar voltar a ter prazer com isto. Tentar outra vez, talvez falhar, mas falhar melhor. Vem aí um ano novo, é um marco como outro qualquer, e diz que se apresenta novinho em folha, por estrear. Cá estaremos.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Oh brother where art thou

Continua a (minha) saga da busca da mesa de centro perfeita adequada. Faz em Fevereiro um ano, se não me engano. Volta e meia faço um périplo por lojas, sempre para chegar à conclusão que a) é demasiado grande; b) é horrenda; c) cara comó caraças; d) quem é que compra isto? Já tive a feliz fortuna de acumular todas, só eu. Regularmente vou ainda ao olx, porque sou crente, ou masoquista, ou já nem sei.

Como sou uma pessoa extremamente altruísta e empática, e porque pode andar aí outra boa alma na mesma empresa, deixo aqui umas boas sugestões encontradas nesse mercado virtual (e que eu não aproveito porque minha humilde morada não é digna de tais peças):





Correi, correi que isto são exemplares para desaparecer num ai.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

42 ou o Sentido da Vida

Ainda não tenho a certeza, porque dá muito trabalho a investigar e númbaros não é o meu forte, mas o que sei é que vi o Deadpool e me diverti como uma tolinha. Um dia todos os filmes de super-heróis serão assim. Uma hora e quarenta, muito palavrão e piadas só para adultos, ritmo, mortes macabras mas muito warner bross., e sem super-herói. Já ninguém tem paciência para palhaçadas messiânicas de três horas, e muito menos para monos a fingir um ar pensativo/intenso como o Ben Affleck.
Falando em psicopatas ricos com poder de compra para brincar ao super-heroísmo, acho que vem aí a uma versão definitiva:




 Yay.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

De tanto bater o meu coração parou


Amélie (aka Patinhas, Puski, Bibisca, Bichinho do Demo, Mimiskas, wtv) 21.06.2002 - 05.12.2016

Obrigada pelo privilégio de fazeres parte da nossa vida. Até já, minha querida.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

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A Bibiscas está muito doente. Completa-se hoje uma semana do seu terceiro internamento depois de três dias cada um. Não come, tem de ser alimentada à força e de seringa. Não se lava, fica prostrada a maior parte do tempo. Ao menos reconhece-nos, que não faltamos uma visita; mia ao nos ver, não sei se para ralhar pelo abandono ou nos dar as boas vindas. Ronrona muito, enquanto lhe fazemos festinhas e a envolvemos em palavrinhas meigas. Mas não come, e não lhe podem dar alta sem que o faça, de livre vontade. É que se os valores da insuficiência renal crónica já estão controladas, a falta de alimento causa outras, e teme-se a falência hepática. A Miminhas está muito fraca, e triste e abatida. Foi num pulinho que aqui se chegou, dois meses apenas, e análises feitas ainda em Junho não faziam adivinhar. Não sabemos o que nos espera, apenas este buraco no meio do peito que a sua primeira ausência em quase 14 anos nos cavou é uma certeza. Alternamos a esperança perante um novo resultado animador, a notícia de que comeu 20 gramas, um ar mais animadito, e o desânimo de um outro dia de apenas sete gramas, e um cansaço persistente. Voltamos a casa todos os dias para a falta de um pelo fofo e ronronante no colo, um par de olhos luminosos à nossa espera à porta da casa de banho, uma valente espreguiçadela quando o despertador toca. Trocamos frases feitas de bons augúrios pontuadas de suspiros fundos ou simplesmente cedemos a um choro silencioso. A Patinhas está muito, muito doente, não sabemos o que aí vem, se desistiu (nós não), o que podemos mais fazer se não a já diária romaria de carinho e amor desesperado.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Irritações

Muito enervada com as reacções à morte do Fidel. Muito. Aliás, muito enervada com as reacções de certas pessoas de esquerda, e sua dificuldade em definir e identificar uma ditadura / ditador. Não há liberdade de expressão e/ou imprensa livre? É ditadura. Não interessa as (boas) intenções, não importa se é melhor ou pior que no país x ou y, que fulano ou sicrano: é ditador, é ditadura. A ditadura não se caracteriza apenas pela maior ou mais branda violência policial ou de Estado, pela intensidade da repressão, ou pelo fim com que é instituída. Não basta afirmar que se faz pelo bem do povo para se legitimar um regime; não basta que o regime imposto seja melhor que o anterior para se desculpar o autoritarismo. É mau, ponto, e é mau porque os meios não justificam os fins, e mesmo quanto aos fins, bom, acho que qualquer pessoa informada está conversada.
Fidel era um ditador, Cuba é uma ditadura, e não nos cai a ideologia na lama por o admitir e escrever com todas as letras. Fidel derrubou uma ditadura e instituiu outra, ainda que de sinal diferente. Sim, sou de esquerda, mas quanto a ditadura, soy contra. Fidel foi um importante e carismático líder revolucionário até ao dia 1 de Janeiro de 1959; daí em diante, ao não ter entregado o poder e livre determinação ao povo, instituindo um regime democrático, tornou-se apenas uma caricatura e perversão do que defendeu. E não deixa de ser irónica não a sua morte na black friday, mas no dia em que em Portugal se comemora a derrota de um tentativa igual, de substituir uma ditadura por outra, de sinal oposto. Que isto pode ser uma choldra, que até é em parte, mas é uma choldra livre e onde a esperança, a opinião, o futuro depende de mais que da vontade de poucos impondo-se a muitos. E em Portugal, pelo menos, o hasta la victoria, siempre, ainda se faz, é possível, e sempre, mas sempre, com a livre voz da maioria popular.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

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[entretanto, no outro lado do grande lago, e quando a diferença total de votos entre os dois candidatos já soma os dois milhões, Jill Stein em grande no crowsorcing para financiar uma recontagem. Hillary, espertíssima, mantém-se caladinha. querem ver que?]

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Haverá sangue

Deve haver alguma falha na formação dos profissionais de saúde* que os leva a concluir que, só por uma pessoa ser sincera e admitir logo à partida que tem fobia de um determinado procedimento (no caso, agulhas, ou aicmofobia), tudo o mais que diga é exagero, tontice, parvoeira, e não digno de levar em conta. Ou pior, que estão a lidar com uma descompensada, histérica, ou hipocondríaca.
No-pe. É para vos ajudar a melhor fazer o vosso trabalho. Melhor: para garantir que façam o vosso trabalho.
À uma, se fosse hipocondríaca, não tinha respondido que já não me lembrava da última vez que fiz análises de sangue (a resposta é um bocadinho mentirosa, que tive foi vergonha de dizer "há mais de dez anos"). O hipocondríaco até calha ser o tipo de pessoa que não larga os médicos.
Às duas, se fosse histérica, se calhar não tinha falado num tom tão calmo, nem explicado tão eloquentemente que a) a artéria de serviço está no outro braço; b) já com duas horas de jejum é muito provável que a tensão arterial e pressão sanguínea estejam para o baixote; c) é uma ideia gira porque testada (e resulta!) tirar-me sangue deitadinha.
Não me ouvem e depois ficam frustrados, né, eu sei que é chato não conseguir extrair uma gotinha, quando era essa a vossa tarefa. E ligeiramente aborrecidos com a subsequente nega, porque o meu limite de picadas por dia semana mês ano quinquénio é uma. Não foi por falta de aviso. Tiveram a vossa chance, para a próxima é ouvir o paciente. Não, não são só "coisas da nossa cabeça", "fita", "mania", seja lá o que for.
Continuação.


*enfermeiros, médicos, auxiliares, tudo igual. amores: quando eu faço fita, percebe-se que é fita, e é só para audiências seleccionadas. se eu digo que dói é porque dói; se eu digo que me estou a sentir mal é porque me estou a sentir mal; se eu digo "desculpe, acho que vou desmaiar", é porque já estou a ver tudo negro. fobia não é mariquice. tomar antidepressivos não declaração de descompensação e autorização para desvalorizarem tuuuudo o que paciente diga. palavra de quem já passou um pós-operatório e tirou três sisos muito feios e não precisou de analgésicos na recuperação. mariquice é por exemplo, ainda não ter ido tirar o quarto siso, fica a informação. e ainda há quem se admire de eu fugir de médicos como o diabo da cruz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Honni soit qui mal y pense

Na sexta-feira um taxista mandou-me ir coser meias. Rectifico: na sexta-feira, um excelentíssimo cidadão do sexo masculino que ganha a vida conduzindo automóveis e transportando passageiros, entendeu por bem educar-me quanto ao meu papel social, que é o de ser recatada e do lar, em vez de andar a maçar excelentíssimos cidadãos, mormente do sexo masculino, e ainda por cima condutores profissionais, com a minha presença na estrada e, pasme-se, ao volante de uma viatura, e, infame crime, que me pertence e paguei com o fruto do meu trabalho.

A coisa enquadra-se e conta-se em duas penadas, embora o desfecho até o dispensasse. Poderia até ter andado aos zigue-zagues à frente do indivíduo, que era escusada a reacção, bem como o crescendo que levou a ela. Conto apenas por isso: o crescendo. Muitíssimo interessante.

