sexta-feira, 26 de maio de 2017

Sumário: Resumo da matéria dada. Dúvidas.

Isto de ser uma pessoa sem problemas de maior para resolver enguiços alheios; ouvir penas dos outros com toda a atenção e devoção; dar conselhos em barda, daqueles desinteressados, pensados e estruturados; analisar questiúnculas, problemáticas e quiproquós; propor soluções; avançar com soluções; e, até, implementar decisões; mas depois ser uma atadinha de primeira para resolver qualquer merdinha que se nos atravesse na nossa vida privada?
Nem vos digo nem vos conto. Uma especialidade.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

The Cat Diaries (8)

Começo já este post por mandar um sentido saravá!, acompanhado de um grito de abençoadinhas!, a todas as pessoas pais/mães desta vida. Não, não vou por aí. Não. De modo algum venho com uma ladainha de como vos compreendo, agora eu entendo. Pelo contrário: eu não entendo. Juro. Eu não entendo como conseguem. Sim senhora, são três gatos, três; mas não precisam de banhinho, sopas e papas, roupinha lavada, fralda mudada, colinho até adormecer, pediatra de repente, e tudo o mais que possa estar a esquecer. A comidinha é sempre a mesma, já está pronta e ensacada; vão à casa de banho sozinhos, aqui a camareira limita-se a limpar diariamente (às vezes bidiariamente, sou esquisitinha); não estragam nada (valha-nos isso); dormem mais que nós; e por aí fora. Mas a verdade é que estamos derreados. Não podemos - literalmente - com uma gata pelo rabo.
Por isso, mais uma vez, porque nunca é demais frisar, abençoadinhas ó pessoas procriadoras. Não sei como conseguem.

De resto, e já a roçar os dois meses desta experiência, há a assinalar que Fox Mulder e Scully descobriram a varanda. Finalmente deu-lhes a curiosidade de coscuvilhar o que está além daquela porta a um metro do seu ponto de refúgio, e zás, saíram. Primeiro ele, uns dias depois ela. E foi giro observar, principalmente nela, o ar de deslumbramento e deleite. Parece que saíram de um longo estupor. De manhã e, às vezes, à noite, lá vão cheirar os ares e olhar em redor. Nunca tentaram uma fuga, mas ainda assim mantemos alguma atenção.

Também já se manifestam mais curiosos, e até arriscam aproximar-se das tacinhas quando têm fome, com uns olhinhos entre o atão?, e o serviço nesta espelunca é uma miséria. Nem imagino a pontuação que nos atribuiriam, caso existisse um yelp felino, mas suspeito que seria muito má.
E ontem, um avanço surpreendente: sem que tenha saído do seu igloo, menina Scully não só aceitou as festas de me mate, como ofereceu a cabeça (!), a barriga (!!), e ronronou (!!!) - não vi, contaram-me, eu estava noutra divisão a a) fazer companhia  e a distrair o Max; b) a tentar que o Max não abrisse a respectiva porta, que por acaso não tem trinco; c) sossegar Max que papá já vinha.

E o bebé, e o Max? Aaahhhh. Nunca nenhum nome foi tão bem atribuído, Mad Max, indeed. Sacana do puto. Raisteparta o bobão. Cruzes, como é fofão.
A caganita de 400 gramas passou a caganita de 510 gramas (pesados ontem, confesso que esperava que já tivesse mais peso); corre como um Usain Bolt; atira-se à comida dos mai'velhos (pá, juro, a gente vai logo tirar, mas como ainda não se engasgou ou percebeu que aquilo é um nível um bocadinho acima do seu tamanho de boca e dentição, jasus); percebeu que cabe debaixo do sommier (Max, Max, onde 'tá o Max, anda cá Max, viste o Max); e dedica-se com afinco à caça de tudo o que mexe e não mexe, como seja a malvada mantinha, a diabólica fitinha, o demoníaco pé, o selvagem chinelo. Também aprecia muito morder a revista/livro, trepar a colcha/calça, e fazer uma muito razoável imitação de papagaio de pirata, isto é, subir até ao nosso ombro e ficar lá a ver as vistas.

E mais, e mais? Ah, temos um paralelo 38 a meio da casa, Max habita agora o seu T1 que é o quarto-escritório; Fox e Scully na circunscrição cozinha-sala-corredor (um T1+1, portanto). Misturas, só na nossa presença, sendo que há a registar alguns incidentes de bufadelas e duas altercações de chapada, mas vamos com calma. Caaaaalma. Caaaalma. Muuuuita caaaalma. E feliway nos valha.

Ó o piqueno Max aqui, num registo de desaceleração do ai que gosto tanto de brincar e fazer coisas para cair redondo onde esteja, em dez segundos:



Bobão. Fofão. Lindão.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Não entendo como é que em 2017 ainda há quem tenha dúvidas em relação a isto

Se uma pessoa se apresentar evidentemente embriagada, ou num estado que evidencie não ter completa noção do que faz, num cartório notarial ou numa conservatória, ser-lhe-á evidentemente negado outorgar / celebrar testamento, escritura pública, ou casamento.
É claro e cristalino, e ninguém com um módico de senso comum - ou conhecimento da lei - dirá que não é assim.
Então por que raios e coriscos ainda há quem desculpe o perpetrador ou se atreva a dizer que não há coacção sexual ou violação se a vítima se encontra no mesmo estado de evidente embriaguez e/ou incapacidade para entender o que faz / lhe é feito? Como é que há quem ache que pode haver consentimento quando há incapacidade de entender e formar vontade? Como pode alguém presumir um sim quando a pessoa nada diz ou nem sequer tem capacidade para dizer seja o que for?
Ultrapassa-me, angustia-me, agonia-me, enfurece-me.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[A big bag of] Nope

Ainda não entreguei o irs, e dei-me conta que fiz um major poopoo financeiro na minha gestão de facturas;
Depois do imi, revisão e inspecção da viatura, já tenho ali o iuc também para somar;
'Inda não tive vagar (ahém!) para ir fazer as análises, ou marcar a eco&mamografia (três meses, and counting);
Também ainda não arranjei quem me vá substituir a torneira de segurança, que está num sítio fideputa de ruim, e qualquer dia tenho a epal à perna a dizer qu'eu não deixo mudar o contador e me cortam a auguinha;
Há tanta coisa adiada para berbequinar lá em casa que cólquer dia tenho de tirar dois dias de férias só para o efeito;
Tenho crises de ansiedade diárias derivado da quantidade de trabalho para aviar e, ainda assim, perdi sexta (sim, vim trabalhar) e hoje a bater e trabalhar cento e muitas páginas de texto, sem chegar ao sumo da coisa;
Há plantas que precisam de mudar de vaso, caixotes de cenas para dar e encaminhar, muito pó de livros para limpar, casacos de inverno para seco-limpar e ensacar, dois gatos para socializar e um para educar;
Dói-me tudo e mais uns anexos, tenho sono que dava para vinte, e sinto um peso nos ombros e pernas de que não me consigo livrar;
Anda uma pessoa tão precisadinha de um milagre.

Nope [ao quadrado e com imensos piretes, ou Hoje Há palhaços]

Para terminar com cerejinha no topo de um monte de natas batidas, gostei muito de ver na tubisão a conferência de imprensa da Cristas e seus novéis apoiantes. Fiquei a saber que um levou imeeenso tempo a atravessar Lisboa (aposto que não foi de metro); e outro considera muito importante frisar, com pausa dramática extensiiiiisima, que a candidata seja uma mulher casada. Tenho de actualizar o meu curriculum e fazer constar o estado civil, queres ver. Já me estava a rir muito quando também mandou umas larachas sobre saia larga para trabalhar, e ser pessoa de evidente mérito por conciliar trabalho e maternidade; não apanhei devidamente, mas morreu-se-me um bocadinho a esperança de um dia me candidatar a seja o que for, ainda que quisesse, mas eu sou daquelas que nem com todas as empregadas e ajudas que aquela senhora mãe-trabalhadora consegue pagar alguma vez conseguiria passar de uma prestação medíocre se acumulasse.
E ainda há quem pergunte onde anda o Medina e porque não começou a campanha: não precisa, houve já quem começasse por ele. E quando a outra se fizer à estrada, bof, o Medina até escusa de aparecer, cheira-me. Que miséria.

Nope

Para uma pessoa ateia, sportinguista não praticante, e não especialmente apreciadora de música ligeira, foi um fim-de-semana calminho, que foi.

[de qualquer forma, a minha vénia e parabéns a) a todas as autoridades que permitiram que o chefe de Estrado do Vaticano entrasse e saísse vivo e de saúde; b) aos manos Sobral, que foi bonito de ver, que foi, é pena eu achar a música meh, apesar da bonita melodia, que é, mas o tipo é um prato e foi giro de ver, que foi. no mais, derivado de na minha casa - que ainda é longe, que é - se ouvir a feira no Marquês, olhem, sim senhor. e óspois também me lembrei que para o ano temos cá o Festival, e ainda tenho gravado na memória o estado em que estava a plataforma da Alameda no sábado, raisparta os tóristas que já são muitos, e a sua mania de parquear os tróleis no meio do caminho, lá no vosso país agis assim, ó moinantes?, portanto, há bens que vêm para mal, haja saúde.]

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Não sabia, agora já sei

Uma caganita de 400 gramas consegue correr depressa à brava, desaparecer em cinco segundos, trepar-nos pelas pernas até à coxa em menos de nada (jeans: obrigada), e ir do meio da cama à borda e daí saltar para o chão em menos de um estender de braço.

