Na sexta-feira um taxista mandou-me ir coser meias. Rectifico: na sexta-feira, um excelentíssimo cidadão do sexo masculino que ganha a vida conduzindo automóveis e transportando passageiros, entendeu por bem educar-me quanto ao meu papel social, que é o de ser recatada e do lar, em vez de andar a maçar excelentíssimos cidadãos, mormente do sexo masculino, e ainda por cima condutores profissionais, com a minha presença na estrada e, pasme-se, ao volante de uma viatura, e, infame crime, que me pertence e paguei com o fruto do meu trabalho.
A coisa enquadra-se e conta-se em duas penadas, embora o desfecho até o dispensasse. Poderia até ter andado aos zigue-zagues à frente do indivíduo, que era escusada a reacção, bem como o crescendo que levou a ela. Conto apenas por isso: o crescendo. Muitíssimo interessante.
Sucede que o município entendeu por bem (e mal) alterar os sentidos / obrigação de direcção ali numa zona onde sou obrigada a passar todos os dias. A intenção e concretização é bem notória para quem tem olhos na cara, visto que está pintadinha no pavimento a cor branca reflectora, e para quem anda de nariz no ar o semáforo não deixa enganar. Ora o espertalhuço do condutor profissional ou não reparou (e só nisso seria de censurar - aqui a distraída mor deu por ela logo no primeiro dia) ou não quis reparar (pior ainda) que havia uma obrigação de virar à esquerda para quem seguia naquela via. Se calhar sou injusta, e tratava-se apenas de uma objecção ideológica; no entanto, facilmente contornável, bastaria que seguisse na via correcta, mais à direita, a saber, a minha. Onde entraria muito lá atrás. Se calhar sou de novo injusta: devia estar com pressa para qualquer compromisso importantérrimo, e é sabido que a Convenção Nacional de Palermas não se compadece e marca falta a retardatários. Ora a abécula seguia pela via mais à esquerda, não virou para a dita direcção, seguiu em frente. Transgressão um: não respeitou direcção obrigatória. Transgressão dois: avançou com o semáforo que regula o trânsito da via onde seguia já mudado para vermelho. Transgressão três: sem accionar pisca, começa a fuçar para a minha faixa. Apitei-lhe, não só num propósito pedagógico de o alertar para o princípio de Arquimedes, mas também para que não tivesse dúvidas que à minha frente não enfiava.
E aqui começa o enredo: respondeu-me com uma salva de tiros de buzina. Acontece de seguida que ficamos parados, lado a lado, já do outro lado do cruzamento, e noto que Sua Excelência asinina está deveras incomodado, e grita que nem possesso dentro de sua viatura. O trânsito demora, e o Senhor Duque da Porcalhota baixa o vidro. Eu, que até então me limitara a reagir como sempre - cara repreendedora e abanando em silencioso "ai, ai!", não sei que me deu. Passei-me. Deu-me uma coisinha. Saltou-me a tampa. 'Tão o caralhete é que atropela umas quantas regras do código, e ainda se acha no direito? Baixei o vidro, e fui imediatamente atingida por uma violência de "o qué que tu queres hã?" Tu. TU. O tipo tinha pouco mais que a minha idade, embora mais estragado - é natural, com tanto fel nas veias. Passei-me mais um bocadinho. Após o ter esclarecido que estava na faixa errada e tinha violado umas regrinhas do código da estrada, perguntei-lhe directamente se queria que chamasse a polícia. Na terceira pessoa do singular, que há quem tenha educação. Não posso assegurar, mas acho que até empreguei a palavra "senhor", porque when they go low, we go high, a minha mãezinha deve ser da mesma escola que Michelle Obama e criou-me assim. Mas ele continuou com o seu "o qué que TU queres", a que colou um "quem é que TE disse que eu não ia em frente" (naquela faixa de onde vinha não podia, adiante), e rematando com "CHAMA, CHAMA a polícia". Fervi, confesso que fervi. Esqueci a cartilha maternal de não se dar conversa a doidos, não se responder a malucos, e não engajar em conversas com machistas de merda. Há dias em que não dá. Há dias em que uma pessoa já acumulou que chegue durante a semana, e não está disposta a levar desaforo de um ser medíocre que calhou nascer com dois cromossomas diferentes e, por isso, já se considera mais capaz, mais competente, mais apto, mais elevado, e com moral para nos ensinar o nosso lugar. Há dias em que, num mundo que contínua e sistematicamente desvaloriza um grab'em by the pussy, uma pessoa enche de calar e comer. Respondi que fosse tirar a carta, e aí ele retornou, enquanto já avançava eu com o dedinho para o fecho do vidro, com a indicação de qual era o meu lugar. A coser meias. Que as cosa ele, eu nem por isso, que não preciso: tomo conta da minha pedi-higiene e não tenho unhacas nojentas a furar tecidos. Já com o vidro a subir, o trânsito a começar a andar, ainda lhe larguei um "Sois uns ordinários, e é por isso que a Uber vai acabar convosco, graças a Deus."
Inspira. Expira.
Eu sei, eu sei, dou o corpo às balas. Fui culpada do crime de generalização. E de invocar o nome do senhor em vão, 'inda por cima sendo ateia. Mas convenhamos. Se um coiso tem o à-vontade para fazer uma cena destas, se um gabiru se acha no direito de falar assim com uma completa estranha, só porque o afrontou com uma (aliás bem mandada) buzinadela, como posso eu sentir-me segura que não toparei com um gebo destes naqueles (já raros) dias em que saio à noite e opto por não levar o carro? Como posso estar descansada que um mono destes, ao ver uma mulher que, na sua mundivisão, já tinha era idade para ter juízo e marido e filhinhos e estar em casa a tomar conta deles, designadamente cosendo meias, não se ache autorizado seja para o que for?
E se este fosse o primeiro. Recordo sem saudade aqueloutro que, a uma buzinadela por estar parado numa a) passadeira; b) numa subida em curva sem visibilidade; c) a bloquear a visibilidade e manobralidade de quem queria entrar num entroncamento; me saudou com um pirete e algo que me soou com "puta que te pariu". Relevei esta. Não generalizei as tristes cenas da greve / manifestação no aeroporto. Mas é a tal coisa da gota de água.
Epá, não. Uberizei-me.
(poupem-me comentários do tipo ai o meu pai é taxista há trinta anos e um senhor muito respeitável e coiso. sabem lá o que eles andam a fazer quando ninguém vê. o Pedro Dias, também diz que era um rapaz muito educado e respeitador.)