Sucede que o município entendeu por bem (e mal) alterar os sentidos / obrigação de direcção ali numa zona onde sou obrigada a passar todos os dias. A intenção e concretização é bem notória para quem tem olhos na cara, visto que está pintadinha no pavimento a cor branca reflectora, e para quem anda de nariz no ar o semáforo não deixa enganar. Ora o espertalhuço do condutor profissional ou não reparou (e só nisso seria de censurar - aqui a distraída mor deu por ela logo no primeiro dia) ou não quis reparar (pior ainda) que havia uma obrigação de virar à esquerda para quem seguia naquela via. Se calhar sou injusta, e tratava-se apenas de uma objecção ideológica; no entanto, facilmente contornável, bastaria que seguisse na via correcta, mais à direita, a saber, a minha. Onde entraria muito lá atrás. Se calhar sou de novo injusta: devia estar com pressa para qualquer compromisso importantérrimo, e é sabido que a Convenção Nacional de Palermas não se compadece e marca falta a retardatários. Ora a abécula seguia pela via mais à esquerda, não virou para a dita direcção, seguiu em frente. Transgressão um: não respeitou direcção obrigatória. Transgressão dois: avançou com o semáforo que regula o trânsito da via onde seguia já mudado para vermelho. Transgressão três: sem accionar pisca, começa a fuçar para a minha faixa. Apitei-lhe, não só num propósito pedagógico de o alertar para o princípio de Arquimedes, mas também para que não tivesse dúvidas que à minha frente não enfiava.

E aqui começa o enredo: respondeu-me com uma salva de tiros de buzina. Acontece de seguida que ficamos parados, lado a lado, já do outro lado do cruzamento, e noto que Sua Excelência asinina está deveras incomodado, e grita que nem possesso dentro de sua viatura. O trânsito demora, e o Senhor Duque da Porcalhota baixa o vidro. Eu, que até então me limitara a reagir como sempre - cara repreendedora e abanando em silencioso "ai, ai!", não sei que me deu. Passei-me. Deu-me uma coisinha. Saltou-me a tampa. 'Tão o caralhete é que atropela umas quantas regras do código, e ainda se acha no direito? Baixei o vidro, e fui imediatamente atingida por uma violência de "o qué que tu queres hã?" Tu. TU. O tipo tinha pouco mais que a minha idade, embora mais estragado - é natural, com tanto fel nas veias. Passei-me mais um bocadinho. Após o ter esclarecido que estava na faixa errada e tinha violado umas regrinhas do código da estrada, perguntei-lhe directamente se queria que chamasse a polícia. Na terceira pessoa do singular, que há quem tenha educação. Não posso assegurar, mas acho que até empreguei a palavra "senhor", porque when they go low, we go high, a minha mãezinha deve ser da mesma escola que Michelle Obama e criou-me assim. Mas ele continuou com o seu "o qué que TU queres", a que colou um "quem é que TE disse que eu não ia em frente" (naquela faixa de onde vinha não podia, adiante), e rematando com "CHAMA, CHAMA a polícia". Fervi, confesso que fervi. Esqueci a cartilha maternal de não se dar conversa a doidos, não se responder a malucos, e não engajar em conversas com machistas de merda. Há dias em que não dá. Há dias em que uma pessoa já acumulou que chegue durante a semana, e não está disposta a levar desaforo de um ser medíocre que calhou nascer com dois cromossomas diferentes e, por isso, já se considera mais capaz, mais competente, mais apto, mais elevado, e com moral para nos ensinar o nosso lugar. Há dias em que, num mundo que contínua e sistematicamente desvaloriza um grab'em by the pussy, uma pessoa enche de calar e comer. Respondi que fosse tirar a carta, e aí ele retornou, enquanto já avançava eu com o dedinho para o fecho do vidro, com a indicação de qual era o meu lugar. A coser meias. Que as cosa ele, eu nem por isso, que não preciso: tomo conta da minha pedi-higiene e não tenho unhacas nojentas a furar tecidos. Já com o vidro a subir, o trânsito a começar a andar, ainda lhe larguei um "Sois uns ordinários, e é por isso que a Uber vai acabar convosco, graças a Deus."

Inspira. Expira.

Eu sei, eu sei, dou o corpo às balas. Fui culpada do crime de generalização. E de invocar o nome do senhor em vão, 'inda por cima sendo ateia. Mas convenhamos. Se um coiso tem o à-vontade para fazer uma cena destas, se um gabiru se acha no direito de falar assim com uma completa estranha, só porque o afrontou com uma (aliás bem mandada) buzinadela, como posso eu sentir-me segura que não toparei com um gebo destes naqueles (já raros) dias em que saio à noite e opto por não levar o carro? Como posso estar descansada que um mono destes, ao ver uma mulher que, na sua mundivisão, já tinha era idade para ter juízo e marido e filhinhos e estar em casa a tomar conta deles, designadamente cosendo meias, não se ache autorizado seja para o que for?

E se este fosse o primeiro. Recordo sem saudade aqueloutro que, a uma buzinadela por estar parado numa a) passadeira; b) numa subida em curva sem visibilidade; c) a bloquear a visibilidade e manobralidade de quem queria entrar num entroncamento; me saudou com um pirete e algo que me soou com "puta que te pariu". Relevei esta. Não generalizei as tristes cenas da greve / manifestação no aeroporto. Mas é a tal coisa da gota de água.
Epá, não. Uberizei-me.

(poupem-me comentários do tipo ai o meu pai é taxista há trinta anos e um senhor muito respeitável e coiso. sabem lá o que eles andam a fazer quando ninguém vê. o Pedro Dias, também diz que era um rapaz muito educado e respeitador.)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O ano do pensamento mágico

Ontem vi um DeLorean. Não foi na tela da tv ou do cinema, não foi numa fotografia ou cartaz, foi mesmo na rua. A circular. Um DeLorean. Sim, igual a esse. Sem flux capacitor - presumo - mas o que conta é a intenção.
Ontem vi um DeLorean, e portanto tuuuudo vai correr bem.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

We shall never surrender

[numa conversa no feice - o pessoal da minha timeline acordou cedo, e estamos numa de psicoterapia de grupo desde as sete menos picos - lembrei-me deste filme. já é velhinho, com um elenco de luxo, e uma história que se torna, hoje, assustadoramente presente]



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

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[uma pessoa até se recorda que tem um blog, uma pessoa até, ocasionalmente, se lembra de coisas giras para dizer ou partilhar, mas uma pessoa não tem tempo porque entretanto lhe acontece trabalho. e pessoas. muito. chatas. muitas pessoas.]

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Game Over

Ser apanhado a transgredir é chato e, conforme a situação, pode até ser um bocado embaraçoso; agora armar barraca, arruaça, comício onde se grita palavras de ordem quanto à intervenção do elemento policial e oportunidade da mesma enquanto se é autuado, é só deprimente.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Hell's Kitchen

Uma das actividades a que me dediquei (mais) neste último ano e meio, assim em jeito de distracção-terapia anti-stress, foi a culinária. Não sejas pretensiosa, agora a chamar culinária àquilo, qualquer dia também andas a dar workshops. Pronto, à arte de cozinhar. "Arte" também é esticar a corda, que a minha proficiência na coisa não é assim tão merecedora de encómios, mas pronto. Já estou melhorzinha. Isto de passar de espectadora de masterchef a (proto)executante é giro. Come-se melhor, também. O que é um incentivo, só por si.

Trocando por miúdos, não se pense que me tornei cozinheira exímia e sofisticada, ou que aderi àquelas modas dos ingredientes esdrúxulos e sonantes, que no que toca a comer sou muito povo. Não há cá reduções, cenas em cama de, ou milhentas formas de degustar quinoa, óleo de coco, papinhas de aveia, aveia em tudo porque deumalibre ai o glúten, banana esmagada a substituir ovos ou manteiga, não senhor. Ingredientes normais, de qualidade, muito terra a terra. Há farinha, há manteiga (a margarina é coisa que dura um ano, lá em casa), há azeite, há açúcar, há ovos. E carne. Carrrrne. Mesmo que não a coma, cozinho carne, há quem aprecie. Carne da boa, bem feita, saborosa. E não é fácil, hein. Até uma pessoa apanhar os truques todos, até se saber fazer um lombo no ponto - nem seco, nem mal passado, abençoado termómetro que pôs no caminho da luz - ou um bolo mais complexo que o corriqueiro de iogurte, estraga-se muito. Já tive grandes frustrações, situações de porquê, porquê eu, o que fiz de errado, ai sou tão desgraçada, tudo para o lixo. E outras pequenas arrelias, como queimar pegas, esquecer-me de uma espátula de madeira dentro do forno e acabar com carne fumada - ao menos a madeira da espátula era muito aromática, e eu ali uma hora e tal a perguntar-me que raio de cheiro era aquele e népia de ideia. Mas pesquisando, tentando, pesquisando mais e re-tentando um gajo chega lá. Ainda estou a caminho da tarte de maçã perfeita, se calhar é arranjar mais receitas para experimentar. Mas no capítulo "assados no forno" a coisa está muito bem encaminhada, auto-palmadinha nas costas.

Concluindo: derivado de cenas fui acometida da obsessão de executar um bom pulled pork. Muitos intervalinhos para cigarro a pesquisar receitas, dicas, truques, cortes de carne adequados. Finalmente, vai-se à procura e leva-se o belo pedaço de cachaço. Faz-se a mistura de tempero mais unânime - sal, açúcar mascavado e colorau em partes iguais -, envolve-se a carne naquilo e deixa-se a marinar de um dia para o outro. Chega-se a casa e vai-se a correr aquecer o forno, enfiar lá a carnuxa e baixa-se para 140º. Duas horas e picos depois, sucesso! Tem o aspecto prometido. Mate prova e jura que sim senhor. Desfia-se tudo. No dia seguinte, a bela sanduichota. Que almocei há pedaço. Conclusão? Sim senhora, mais uma auto-palmadinha nas costas. Duas, que diabo! Há que acertar uns niquitos, da próxima vez não sei quê, mas sim senhora. No bom caminho. entretanto, vou-me atirar ao precipício das BBQ ribs. Olaré.