Cardíaca, vou acabar cardíaca.


terça-feira, 9 de maio de 2017

Com agradecimentos à Lego e Ikea*

Depois de tantas reclamações que já nem as recordo (mas tudo em mail, guardadinho, ó), e outras quantas intervenções que também já deixei de contar, o fideputa de um equipamento que montaram continua a dar razões de queixa. E não estamos a falar de um defeito tipo "eu preferia num azul mais clarinho", não; é mesmo uma coisa funcional. Se um charuto serve para charutar, e determinado charuto não charuta, só charu, não pode ser. E uma pessoa, pá, um consumidor, pá, que até gastou mais do que queria numa cena que lhe foi vendida como o top dos tops, uma pessoa, pá, chega ao fim da linha, e pensa que só comprando a guerra, e já começa a elaborar mentalmente a declaração de resolução ao abrigo do DL 67 não me lembra agora de cor o ano, resumidamente, o bem x adquirido e instalado pela vossa empresa não cumpre cabalmente as funções para que é destinado, e após diversas reparações tudo na mesma como a lesma, donde, tendes o prazo xis para ir tirar lá aquela merda e devolver-me o guito. E como sou uma pessoa muito, mas mesmo muito porreira, até dou a hipótese de se trocar por outro modelo, e depois fazer contas, desde que estas não sejam para cima, porque já chega o que chega.

Mas a verdade é que eu sou uma pessoa muito, mas mesmo muito porreira. E paciente (pausa para risos). A sério, sou. Outra qualquer já tinha feito uma espera àquela gente, mas eu insisto em tentar resolver as coisas a bem. E não é que não respondam aos meus apelos, 'tadinhos, lá boa vontade têm. O problema é que, digo eu, aquilo não está bem. Não sei (spoiler: não sabia) se por erro de concepção, de fabrico ou instalação, mas coise.

Vai daí, e em vez de partir para a asneira, decidi acalmar e reagrupar. E fui ao site do fabricante, onde descarreguei a ficha técnica da coisa e instruções de instalação. à primeira leitura, senhoras e senhores, primeira, detectei logo a asneira. Erro - e clamoroso, digo eu que não faço de empreitar modo de vida - de instalação.

Pronto, agora tenho ali impressa a coisa, para poder perguntar, com propriedade, cuméque em não sei quantas visitas e intervenções gente com curso de arquitectura e anos de empreitagem não detectou algo que eu topei em cinco minutos. Arre.


(e, mais importante, o meu rico paizinho, meu mentor de bricolage e artes técnicas do lar, que sempre me ensinou que qualquer trabalho se inicia por uma leitura atenta das instruções, e que o material tem sempre razão. e, infelizmente já tarde demais, me alertou certa vez que a cola quente queima a valer.)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

The Cat Diaries (7)

No Sábado de manhã saímos de casa para ir dar uma volta e sucedeu isto:



Fox, Scully, ó o mano (borrifaram-se completamente) Max, Mad Max.
E pronto, somos tri-pais.
Ah, a alegria de um serão domingueiro, família toda no sofá? Dois debaixo, três em cima, mas isso agora não interessa nada.

[confesso aqui, que ninguém me ouve: tinha fobia, pavor de bebés. uma coija tan pucanina, aquilo nem se sente o peso, jasus que ainda lhe faço mal, credo que ainda o mato. continuo apavorada mas, visto que o bicho escolheu me mate como o seu mais que tudo, papá-lindo-adorado - a sério, o mais flagrante caso de amor à primeira vista, química instantânea que já vi, só isso explica esta loucura -, alguém tem de manter o sangue frio e postura racional. haja xanax.]

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Agora a granel

- A propósito de quem caiu em esparrelas sobre cetáceos, não se sintam mal: nos anos 90 havia panfletos a alertar, movimentos de pais preocupados a chagar toda a gente, e imensas almas a atestar que uma sinistra rede de malfeitores traficava LSD nas tatuagens temporárias (aquelas de colar com água) que saíam nos pacotes de batatas fritas. Relatos e relatos de criançada dróóóógada pelas ditas tatuagens, sempre filhos de um amigo de um amigo. Yeah, right. Como tive muitas vezes que explicar a uma mãe preocupada (a minha), e ainda influenciada por mitos urbanos de meliantes à porta de escolas a distribuir chupas com cenas, a droga é um negócio (ilícito, mas um negócio), não é caridade. Nunca nenhum traficante precisou de acções de marketing como distribuição de amostras grátis a não potenciais clientes (criançada é mais cromos e chocolates, com orçamento a condizer) que nem saberiam o que estavam a consumir.  

- Não consigo entender que algumas figuras ideologicamente conotadas com a esquerda prefiram correr o risco de eleger-se uma fascista, racista, homofóbica e xenófoba como presidente de uma grande potência europeia, ao invés de seguirem o magno conselho outrora dado Álvaro Cunhal, isto é, ingerir o anfíbio. É que, para mim, era na boa. Se não gostam de água, empurrem com vinho.

- O conceito de bizarro world não será conhecido de todos, mas é lá que me sinto cada vez que ouço, leio, vejo noticiários: de repente parece que o eixo do mal foi ocupado pelos ternos e bons aliados, e é a Alemanha a única ilha de sanidade democrática. Pelo menos até às próximas eleições, que já não aposto em nada como seguro.

- Continuo a gostar muito do argumento dos animal lovers de que não há cães perigosos, há donos incapazes ou irresponsáveis. Tão NRA. Não que não seja verdade, mas considerando que a (pro)criação de animais para venda é a selva que se sabe, não entendo a ingenuidade de quem acha, mesmo, mesmo, mesmo, que o assunto se deve focar nos tais donos incapazes. É um facto que há animais que, não sendo devidamente treinados ou manuseados, representam maior perigo. A lei relativa ao assunto até é bastante completa, o chato é que o cumprimento da lei não é fiscalizado. Qualquer idiota funcional pode comprar um canito a um criador de vão de escada, tudo sem registo, e portanto não cumprir as obrigações que a lei impõe. E é claro que este patetóide não acha anormal andar a passear o bicho sem trela nem açaime. E ai de quem reclame cautelas ao dono. Eu já o fiz, lição aprendida.

- Falando de NRA, não deixa de ser irónico o Charlton Heston ter protagonizado pelo menos duas distopias apocalípticas (Planet of the Apes, essa bonita metáfora do racismo; ou Soylent Green, essa linda narrativa sobre as virtudes de um capitalismo sem regras e sem humanismo), quando era a bestinha conservadora que era. Ocorreu-me outro dia, enquanto víamos o último. Dito isto, também se podia dizer coisas sobre ter protagonizado Ben Hur, que é um rico filme, que é. Há gente que tem a capacidade cognitiva ou a empatia de um calhau de calçada.

Diz que o avulso está na moda

Desde o verão passado que não pinto as unhas. Depois de muito tempo de uso regular de verniz, e ainda que sempre aplicado sobre base de muito razoável qualidade, as unhas ficaram uma miséria: quebradiças, amareladas. E resolvi "dar um tempo". Já não estão amareladas, nem tão quebradiças, mas a verdade é que perdi o hábito. Todas as semanas me prometo voltar à cor na ponta dos dedos, mas, por preguiça, por inércia, por falta de tempo - essa desculpa tão mentirosa - não o faço. Tenho saudades, verdade seja dita. Mas o nada passou a ser o novo normal, e perdi o impulso.
É nas unhas e no blogar. Uma pessoa pausa ou pára por qualquer razão e, quando dá por ela, Já não sente falta. Ou até sente, uma pontinha de nostalgia, vá, mas não apetece, ou não calha, ou até se está bem assim. E fica assim.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ah, este admirável mundo novo

Era eu chavalita, ainda na primária, e havia o "dia das vacinas". A professora reunia a maltinha cujo nome constava lá das folhitas, e ala para o dispensário, ou sala da escola reservada para o efeito, tuuuudo a levar a pica. De casa já trazíamos o boletim, ou seja, os pais faziam parte do processo, claro que faziam, mas nunca se ouviu falar em pais que recusavam. Num país onde ainda havia cólera e tuberculose com fartura (anos 70, século XX, verdade), acho que alguém que recusasse uma vacina seria visto como louco, no mínimo.

Antes de atingir a idade escolar, já toda a gente tinha muitos carimbos no tal boletim. Só se fosse alguém que nunca tivesse passado por um hospital ou centro de saúde, vivesse longe ou não tivesse meios, creio eu, é que teria escapado à inevitabilidade da pica. Entre pais e avós havia ainda memória de tétanos e tuberculoses, donde, não se contestava. A expressão "limpar o sarampo" existia, por alguma razão. Alinhava-se na vacinação, e exigia-se vacinação.

Eu não escapei, claro, apesar de (ainda) ninguém levar a sério a minha fobia de agulhas. Fui a todas, quer dizer, as que havia, que a varicela e papeira ainda eram das inevitáveis (ainda me lembro da prostituta da varicela, credo, à papeira escapei-me). Levei também a do sarampo, o que nem evitou que fosse contagiada, mas, segundo rezam as crónicas familiares (era muito novinha, não me lembro, ao contrário da varicela), muito ao de leve. Foi o que me valeu, sempre disse a minha mãe, o estar vacinada. E vida fora, lá foram mais tantas picas, e ó se me custaram, raça da fobia (ei, é real, prova disso é uma receitinha que tenho ali para ir à exanguinação e que está em linha de espera há dois meses, coisa pouca, preciso de tempo, deslarguem-me). Renovações do tétano e difteria (e uma semana de bola de golfe no braço), rubéola (uma das novas que entretanto apareceu), hepatite B (não era obrigatória, e era bastante cara, mas miufinha), e, mais recentemente, por causa de uma viagem para sítios que coiso, também hepatite A e cólera (esta é de ingestão, graçádeuz). E aqui há quinze dias de novo o tétano, que descurei décadas, mas também não é transmissível; se agora a fui renovar, mau grado a fobia, foi pela boa e velha miufinha.

