Já marquei na agenda do telemóvel a nova data do Nick Cave. Agora é cruzar os dedos para que o Cleese marque nova data, e não se limite a cancelar. Perdi a esperança de em Julho haver condições para um concerto de estádio, mas não perdi a esperança que os Iron Maiden (também) remarquem. É a esperança das pequenas (grandes, grandes!) alegrias, ainda que adiadas, que também nos segura.
Me mate entra em férias hoje e eu estou yay!, nada nay! OK, é um teste estarmos 24/24 na mesma casa, mas há espaço para todos, e temos ambos uma claríssima noção de que a) primeiro que tudo, respeitar e pagear gatinhos; b) respeitar o espaço um do outro e os respectivos me time; c) o aspirador quando nasce é para todos, e havendo um total de quatro bracinhos os quatro bracinhos limpam, passam, asseiam; d) a promessa de um filme por dia é sagrada; e) dou dois dias para estarmos a almoçar às quatro da tarde e a lanchar ao jantar; f) whatevs, já não vou ficar sozinha o dia todo, yay.
Continua a custar-me muito trabalhar em casa, levo o dobro do tempo a concentrar-me, a pensar e a fazer. Nunca pensei ter saudades da chafarica laboral, mas tenho.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Irritações covidianas
Aquelas pessoas que vão para as redes sociais queixar-se da quantidade (absurda!, anormal!, inconsciente!) de pessoas que andam na rua, documentar com foto, deixando ainda mais claro que também elas estavam na rua.
[ah, mas ó Izzie, eu tinha uma justificação válida. pois, pois. às tantas, também os outros.]
[ah, mas ó Izzie, eu tinha uma justificação válida. pois, pois. às tantas, também os outros.]
quinta-feira, 2 de abril de 2020
Everyday is like sunday
E agora vinha aqui fazer beicinho e birrinha de ai que chatice estar em casa, mas não, lamento, checked my privilege e tenho tudo o que preciso (menos chocolate, está a acabar. vinho também. a tragédia, o horror, vou tentar manter a serenidade). Não caem bombas lá fora, o ordenado cai por inteiro, eu gosto mesmo de mi casita, e dispenso a (maior parte da) interacção social. Descobri entretanto que sou como os cãezinhos e me faz muita falta ir dar uma volta à rua, mas varanda. Agora não, que está frio, mas varanda. Donde, 'tá-se, pelo menos por aqui.
O que não implica que admita algumas dificuldades. A ansiedade está controlada, mas houve dois dias que exigiram um esforço extra. A deprê é o pior (passei três dias seguidos em que fiz nada, nenhum, nestum, para além de ter o rabo colado ao sofá e a tv ligada), mas eu já cheguei a um nível avançado, sei a) reconhecer; b) perceber que em grande parte é reactiva, derivado de situações; c) dar-me tempo; d) ser generosa e paciente comigo; e) estratégias para reagir, sempre considerando as alineas c) e d).
Tirando a parte psicopatológica da coisa (it is what it is), a coisa faz-se. Não obstante e apesar de
- custar-me imenso não ver a minha mãe (o meu irmão, os meus sobrinhos) desde o funeral, mas we'll always have tufone;
- me mate continua a trabalhar presencialmente lá no bordel onde ganha o tostão; como não conduz eu saio duas vezes por dia (ooohhhhhhhhhh) para o levar e trazer, o que também me obriga a manter uma rotina (que a minha velha amiga neurose se empenha em destabilizar);
- só de pensar nas filas (aawwwwww) cada vez tenho menos vontade de ir às compras, mas também é menos que se gasta em porcarias;
[falando em compras, a situação mêmo, mêmo crítica não se prende com chocolate e vinho, mas com os biscoitos dos gatos. estão a acabar, e temo uma sublevação que faça da revolução francesa uma brincadeira de carnaval. e aqui a estúpida esqueceu-se deste pormenor quando mandou vir cerca de meia tonelada de areia da zooplus.]