Editado: ó aqui um link com as dicas todas e tal.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Doctor who? Yes.

Este fim-de-semana sonhei que, num auto-exame de rotina, descobria um (mini mas)caroço na mama. A minha reacção? Claro que panicava um pedaço, ai que ainda morro e o caraças, mas depressa tal sensação atenuava e era assoberbada pelo transtorno da coisa, e quando digo transtorno digo a enorme maçada e distracção que seria ter de marcar consulta, mamografia, sei lá se biopsia e cirurgia, mais tempo de recuperação e sei lá se quimioterapia. Ficava numa de era só o que me faltava, e eu com tanto que fazer / que me rale. Não deixa de ser fofo que, perante uma possibilidade de doença provavelmente mortal, o meu inconsciente tivesse a mesma reacção que o meu consciente teve quando se apanhou com uma receita de óculos de ver ao perto (e dois raios x, e mais outro exame). Quinze dias, and counting.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Toda a verdade

O que sucede é que não me apetece. Nada.

You gotta roll with it, you gotta take your time

Ir com calma. Caaaalma. Concentra-te. Parte em pedacinhos pequenos. Mastiga um de cada vez. Não, não, não olhes para o bolo todo a pensar que não tens barriga para aquilo, ah, chiça, perdeu-se. Garganta presa. Não aguento mais. Onda. Respirar fundo. Rapidamente. Ok, pronto, se calhar não resulta, três vivas à indústria farmacêutica. Para a próxima, menos cafeína. E menos nicotina. Fuma menos, caraças. Ah, preciso de marcar as cenas. Já vai, agora isto, ora estava onde. Porra, o extracto, já tá. Ora vamos lá outra vez. Cursor a piscar. Cursor a piscar. Cursor a piscar. Se calhar pegava antes naquilo ali e deixava isto aqui a marinar. Mais ainda? Pois, não pode ser. Vamolá, vamolá, vamolá. Cérebro de algodão. Agora a sério, como é que eu vou desossar esta merda. Portanto se coiso, então coise. Putaquepariuestagente. Será que a gatinha comeu. Concentra-te. Será que mainumseioquê. Foda-se. Agora a sério, é sexta, arruma esta merda. Epá, já não consigo hoje e sefunda tenho de. Respira fundo. Ir com calma. Outra vez. Caaaalma. Concentra-te.

sábado, 15 de outubro de 2016

We'll always have

Cola Zero.





[a sério que há mesmo quem ande a ulular sobre um grande aumento de impostos e ai 'tadinhas das pessoas por causa da tal fat tax e dos chumbos de munições? a sério? onde estavam essas pessoas quando todos os rendimentos foram massivamente taxados? e nunca se chocaram ou indignaram por produtos essenciais de limpeza e higiene levarem com iva a 23%? oh pá, cheios de sorte de eu não mandar, que nem fazem noção das ideias giras que tenho sobre cenas para taxar. por exemplo, acho que o aumento do selinho do carro devia ser progressivo conforme o valor do dito, e não em percentagem igual para todos. é que se anda ai tanta gente endinheirada o suficiente para gastar em panameras e macan - a sério, uma praga, pelo menos em Lisboa - então também podem contribuir com mais uns tustos para a caixa da comunidade. é que aqui a palhaça, com um utilitário barateco gama média já paga tanto pelo carro como de imi - juro - pelo que é fazer as contas. e beber menos refrigerante. e champagne.]

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Estou além

Por outro lado, é sempre bom constatar que há tanta gente erudita que apenas gasta as vistinhas em leituras elevadas e consagradas.
Devem ser as mesmas pessoas a quem cai tudo ao chão se alguém se atrever a afirmar que o guião do Assalto ao Arranha Céus é tido e estudado como um dos mais tecnicamente perfeitos de sempre. Ou que o Robocop também é estudado como um filme paradigma (só o vi o ano passado, e tenho de concordar). Claro que podem sempre argumentar que preferem Blade Runner - eu também e, já agora, porquê a sequela, porquê - mas isso já é uma questão de gosto pessoal, e não tira mérito ao primeiro, nem é uma afronta pessoal haver quem o distinga.
Ca-re-do. Ja-sus-ca-re-do.
(se houvesse um prémio Nobel da cagança, ui, tanto candidato)

It's allright

E depois vês que um escritor medíocre tuga*, daqueles que não sabe que é medíocre, e até ensina outros a ser tão medíocres como ele, um que nunca entrará nem para a long quanto mais a short list do Nobel, faz pouco da atribuição deste ano, com a piada de que tem os livros todos**.


Querias, pois querias. Mas não há.


*outro lido e doado.
**segui um link plantado noutro mural, olh'aí.

Something is happening here

E eu acho bem, que isto é uma das melhores coisas que já foi escrita, ao contrário de uma cena com um gato preto na capa, que comprei por pura peer pressure de crítica hype, li com muito mal empregue esforço, e despachei num molho para doação a uma biblioteca, que não quero que quem me entre lá em casa e espiolhe as estantes fique com ideias erradas sobre mim*.


*e se aquela estante tem coisas que parecem inexplicáveis, bizarras, incompatíveis por lá plantadas, mas nenhuma que me envergonhe ou não saiba justificar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

[every woman]



Estive a ver uns pedaços do debate, felizmente com a digestão feita. Estou mais apreensiva que nunca.

Como sou uma naba a copiar imagens, e por mais que tente não consegui chapar aqui alguns dos tweets, remeto para a fonte. Resumem taliqual o mal-estar que senti, e esta imagem supra penso traduzirá. Para tantas.


[Trying to get shit done while a man lurks disapprovingly behind you pretty much sums up womanhood]

[Hillary Clinton is every competent, experienced woman who's had to fight to be heard over an underqualified, overconfident man.]

[Hillary Clinton had the look every woman ever has on her face when her male boss who's a 1000 times dumber than her is talking.]

[Hillary's face right now is every woman when everyday sexism is dismissed as "lockerroom talk"]

[Hillary is proof a woman can work hard, rise to the top of her field & still have to compete against a less qualified man for the same job.]


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Hell is empty and all the devils are here



Ele há séries que começam chochinhas e que só lá a partir do segundo, terceiro episódio ganham balanço, isto se não for já a meio da primeira temporada (tipo Sons of Anarchy*, ainda andaram ali aos papéis um bom tempo, até encontrarem a velocidade e trajecto ideais), mas esta, caraças, já nos deixou a roer unhas e de olhinhos abertos e fixos desde o primeiro.
Tomara não se perca.

*também recomendo

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Obladi, oblada (life - really - goes on)

- Uma mulher, escritora, opta livre e conscientemente por se manter anónima, escolhendo publicar sob pseudónimo. Dá entrevistas por escrito, sem contacto pessoal, nunca revelando a sua identidade; reafirma inúmeras vezes que não se quer dar a conhecer, o importante é a obra e não a pessoa. Depois vem um jornalista que desconsidera tudo isto, arregaça as mangas, e decide investigar quem é a pessoa atrás do pseudónimo. Diz que descobriu, e publica nome e fotografia. Um exemplo [pseudo]literato desta cultura:


Realmente, qué lá isto, uma mulher com vontadinhas próprias, e qual respeito por essa autonomia e tal. Modernices. Ela até gosta.

- Diz que o Cavaco, aquele a quem bastou nascer para ser mais sério ca gente, andou a pagar menos imposto que devia derivado de umas informações erradas às finanças. Não m'acardito. Impossível. E também nunca teve interesses no BPN. Lá agora.

- Falando em fuga aos impostos, este fim-de-semana apostava eu perante me mate que a situação fiscal do Trump ia ser a sua derrota. Ele garante-me que não, mais depressa os eleitores se aborrecem com o facto de ele ter furado o embargo a Cuba e lucrado com isso. Não acerto uma, de facto parece que sim senhora. Lá, como cá, quem engana as finanças é visto como um melhor. Alguém que jurou ou quer jurar servir o bem público. Tenho um bocado de vergonha disto. É pena ainda faltar tanto tempo para construírem a Enterprise, ou eu oferecia-me para ir.

- Isto é só uma divagação final, mas tenho p'ra mim que o Elon Musk dava um super-vilão de BD bestial. Ou vice-versa. Ou coiso.

Obladi oblada (life goes on)

- Entrar no hiper para comprar gelado meia dúzia de imprescindíveis, dar com uma feira de queijo e vinhos, sair com um carrinho de crise de meia idade. O Cortes de Cima (tinto) estava só com 20%, mas vale cada cêntimo. Melhor alentejano que já provámos (deve haver melhor, mas tenho a lembrar que não somos target para o imposto Mortágua).

- Trouxemos também o livro do Jovem Conservador de Direita. Me mate faz, há dois dias, uma bonita sinfonia de risos e fungadelas que interferem com a minha leitura nocturna. quase a pedir divórcio.