E é isto que me faz muita confusãozinha, benzá. As pessoas não têm miufinha, não? Eu, que sou crescida, e nem tenho filhos, tenho muita miufinha. Se é assim por mim, que faria se tivesse um mini-ser à minha responsabilidade (já nem falando do afecto, e aquela coisa pelos vistos bizarra de cuidar e amar, e providenciar pelo seu melhor interesse e tal). Caraças, as pessoas querem mesmo arriscar ter um filho numa cama de hospital, ali vai-não-vai? Já nem falando de viver bem com a sua consciência, na hipótese de rebento seu causar contágio a rebento alheio, e inerente desgosto e aflição a quem lhe quer bem?

Olha que francamente, caraças.

The Cat Diaries (6)

É oficial. Adoptámos dois adolescentes: não nos ligam pevide; passam o dia inteiro com cara de caso e enfiados no seu canto; comem, dormem, bebem e usam wc à discrição, mas sem se dignarem a uma interacção; se por acaso lhes damos alguma atenção, uma palavrinha amiga, uma festa carinhosa, recebem-na sem refilanço, mas também sem qualquer reconhecimento; mal chega a noite e nos apanham em vale lençóis é farra à doida. Ao menos são asseados, cuidadosos, e não estragaram nada; até ver não há colchões janela fora nem televisores na banheira. Acho que nos temos de considerar abençoados.

Nos entretantos, também é oficial:



Vacinados (primeira toma, reforços e chips daqui a quinze dias; com sorte entretanto já se esqueceram e já nos odeiam menos; 'tá bem, abelha), testados e negativos a fiv e felv, orelhas limpas, desparasitados.
E, claro, baptizados.



"Como 'já posso sair?' Eu saio se quiser, ora. Até estou bem aqui." Teimosão.

É o que temos. Já os adoramos como uns totós, e acho que eles sabem. E, felinamente, aproveitam-se.
Agente Fox descobriu ontem a varanda (onde só se desloca, por enquanto, sob apertada vigilância do Man&Woman in Black), e parece ter visto a luz, descoberto os segredos do universo, provado a existência de vida extraterrestre. Miss Scully permanece céptica. Confere.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

The Cat Diaries (5)

Já não tenho dois gatos debaixo do armário da casa de banho. Tenho dois gatos debaixo do armário da casa de banho, debaixo da mesa da cozinha, debaixo do cadeirão do quarto. Eternamente grata pela brilhante ideia de ter trocado a cama por um sommier: ali não cabem eles.
Isto durante o dia. De noite dá-lhes a filoxera e, mal nos sentem deitadinhos sugaditos, começa a rave. Cozinha-corredor-quarto (por enquanto o resto está off limits), mas principalmente corredor, a avaliar pelo desalinho das passadeiras. Não me estou a queixar: besugos brincam, correm, parvam, como é bom que o façam. Já preferem as mantas ao chão, e comem que nem condenados, como se amanhã não houvesse. Um dia perceberão que haverá sempre. Tal como um dia deixarão de apanhar valentes sustos se os apanhamos fora dos esconderijos.
Falando de sustos e flagrantes delitos, ei-los.


Bandido nº1:

Bandida nº2

Não, não foram escolhidos a dedo, mas até parece. A bandida nº2 foi adoptada de boca, nem sabíamos como ela era.

(ainda não há nomes, porque derivado. já reduzimos o leque para Luke&Leia, Dexter&Debra, Scully&Mulder. isto se não nos lembrarmos de outros entretanto. ou voltarmos atrás. isto é terrível, uma angústia, não sei como é que o pessoal que procria consegue cumprir os prazos de registo)

terça-feira, 4 de abril de 2017

The Cat Diaries (may the 4th be with you)

Aquilo de eu dizer que isto, tarda nada, é um kitty blog, e aproveitar logo para meter a farpa com os habituais (bocejo) conteúdos dos babyblogs? Claro que estava a brincar. Os bichos são família, pois que são, mas não são filhos. Muitas vezes são como crianças, então não são, a fazer lembrar películas tão memoráveis como Rosemary's Baby ou The Omen, mas a maior parte das vezes são só bichos, mais ou menos peluchados / gremlinzados, mas bichos. E se, como seres sencientes (legal e finalmente reconhecidos como tal) merecem tratamento digno, respeitador, carinhoso, fofizante, convém não esquecer que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e tratar animais como criancinhas não dignifica nem uns nem outros.

Anyhoo, é isto que penso, e continuarei a pensar; pelo menos até ao dia em saiba de um/a pai/mãe que começou o dia a apanhar a vacina do tétano, por causa de um bufardo com unhas de fora dado pelo filho. Avisem-me, quando chegar esse dia. Vou gostar de saber.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Então isto agora virou um kitty-blog?

Nem fazeis ideia. E esperai até eu entrar no negócio das feirinhas (olha a banca das coleirinhas a combinar com o autefite!; olha a banca do verdadeiro e preferido escabeche de pescada!; olha a banca do reiki!), ou começar a fotografar os besugos do demo em lindíssimos kits todos matchy-matchy, com golinhas isabelinas, lacinhos nas orelhas (ela), suspensórios a combinar (ele), meia até ao joelho, mocassins pisatolas nas patinhas.

Ou então podemos falar, sei lá, do último Bourne, que ena-pai, hã, o Matt Damon ali todo grisalho mas com um caparro faz-favor, e perseguições automóveis que uma pessoa até lamenta não ter ali um auto hoje e uma calculadora para fazer contas ao prejuízo. E Taboo, quem? Oba-oba, não é?

Se calhar falamos antes das eleições autárquicas, e de que, não sendo eu a fã nº1 (nem nº2. nem nº3. bom, aí por diante. eu digo quando podem parar.) do Medina, dadas as candidatas da oposição até imprimia uma techérte c'as fuças dele e a usava até Outubro.

Ou então entramos por assuntos verdadeiramente fracturantes, como andarem empresas que não sei de que buraco saíram, com empregados com não sei que formação, a fazer podas em árvores a) na primavera, em plena floração ou folhação; b) não distinguindo um ramo ladrão de um ramo simplesmente baixo; c) com uma total inguinorância quanto à forma e estética das copas, de tal forma que há por aí árvores que ficaram a parecer uma vassoura de pernas para o ar.

Às tantas também se entra por coisas mesmo-mesmo importantes, como o melhor gelado de chocolate de sempre, esse tema que cai sempre bem e tem tudo para gerar um interessante fórum.
Isso: gelado, que vai sendo tempo dele (é sempre, mas adiante). Confesso que fiquei agradavelmente surpreendida com o gelado de chocolate lidl, e francamente louca-furiosa por não terem reposto o stock no dia em que lá fui. Bandidos, facínoras.


The Cat Diaries (um 3 que podia ser um 666)

Olá, eu sou a Izzie, e sou vítima de violência doméstico-felina. Desde já se esclarece que a culpa foi minha, toda minha, provoquei e estava mesmo a pedi-las. Ao contrário da vítima de violência doméstica que apresenta este discurso (e obviamente está a ver mal as coisas, precisando de uma valente intervenção, que uma coisa é um animal irracional negligenciado e largado na rua, outra é um ser racional com capacidade de decisão, introspecção, e não levantar a mão), é a mais pura das verdades. Excesso de confiança aliado a uma certa urgência, é o que dá. Tooooodo o trabalho já conseguido deitado ao lixo.

Ora veja-se: a) a bichita já tinha saído de baixo do armário da casa de banho, trocando esse spot de sonho pelo paraíso debaixo da mesa da cozinha; b) a besuga aceitou festas no lombito, orelhas e queixo, o que até nos fez desvalorizar as dores de joelhos e esqueleto em geral, atenta a posição em que nos temos de por para o conseguir; c) a chouriça autorizou e até gostou da escovadela com que a presenteei.

Vai daí, saltei um porradão de etapas e, sozinha, tentei agarrá-la para a enfiar na caixa transportadora para dar um pulo ao vet. É que de quando em vez faz um barulho estranho, uma espécie de rouquidão, que tememos seja uma maleita respiratória; e não temos a certeza de que esteja a comer, ao contrário do cachalote do mano / amigo / companheiro, a quem nem a clausura e spleen impede de limpar toda e qualquer taça de comida. Resultado, enfiou-me uma estaladona de mão aberta que até vi estrelas.

Sendo positiva: estive tanto tempo ao espelho a estancar sangue e desinfectar o nariz que, de duas uma, ou este também ficou inchado ou já sei onde tenho o desvio no septo de que sempre desconfiei. E vá lá, não foi uma vista. E não tenho nenhum documento com fotografia para renovar.