- o home vai ter de cortar o cabelo e aparar a barba em casa, e isto roça a tragédia porque está em causa um exemplar que tem por hábito ir ao barbeiro de três em três semanas e eu já não o posso ouvir [a menina cheia de raízes e a menina, estóica, não bule, não bulha, não bufa], mas chegou hoje a encomenda de máquina de corte, haja piedade;
- esta casa precisa mesmo, mesmo, mesmo de ser aspirada com frequência, isto de quatro gatos é muito giro mas apre;
- continuo a ter imensa dificuldade em me concentrar e trabalhar em casa mas, felizmente, também não tenho muito para fazer, graças à falta de entradas e solicitações derivado da (quase) ausência de fregueses; assim se mantenha, mas o depois é que vai ser, credos, penso nisso depois;
- agora que era uma óptima oportunidade para fazer umas senhoras arrumações e me livrar de monos é que a Câmara limita a recolha de lixo; eu percebo, sou empática, o pessoal da higiene urbana está muitíssimo exposto, ganha mal que se farta e ninguém lhes dá valor (pelo menos fora destas épocas de excepção), mas eu sou uma fã de longa data e, se mandasse, não levavam menos de mil líquidos para casa, mais subsídos;
- os cafés estão todos fechados, pelo que não há aquele magnum cor de rosa para ninguém, e isso aflige-me muito, do que me fui lembrar, já não consigo dormir hoje;
- eu cá não sou de intrigas nem de andar a fomentar feique nius, mas tenho p'ra mim que esta casa tem um poltergeist que se entretem a sujá-la, só isso explica que o casal residente faça a lida de ponta a ponta, com todo o brio, e no dia seguinte já esteja tudo com um ar apocilgado.
E depois há as partes muito, muito boas, tais como
- Parasitas é mesmo um grande filme, e ainda não percebo como levou o oscar, desconfio que muita gente lá nos states não tenha percebido bem, porque, pá, sejamos francos, um povo que premeia esta pérola mas ao mesmo tempo mantém intenções de eleger o Cheeto in Chief de novo, pá, não computa;
- ontem vimos uma chanfradice com o Vincent Price e a Diana Rigg que aconselho muitíssimo porque a) é uma chanfradice; b) Vincent Price; c) Diana Rigg; d) é uma farsa que ó, com uma estética brilhante, um tom e um over acting comoventes, Theatre of Blood, superb;
- praticamente não leio, mas não é de agora (tenho a meio um livro, aliás belíssimo e que estou a adorar, desde as últimas férias de verão), nem se explica depressa, mas como acho este estado de coisas uma tristeza, virei-me para a graphic novel e, chegando agora ao ponto, Blankets is a thing of beauty, e me aguardjem que tenho ainda o Habibi por encetar [não recomendo Sabrina, apesar de ser mesmo muito bom, porque para ter vontade de cortar os pulsos já basta o que basta];
- o quarto extra começa a ganhar forma e até já parece uma divisão normal, em vez da caverna tenebrosa que servia de depósito de livros, action figures, lego, ferramentas, DVD (sim a gente ainda usa disso, experimentem encontrar aí nos vossos streamings coisas omo aquela que citei ali acima, ou o Phantom of the Paradise, uma senhora maradice em formato musical que é um diamantezinho que ó) e outras cangalhadas de bricolage e DIY;
- não tenho metade do apetite que tinha antes disto começar, as calças ainda me servem, e até estou a comer melhorzinho. ahahahahah, comer melhorzinho. pois, ignorar esta parte, mas o resto é verdade. a sério, como é que se tem fome se um gajo não faz nadinha, para além da caminhada sala - cozinha -quarto- casa de banho? nem fome nem gula. [não conheço esta pessoa. não sei se a quero no meu inner circle].
O que não implica que admita algumas dificuldades. A ansiedade está controlada, mas houve dois dias que exigiram um esforço extra. A deprê é o pior (passei três dias seguidos em que fiz nada, nenhum, nestum, para além de ter o rabo colado ao sofá e a tv ligada), mas eu já cheguei a um nível avançado, sei a) reconhecer; b) perceber que em grande parte é reactiva, derivado de situações; c) dar-me tempo; d) ser generosa e paciente comigo; e) estratégias para reagir, sempre considerando as alineas c) e d).
Tirando a parte psicopatológica da coisa (it is what it is), a coisa faz-se. Não obstante e apesar de
- custar-me imenso não ver a minha mãe (o meu irmão, os meus sobrinhos) desde o funeral, mas we'll always have tufone;
- me mate continua a trabalhar presencialmente lá no bordel onde ganha o tostão; como não conduz eu saio duas vezes por dia (ooohhhhhhhhhh) para o levar e trazer, o que também me obriga a manter uma rotina (que a minha velha amiga neurose se empenha em destabilizar);
- só de pensar nas filas (aawwwwww) cada vez tenho menos vontade de ir às compras, mas também é menos que se gasta em porcarias;
[falando em compras, a situação mêmo, mêmo crítica não se prende com chocolate e vinho, mas com os biscoitos dos gatos. estão a acabar, e temo uma sublevação que faça da revolução francesa uma brincadeira de carnaval. e aqui a estúpida esqueceu-se deste pormenor quando mandou vir cerca de meia tonelada de areia da zooplus.]