- A propósito de divórcio, já é o enésimo ano seguido que somos lembrados do nosso aniversário de casamento por mamãe querida. Não, eu não estava a fazer caixinha para depois preparar uma birra se ele não se lembrasse. Passou-me completamente. A ele também. E não foi a primeira vez. (e não, nunca comemoramos)

- Falando em leitura, entrámos na Bertrand para fazer tempo e ver umas capas, saímos ajoujados e com uma conta superior ao hiper. Conto a novidade (já saiu, já saiu, já saiu!):


- Já tinha visto na tv, em vhs, em dvd e até em hd; no cinema ainda não. Snif. Me so happy. Chuck? It's your cousin, Marvon Berry. Daqui a 15 dias segue, fica por fazer o back to back (num fim de semana frio de inverno, prometido):



- Até podem ser o amor maior da vossa vida, o milagre da vossa existência, o centro e a vossa razão de existir mas, adultos quarentões pais tardios bananas, os filhos são vossos, não nos cabe adorar aturar os meninos e suas patetices intrusivas idiossincrasias, tá? Tá.

E pronto, é isto. Não podia terminar sem ser desagradavelzinha, certo? Pois.




Good grief

Recebi isto por mail:


E recordo que aqui há tempos já tinha havido uma "onda" de descobertas de posts desta senhora indivídua, no seu perfil de feicebuque, tudo gamadinho de blogs. Pelos vistos calha a todos. Desta feita, calhou a esta aqui.

Sim, estou indignada q.b., mas depois tomou-me assim uma espécie de tristeza e piedade por quem é assim. A sério, que tristeza de pessoa, que tem tão pouco de seu que precisa de se apropriar do que os outros sentem e pensam para existir.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

É p'ra amanhã


OMG, OMG, em pele de cordeiro, e pela módica quantia de €299,00! A zara nunca desilude. A poupar a minha carteira há meses, e meses, e meses.

(espero que tenham dado bom uso à carne do bichinho, que quanto ao resto, bom, estamos conversados. paz à sua alma.)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Amarra o tchan

Se há coisa de que os médicos têm mais medo que um p'cesso por negligência, é passar uma baixa ou um atestado. Eu sei, eu sei que não sou uma drama queen a expor sintomas (sou noutras coisas mais importantes, por exemplo, não tenho chocolate em casa nem vagar para o ir comprar, e da onu não ouço nada, nem uma palavra de conforto, nem uma missão de auxílio, nicles), mas quando digo que estou toda apanhadinha, é porque estou mesmo apanhadinha; e se o Choutor não viu a forma grotesca como me sentei e levantei, ei, já íamos ver desses olhos.
Anyhoo, estou feliz, não porque matei o presidente, mas porque hoje acaba o ordálio do anti-inflamatório + relaxante muscular, que me estão a fecundar tooodo o sistema digestivo. Como a felicidade não dura, nuuunca me dura (draaama), estou infeliz porque ainda me doem as costas. Ali na parte onde devia começar a caudinha que perdemos para a evolução, e um nico mais acima. Não quero roubar a ribalta a quem entrou com melhor média que eu para a fac e ainda estudou mais um par de anos que moi, mas era capaz de jurar que isto ia lá com remédios E repouso, daquele que implica não ter metade do corpo apoiado no local em questão.
Sa foda. Se o Choutor acha que tudo bem, tudo bem, vamos ter fé. Nas costas, no ombro, no pulso, no esqueleto todo, que ando há três meses a acumular um horror de berbequinagens e outros diy, e este fim-de-semana é que é. À cautela, tiro já senha das urgências. Nunca fiando.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Senile delinquents

[não, não é um post autobiográfico, mas pouco falta]

Sou tontinha, tolinha, muito atraidinha por livros infantis. Freud explicaria, mas agora não tem vagar. Adoro. Não daqueles com letra muito grande e super-ilustrados, apesar de serem muito adequados à minha idade mental, mas coisas para leitores um bocadinho mais avançados, ali a partir dos nove, dez anos, altura em que os putos já começam a ter mais à-vontade com a leitura, gostos mais exigentes, e raciocínio e sentido de humor mais sofisticado. Assim de repente, lembrei-me do meu sobrinho de oito anos, que pediu emprestado a me mate os filmes do Star Trek. Os antigos, nas palavras dele. Os com pessoas a fazer de monstros com máscaras de plástico, outra vez as palavras dele. E eu comovi. Temos nerdzinho, abençoado seja.

Adiante, tenho esta tara por literatura infantil, começou na idade certa, em que a comecei a consumir, e nunca parou. Já crescida e com idade para ter o juízo que não tenho, descobri o maravilhoso mundo da literatura infantil inglesa, raramente traduzida por cá quando eu estava na faixa etária indicada. Mas nunca é tarde, e graças à querida amazon lá veio a colecção da Anne of Green Gables e Little House on the Prairie. Esta última tem mais interesse enquanto relato do que era a vida de colonos, naqueles tempos, mas a primeira encantou-me, apaixonou-me, deliciou-me. Seguiram-se outros títulos também mui amados, como A Little Princess, The Secret Garden, The Wind in the Willows, Heidi, clássicos que recomendo vivamente. Mais recente e numa onda do mais bizarro, papei toda a colecção de A Series of Unfortunate Events, que em boa hora me mate resolveu abarbatar em Nova Iorque (e o que eu o chateei por causa do volume e peso; sorry, mate). Só recentemente me afundei em Roald Dahl (imperdoável, eu sei), mas a minha desculpa para ainda não ter lido mais que um é que a) vale mesmo a pena comprar o livro físico, por causa das ilustrações; b) na próxima ida a Londres trago todos, em vez de pedir às mijinhas pela net.

E depois veio esta descoberta. Com o meu histórico de compras era inevitável que o monstro capitalista das vendas de entretenimento pela net mo recomendasse, e acabou por ficar na wishlist a marinar; depois fiz uma promessa parecida com a do Dahl, finalmente desisti e mandei vir dois. O actual estado da situação é o seguinte: já li um, comecei imediatamente o segundo, e quero todos.
Falo disto:



Yep. Livros infantis escritos por um dos grandes malucos responsáveis pelo Little Britain. E sim, são bons, bem bons, pelo menos a avaliar pela amostra. Muito na linha da narrativa improvável, bizarra, inesperada de Roald Dahl, e com o mesmo sentido de humor desconcertante e agudo.

Estou mega fã. Aconselho a toda a gente, crianças incluídas. E está traduzido, olha a sorte dos petizes de hoje, os moinantes. No meu tempo não havia disto, tinhas Os Cinco e a Anita e já gozavas.

Bones

Sentido de oportunidade é copular violentamente as costas em vésperas de consulta de ortopedista.

[outra vez a anti-inflamatório e relaxante muscular, alguém me dê um tiro, de certeza não dói mais que isto]

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Your mother was a hamster and your father smelt of elderberries

Se algum dia me apanharem a falar / escrever sobre a Assunção Cristas com a mesma verrina ad hominem e epítetos que já ouvi / li nestes últimos dias usados a propósito da Mariana Mortágua, estão expressamente autorizados a fazer fila e esbofetear-me violentamente.

[ou então façam queixa à minha mãezinha, que ela trata do assunto]

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Are you ready to be heartbroken? (2)

Detesto ser a portadora de más notícias, que detesto, mas preciso de espalhar a palavra, divulgar a boa nova: a esquerda - pelo menos a "minha" esquerda - não quer acabar com os ricos (ou com o capital, ou com a propriedade privada), não. A esquerda - e nisto incluo toda, e acho que não incluo mal - quer é acabar com a pobreza.

Agora a má notícia, em si mesma. Como o pessoal de direita é o primeiro a dizer, e a esquerda já reconhece, o problema é que os recursos são escassos.
Ora se temos dez pães, e tanto o Joãozinho como o Pedrinho têm fome, há quem ache mal, se revolte até, quando o Joãozinho tem nove (que nem precisa disso tudo para matar a fome, até se estraga) e o Pedrinho tem um. E, em olhando bem, se calhar até encontramos um Luisinho sem nenhum.
Impõe-se redistribuir, diz a mais elementar justiça. E, para tanto, não é preciso tirar os nove ao Joãozinho, digo eu e a "minha" esquerda; basta que o Joãozinho ceda uma parte do que tem para um fundo comunitário, que se encarregará de fazer chegar o arrecadado a quem precisa e não tem.

Simples. É assim que funcionam os impostos. Eu sei que há quem prefira aquele modelo da caridade, quem tem muito pãozinho lá decide dar meia carcaça a quem não tem; mas aí caímos na perversidade do "não gastes tudo em vinho", i.e., quem tem o pão é que decide qual o esfomeado que lhe merece protecção, em que medida, e como, e tudo em função da maior ou menor simpatia (e conformação do peticionante aos padrões do ofertante) que este lhe suscite. E isto é muito alarmante, acho eu - e penso que para toda a esquerda, que ainda se preocupa com a dignidade da pessoa.

Redistribuir é reconhecer que, por circunstâncias várias da vida (entre as quais o facto de a igualdade de oportunidades ser uma utopia, e muitos partem de uma posição de privilégio, a tal sorte na vida), nem todos temos a mesma capacidade de obter rendimentos que permitem a satisfação das nossas necessidades. E portanto quem mais gera mais cede. Dá para a caixa da comunidade de forma "cega", e esta redistribui também de forma "cega": sem preferências, sem exigências, sem condicionar a liberdade e dignidade de quem recebe.

