quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A Birra da Semana

Hoje tive o grato prazer de assistir à cativante cena que consistiu em um ciquelista a) passar um vermelho; b) acto contínuo, não parar numa passadeira, onde dois piquenos cidadãos se preparavam para atravessar a estrada.

Esmiuçando:
a) o vermelho estava mesmo muito vermelhão, só um daltónico não o perceberia e, ainda assim, não serve de desculpa, que todos sabem que o vermelho é a primeira luzinha a contar de cima. e a minha certeza de que estava vermelho-vermelho prende-se com o facto de se tratar de um entroncamento, e a minha luz estar definitivamente verde.
b) a passadeira em causa i) está pintadinha de fresco no chão (benditas eleições autárquicas); ii) elevada por uma lomba; iii) como se isto não bastasse - e bastaria - a permissão de atravessamento é assinalada por um semáforo, que estava verde, verdão para peões; iv) está em frente a uma escola; v) quem se preparava para atravessar eram dois garotos não tão pequenitos assim, viam-se bem; vi) já tinham ambos o pé na estrada, e o ciquelista passou-lhes bem rente, sem parar - já tinha dito - nem tampouco abrandar, e após nem sequer levantou uma mãozinha para pedir desculpa.

Esta foi só a última, e se me irritou imenso foi porque podia ter magoado duas crianças que, ao contrário do animal ciclotransportado, conhecem, respeitam, e decerto confiam que os demais também, as regras do código da estrada.

Já perdi conta a sustos com biciclistas em contra-mão; a atravessar em passadeiras com marcação só para peões - sim, há umas que têm marcação para ciclistas, e portanto estes podem atravessá-las ciclando, mas nessas o automobilista vai avisado pela dita marcação - montadinhos na rodinhas e em boa velocidade; a passar vermelhos; a não respeitar a prioridade geral ou sinalização vertical em entroncamentos e cruzamentos. Também já levei com a minha dose de palerminhas a circular na via, em locais onde têm à disposição ciclovia - e eu sei que podem, mas não deviam poder, e aliás o bom senso até desaconselharia, mas quem sou eu, se acham graça a empatar o trânsito todo e correr riscos desnecessários, força.

Eu sei que os ciquelistas são uns desgraçadinhos, coitadinhos, tão desrespeitadinhos, ninguém os ama, e sei porque, tal como os vegan, não perdem uma oportunidade para falar do seu modo de vida e opressão de que são vítimas. Também já vi cenas em que automobilistas puseram em risco estes legítimos frequentadores da via pública - embora sejam mais as situações de risco para motociclistas que já vi. Sou 100% a favor do uso de bicicleta como meio de transporte, e é com muito agrado que venho assistindo ao transformar da minha cidade num local ciclo-aprazível. Meia dúzia de idiotas não me farão mudar esta opinião. Mas, o que me chateia, me indispõe a pontos de hoje de manhã ter tido vontade de passar um a ferro, e ainda sair do carro e espancá-lo com a manivela do macaco, é que a par dos muiiitos direitos que foram reconhecidos aos ciquelistas, haja uma correspondência ali a roçar o zero ao nível da responsabilidade e, tantas vezes, sentido cívico. Obrigatoriedade de seguro? Népia. Exame de código? Nicles. Obrigação de capacete? Ess'agora.

E seria importante, digo eu. Código, nem se fala: se andam ali na estrada, têm de atestar saber de cor a meretriz da sinalização e rameiras das regras. Seguro: de vida ao menos. Fora de brincadeira, se apanho com um bestão destes em contra-mão e me amolga o carro, cuméquié? E se o paspalho de hoje aviasse um dos garotos, hein? Capacete: pá. Senso comum. Ainda assim, e se este não abundar, evita que, no caso da contra-mão, por exemplo, eu não tenha de viver com a imagem de um crânio esborrachado no asfalto ou no capot gravada para sempre na minha memória. Civismo: nem é preciso explicar. Eu sei que em termos de conduta cívica na estrada os automobilistas ainda ocupam o pódio todo, mas caneco, ainda há quem pare nas passadeiras e respeite as regras, e espere que os outros também o façam. E o facto de haver mais meliantes dentro de um caixote com rodas não desculpa a eventual conduta delinquente dos duas-rodas.

E pronto, é só isto.