- o home vai ter de cortar o cabelo e aparar a barba em casa, e isto roça a tragédia porque está em causa um exemplar que tem por hábito ir ao barbeiro de três em três semanas e eu já não o posso ouvir [a menina cheia de raízes e a menina, estóica, não bule, não bulha, não bufa], mas chegou hoje a encomenda de máquina de corte, haja piedade;
- esta casa precisa mesmo, mesmo, mesmo de ser aspirada com frequência, isto de quatro gatos é muito giro mas apre;
- continuo a ter imensa dificuldade em me concentrar e trabalhar em casa mas, felizmente, também não tenho muito para fazer, graças à falta de entradas e solicitações derivado da (quase) ausência de fregueses; assim se mantenha, mas o depois é que vai ser, credos, penso nisso depois;
- agora que era uma óptima oportunidade para fazer umas senhoras arrumações e me livrar de monos é que a Câmara limita a recolha de lixo; eu percebo, sou empática, o pessoal da higiene urbana está muitíssimo exposto, ganha mal que se farta e ninguém lhes dá valor (pelo menos fora destas épocas de excepção), mas eu sou uma fã de longa data e, se mandasse, não levavam menos de mil líquidos para casa, mais subsídos;
- os cafés estão todos fechados, pelo que não há aquele magnum cor de rosa para ninguém, e isso aflige-me muito, do que me fui lembrar, já não consigo dormir hoje;
- eu cá não sou de intrigas nem de andar a fomentar feique nius, mas tenho p'ra mim que esta casa tem um poltergeist que se entretem a sujá-la, só isso explica que o casal residente faça a lida de ponta a ponta, com todo o brio, e no dia seguinte já esteja tudo com um ar apocilgado.
E depois há as partes muito, muito boas, tais como
- Parasitas é mesmo um grande filme, e ainda não percebo como levou o oscar, desconfio que muita gente lá nos states não tenha percebido bem, porque, pá, sejamos francos, um povo que premeia esta pérola mas ao mesmo tempo mantém intenções de eleger o Cheeto in Chief de novo, pá, não computa;
- ontem vimos uma chanfradice com o Vincent Price e a Diana Rigg que aconselho muitíssimo porque a) é uma chanfradice; b) Vincent Price; c) Diana Rigg; d) é uma farsa que ó, com uma estética brilhante, um tom e um over acting comoventes, Theatre of Blood, superb;
- praticamente não leio, mas não é de agora (tenho a meio um livro, aliás belíssimo e que estou a adorar, desde as últimas férias de verão), nem se explica depressa, mas como acho este estado de coisas uma tristeza, virei-me para a graphic novel e, chegando agora ao ponto, Blankets is a thing of beauty, e me aguardjem que tenho ainda o Habibi por encetar [não recomendo Sabrina, apesar de ser mesmo muito bom, porque para ter vontade de cortar os pulsos já basta o que basta];
- o quarto extra começa a ganhar forma e até já parece uma divisão normal, em vez da caverna tenebrosa que servia de depósito de livros, action figures, lego, ferramentas, DVD (sim a gente ainda usa disso, experimentem encontrar aí nos vossos streamings coisas omo aquela que citei ali acima, ou o Phantom of the Paradise, uma senhora maradice em formato musical que é um diamantezinho que ó) e outras cangalhadas de bricolage e DIY;
- não tenho metade do apetite que tinha antes disto começar, as calças ainda me servem, e até estou a comer melhorzinho. ahahahahah, comer melhorzinho. pois, ignorar esta parte, mas o resto é verdade. a sério, como é que se tem fome se um gajo não faz nadinha, para além da caminhada sala - cozinha -quarto- casa de banho? nem fome nem gula. [não conheço esta pessoa. não sei se a quero no meu inner circle].
domingo, 29 de março de 2020
A princípio não é simples
Nas suas lições de bricolage, de que eu era diligente aprendiz, o meu pai sublinhava sempre as três principais regras: 1) Ler as instruções / fazer um plano; 2) Segurança, sempre cuidado com a segurança; 3) O material tem sempre razão. Ou seja, 1) não começar nada sem saber muito bem como funcionam ferramentas e materiais, e sem ter delineado os passos necessários para alcançar o resultado pretendido; 2) deriva da primeira, porque quem sabe como fincionam materiais e ferramentas já tem meia segurança assegurada, mas de qualquer maneira é fixe uns cuidaditos extra como desligar o berbequim da corrente quando se muda a broca, já nem falando de desliguar disjuntor ou quadro quando se mexe em cenas eléctricas, enfim, é planear; 3) se tudo correr mal, a culpa é nossa, e falhou alguma coisa no primeiro passo. Perante um cenário destes impõe-se um valente palavrão, e depois, como dizem os militares, reagrupar. Olhar para o bonito serviço que fizémos, voltar ao passo um, pensar, adaptar ou fazer um novo plano, minimizar o estrago.