Acho isto muito simples, claro, intuitivo, até. Por isso não me queixo se dou muito, quer dizer que tenho muito para dar. E, acreditem, no nosso sistema, quem dá muito ainda fica com muito, bastante, para si. Posso até não concordar com a forma como a redistribuição é feita, ou como é calculado o que se contribui - e ó se há tanto com que não concordo - mas barafustar pelo sistema em si, nem pensar. Afinal hoje saio daqui e vou num automóvel pago para uma casa confortável, onde posso escolher o que vou comer. E se cheguei a este ponto de abastança em parte por mérito, também o devo - e tanto! - ao facto de ter tido uma vida em que nada do essencial me faltou, porque tinha pais com um emprego estável, instrução e educação q.b., que me proporcionaram acesso a alimentação que me permitia funcionar; cuidados de saúde que me permitiram crescer sem sobressaltos e incapacidades; abrigo onde podia descansar, divertir, enfim, desenvolver em segurança; instrução e educação que me permitiram evoluir e alcançar. Nem todos o têm. E é para limar essas arestas de degraus injustos, que não foram criados por quem tem de os galgar, que existe a redistribuição.

Por isso, e finalmente: quem  tem de contribuir muito é porque pode. Ou preferiam contribuir pouco porque pouco tinham? Calem-se um bocadinho, sim? Agradecida.

[e se têm guita para adquirir ou manter um imóvel com VP igual ou superior a quinhentas mil bombocas, pá, aproveitem-no bem, e calem-se outra vez]

Are you ready to be heartbroken?

Não, não estava: acabo de descobrir que, para a direita portuguesa, o valor global do meu património imobiliário me deixa abaixo, e muito abaixo, da classe média. Oh. Uma vida de mentira que se desvanece.

[#pobrezinhamashonrada]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Coitadinho do crocodilo

Aquele momento em que o feicebuque te recomenda um artigo de um casal de turistas, que ficaram muito insatisfeitos com Lisboa.
E, claro, tu vais ler.
Quais as queixas do casalito, que escolheu o mês de Agosto (inteiro) para veranear por cá, e se foi alojar num airbnb no Bairro Alto?
- Demasiados turistas, a cidade cheia de turistas, o horror;
- Não há mercearias e supermercados no centro de Lisboa, só tinham um minipreço a dez (longos, extenuantes, intensos) minutos a pé, que estava sempre cheio de turistas, e para comprarem desodorizantes e cremes tiveram de ir ao colombo*;
- A comida não era tão barata nem tão boa como esperavam, principalmente nos restaurantes*;
- As pessoas** não eram tão simpáticas como no Porto, onde já estiveram;
- Muitos traficantes na Baixa;
- O prédio onde estavam, todo ele airbnbizado, era velho, os outros hóspedes muito barulhentos, e ouvia-se os passos no andar de cima*.

Por onde começar, não é?
Pois. Nem me dou ao trabalho.
[que faria, que diriam se vivessem cá e tivessem de vos aturar]

*tansus turistus, ou, "a sério, se nem se deram ao trabalho de investigar, tipo, na net, onde ir e onde ficar, bem merecem cair em todas as tourist traps que vos apareçam pela frente"
**em Agosto? quais pessoas?

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

[mira técnica]

Sucede que depois de 45 anos de vida e 20 de trabalho que consiste, basicamente, em bater em teclas e escrevinhar, forniquei o braço direito. Está todo empenadinho, todo enferrujadinho, todo doridinho, donde, passei os últimos tempos a fazer o que é preciso, tipo anti-inflamatórios, emplastros, e os examezinhos da ordem para perceber a coisa, que enfim, não é do pior mas também não é do melhor, tenho pela frente uns mesitos de recuperação a ver se não fico entrevadinha do meu ganha-pão, e bora cruzar os dedos para o canal cárpico estar chuchu, caso contrário vou cortar os pulsos mesmo, e contra vontade. Nos entretantos, e entrada em férias, e já antes, deixei de fazer tudo o que possa piorar a coisa, a ver se na rentrée (foi hoje!, foi hoje!) ainda dava para o gasto. Portanto, computador só para trabalhar, escrever à mão idem, e nos mínimos. Não tricoto, não crocheto, não pinto, não rabisco, não carrego pesos, não levanto o braço acima da linha do ombro, não durmo sobre o lado direito (nem consigo), não seguro o livro com a mão direita, ou seja não posso fazer das coisas que mais gosto, mas yay, também não faço a ponta de um pénis das coisas que não gosto (mentira, ainda aqui há atrasado tive de andar a passar o chão a pano e a passar roupa, mas pronto, agora acabou mesmo).
E é isto.
Como esta coisa não me paga os vícios, tenho de me guardar, qual noiva virtuosa, para a cópula não apaixonada e apenas para procriação que é aqui a minha remunerada ocupação. Ou isso ou aprendo a postar em rapidinhas. Não se me afigura viável, que sou de grandes conversas e não tuítadas. Anyhoo, espero milagres da fisio. Até lá, aqui a crente pede desculpa por qualquer coisinha, designadamente a menor comparência. Fazer o quê, né?

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Twenty twenty twenty four hours to go [I wanna be sedated]

Primeiro achei que não me podia dar ao luxo de parar.
Entretanto apercebi-me que não posso dar-me ao luxo de não parar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Horrible Bosses

No fundo eles têm é muita sortinha de eu não ser a primeira ministra, dizia eu a me mate, que não só devolviam a guita da viagem à Galp, como ainda entregavam três vezes isso a instituições, à minha ordem. E ainda faziam uma declaraçãozinha pública de retratação, a pedir desculpa. Responde ele ó pá, não podes obrigar ninguém a pedir desculpa, ao que respondo de imediato pois não, mas ou isso ou cartinha de demissão no dia seguinte, às nove, na minha secretária.

Fica portanto explicado porque nunca mandarei em porra nenhuma nem em ninguém, na meretriz da minha vida. Mau feitiozinho. Muito.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

I needed money 'cause I had none

Depois de ter lido as notícias, naturalmente exaltadas, vinha aqui largar umas postinhas de pescada sobre a cena do aumento do IMI e, também naturalmente, barafustar, que nenhum cidadão gosta de pagar mais do que (acha que) deve, e eu cá sou muito cidadã. Mas depois pensei que se calhar era melhor ler as afamadas e divulgadas alterações ao Código do IMI, que isto de falar apoiada em parangonas nunca foi a minha cena, olh'aí o rigor, e se eu sou rigorosa; forreta, sim senhora, mas rigorosa.

Dito e feito, fui ao portal das finanças e ao Diário da República electrónico, abri e comparei, mais concretamente, o art. 43º do CIMI, que é onde reside a polémica. 

Primeira conclusão: o critério de localização excepcional (definido assim, na alínea i) do nº2 do art. 43º: "Considera-se haver localização excepcional quando o prédio ou parte do prédio possua vistas panorâmicas sobre o mar, rios, montanhas ou outros elementos visuais que influenciem o respectivo valor de mercado; (…)"), enquanto critério de majoração para cálculo de IMI, não é uma novidade, já existia, e ao tempo. E não foi agravado o respectivo coeficiente, que se mantém em 0,10; sendo este um máximo. Portanto, e quanto a vistas panorâmicas, tudo na mesma, não houve aumento nenhum.

O que, sim senhora, foi alterado foi o coeficiente de majoração por localização e operacionalidade relativas (definido pelo CIMI assim na alínea n) do nº2 do art. 43º: “Considera-se haver localização e operacionalidade relativas quando o prédio ou parte do prédio se situa em local que influencia positiva ou negativamente o respectivo valor de mercado ou quando o mesmo é beneficiado ou prejudicado por características de proximidade, envolvência e funcionalidade, considerando-se para esse efeito, designadamente, a existência de telheiros, terraços e a orientação da construção; (…)”). Ou seja, este critério de majoração, que pode ser accionado quando a casa tenha uma boa / melhor orientação solar, por exemplo, já existia, mas o máximo era de 0,05 e passou para 0,20. É um bocado, que é. Mas note-se que o minorativo do mesmo item também aumentou de 0,05 para 0,10.

Ou seja, e na prática:
- O coeficiente de majoração por (boas) vistas não foi inventado agora;
- Não aumentou o coeficiente de majoração por (boas) vistas, ficou na mesma.
- O coeficiente máximo de majoração por boa exposição solar, existência de terraços e até, vamos fazer uma interpretação simpática de funcionalidade, situar-se num primeiro andar soalheiro em vez de cave (húmida, bolorenta, infecta, escura, uhu, baixou Dickens em mim) aumentou substancialmente, mas cabe ao órgão competente fixá-lo, concretamente; MAS
- O coeficiente máximo de minoração por má exposição solar, inexistência de terraços e até, seguindo a mesma interpretação simpática de funcionalidade, situar-se numa cave  em vez de um primeiro andar também aumentou, o que pode significar, na prática, desagravamento fiscal para proprietários de casas nessas condições.

Tudo visto, e se é verdade que esta alteração pode conduzir a um aumento de IMI para alguns proprietários (entre os quais eu, porca burguesa de fachada socialista, proprietária de imóvel com terraço, que por acaso até faz parte da fracção, e cuja área, portanto, já é considerada no cálculo de valor patrimonial); tal depende da fixação em concreto do coeficiente a aplicar, o que cabe ao CNAPU – Comissão Nacional de Avaliação de Prédios Urbanos (art. 43º nº3 e 62º nº1 al. c) do CIMI), “com base em critérios dotados de objectividade e, sempre que possível, com base em fundamentos técnico-científicos adequados.”; sendo que a composição deste CNAPU é muito diversa e até contempla representantes de proprietários e coiso (ver art. 61º). Caso o contribuinte não concorde com a avaliação do seu imóvel, pode pedir segunda avaliação e, não se conformando com esta, impugnar judicialmente. O normal, portanto.