20 comentários:

  1. Já não posso com a mentalidade ciclista que se comporta como peão quando lhe convém, como automobilista quando lhe é conveniente e como anormal sempre. Há um tipo de ciclistas que não respeitam nenhuma regra. Aqui há tempos na marginal, à saída de Cascais, eu ia na rotunda, entrou um e atravessou-se à minha frente, depois seguiu e passou o sinal encarnado, como os da esquerda avançaram, galgou o passeio, duas pessoas tiveram de se desviar e lá foi ele na boa. Juro, fiquei pasma. Uma outra vez ia a entrar numa rua de sentido único e vinha um em sentido contrário. Aqui para os meus lados está a tornar-se um inferno.

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    1. Na minha zona, como há muitas ruas de sentido único, a situação da contra-mão está a tornar-se preocupante. Suas excelências devem achar que é um gasto anormal de pernas fazer o caminho de lei, e zuca, cortam pela rua que lhes dá mais jeito. Não pode ser. Eu até circulo devagar, mas um dia não consigo parar e acontece uma desgraça.

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  2. Concordo e posso dizer que tive uma situação complicada há uns 10 anos atrás.

    Um menos (devia ter 11/12 anos) vindo de um beco (completamente fora do meu campo de visão) veio bater no meu carro (em andamento, mas a 20 a hora...).

    Fiquei com o vidro e o capot onde ele batei com a bicicleta em mísero estado e qiando tentei falar com os encarregados de educação (salientar que chamei logo ambulância, etc) ainda me ameaçaram que "arranjavam" testemunhas de que eu ia depressa e que não pagavam nada.

    O menor estava a 15kms da localidade onde vivia, a sair disparado de um beco com pouca visibilidade e nem parou... (nem vou comentar que não teria prioridade)...

    Sinceramente cada vez me chateia mais os casos que referiste e todos os outros.Então quando vejo os ciclistas nos passeios fico possessa.

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    1. Bolas, grande susto! E prejuízo. Esses pais deviam era ter juízo, que diabo.
      Há um grande mito de que os automobilistas é que causam os acidentes e atropelamentos, mas eu gostava de ver as coisas estudadas e tratadas como deve ser. No caso de atropelamentos, existe a convicção de que o peão pode atravessar onde entende, e o condutor é sempre culpado (a minha mãe tem carta há mais de 40 anos e acredita nisto), mas não é verdade. Os peões também têm deveres de conduta. O que não quer dizer que o condutor não tenha o dever de circular a uma velocidade adequada a parar - não pode é contar que determinada pessoa se vai atirar à estrada de qualquer maneira.
      Ciclistas no passeio é coisa para me atirar à loucura.

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  3. Ciclistas no passeio que tentam expulsar quem nele anda. Ciclistas no passeio que se esquecem de apitar, etc. :/

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    1. Filipa, isso é inadmissível: é veículo, não pode andar no passeio. Bicicletas no passeio só com o coisinho desmontado, e a carregá-las à mão.

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    2. É o que mais vejo e ainda protestam quando lhes dizemos que estão errados...e esperam que sejamos nós a desviar-nos :/.

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    3. Por acaso nunca vi, mas é coisa para me irritar sobremaneira

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  4. Eu já fui atropelada por um ciclista no passeio mesmo aqui em frente ao escritório. Felizmente não foi nada sério, mas ainda assim doeu. Fui abalroada pelas costas quando me aproximava da borda do passeio para atravessar na passadeira. E quando reagi (mal, chamei-lhe nomes...) o animal ainda disse: "Então mas você mudou de direção de repente, não tive tempo de travar!". E eu, já mais refeita, disse-lhe: "Pois, esqueci-me de dar o pisca... vá pró cara%&$, pá!"
    E outra coisa que me irrita é andarem em ruas pedonais. Ainda ontem, caraças, lá vinham três deles, a par, pela rua acima, na boa.
    Dulce / Porto

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    1. Dulce, lá está, um exame de código era o que faltava. Esse camelo estava mesmo convicto de que podia fazer isso, e não pode, ó caraças. O passeio é dos peões, ponto final.

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  5. Sim sim sim. Parece-me que querem o melhor dos dois mundos, direitos dos peões e dos automobilistas e não pode ser. Quantas vezes os vejo a passar direitinhos da estrada (quando está trânsito) para o passeio e não pode ser. Passadeiras idem. Se fizerem o percurso dos peões têm de meter os pézinhos no chão e ir com a bicicleta ao lado. Eu sei que são vulneráveis mas caramba, mais vulneráveis são os peões.