(me mate ralhou-me tanto. merecidamente. mas eu tinha que contar, né, tenho a marca aqui bem à vista.)

sábado, 1 de abril de 2017

The Cat Diaries (2.0)

Temos dois - 2 - dois gatos debaixo do armário da casa de banho. Conseguiram capturar a amiga / amante /palhacita / companheira do mafarrico, e agora estão juntos, at last. Debaixo do armário da casa de banho. Romântico. Ao menos ele perdeu o olhar miserável, agora só tem um olhar meio perdido.
Já franqueamos acesso a parte da casa, durante a noite, e ouvi uns miaditos e patinhas no corredor. Acho que era ela, que é claramente a mais atrevida e dominante - as you should be.
Agora há que escolher nomes, e o tema é óbvio: pares. Por enquanto há as seguintes sugestões na mesa:
- Heathcliff e Cathy (ou, vais passar a vida a soletrar e quiçá a explicar);
- Luke e Leia (duuhhh);
- Sid e Nancy (mate não acha bem, que "tiveram um triste fim"; sim, porque Heath e Cathy acabaram lindamente, queres ver);
- Também me ocorreu Fred e Ginger, mas não bate certo porque ele é que é ginger.
E é isto.
Cá estamos.
Qualquer sugestão, façam favor.

sexta-feira, 31 de março de 2017

The Cat Diaries (2)

Já tive o meu primeiro momento de "porque raios me meto eu nestas cenas". Culpo o cansaço, uma semana a duzentos à hora desde segunda, com cinco horas de sono de terça para quarta - valeu, grande Izzard -, poucas mais nos dias restantes, e chegada a sexta com muito soninho e uma cervical toda lixada. Cada um é para o que nasce, e eu também tenho momentos de impaciência, principalmente com esta minha vocação para "venham a mim os desgraçadinhos", complexo de super-herói - como define me mate - que me impele para a cabine telefónica, ata capinha ao pescoço, e lá vai a palerma, convencida de que sabe voar, tem super poderes, e não mede a quantidade de kriptonite lançada ao caminho.
Anyhoo, já passou. Não sem antes ter também um momento de pânico de "não sei se sou capaz". Já passou, e ainda tenho a capinha no bolso grande do casaco. Mas já faziam cabines telefónicas mais espaçosas, digo eu.

quinta-feira, 30 de março de 2017

The Cat Diaries (1)

Desde as dez de ontem temos um ser muito assustado, muito deprimido, muito calado, a viver debaixo do nosso armário de casa-de-banho. Esta noite limpou as tacinhas de ração seca e húmida (atum e gambas, o finório) que lá deixámos, do mal o menos.
Dá já ares de ser ideal para aquela casa: deprimido, check; nada lhe tira o apetite, check. O calado é que não, mas temos tempo.
Vamos a isso.

(não há possibilidade de fotos, derivado da situação de armário ser rasteirinho e não ir torturar bitcho com flashadas. nome, não há, que sua excelência ainda não dá ares de nada.)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Terra de cegos

Oito meses após participação do sinistro, seis meses após envio da última documentação necessária (orçamentos, e que não me cabia enviar, só sou a lesada, e não a cliente), tudo na mesma.
Um dia depois de eu ter tirado um bom tempo do meu dia para elaborar email a reclamar, cheio de termos jurídicos, aliás nem por isso muito densos, como "responsabilidade extra-contratual", "danos patrimoniais" e "danos não patrimoniais", ou "agravamento de danos imputável a demora na V. decisão", culminando com "prazo de dez dias para resposta cabal ou entregarei assunto ao meu advogado, para recurso às devidas instâncias judiciais", e já me ligam todos lampeirinhos, ali a agilizar a cena.
Num país onde compensa ser Golias, valha-me a sorte de - vá lá - ser uma David armada com fisguinha. Nem imagino a rameira de vida de quem não a tem ou não tenha aprendido a apontar, fosga-se.

quarta-feira, 22 de março de 2017

E depois admiram-se de haver cada vez mais divórcios

- Ah, queres ver o segundo Star Trek? Aquele em que entra o Idris Elba?
- 'Tá beeeeemmmm....



(não tenhas cuidado com o que te dou a comer/beber, não.)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nós por cá

Eu - 'Tão diz que o Ben Affleck veio a público admitir que tem problemas de alcoolismo e não sei quê.
Ele - O alcoolismo não desculpa o Batman.
Eu - ...

sábado, 18 de março de 2017

Sweet kitty o'mine

Atenuada a culpa, o desgosto, e enterrados todos os "ses" que me vinham atormentando (se tivesse sido mais atenta, se tivesse reconhecido os sinais, se tivesse agido mais cedo, se tivesse, se fizesse, se, se, se), finalmente concedi que era tempo de adoptar um/a novo felino/a lá para casa. Dois, talvez; sempre teriam companhia enquanto estamos fora. Conversámos e acertámos ponteiros, não que as nossas exigências e pré-requisitos sejam extensos, mas é preciso ser responsável e definir, a priori, qual a nossa disponibilidade e capacidade. Sim, preferimos meninas, mas se for um par pode ser um de cada. Sim, preferimos jovens, mas até três anos vale tudo, e não descartamos a possibilidade de nos embeiçarmos por um/a mais velho/a. Bebés é que não, que nem ficava descansada: qualquer bichito bebé precisa de um acompanhamento que não podemos dar, a gente ainda trabalha para comer. Cores, raças, é indiferente.

E iniciei a busca. Vivó feicebuque, ali encontra-se de tudo. Sendo que "tudo" é dar-me conta da triste realidade de dezenas, centenas de animais a aguardar adopção, principalmente cães. E daqui vai já um disclaimer e palavra de muito apreço por todas as pessoas que se dedicam a resgatar, tratar e mimar os bichos que ninguém quer. É preciso muita dedicação, altruísmo e amor. Mas depois há a face negra da lua.

Primeiro, não deixa de me espantar a quantidade absurda de associações, instituições, grupos mais ou menos formais de pessoas dedicadas à causa animal. Penso que tal se deverá também a um desinteresse das autarquias em tomar as rédeas desta função que é garantir o bem-estar animal, sendo que a questão dos animais errantes é, em primeira linha, uma questão que deveria ser tratada e apoiada pelo poder local. Felizmente não é o caso da minha freguesia (orgulho!) que está a tratar de ser pioneira neste assunto. Mas a realidade é a de dispersão de esforços e meios, o que não será muito produtivo em termos de resultado, adiante. A verdade é que são constantes os perfis com peditórios, apelos mais ou menos desesperados, e outras coisas, que é a cena encanitante seguinte.

Segundo, ele há pessoas muito dedicadas e altruístas, verdade, mas entre estas e paralelamente a estas a percentagem de malucos é considerável. Desculpinhas aos mais sensíveis, que eu cá também sou muito adepta da causa de bem-estar animal, mas há, no meio, gente que precisava, asap, de apoio psicológico. Ou uma vida. Sim senhora, muito carinho e mimo aos bichos; ok tudo bem, até somos vegetarianos ou vegan; mas fica um bocadinho mal a gente tão empática depois ter atitudes em relação ao ser humano que, ahém. Exemplo: animal maltratado, por gente obviamente desequilibrada ou simplesmente má, está mal, indigna, é chocante; mas não se deseja fazer o mesmo a dita gente. Um gajo ou é humanista ou não é. Ir para os murais que exibem bichos em estados lastimosos (e há animal lovers que se comprazem em, assiduamente, exibir tais exemplos gráficos de crueldade) destilar uma vontade de mal fazer aos perpetradores é ser igual a eles. Manifestar sentimentos de "matava-os a todos" é ser tão selvagem quanto eles. Afirmar à boca cheia que face a tais situações se perdeu a fé no ser humano, se não for uma declaração prévia ao suicídio de quem o diz, é só parvo.

Terceiro, e ainda dentro do grupo de animal-lovers que acham que as 'ssoas são todas más e podres porque há alguns a fazer mal a bichos, mas ainda assim não verbalizam desejos de tortura e morte horrenda a quem o faz, temos duas nuances: a) os que aproveitam, face a qualquer descrição de crueldade animal, seja de abandono ou mesmo mau trato físico, para dar o seu bom exemplo. "Ai que gente tão má, eu estive desempregado/a, doente, com caspa, a viver num barraco, e nunca faltou nada aos meus bichinhos". Que bom, são excelentes pessoas, pegai lá a medalhinha e ide pontificar para o raio que vos parta. Sabeis lá das circunstâncias dos outros. b) os que vêm exprimir tristeza, descontentamento, sentimentos mui extremos, normalmente pontuados por emojis, mas nunca fizeram um cu nem deram cinco tostões por causa alguma, humana ou animal. Adoram sofrer, por sentem muito, são muito sensíveis, e não param de o demonstrar alto e bom som a todo o mundo. como os que lêem notícias de desastres, choram muito, "ai coitadinhos, coitadinhos", e depois fecham o correio da manhã e vão à sua vida.
Enfim, dava para vários tratados.

Anyhoo, e continuando. Detectei e seleccionei várias instituições ou associações que me pareceram sérias, e restringi-me a essas. Vejo os respectivos anúncios, mas ainda me sentia relutante a avançar. Mas um dia avancei. Escrevi e-mail para o contacto indicado, onde me identifiquei, dei nº de contacto, expliquei a nossa situação e interesse em adopção, quiçá dupla; responderam-me de volta e telefonaram; marquei uma visita. E lá fomos, me mate e eu, visitar os três jovens que se encontravam na instituição (ao que parece haverá muitos mais em FAT, mas não me deram indicação de ter uma lista organizada com características, sequer; má política, adiante). E zás, gostámos de dois dos bichos. Gostámos é pouco. Falámos com a responsável presente, contei que tínhamos perdido uma gatinha já com 14 1/2 para insuficiência renal, iadaiada, conversa de circunstância, descrevo a casa e condições que temos, e fulana gela à menção de "varanda". Ah, têm uma varanda aberta! Eles fogem... Pois temos. E um pátio. Descrevo dita varanda e pátio, varanda essa vedada nos pontos mais sensíveis com sebe daquelas do leroy em pauzinhos, metro e meio (a nossa velhota odiava e tinha medo de outros gatos, era para os impedir de entrar mais que impedi-la de sair). O acesso à varanda, só quando estamos em casa; ao pátio só quando lá vamos. Varanda não dá para a rua, mas para zona de traseiras com logradouros (muito comum em Lisboa), não é alta, sequer. Mas ela ficou paralisada no "varanda", acho que nem ouviu mais nada, até esqueceu a parte da gata que viveu naquelas condições durante 13 anos, e nem morreu disso. Aproveitou (vide desabafos supra) para mencionar a sua varanda, devidamente marquisada, para que seus pupilos não fujam. Explico que no can do (sou membro fundador e, so far, sócia única da BAM!, Brigada Anti-Marquise). Ao menos uma rede. Nopes: varanda tem estendal exterior acoplado, não é exequível.