Finalmente, estou preocupada? Um bocadinho. Vamos lá a ver. No final, é o município que decide as taxas, sendo que o de Lisboa tem sido simpático, ultimamente. Estou em pânico, pronta a vociferar contra este governo malvado, lançando perdigotos de pura indignação? Não. Depois de me ter informado convenientemente, não. Já dizia não sei quem, informação é poder. E, caso suceda o pior, reclamar é dever. Mas já me poupavam essa maçada, vejam lá isso, que se é para me agravarem o imposto por causa do terraço, também passam a ir lá regar as plantas e varrer as folhinhas, boa?

[disclaimer: este texto baseia-se na leitura e comparação feita por mim dos diplomas legais, e numa interpretação pessoal mas o mais objectiva possível, embora não isenta de falhas ou crítica. por isso, caso as detectem, força aí.]


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Bob, o construtor (?)

Eu e a minha inusitada, incrível, irritante atenção ao pormenor: a granjear-me amizades entre empreiteiros desde mil nove e setenta e um.

(já estão tão fartos de mim como eu deles, chiça)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Go totally crazy, forget I'm a lady

Não sei se gosto muito da pessoa em que me torno quando faço entre 150 e 200 quilómetros por dia. Não que tenha abandonado o meu habitual estilo de condução defensiva, constante olhinho na estrada e velocímetro, ou tornado mais pesado o pé direito, não. O problema é que descendo de uma linha de intensos refilões ao volante e, se mamãe ainda se contém em meia dúzia de "abécula", "chico-esperto", "suicidas", "súcia", já eu, parece que saí mais ao meu avô materno que, consta, era prolífico em alhos e cebolas, na expressão de vó, uma senhora que o aturou mais tempo que merecia, que o indivíduo era uma besta, benzó, (mas essa parte eu não herdei. acho. quero crer.). Saltou uma geração, esta curiosa característica, portanto.
Yep, sou uma princesa, que sou, mas uma princesa que sofre muitos dos nervos, principalmente quando provocada. E se há condutores provocadores. Desde o guna no punto quitado, ao doutor no audi artilhado, é toda uma tese de doutoramento. Curiosamente, a incidência da sociopatia estradal é mais notória nestes dois extremos do espectro social, fica a dica para investigadores à procura de tema de estudo.
Anyhoo, é muito complicado conter a carroceira que habita neste ligeiro ainda que sinuoso corpo de princesa, quando temos de lidar, entre muitos, com o chaço a noventa na faixa do meio da auto-estrada (que não se move para uma direita vazia nem após vários sinais de luzes ou apitadelas), ou o bólide apressado que nos faz uma tangente, por entender que os nossos setenta/oitenta numa via rápida não atingem os mínimos do seu estatuto rodoviário. Para acabar empancado atrás de um lento, ahahahah. Depois deste último dei por mim dentro do carro a cantar um original de minha autoria, cuja letra era mais ou menos "bemfeitagandacabrão", numa melodia inspirada no clássico nhãnhãnhã.
É isto, a modos que. Acho que nesta semana e meia esgotei a minha quota de palavrões para a próxima década. Mentira: não há quota. E, se houver, compro sobras a quem tiver para dispensar. Mas atenção, esta verborreia nunca, mas nunca, extravasa o suave recato do habitáculo de me-mobile. Uma carroceira, sim senhora, mas princesa. De vidros fechados, e AC a bombar. Calhasse ter de passar por isto todos os dias da minha vida, já não asseguro nada. Credo. Sofro tanto dos nervos.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Bom dia, comunidade

(sim, eu sei que já passa do meio-dia, mas tive que fazer antes. muito chão para passar a pano, muita meia para passajar.)

Inaugurando uma quiçá novel linha editorial neste blog, dirigida a todas as madrugadoras felizes por estrear antes dos pardalitos o novo dia, cheias de boas energias e mais não sei o quê, o amor é lindo e nos elevará não sei onde, piquen'almoços cheios de proteína boa e vitaminas, cá vai uma imagem inspiradora, um cartão postal colhido ali em Fuck-O'clock-Sur-Mer:




(puta que pariu a minha vida, isso sim)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Green Acres

É oficial: durante quinze dias (no mínimo, bate na madeira) estamos a viver no campo (embora com vista de mar), derivado do simples facto de ali haver duche. E menos pó. E zero entulho. Acordamos com as galinhas, duchamos, vestimos, debicamos, e ala, que às sete menos um quarto já lá vamos, a engrossar o rebanho, rumo às verdes pastagens onde embuchamos o sustento. Devo dizer que decerto é mais fama que proveito, que neste primeiro dia de deitar cedo e cedo erguer não me sinto nada saudável.
Única vantagem: lá respira-se. Saímos de Lisboa debaixo de uns inclementes trinta e muitos graus célsius; aterrámos nuns aprazíveis vinte. Assim, dorme-se. Já acordar são outros quinhentos, mas adiante. Hoje levo a máquina do café, o altarzinho onde rezaremos todas as santas e frescas madrugadas. Pondero converter-me a qualquer coisa que me prometa manhãs fáceis e quinze dias santos, aceitam-se sugestões.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

E agora vou almoçar

Mentira, já almocei, digo, "almocei", é só uma nuance mas toda uma diferença, e dói-me a cabeça.

É uma coisa que me chateia, pá

Não é só o facto de ainda ter toalheiros e candeeiros por tratar (e achar que ainda tinha alguma coisa para ensinar aos dizáiners de focos, designadamente no que diz respeito a potência máxima de luzes especificamente destinadas a casas de banho, vê-se logo que é gente que não tem buços para depilar ou eye-liner para aplicar, córenta uótes não chega, amiguinhos, e interruptor no próprio geringonço, a sério, não numa casa-de-banho); ainda não ter tirado isto, pá, isto da casa-de-banho (ou feito malas, ou revestido seja o que for daquele plastiquinho tipo cortina), e ter lá os trolhas na segunda; ter trabalho até vir a mulher da fava rica; mais uma vez verificar que um xervixo não pode funcionar bem (que logo vêm cá buscar gente para tapar buracos noutro lado, isso, amiguitos, vamos a nivelar por baixo, cá agora recrutar mais gente para tuuuudo funcionar bem); ter levado uma charopada de extrema cagança (alheia) aqui há sete dias e ainda estar cheia de urticária; confirmar-se que tenho o ombro todo fornicadinho (e de certeza não há maneira de resolver isto mudando peças e pronto); já ler letras piquenas em geral e rótulos em particular como as bélhotas no supermercado lá da freguesia (afasta, afasta, ah, 'tá bom, afinal não, preciso de um braço maior); ainda tive o desgosto de dar com um "concerteza" ali em caixa, na Dica da Semana (lágrimas de sangue), e a suprema agonia de topar com um "coto de caça" numa edição bem catita de uma prestigiada editora (a cortar pulsos em 3, 2, 1).
Não há condições, pá, não há condições.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Eu é mais bolos

Não percebo nada de bola, não gosto de bola, não vejo bola (e até acho que dou azar quando vejo), mas tenho de admitir que esta foi muita bem feita.
Mas um muita bem feita a sério e em grande, ao contrário de um certo microfone no lago, que foi muita bem feita, mas foi mal feito.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

[ ]




[recentemente tive a possibilidade de ir para outro xervixo, onde ia ganhar mais, trabalhar menos, e numa cena que não coze tanto a mioleira. pensei muito, ponderei imenso, até porque dava-se o caso de a) o xervixo em causa se situar numa zona que detesto e que não calha tão em caminho; b) onde não conheço ninguém; c) odiar profundamente o tipo de trabalho em causa que, embora teórica e tecnicamente fácil de aprender e dominar, é muito especificozinho, muito coisinho, muito chatinho. optei por me deixar estar no local que me dá mais jeito e onde circulo há vastos anos; onde até já sabem, no café, que depois das dez só descafeínado; onde já conheço a maralha toda e até estou mui bem acompanhada; e onde o trabalhinho até é intelectualmente mais estimulante, pois que pede ginástica mental, capacidade - e curiosidade - de estudo e aprendizagem constante, oferece uma interdisciplinariedade e variedade mais atractiva, e onde, enfim, auto-palmadinha nas costas, até já dei provas que sei o que ando a fazer. mas depois há aqueles dias em que uma pessoa se interroga se é parva ou gosta é de sofrer, que tanto estímulo intelectual pica-miolos também não era preciso, ai-a-minha-vida, nem minha amiga sou, é o que é, fuck my life.]


quarta-feira, 29 de junho de 2016

I can't believe it's not butter

Ainda madrugada (no nosso fuso horário) passamos na Paiva Couceiro e calha parar com vista para o estabelecimento com uma montra assim tipo retro-chic-vintage. Digo-lhe "olha, aquele ali é o Barber Hugo, ahahah", e ele "Ah", e eu "Agora apetecia-me de abrir uma barbearia, para lhe chamar Barber Ella", e pronto, vamos a rir até quase às Olaias.
Só se estraga uma casa.

terça-feira, 28 de junho de 2016

I am the passenger and I ride and I ride

Desde manhã para vir aqui fazer um post bonitinho, escrever uma coisa linda e profunda, assim cheia de floreados, notas biográficas misteriosas, apontamentos, memórias nebulosas, uma coisa em cheio e cheia, mas entretanto sucedeu trabalho e preguiça, não necessariamente nesta ordem, intervalou-se muita dispersão e alheamento, o normal portanto, e em pano de fundo sempre aquela coisinha chata, retumbante, tremelicante, a realidade ou lá o que é, a dizer-me que foda-se, já são quarenta e cinco, qua-ren-ta-e-cin-co, dito assim é muito, mas não me parece nada, não me dava mais que trinta e cinco, quatro, vá, que tenho as raízes ainda escurinhas, e pronto, é isto, somos quarenta e cinco, eu e as minhas células todas, e agora tenho de acabar aqui umas coisas e ir asinha comprar gelado, só porque me apetece.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Make lemonade

Parece que se avizinham bons tempos para fazer turismo em £ibras.