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    1. Os peões são não só os mais vulneráveis como os mais esquecidos, sempre. E dá dó ouvir o discurso do desgraçadinho dos ciclistas, e depois vê-los a praticar manobras que podem magoar a sério peões.

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  6. Eu sou vegan, não tenho o hábito de falar nisso em lado nenhum a não ser que me perguntem directamente, ainda menos tenho o hábito de me vitimizar! Serei uma poser? Só dúvidas...

    Em relação aos ciclistas tem razão, alguns não respeitam os seus deveres mas acham que têm todos os direitos do mundo. E eu, que agora até tenho um filho com a mania que é ciclista, ando fartinha de o avisar que nem a tenra idade vai servir de desculpa se o vir a fazer figurinhas destas. Ironia das ironias, chegou a casa há uns dias a queixar-se de que a ciclo-via estava infestada de pessoas a passear a pé, porque pelos vistos já que é nova (pois, as eleições...) é para se experimentar que os passeio são coisas obsoletas e estavam vazios. Foi ele para lá! Concluindo, gente parva há em todas as "facções", é só procurar.

    Ana

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    1. Ana, entretanto, já nos disse que é vegan ;)

      Anyhoo, concordo que a ciclovia não é para peões. Mas. Há situações em que o peão andar na ciclovia é um acto de desobediência civil, e eu, desculpinhas, pratico-o. Dou um exemplo: já dei com uma situação em que a ciclovia ocupa mais de metade do passeio, e foi colocada do lado de dentro do mesmo. Para os peões ficou reservada a) a parte exterior e mais estreita do passeio; b) onde o peão ainda tem de contornar candeeiros; c) numa via com muito trânsito e onde este se faz a alguma velocidade; d)ah, a largura do passeio não dá para uma pessoa levar um filho pela mão, ou um carrinho de bebé sem empancar nos obstáculos/candeeiros. Aqui, peço desculpas, mas não sou menos que as bicicrétes.
      É que eu sou assim um bocadinho fascista nisto do planeamento urbano: mesmo andando de carro todos os dias, acho que o peão é a peça central, sempre.

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    2. Porque a Issie falou disso, não porque simplesmente me apeteceu falar do assunto, e não tentei doutrinar ninguém, muito menos fazer-me de vítima. Simplesmente disse aquilo que sou, tal como, por exemplo, já aqui disse antes que tenho uma gata, num dos seus posts sobre os seus gatos. Não foi fora de contexto.

      Não foi o caso da ciclovia de cá, tiraram foi espaço à estrada (mas a ciclovia não cobre a cidade toda, só as partes envolventes ao complexo desportivo e ao parque da cidade), as pessoas é que quiseram mesmo experimentar a novidade, como se andar sobre cimento pintado de vermelho fosse muito diferente...

      AnaC

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    3. Pronto, eu não queria chatear ninguém! Nada contra o veganismo (o princípio da coisa é lindo, que é, mas eu não consigo. como diz me mate, se tivéssemos um porquinho como animal de companhia, lá se ia o gosto pelo bacon. pronto, somos hipócritas). Ficamos assim, boa? ;)

      Por cá as pessoas andam na ciclovia porque é mais meiga para os pés que a calçada. E no inverno, com chuva, não escorrega... mas não pode ser, e é até perigoso. Mas o município aprendeu alguma coisa, e agora, nas avenidas novas, além de ciclovia e passeio de calçada, há uma faixa de caminhada em placas de betão. E bingo, as pessoas usam-na mais que à calçada! E a ciclovia está separada do passeio, logo, sem misturas. Funciona melhor.
      O que não funciona melhor é o facto de já ter visto camionetas de entregas paradas de viés, em cima da ciclovia. Isso dá-me cá uns calores...

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  7. Só para que conste:
    https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/sep/18/cyclist-charlie-alliston-jailed-for-18-months-over-death-of-pedestrian?CMP=fb_gu

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    1. Sim, um ciclista pode matar um peão :/ coitada da senhora

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  8. Este assunto tem dado pano para mangas lá na ilha, fala-se inclusivé em mudar a legislação. Estas situações são raras, I know, mas a avaliar pela educação do nacional pessoal ciclequeteiro, não estamos livres que tal aconteça no jardim à beira mar plantado. Tenho para mim, que se tal acontecer, a culpa morre solteira num ápice. :(

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    1. Li a notícia até ao fim, e neste caso o ciclista era uma pessoa, no mínimo, muito mal formada. Infelizmente há muitos condutores assim, já me aconteceram encontros cá com cada besta. Há muita falta de atenção ao peão.

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