Antes de prosseguir: fogem é o caracinhas. Podem ir dar uma volta, controlada, aliás, mas fugir? Logo que um gato - obviamente esterilizado - se apanhe lá em casa, a comer do bom e do melhor, com mantas e caminhas à descrição, dois escravos totós, é o foges. 'Tá bem, abelha.

Prosseguindo, fomos chumbados. Parece que ter filhos e uma varanda, tudo bem; animais, é que não. Os bichinhos são para estar em casa, em segurança. E lá ficarão, claro, como os outros na casa da dita colaboradora, onde parece que já são mais que vinte, e não admira, com tanto fricote para lhes dar destino. Mas claro, muito melhor ter duas dezenas de bichos numa casa, com marquise, sem atenção personalizada, decerto sem as condições que lhes daríamos, que um ou dois chez nous, les palhacitos. É que assim depois podem ser as mártires abençoadas da causa animal, as que sacrificam higiene e bem-estar (próprio e dos vizinhos, que vinte gatos, um dia inteiro sozinhos, nem com dez caixas de areia deixa de cheirar), vida própria, liberdade, em prol dos queridos, queridos bichinhos, esses seres puros sem maldade, que humano nenhum lhes chega aos calcanhares para cuidar, lá todos acondicionadinhos a monte mas muito resguardadinhos, deunolibre de apanharem ar que ainda resfriam, melhor ser também uma casa sem electricidade que ainda se enforcam nos fios, ou os mordem e morrem esturricadinhos, ai jasus que ninguém é tão bom como eu, e depois venha daí um donativo que estamos soterrados de bichos para alimentar, vacinar, pipetar, wczar.

E pronto, para a semana vamos a um sítio sem tanta frescura, daqueles que sabem que não tarda vêm aí novas ninhadas que lhes vão largar à porta e já têm muito com que se coçar e nem um nico de espaço, um sítio onde - presumo e espero bem - sabem que quem cuida 14 anos não é de rejeitar, um abrigo pret-a-porter, de entra sem gato, sai com gato.
Quanto aos outros: ó pá, cresçam e façam-se, e entretanto forniquem-se.

Aditamento: me mate fez-me notar que a tal pessoa, afinal, terá dito que tem três gatos e não vinte e três. não sei qual de nós ouviu/entendeu mal, mas uma coisa é certa: já pude constatar haver pessoas que acolhem, à vontade, mais de uma dezena de gatos.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Actual estado de coisas


O ponto alto do fim-de-semana

Julguei que tinha ocorrido logo sábado ali pela hora de almoço, quando assistimos a duas indivíduas de etnia cigana a rematar uma discussão com um lojista de tez castanha com um "vai para a tua terra!".

Mas entretanto, no domingo à noite, dei com um post de um reputado escritor português, há muitos anos radicado num outro país europeu (para onde emigrou há décadas, em busca de uma vida melhor e um país onde não fosse perseguido ideologicamente, ó ironia), manifestando a sua intenção de voto no Wilders. Explica ele, entre outras pérolas, que partilha a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade (estou a citar, e não, não há link. como citado autor também não se dá ao trabalho de lincar a fonte de tal afirmação sobre as estatísticas da criminalidade).

É o remate, a cereja no topo do bolo, daquilo que me parece um fim-de-semana temático. Deportemo-los, portanto. Todo um grupo, porque xis por cento deles fazem merda, sem mais. Nada cá de averiguar se entraram legal ou ilegalmente, ou atribuir penas acessórias de explulsão apenas a quem seja condenado por prática de determinados crimes. Todos, to-dos porta fora, aahhh, e quando isso não resolver os problemas sociais, e seja necessário arranjar outro bode expiatório, hum, logo se vê, há tanta escolha, já dizia o outro, primeiro vieram pelos judeus e eu nada fiz.

Por este andar, porque não privar de direitos cívicos todos, mas mesmo to-dos os homens? Afinal também são eles que encabeçam as estatísticas da criminalidade. Vamos a isso, cria-se uma espécie de reservas, enfiamo-los lá todos, ou talvez não, pois não? Logo vi.

[removido da minha lista de leitura. já andava a ponderar de há uns tempos a esta parte, atento o teor de umas transcrições de colunas de opinião nesse excelso pasquim que é o correio da manhã. e não deixo de lamentar que alguém envelheça assim, amargo, carcomido por preconceito, afogado em fel.]

quinta-feira, 9 de março de 2017

E agora, algo completamente diferente

Não entendo, aliás repudio o conceito de brunch. Gente que não acorda esgalgada de fome e não trata de se alimentar logo de manhã - depois do duche e se vestir, há mínimos, e outra coisa que não entendo e repudio veementemente é o pijaminha o dia todo - não é gente boa. E isto pode suceder às sete, nove, dez, onze, meio dia: não começar a jornada com piquen'almoço não é coisa de gente de bem. Pode ser continental ou inglês, mas é pique'almoço, não me lixem, não um tertium genus entre piquen'almoço e almoço. Não. Se depois não têm fome para almoçar, sejam crescidos e assumam, mas não abstardem nem amalgamem refeições. Dois em um é coisa de champô rasca e gente preguiçosa. Acordar tarde, não fazer desjejum, sair de casa para sítio mais ou menos chique onde se toma um piquen'almoço arraçado de almoço é já coisa de gente filha do demo.

Dito isto, e estabelecido que fica que pessoas que não acreditam em piquen'almoço não são bem pessoas, tenho de confessar que sou a favor e pratico muito aquele conceito que os amigos anglófonos chamam de breakfast for dinner. E alerto: porquê a discriminação, porquê ostracizar os adeptos desta modalidade? Porque não temos direito a nomenclatura própria, fuffets especializados em locais féchion, notação e divulgação em blogs de laife-staile?

Inicio, portanto, o movimento brinner - petit nom que sugiro para breakfast for dinner. Uma vez por semana, ao menos, celebrem a vida bonita jantando uma taçorra de gelado com canudinhos de bolacha baunilha. Uma tosta mista com cola zero. Pão e queijo. Bolo. Para os lacto-tolerantes, uma tigelinha de cereais; para os valentes que depois de um dia de trabalho têm força para fogãozices, panquecas. Saquem do telemóvel e instagramem estes momentos de puro deleite e savoir vivre. De loucura, de transgressão. Vivam no limite, assumam o risco. Ou isso, ou parem de ficar de olhos esbugalhados e de dar voz a reprimendas quando respondo com verdade, sem medo, com ousadia, à pergunta "'tão o que é que jantaste".

quarta-feira, 8 de março de 2017

[ ]



[e não, não vou elaborar sobre o tema e sobre a data, que estou até aos cabelos de merdiquices aqui no emprego a que acedi por concurso, a que concorri voluntariamente e em pé de igualdade com qualquer outro cidadão com as mesmas habilitações, depois de completar a escolaridade obrigatória, complementar e universitária, onde ganho o mesmo que todos os do mesmo escalão/antiguidade, sejam quais forem os cromossomas que lhes foram atribuídos à nascença, e nos entretantos também tenho outra vida, lá na casa que comprei e registei em meu nome, e ando a pagar a partir da minha conta bancária, e à qual chegarei em viatura também própria, que conduzo e estaciono num lugar que tomara muitos, e sem sensores, o milagre, casa essa onde decerto me mate chegará antes de mim, como habitualmente, e onde apanhará a roupa estendida e quiçá, que não mando nele, ainda adiantará outra máquina, ou não, se esperar ainda lá ponho a camisa que trago hoje, sendo certo que me marimbei para o jantar, logo veremos em que consistirá tal repasto, somos só dois porque assim o quis(émos), e o determinismo biológico não me/nos é imposto, e tal e tal, não, não me vou chatear a explicar que não celebro porra nenhuma, mas assinalo e não esqueço, nunca, quem não teve e não tem este leque de possibilidades pela frente, o direito a escolher, o direito a ter, o direito a viver como bem entender, e enquanto o estado de coisas for o que é, em que parte do mundo seja, e por que constrangimentos calhar, cá estamos, dia oito do três, todos os anos]

terça-feira, 7 de março de 2017

I'm mad as hell and I'm not going to take this anymore

Mad as hell é, basicamente, a tagline do meu feitiozinho do caneco. A parte do not going to take it anymore é que é mais transitório, ou seja, passa. Que remédio, um gajo não pode mandar tudo às malvas, por sistema. Às vezes é preciso trabalhar dentro do sistema, tipo bicho da fruta. De qualquer forma, voltando ao mad as hell, que aliás define muito bem a minha explosiva maneira de viver, já teve melhores dias. Acho que estou na reserva. E a pensar que, se a efectiva mudança e o caminho para tal não dispensa esse sentimento de revolta, este também não pode ser alimentado a acendalhas, ou um fluxo de combustível. Temos do outro lado do lago um bom exemplo que estar permanentemente zangado - e afirmar que não se atura mais "isto", seja lá o que "isto" for - pode ser um caminho bem pior.