[c'um caneco, pá, c'um caneco]

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Minha alegre casinha (tão modesta quanto eu)

Derivado de situações como sejam andar sempre à cata de sarna para me coçar e chatices para me entreter, decidi dar um ar novo à sala, mudando umas coisitas. Mentira, apaixonei-me por um tapete e zás, ofereci-mo-lo. Vai daí, o tapete é mêmo, mêmo lindo, e é um desperdício estar debaixo de umas mesas de centro/cubos com rodinhas lack que comprei aqui há atrasado, só naquela de remediar a necessidade de ter um móvel onde pousar a xícara de fina porcelana, nas minhas tardes de mantas, chá e leitura. Mentira, foi para ter um sítio onde encaixar mais tralha, como sejam caixas de dvd. Anyhoo, como estava estava bem, agora não, e decidi que queria uma mesa de centro nova. De preferência uma que deixasse ver melhor o tapete - que, não sei se já disse, é mêmo, mêmo lindo - embora a questão "vidro" seja problemática numa casa de pessoas atreitas ao acidente, mas vá, já ficava satisfeita se fosse uma mesinha jeitosa, que desse para pousar as caixas do correntemente em exibição sem ficar um bordel de desarrumação.
Estabeleci um plafond, uma margem para derrapagem orçamental, e dei uma volta às lojas do costume, as lojas perto, as lojas que me lembrava, as lojas online. Nada - que gostasse. Ou dentro do orçamento, e isto é importante mencionar, que vi uma per-fei-ta que o ultrapassava só em setecentos pastéis de bacalhau - é isto, sou filha de gente rica, com gostos caros, e fui roubada da maternidade.
E voltei-me para o olx. Nunca se sabe, um gajo até pode encontrar uma pechincha, de uma pessoa de gostos bons que tenha entrado em insolvência. Ou cenas vintage que um herdeiro esteja a despachar.
'Tá bem abelha. Concluindo, adquiri o tapete em Fevereiro, e mesa, até hoje.

E depois aconteceu esta semana. Aquela que ficará conhecida, doravante, como a semana de todos os prodígios. A semana do maná. A semana do milagre de Canaã (ou Canã, ou Caná, quero lá saber, não fiz catequese, não tenho obrigação). Ó aqui as três riquezas, as mais puras belezas que encontrei naquela benfazeja plataforma, naquele site do bem:





Eu sei. Eu sei. O vidro. Assumo o risco. Mas agora, o verdadeiro problema: onde é que ponho as outras duas, senhores? É que nem pensar em escolher só uma, aliás, como, como se pode?

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Battle Royale

Eu sei que ainda vamos a meio do ano, mas fica já entregue o prémio de melhor episódio - ever! - de GoT e, quiçá, melhor batalha - ever! - da tv, cinema, cassette pirata.



E a morte mais esperada e satisfatória, também. Vingados estamos.
Anyhoo, e relativamente ao conizombie do Jon Snow, que não sabe (mesmo) nada, acho que ficou claro que primeiro ouve a namorada (já não ouve, mas devia ter ouvido) ou a mana, depois age. Aliás, pelo rumo que as coisas levam, cheira-me que o conselho é válido para todos os personagens masculinos em relação aos personagens femininos.



Só não declaro já este o melhor episódio - ever! - de tv do ano da graça em curso, porque entretanto sucedeu A Blade of Grass em Penny Dreadful, que foi um momento de teatro-televisão do outro mundo.



Está a ser um ano muito bom, está.
Carry on.

sábado, 18 de junho de 2016

Don't stop me now

Comprei um espiralizador.
Agora vou enfeirar batata doce e curgete que nem vos passa.



(era capaz de apostar que em dois dias disto já estou a suspirar por esparguete sério, com ketchup ou queijo ralado, mas vamos lá a manter um certo nível de optimismo, depois da experiência falhada da quinoa.)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

We're not in Kansas anymore

Entretanto, fico feliz por saber que deram bom uso ao substancial aumento das minhas (e de tantos) contribuições para a ADSE. Ao que parece, não servirão para tresloucadas funcionárias públicas recauchutarem mamas, ou rebarbados funcionários públicos investirem em aumentos penianos, em luxuosos hospitais privados. Mas mais valia.

Da próxima vez que alguém me vier fornicar a mioleira com o eterno mito de que a ADSE é o luxo de uns poucos financiado pelos impostos de todos, a ver se lhes entrego este recorte, que diz que até foi ao contrário.

Não tenho palavras, não tenho vinho (não tenho tempo)

Mas não posso deixar de partilhar este fantástico naco de prosa, do Senhor Doutor Jovem Conservador de Direita (ide ler tudo, ide!):

O Dr. Rui Sinel de Cordes faz humor negro. Pelo que percebo, é o tipo de humor com que os adolescentes vencedores tentam ensinar os adolescentes perdedores a deixarem de ser gordos ou maricas. A esquerdalha do politicamente correcto inventou o termo depreciativo "bullying" para se referir a esta actividade formativa e é por isso que a obesidade e a homossexualidade infantis estão a aumentar. Porque os mini-Sinéis de Cordes já não podem exercer o seu bullying à vontade sem que a polícia do politicamente correcto ou, nalguns casos, a polícia a sério os chateiem. O bullying hoje é visto como algo de negativo mas é uma excelente forma de auto-regulação adolescente. Se um miúdo foge ao tipo de comportamento que a sociedade espera dele, a função do chamado "bully" é ajudá-lo a reencontrar o caminho. O bullying é a mão invisível do mercado da popularidade juvenil. Acabando com o bullying, acaba-se com a única maneira de garantir que os mais fortes são os mais populares.

sábado, 11 de junho de 2016

Uma leidi na mesa, uma louca na cama

Queria deixar só duas (ou três. ou quatro. ou mais.) palavrinhas sobre o evento de ontem, no Terreiro do Paço.
Primeiros, palminhas para a saudável e genial loucura de quem, na edilidade lisboeta, achou boa ideia oferecer aos munícipes, no dia da naçon, um espectáculo que dá pela graça de "Deixem o Pimba em Paz". Se não percebem a ironia, passem à frente. Não posso assegurar que tenha sido propositada, mas achei humoristicamente adequadíssimo.
Segundos, kudos por escolherem comemorar o dia de Portugal só com prata da casa. Acho lindamente. Tudo português, ali no palco. Artistas, letras, música. Eu, que nem sou nada dessas coisas, comovo.
Ópois, e entrando na apreciação concreta, enapá, enapá, enapá. Que maravilha. Ainda não tinha visto o espectáculo porque quando foi à cena e soube dele, puf, os bilhetes já tinham desaparecido. Não faz mal: acabei por ver de borla, num cenário maravilhoso, e com o Terreiro do Paço cheio-cheio (Fenprof, rói-te). É tudo bom, excelente de bom. A concepção, a concretização, tudo resulta. Estava à espera de uma coisa boa, mas nem tanto. Temos artistas mêmo, mêmo bons. Não digo só músicos - e se o são, os arranjos e orquestração são para lá do que se podia esperar - porque há ali muita mais gente a trabalhar. Desde logo na ideia, mas caneco, se não se tivesse juntado um montinho de gente com muito talento (vénia profunda aos músicos, quer os que fizeram os arranjos - sois grandes, na imaginação, na criatividade, na técnica, no talento - mas também os que aderiram e se juntaram à gandaia - orquestra metropolitana, o meu mais profundo respeito e amor eterno), e muita capacidade de fazer acontecer, aquilo não tinha acontecido.

E aqui entro num tema que me é muito caro: o elogio da cigarra. Como eu odeio essa fábula, credo. Aquela versão original, em que a formiga bate com a porta na cara da bicha e a deixa fenecer ao frio e à fome. Os outros não sei, mas o meu mundo - a minha vida - é muito melhor graças às cigarras. E não me importo nada, não, até agradeço que me façam companhia enquanto partilhamos a minha despensa. Benditas cigarras. Agora, vamos mais longe: as cigarras também precisam das formigas, tanto como nós, as formiguinhas, precisamos das cigarras. Não basta alguém ter a ideia maluques de e se agora a gente fizesse um espectáculo só com música pimba,com arranjos novos?, ou outra coisa qualquer, é preciso meios e gente para a por em prática. E é aqui que entram as formiguinhas que, não fazendo parte do processo criativo, se encarregam de ajudar as cigarras a montar a coisa. No fu«im, curtimos todos, verdade? É que nos escuros. longos, tristes dias de inverno é tão importante ter a pancinha cheia como coisinhas divertidas que nos façam esquecer que o verão ainda tarda. Benditas cigarras.

[sim, isto também é um elogio àquela forma muito esquerda de conceber a sociedade, em que ideias como financiamento cultural não são vistas como despesismo absurdo, desbaratamento de recursos, whatever.  no dia em que privatizarmos o divertimento, sujeitarmos a criação artística somente a regras de mercado, fizermos depender os artistas das esmolas de mecenas, vamos perder tanto. depois até pode acontecer que o espectáculo se pague, ainda bem, mas enquanto se cria e se concretiza as cigarras precisam de comer, e é para isso que também serve a despensa colectiva. quando se fala em alimentar burros a pão-de-ló, prefiro que o burro não seja um banqueiro, coisas minhas.]