[mas atalhando caminho, que de momento não tenho cabeça para estas considerações, que a revolta pelas grandes coisas se me está a esgotar, tantas vezes que nos últimos tempos se acendeu; e a revolta pelas pequenas - pequeníssimas, mesquinhas -  anda a consumir, tantas e tantas vezes me tem calhado neste maravilhoso buffet da vida que é o trabalho]

Achei curioso, para não dizer irónico, ter ontem visto este slogan num cartaz de uma manifestante, do outro lado do lago. Curioso porque identifiquei a frase, coisa que não teria podido fazer aqui há uma semana. Irónico porque penso que, de alguma forma, e embora possa parecer adequada a quem motivada e justamente se revolta, lá nos States, falhou-lhes uma possível leitura do filme de onde foi retirada.

O filme é Network, e tem quarenta anos. Córenta, jasus. E, ainda assim, seria uma das minhas primeiras escolhas para mostrar a estudantes de jornalismo. Caraças, que grande filme. Um tratado satírico sobre infotainment. Não é fácil retalhar e discutir, num mero e breve post. Desconstruir ou isolar todos os sumarentos temas abordados numa hora e picos de película, com um texto maravilhoso e interpretações fora de série (e oscarizadas), não é fácil. Mas deixo o isco. E o tema, ainda a badalar-me esta cabecita. A revolta: como, quando, porquê. E para - ou contra - quem ou o quê. Que não basta, este bater de pé, é preciso fazer, agir. Mas como. E com quem? O populismo, ou antes, o discurso populista. A revolta, pura e simples revolta; ou o mero discurso de revolta: a quem aproveita? O que farão dele - de nós, os revoltados? Epá, tanta coisinha para pensar.



 [clips com o devido spoiler alert, ok?]


 



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Coisas que eu digo pelo menos uma vez por semana (e depois vai-se a ver)

Agora é que é, mais solinho, mais calorzinho, aquela casa vai levar uma ganda volta.


Entretanto, acontece o "vai-se a ver".

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Tão mau que dá a volta e fica bom - pequeno exemplo prático

Cansadinha que estou, desgraçadinha que sou, e porque já não tenho cabeça para mais trabalho e o toffee crisp já foi, deu-me para ir para o iu-tub ouvir pimbalhada. E encontrei um dos meu guilty pleasures da década de noventa, a mesma década em que andava de camisa de flanela e a fazer ares de douda com nirvana.
Sim, vou partilhar (porque sou uma alma grande, generosa, que forças do mal tentam - debalde! - derrubar, e ainda hoje é terça e se soubessem o que tenho reservado para amanhã):




(um momento de silêncio)
(mais um)
(que vocês precisam de tempo, eu sei, assoem lá)

Ora, ora ora. O que dizer, não é, está tudo de boca ao lado, cara à banda com esta maravilha. Começamos pelo sinistro que é esta balada de (des)amor ser cantada por pai e filha?
Pelo noja-noja de o marafado de meia idade estar com uma moça ainda mais nova que a preterida e fiel companheira?
O mullet?
O ambiente casa de alterne circa mil nove e oitenta?
Que além disso o negócio deve andar mal, a avaliar pela pouca oferta de bubida?
O deprimente que é em 2017 eu ter o mesmo penteado que Cristiana nos anos 90?
A letra ser de um machismo atroz?
O fade-out final?

Ou revelo já que este tema era um sucesso brutal lá em casa, onde eu e o meu ainda adolescente irmão não perdíamos um Made in Portugal, e o cantávamos aos berros?
Que o refrão passou a ser uma inside joke nossa? Eu aos gritos para meu irmão "agora diz diante dela" (sendo que "ela" era mamãe, completamente ao lado) e mano a retrucar com a sua voz de barítono "cala-te por favor"?
E que a importei para meu - aliás santo - matrimónio, e muita vez guincho a me mate um melódico "cala-te por favor"?

Pronto, já passou. Este lindo momento de catarse. E agora já sabem mais um bocadinho sobre esta vossa.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O mundo pula mas nem por isso avança

Uma livraria qualquer não interessa onde, nós às novidades, e acabamos distraídos com uma menina pucanina, que anda por ali a cirandar cantando baixinho e volteando em conformidade. Mêmo gira, a miúda, pá, os cínicos de sorrisinho besta.
Sucede nós estarmos junto à secção infantil ao mesmo tempo que dita menina - não, não somos stalkers tenebrosos, gostamos de livros para miúdos e há sobrinhos, também, isso, a desculpa são os sobrinhos. A pucanita está a tentar convencer a mãe, com toda a urgência guinchante dos seus argumentos, a levar determinado livro. A mãe diz que já têm, e ela levanta o de cima, mostrando outro da mesma colecção. E a mãe: não, esse é um livro de piratas, é para meninos, e tu és princesa, não cito de cor mas foi isto. A menina começa a chorar e mãe leva-a rapidamente.
E nós de boca aberta, a olhar um para o outro, opá, opá, opá. Mate resmunga que a menina lê o que quiser, ora (asneira gorda), e eu, que não contesto a decisão de comprar ou não o livro, entristeci-me com a justificação.
Tanto mummyblog, tanto workshop para mamãs, e ainda ninguém as ensinou que sim, são todas princesas, mas há princesas-pirata, princesas-mosqueteiro, princesas-aviador, princesas-explorador, tanto como há princesas-bailarina, princesas-princesa, ou princesas-fadinha?
Ca porra de vida, sinceramente, é isto 2017, deixem as miúdas ler e ser o que quiserem em paz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Aguardo ansiosamente

Que alguém faça t-shirts com os dizeres "Bad Hombre" (para ele), e "Nevertheless She Persisted" (para mim).
Isso já compro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Momento sócio-féchion

Uma pessoa também precisa dos seus momentos de pausa fútil, e distrair as vistinhas, pois claro que precisa. E, apesar de (cada vez mais) ser uma cliente pouco regular, gosto de ir ao site da zara, a "ver as montras". Além disso, novas colecções a rebentar, e yay!, não é? Pois é, e sucedeu isto:



Façamos uma pequena pausa contemplativa.
Já 'tá.
Tirando da equação apreciações estéticas puramente subjectivas (ahahahah, estava a brincar, é horrendo e quem disser o contrário precisa de ir apurar os níveis de glicémia), vou já aventar que esta merda de moda da roupa "distressed" - um óbvio e hipster-eufemismo para "estragada, irremediavelmente estragada" - já foi longe de mais.
A sério, com franqueza, olha que sinceramente.
E fala daqui uma sujeita que passou todos os invernos da sua passagem pela faculdade a estudar - em casa, só em casa! - agasalhada numa camisola que mamãe tentou - debalde - convencer-me que nem um sem abrigo aceitava vestir. Em minha defesa tenho a dizer que a) mamãe é muito exagerada, felizmente nenhum dos filhos lhe herdou a característica; b) era mesmo quentinha, o raio da camisola; c) estava sempre lavadinha, encardido não é porco.
Epá, mas isto, isto já é obsceno. Aliás, no ano passado já se cruzou a linha em alguns jeans à venda, literalmente presos por cordéis linhas de tão esburacados, mas não só não se parou a loucura como alastrou às camisolas. Quéssedezer, faz-se uma camisola toda catita, xinapáxinapá, e depois pega lá tesoura e desata a esburacar e puxar malhas. Não. Não. N-Ã-O. Não se estraga comida, não se estraga roupa, ponto. Ao menos de propósito, e muito menos se sai depois por aí a exibir a coisa.
O que falta agora? Nódoa-style? Camisa com medalha de refogado? Calça com mancha de jardineira? Camisola pintalgada de molhanga? É preciso por cobro a este flagelo. Parar este holocausto têxtil. Como diria qualquer mãe extremosa, há meninos que querem o que vestir e não têm. Se calhar, ironicamente, os mesmos meninos que produziram isto para first-world-féchion-acéfalos vestir. Há limites, pá.


[quando aqui há -muito - atrasado apareceu um filme (Zoolander!) onde um criador de moda apsicopatado (Mugatu!) apresenta uma colecção inspirada nos sem-abrigo, eu ri muito e achei muito bem apanhado. era nova e inocente.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aleg[o]ria contagiante

Romain Gary foi-me apresentado por uma aposentada desertora disto aqui dos blogs ('tão, Wallis, tudo benzinho, sua fujona? saudadinhas!), e por causa dela esbodeguei-me toda com Uma Vida à Sua Frente. Valha-me tudo, que livro tão bom. Reduz-nos a uma poça de matéria liquefeita, uma papa de baba e ranho. Muito alegre, portanto. Não obstante, devia ser obrigatório ler. Funcionaria até como um teste de psicopata: pessoa que não sinta forte comoção é porque é totalmente desprovida de empatia face à mais profunda miséria, e como ser destituído de detecção de amor, dedicação e amizade, seria chutado para fora das muralhas da cidade.
Além do mais, foi um livro que me fez pensar em e questionar muita coisa, traçando paralelos - se calhar muito pertinentes, se calhar nem tanto assim - relativamente à reacção de tantas pessoas perante a tragédia dos refugiados, por exemplo. Alguém que seja capaz de advogar o puro e simples fechar-lhes a porta na cara seria alguém não apto digno a apreciar receber a história de Momo. Acho eu.

Uma vez apresentada, seria inevitável não reincidir, e vai daí ataquei Educação Europeia. De novo, muito alegre, (como o autor, suponho, que pôs fim à sua existência - uma pessoa com este nível de empatia e discernimento muito provavelmente carrega em si um peso do tamanho do mundo, e juro que não sei o que é insistir em viver quando se é assim, deve chegar a um ponto que é insuportável). E, mais uma vez, eu ali esmerdalhada. Não tanto como no outro, mas ainda assim. De novo uma história narrada pela voz da inocência, um adolescente apanhado na tragédia da guerra, e cujos pais decidem proteger fazendo-o refugiado na floresta. Ali escondido, nos arredores de Vilnius, passa um dos tempos mais terríveis da Europa, entre os guerrilheiros da resistência (partisans / maquisards, que a tradução manteve no original francês, e bem, à falta de melhor correspondência em português). Ali vai crescendo e recebe a sua "educação europeia" - não vou explicar a origem desta caracterização, é spoiler para uma das melhores definições do que é ser-se europeu entre 1939-45, dada pelos personagens.
Mais uma vez, muito a propósito ou a extremo despropósito, lá eu a fazer as minhas notas mentais de como é um livro essencial para compreender um certo passado europeu e, quiçá, questionar mais e melhor definir o que queremos para o futuro da Europa (que, espero estar muito enganada, mas entre os tempos brilhantes do saber veiculado nas melhores universidades e centros de conhecimento, e as mais absolutas trevas e miséria, é um pulinho).

E pronto, apeteceu-me partilhar isto, aqui, com quem quiser. Apetecia-me até transcrever tantas citações brilhantes, mas não tenho tempo e a maioria é um bocado spoiler. Este blog e a dona andam um bocadinho à deriva, sem mapa, bússola ou estrelas que a guiem, mas tantas vezes é nestes passeios que se encontram as melhores paisagens. Ou paragens. E eu ando cheia de vontades de (voltar a) escrever sobre livros, filmes séries e o raio que o parta. Entretanto comecei outro (também muito alegre; sim, há aqui um padrão, cada um é para o que nasce) que a duas, três páginas já me tinha presa pelo pescoço, lá a ver se daqui a uns dias nos encontramos por aqui a falar disso. Em calhando, acontece.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Era matá-los a todos muito bem matadinhos

Esta semana tinha um aviso na caixa de correio. Sim senhora, 'xa cá ver quem manda saudades, epá, isto aqui é ascendi?, é ascendi.
Entrei em pânico, porque é uma cena que eu sei fazer mesmo muito bem, entrar em pânico, e convém uma pessoa exercitar regularmente aquilo em que é mesmo bom, só assim poderemos atingir todo o nosso potencial nesta vida.
Atenção: eu sei o que é a ascendi (concessionária de auto-estradas), e sei o bambúrrio que uma pessoa pode ter de pagar depois de uma distracção, como passar pela via verde sem ter aderido à dita. Estava eu então num aimedês aimedês tu qués lá ver, a tentar recordar se ali na troca de carros e antes de comprar o identificador para o novo tinha metido a pata na poça, chego à conclusão que não, afinal eu sou aquela que fez duas passagens com amarelo - falta de pilha - e foi em pânico - lá está, sempre em busca da excelência - à loja dos senhores tratar da coisa.
E baixou de repente um tu qués ver. Ai o carro antigo, anda alguém aí no forrobodó.
Fui à net, esse lugar onde tudo se encontra. E encontrei o site da ascendi, onde confirmei que não circulei em nenhum dos seus percursos. E encontrei o site dos CTT, onde podemos consultar se a nossa matrícula tem alguma coisinha pendurada. Não tinha, nem a actual nem a anterior.
Ainda assim, continuei em pânico, porque a prática faz a perfeição.
Só ontem consegui ir aos correios levantar a coisa. Abri a carta logo ali e - eu sei que me repito - pânico. Aicafoda uma cena por pagar, ai jasus que s'isto vai para execução tou tramada, vou já já já ali ao multibanco já já já.
Felizmente baixou um pééééééra lá. Mas isto foi adonde? Confirmei: Guimarães. Bela localidade, onde não poiso nem os pés nem os pneumáticos para cima de uma vida. E foi quando? Confirmei: dois meses antes de adquirir a puta da viatura aos senhores da Salvador Caetano.

Modos que é isto. Calha bem, que tenho uma mudança de uma pecita marcada para a semana, materiais inflamáveis já lá há, isqueiro tenho sempre.
Na segunda vejam o telejornal, sou capaz de aparecer.


[de qualquer maneira tenho de responder à ascendi, que tenho prazo a correr. uma canseira. e tenho de ir procurar lá pela casa se ainda tenho a papelada de quando comprei a carroça, que deves estar maluques se achas que vou pedir - e pagar! - uma certidão de registo automóvel. por acaso até acho que já prescreveu, mas isso os caetanitos que se preocupem, eu só tenho de provar que não era proprietária.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Loves

[nunca me convidam para cenas destas, pah. logo eu, que sou fortíssima no air guitar. e em coro canto tão bem.]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Stress pré-traumático

Tive esta ideia muito gira, e que deixo à consideração da comunidade psi, que é a da introdução deste novo conceito, a saber, stress pré-traumático. Assim de repente caracteriza-se por uma pessoa desenvolver sintomas de stress pós traumático, mas antes ou contemporaneamente ao evento traumático propriamente dito. Um exemplo: cada vez que vejo / leio uma notícia com imagem do Trump a assinar uma qualquer coisa (ordem executiva, cheque, autógrafo) o estômago fecha-se-me, sinto uma onda de náusea, arrepios, e assola-me uma vontade súbita de me enfiar dentro da caminha em posição fetal.
Mais alguém?


[aquele pessoal tolo crente que andava por aí com conversas de 1) ah, ele foi democraticamente eleito, aceite-se; 2) andar a protestar antes dele fazer seja o que for é estúpido, e além disso refª a ponto 1); 3) as pessoas são tão alarmistas, dêem-lhe uma oportunidade, e além disso, ver ponto 1); 4) ele é só um malcriadão / parvalhão / sem noção, não vai fazer nada daquilo que prometeu, e para além do mais, ponto 1); esse pessoal passou esta semana que passou a dormir, continua descansadinho da vida, e, em tendo filhos, completamente sereno quanto ao rumo que isto leva, ou quê?]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Anyhoo

A minha vida não é isto



e há uns capítulos a precisar de correcção.

É uma chatice, que é

Quando a realidade me vem dar razão.
Isto a confiar na palavra de outros bem melhores e mais sabedores.


[claro, claro que nem todos os empregadores são assim. claro que nem todos acham normal um seu empregado, após prestar 40 horas semanais, ainda encaixar mais vinte ou, na loucura, outras 40, e isto num regime de salário "livre", porque afinal se vão para outro lado ainda fazer um part time ou um segundo emprego, é porque é gente empenhada, trabalhadora, ou se calhar gananciosa, e não porque não conseguem viver com a merreca que o dito empregador lhes paga. e claro que, em vez de andarem dois patrões a pagar, cada um, um ordenado mínimo, porque não ficar só um com o encargo de pagar a esse trabalhador incansável mais qualquer coisinha, que nunca as horas extra fixadas por lei, vá, consultemos o mercado, fica um ordenado mínimo e meio? afinal o trabalhador até poupa na deslocação para o segundo emprego, faz chichi e gasta água só num sítio, e tem um almocinho bem catita com a - belhéc - produção da casa. claro que nem todos os patrões são assim, mas muitos são, e um já seria de mais. puta c'os pariu.]  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

E isto ainda antes das oito da manhã

"São muito liberais, mas quando se vêem à rasca são todos keynesianos", disse ele, e eu ri-me alto e forte, nem eram oito da manhã. Discutia-se uma merda qualquer, provavelmente eu fazia um furioso rant sobre os fabulosos empreendedores portugueses - é possível, ali nas vésperas tinham-me calhado no prato umas giras. Ou então foi sobre a TSU, não posso assegurar, mas também daria mote para isto, que os pobres não podem mesmo pagar os quinhentos e picos por mês aos empregados, agora multiplique-se isso por X, às tantas já nem dá para a direcção andar toda de cuzinho tremido em carros de gama alta. Quinhentos e picos são eles capazes de gastar num par de sapatos, numa carteira, numa cravate, e agora com merdas, a chorar, de mão estendida, a gente paga MAS o Estado - todos nós, entenda-se - tem de contribuir. Já sei, já sei, o velhinho argumento que o dinheiro não cresce nas árvores, e é preciso recompensar o privilégio, ahém, a iniciativa, mas e a vergonha, onde está?, não têm mesmo vergonha de ganhar dez a vinte (ou upa) vezes mais que o trabalhador com salário mais baixo, não se sentem mal de ter gente a trabalhar para eles, a tempo inteiro, que ainda não ganha o suficiente para sair da escala de pobreza? Se conseguissem viver um ano com esse rendimento, calava-me já, mas não conseguiriam nunca, e sabem-no, e ainda assim insistem, e ai de que interfiram, quem fixa os ordenados é o mercado - por acaso mandado por uma meia dúzia - e a economia talital equilibra, sai fora, não regula, não mexe, não chateia. Até ao dia, claro, em que corre mal, e então papá Estado já pode dar uma mesadinha, um incentivozinho para impulsionar a economia.
E nestes dias é muito difícil manter um semblante sério, que ainda há atrasado li que oito pessoas no mundo acumulam riqueza igual à da metade mais pobre, e entre esses só reconheci dois filantropos. Três, para as féchionistas, que afinal o sô don Amâncio democratizou e tornou acessível a moda dando emprego a tanta criança gente no terceiro mundo, verdade, uma verdadeira boa alma. Dói-me, isto. Dói-me muito.