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O triunfo dos porcos

Em lar-doce-lar uso muito a expressão esta casa está um bordel. Também uso versões mais específicas, como por exemplo este escritório está um bordel, esta cozinha idem aspas, ou, em dias bons, consegue-se restringir a coisa a uma determinada peça de mobiliário, como esta estante está um bordel (esta é recorrente). Não que aconteça entrar em casa e dar com a prática de actos de prostituição aqui ou ali, não; é uma figura de estilo, e não me perguntem qual que nem a saberia identificar nem esta tem nada de literário. É a minha forma colorida (e parva) de definir uma confusão dos diabos, local desorganizado, desarrumado. Ontem, surgindo uma determinada cena na tv, diz ele, metendo-se comigo, que aquela casa é que estava um bordel. E eu atalhei logo, ei, aquilo não está um bordel, está uma pocilga, e esta (nossa) casa pode até estar um bordel, mas chiqueiro não. E é verdade. Podemos não ter as melhores qualidades de donos-de-casa, não temos (de certezinha) a mania das arrumações e limpezas, podemos ser (ambos, os dois) umas pessoas um bocado caóticas no que diz respeito à disposição de cenas, mas calminha: porcaria é que não. Um bocado de pó a mais, concedo; um ocasional cotão que leva logo guia de marcha, acontece; um lava-loiça transitoriamente não vazio (que a máquina está cheia de loiça lavada e nós cheios de preguiça), quem nunca. Mas cocó, sujeira, nojice, parou.

E é por isso que tenho cá as minhas reservas sobre certas e determinadas situações. O que se passa portas dentro (dos outros) não me diz respeito, certíssimo, mas ele há coisas que, ahém. O ar é de todos, e os cheiros circulam. Ele há chiqueiros que é impossível restringir só ao alheio lar-doce-lar. Atacando e pondo o dedo na ferida, houve uma proposta do anterior governo que me fez dar palminhas, mas depois não foi avante, a saber, a restrição ao número de animais que se pode ter num apartamento. Ai, pá, ó Izzie, mas há pessoas que vivem num zoo mas são muito limpinhas. 'Tá bem, abelha. Até haverá, mas também acontece amiúde que quem vive numa ETAR não nota nada de estranho no ar. E também sucede que quem vive perto de uma suinicultura raramente se congratula com o aroma a campo. Nunca ouvi dizer que um gajo asseado se habituasse ao cheirinho da lixeira do vizinho.

Agora imaginemos, por pura hipótese, que dois gajos asseados partilham o seu castelo com um felino, mas até usam areia aglomerante que é diariamente inspeccionada, têm a casinha aspirada duas vezes por semana (mínimos, pá, mínimos), escovam a bicha, e tudo e tudo. Mas ópois coabitam no mesmo caixote urbano com doze almas em três assoalhadas, sendo que apenas três dessas almas são humanas, e as restantes nove não usam nem sabem usar uma retrete e respectivo autoclismo. E nota-se. Quer dizer, os tais e hipotéticos dois gajos notam, que cada (tanta, tanta!) vez que passam em frente a determinada porta, ou abrem as janelas que deitam para o espaço exterior das outras doze almas, não se conseguem abstrair do cheirinho a estrebaria. Que não incomoda, notoriamente, quem lá vive. Como também não incomoda que cinco das doze almas trepe paredes e salte muros, e, ele há dias, escolha outras retretes muito mais limpinhas que aquelas a que os humanos lá deles os sujeitam. E eu sei que são mais limpinhas, porque calham situar-se num local exterior que tais dois gajos possuem, e por acaso se vêm na contingência de limpar mais vezes que o que seria normal*. E há quem achasse uma canseira varrer folhas quinzenalmente. Saudades das folhinhas. Muita saudadinha.

Maneiras que é isto. Sim senhora, será um exagero aprovar uma lei que imponha restrições à liberdade individual, cada um manda na sua casa, é preciso é bom senso, os condomínios podem aprovar regras, mas a verdade é que não funciona. Do ai que giro, tanto bichinho, ao ai que canseira, não vou limpar isto todos os dias / todos os pares de dias / todos os fins-de-semana, é um pulinho. E viver ao pé de um pulinho destes, pessoas, pá. Às tantas um gajo já sonha com uma lei musculada, uma polícia da higiene, um tarrafal dos porcalhões onde os ponham todos.
Era só isto, por hoje.


*nunca os apanhei em flagrante, que são bichos mas não são parvos. mas há ali uma coincidência temporal do tipo "antigamente isto não acontecia". tenho a certeza, mas népia de provas a apresentar para condenar o ilícito. suspiros.


terça-feira, 7 de junho de 2016

It's time to try defying gravity

Quem me viu [há um ano, por esta altura] e quem me vê.

[pronto, tarda nada já baixa a extrema neurose, a realização do síndrome de impostor, o medo do princípio de Peter, a agonia da vertigem, o costumeiro e resistente pessimismo. entretanto, é aproveitar. porque melhor que isto, pah, acho que não há. eu cá nunca vi.]


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Life goes on

No ecrã o gebo responde, à pergunta sobre se se considera um visionário, que sim. Eu, ainda meia esmagada com o tamanho daquele ego em particular, que gentes destas que muito se considera tem este efeito em mim, de opressiva falta de ar, só consigo a reacção de bergh, quem é este, enquanto reparo que o visionário, e também, ao que parece, empreendedor, acha bem vestir uma gravata com uma camisa com botões no colarinho. Mal sabia eu o que se seguiria. Pois esta alma boa, esta pessoa de largas vistas, este insular com olhinho no futuro - o seu, obviamente - conseguiu, empresariando lá numa empresa sua, sacar um empréstimo de centro e trinta milhões de biscas ao último banco que nos calhou pagar. Garantido, claro, que a lusa banca não dá pontinho sem nó. A garantia era imobiliária, como aliás mandam as normais cautelas e usos*, mas sobre um terreno. Onde se ia construir uma coisa em grande e em bom, um empreendimento para o senhor empreender turisticamente, desenvolver a região, mas que não passou à fase de acabamentos. Presumo que a garantia se louvasse no valor daquilo em pronto e acabado e a funcionar, uma ficção portanto. Nada de anormal, é assim que funciona e sempre funcionou o sector pato-bravo da construção civil. E nem corre mal, a menos que a empresa entre em falência. Ou o mercado esteja em recessão. E o mercado estava. E esta entrou. E o banco - volto a repetir, o último que nos calhou pagar - aceitou em pagamento total da dívida o terreno e os caboucos. Nada mais**. Empreendedor saiu disto alvo como a sua camisa branca, mas com botões no colarinho, e, por baixo deste, gravata. Continua a empreender, com o seu fato que por um nico não é azul carris; a considerar-se um visionário, com a sua gravata bem presa por botões, nunca fiando, põem-se à banda tão facilmente; e a considerar tudo isto normal, normalíssimo, a dívida está paga, ora então, apesar de o terreno continuar à venda e nem sequer lhe terem pegado por trezentos e cinquenta mil patacos; e considera-se limpo como a sua camisa branca.
E nós, contribuintes, sector público, país, a carregar este rol de roupa suja que não acaba. E a discutir uns com os outros a quem calhou mais cuecas sujas para corar, e quem tem o máximo dever de estragar as mãos com lixívia. Parabéns. A nós.



*por acaso, e em situações bem menores, e até abaixo dos cento e trinta mil tustos,a banca acha por bem pedir colaterais como penhores, garantias bancárias e até, pasme-se, garantias pessoais aos gerentes / sócios; não foi o caso, pelos vistos.

**não experimente o mesmo em casa: se por acaso têm um empréstimo hipotecário para pagar, aquele que vos garantiu o tecto, e por acaso entrarem em mora e finalmente incumprimento, o banco até aceita a casita em dação, mas não em pagamento, só por conta do montante total em dívida; se por um acaso não a venderem por tal valor, ficais a pagar o resto que vos phodeis. má sorte não serdes putas.

sábado, 28 de maio de 2016

Steady as she goes, Mr. Sulu

E a vida lá segue, em piloto automático, se bem que nem o piloto tirou curso ou se formou nestas artes da navegação, e o automático nem por isso é muito auto, e menos ainda mático. Mas segue, ao sabor da corrente, e se ela nos é mansa e tranquila até se estranha, aguça-se o olhar para mais cedo detectar o remoinho que, decerto, não há-de deixar de aparecer. Bate na madeira, cruzes canhoto, isola. O pensamento mágico é uma bengala frouxa, mas está sempre lá, bendito seja. Dá azar, reconhecer, não, rejubilar com o bom. Mais vale desconfiar. Porque nunca corre tão bem como pensamos que está a correr, assim nos ensinou o passado, e somos, queremos ser o bom aluno, atento e diligente, sempre à coca da armadilha no problema demasiado fácil.
De repente, não é uma corrente cruzada, não é uma tempestade, não é um rochedo submerso: um raio de sol, uma brisa suave. Cai-nos no colo uma recompensa inesperada, abrimos a arca do tesouro à espera de uma bota velha e sai um euromilhões para a alma. Fechamos a tampa apressadamente, como que para reter a boa aventurança, não vá ela escapulir pela fresta. É demasiado bom, não pode ser, olha-se em volta à espera que nos salte de trás de uma moita a multidão aos gritos de gozo e a berrar "primeiro de abril!". Não sai. Segura-se bem o baú. Começa-se a acreditar. Mas de olhinho bom no horizonte, que os velhos mitos do monstro marinho podem devem ser verdade e, segundo as nossas contas, não faltará muito para alguém soltar o kraken.