Um dia

Depois de quatro dias a trabalhar com temperaturas entre os dez e quinze graus (debaixo de telha, sim, e está tudo fechado), e na quinta quase teres uma pataleca ali entre a hipotermia e fúria assassina, vais trazer um radiador lá de casa para fazer companhia ao pobre que não dá conta do recado quando lá fora estão menos de dez.
Vinte graus, e assim já conversamos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Revirar d'olhos da semana

E este foi logo a fechar, com as reacções à notícia que o rapaz agredido pelos ricos filhinhos do embaixador do Iraque tinha chegado a um acordo com esta gente e ia receber uma indemnização. Nas várias notícias online diversas pessoas, decerto encharcadas de elevadíssimos sentimentos de honorabilidade, vociferavam com o rapaz e respectiva família. Interesseiros era o mais simpático que lhes chamavam.

Ora vamos lá trocar isto por miúdos. O rapaz levou uma valente tareia que o atirou para o hospital em estado lastimoso. Várias fracturas, uns tempinhos em coma, enfim, e por baixo, podemos concordar que aquilo doeu e moeu. Os perpetradores beneficiam de um regime de imunidade diplomática, ou seja, para responderem em tribunal pelo crime praticado - ofensa à integridade física agravada, crime público que não depende de queixa do ofendido - depende-se da boa vontade do Estado iraquiano, para a levantar. Que foi pedida, mas podemos esperar sentados, e num sítio abrigado. Segundo a lei portuguesa, qualquer vítima de crime pode deduzir pedido de indemnização civil, com vista ao ressarcimento dos danos patrimoniais e não patrimoniais (dores, sofrimento, etc) sofridos.
Tal pedido de indemnização tem de, obrigatoriamente, ser deduzido no processo crime. Ora como já se viu, o processo crime não vai ter seguimento (de certezinha, nunca acerto no euromilhões mas nisto apostava em segurança), porque não vai ser levantada a imunidade, e não porque a justiça é uma porcaria e tal (como defendiam tantos comentadores online, ai, a ignorância é um bem tão equitativamente distribuído).
Seria então seria admissível deduzirem pedido de indemnização nos tribunais cíveis (não me vou por aqui a maçar com artigos e tal, é assim). Agora vamos lá hipotizar como seguiria esse processo cível: citar os réus. Boa sorte e tudo de bom. Ia ser um sarilho que não levaria menos que um ano.
Imagine-se que finalmente eram citados pessoalmente (yeah, right) ou, não sendo, eram citados editalmente, sendo representados processualmente pelo Ministério Público. Siga para julgamento, apresentação de prova, sentença, aqui já se ia, na melhor das hipóteses, em ano e meio, dois anos. Imaginemos que a sentença era favorável, e condenava os dois facínoras a pagar uma indemnização boazinha.
E agora? Boa sorte para executar a sentença. Acham que os tipinhos têm património ou rendimento em Portugal, ou sequer num país da UE? Boa anedota, siga. Ou seja, o desgraçado, além da tareia, ia ter um longo calvário na justiça, com os inerentes custos e gasto de tempo, para no final ter uma sentença para emoldurar e plantar na salinha de estar.
Em vez disso, o advogado negociou um acordo, directamente com os fulanecos, ou antes, com o papá, a embaixada, seja quem for. Chegaram a um consenso sobre quantias (que se desconhecem e não temos de conhecer, mal fora).
Ou seja, trocou o calvário acima descrito e riscos necessários por um dinheiro certo, que ao menos o compense das dores, humilhação, sofrimento. O que há de errado nisto? Nadinha. Zero. Tomara que toda a gente que é vítima de um crime, acidente, ou qualquer outra situação causada culposa ou dolosamente por alguém ter esta conclusão.
O processo crime seguirá, obviamente, visto que o ofendido não pode desistir da queixa. Vai esbarrar contra uma parede de betão, muito provavelmente; mas ao menos o rapaz não fica com as dores e ainda a frustração de ter sido todo amachucado sem qualquer compensação.
E pronto.
Mas para a populaça isto não chega, diz que se vendeu, e a honra onde fica, que não há dinheiro que pague. Tá bem, abelha. O dinheiro não paga, mas é o único "castigo" que aqueles meliantes vão ter. E ao menos a vítima não fica totalmente desprotegida, sendo que, como já expliquei, muito dificilmente obteria reparação pela via judicial (e, mais uma vez, não, não é porque a justiça é uma porcaria, é porque as leis e a vida são como são).
Tudo visto, esta é a melhor solução possível, e eu fico sinceramente satisfeita pelo rapaz. Ainda bem que obteve alguma reparação. Quem dera que sucedesse o mesmo com todos os que passam por agruras semelhantes.
E o povo ululante? Que s'a fodam, com toda a franqueza. E nunca se vejam numa situação parecida, que aí quero ver-vos, mais à vossa honra, justiça e o caracinhas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Legalmente, eu

Já tenho carta de condução desde Abril de 1995 (sei-o porque vi há pedaço), e desde 1998 que já não resido na morada que lá consta. Sim, ainda é daquelas em cartolina cor-de-rosa, dobrada em três, uma coisa de museu.
Na minha carreira de condutora já fui mandada parar em operações stop, ou fui sujeita a vistoria de documentos, pelo menos três vezes. Na primeira nada a declarar: soprei no balão, viram o selo, a vinheta do seguro, os faróis, e ala, que os senhores guardas tinham já uma fila de ébrios para autuar. Na seguinte não tive tanta sorte. A seguir ao balão fizeram-me notar, com ar muito repreendedor, que as moradas do bilhete de identidade e carta não coincidiam, e isso era contra-ordenação, dá direito a coima, aiaiai. E eu, cidadã pacata e respeitadora, suspirei e expliquei que tinha lá tempo para as filas da DGV, compreende, senhor agente?, e ele sorriu e compreendeu. Não precisou de saber, e também não lhe contei, que já ia na segunda morada depois daquela, adiante. Agradeci à grande sorte, jurei a mim mesma que tratava daquilo, nas próximas férias, asap. Não tratei. Mudei outra vez de casa. Contribuinte, sim senhora; eleitor nem por isso (andei uns bons dez anos a votar no concelho ao lado, siga). Calha um dia uma indivídua muito colérica abalroar-me, e preferir armar um barraco a preencher a declaração amigável. Chama-se a autoridade que, chegada ao local, percebe logo o que se passou, e tem uma conversa firme lá com a douda. A senhora agente, papelada na mão, aponta de novo a divergência de moradas, desta feita entre o documento único e a carta (do cartão de cidadão já não consta essa devassa), aiaiaiai, é contra-ordenação, coima e tal. E eu de novo, o meu ar de bambi, de poizé, sabe lá da minha vida. Ela, pelos vistos, sabia. Vá lá, desta passa, trate disso e que não se repita. Não sabia, porque eu omiti e também ninguém perguntou, que tivesse eu o carro anterior e um bilhete de identidade, seriam três as moradas divergentes, mas adiante. Agradeci a todos os santinhos em que não acredito, e que desta é que era, à terceira não falha e papo mesmo com a coima, vou mesmo tratar disto, nas próximas férias, asap. Não tratei.
Foi hoje. Porque já dá para fazer online. Na internet!, essa invenção recente. Finalmente já é possível logar no IMTT com o NIF e respectiva senha, e pedir a prostituta da alteração da meretriz da morada, e pedir para emitir uma rameira de uma carta toda linda, modernaça, naquele modelo que já vigora aí há uma década e picos. Tchinapai. Custava muito, custava?

(agora só me faltava ser fiscalizada neste ínterim, mas vamos acreditar na sorte)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bochechas

Apesar de ter fortíssimas antipatias por diversas personas políticas, não me lembro de alguma vez ter odiado alguma a pontos de lhe desejar a morte, ou rejubilar com a mesma. Por isso não entendo quem alimenta esse tipo de sentimentos, e menos ainda quem os manifesta. O Cavaco, por exemplo. Desejei muitas vezes que se fizesse de morto e desaparecesse, mas que morresse? Nem por isso. Falando na peste: já se dignou a vir a público dizer alguma coisa sobre a vida, a propósito da morte, do seu congénere? Não pois não? Bem me parecia. Aguardo impante a sua aparição em alguma das cerimónias fúnebres. Mate aposta que não vai acontecer, mas eu ainda tenho alguma esperança que lhe reste um mínimo de noção e sentido de Estado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Então cá estamos

E que melhor forma de desejar um feliz ano novo? Com boas notícias. Esta série. Esta. Série. Netflix, cá vou eu.




 



Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events é capaz de ser a melhor série de livros infantis que já me passou pelas retinas. Impossível encontrar por cá, traduzido - juro que tentei, para infectar os meus sobrinhos, mas parece que desistiram a meio -, a única solução para o leitor curioso passa pela encomenda via net. A nossa colecção veio de Nova Iorque, pela mão de me mate, treze livrinhos de capa dura (e lindos), pesa p'a caraças, mas ei, ir a Londres ou NI e não trazer uma mala atafulhada de livros é capaz de ser crime. A história? Oi. Recheada de tragédia, aventura, desventura, mistério, momentos de suspense de cortar à faca. Depois da morte imprevista, súbita e... suspeita de seus pais, os manos Baudelaire vêem-se sozinhos na vida, e sucessivamente entregues a tutores que variam entre o puramente malvado, completamente desvairado, ou simplesmente bizarro. O primeiro e sempre presente desses tutores é o sinistro Conde Olaf (interpretado pelo Neil Patrick Harris!, lágrimas de alegria!), que os persegue incansavelmente, com o propósito de lhes sacar a fortuna herdada. Estou em pulguinhas, de joelhos e mãos postas rezando ao santinho protector das adaptações para que não saia uma coisa tão rofenhé como o Preacher (vi o primeiro episódio, não vejo mais, lamento; a vida é curta e tenho muito chão para passar a pano).