Nunca falha. Eu sei, e posso afirmá-lo convictamente, porque já falhei imensas vezes. Pode parecer contraditório, mas é mesmo assim: quando tudo falha, se desmorona, ou nos rebenta na cara, é quando percebemos que aquelas regras são essenciais, que descuramos alguma delas em algum ponto, e que não voltaremos a fazer esse erro. Desde que, claro, se tenha assumido o passo da resolução que já adiantei: dado que o material tem sempre razão (dogma, não discutam), fomos nós que fizémos asneira, portanto, ou se tem uma reacção infantil de partir tudo à biqueirada, ou se é uma pessoa crescidinha e se analisa todo o processo para ver o que (nos) falhou e como podemos resolver a cagada sem grande prejuízo.
Isto tudo para dizer que, depois de uma semana muito difícil em que cu alapado no sofá e um pucatchinho de trabalho foi a definição do meu diário de isolamento, comecei a reagir, fui-me ao berbequim, caixa de parafusos e buchas, martelos, alicates, fita métrica e régua de nível (o meu nível laser não tem pilha, e não posso sair de casa à procura de uma. mas já me faltou mais, que o nível é também detector de canos e fios eléctricos, e preciso dele para fazer ali uns furos que me faltam numa parede onde não tenho a certeza a que altura passam os fios, tenho uma ideia, mas regra nº1 e nº2).
Já fiz cenas que tinha na to do list desde circa 2012. Umas correram muito bem, dei-me muitas palmadinhas nas costas. Outra correu bem mas deu luta, mais palmadinhas nas costas. Uma correu mal e, depois de mais que um palavrão, não demorei a perceber onde é que tinha feito asneira, já tenho novo plano que vou testar antes (foi o meu erro, devia ter testado), e já tenho remédio para os dois furos inúteis que vão deixar de o ser.
E melhor de tudo, senti-me bem. Muito bem. Bricolar é uma das minhas tarefas preferidas, ali quase a par e passo do lego de adultos que é montar móveis. É giro também constatar que tenho alguns dos tiques do meu pai: o de falar sozinha para um buraco acabado de fazer gabando-lhe a perfeição e redondez; virar-me para o Max, que me observa, e explicar-lhe o totoloto que é furar paredes numa casa com quase 90 anos, aqui calhou areia, com uma broca de quatro fez-se um furo de cinco (o pretendido, ver regra 1 e 3) e ainda sobrou (dica: palitos); quando alguma coisa corre extremamente bem ou extremamente mal, dizer um palavrão baixinho e, acto contínuo, virar-me para o assistentes (que antes era eu, agora, pelos vistos, é o Max) e dizer "tu não ouviste nada, hã".
Isto vai passar.
Isto vai correr bem.
[o seu corpo desistiu no dia 13 deste mês, e o meu pai é agora memória. e ela está em todo o lado, em inúmeros objetos mas também paredes que ainda pintou, quadros, suportes de cortinados, e candeeiros que pendurou. são muitas e boas memórias, e as melhores são as não corporizadas. estão sempre comigo e alegram-me, embora às vezes com lágrimas.]
Nunca falha. Eu sei, e posso afirmá-lo convictamente, porque já falhei imensas vezes. Pode parecer contraditório, mas é mesmo assim: quando tudo falha, se desmorona, ou nos rebenta na cara, é quando percebemos que aquelas regras são essenciais, que descuramos alguma delas em algum ponto, e que não voltaremos a fazer esse erro. Desde que, claro, se tenha assumido o passo da resolução que já adiantei: dado que o material tem sempre razão (dogma, não discutam), fomos nós que fizémos asneira, portanto, ou se tem uma reacção infantil de partir tudo à biqueirada, ou se é uma pessoa crescidinha e se analisa todo o processo para ver o que (nos) falhou e como podemos resolver a cagada sem grande prejuízo.
Isto tudo para dizer que, depois de uma semana muito difícil em que cu alapado no sofá e um pucatchinho de trabalho foi a definição do meu diário de isolamento, comecei a reagir, fui-me ao berbequim, caixa de parafusos e buchas, martelos, alicates, fita métrica e régua de nível (o meu nível laser não tem pilha, e não posso sair de casa à procura de uma. mas já me faltou mais, que o nível é também detector de canos e fios eléctricos, e preciso dele para fazer ali uns furos que me faltam numa parede onde não tenho a certeza a que altura passam os fios, tenho uma ideia, mas regra nº1 e nº2).
Já fiz cenas que tinha na to do list desde circa 2012. Umas correram muito bem, dei-me muitas palmadinhas nas costas. Outra correu bem mas deu luta, mais palmadinhas nas costas. Uma correu mal e, depois de mais que um palavrão, não demorei a perceber onde é que tinha feito asneira, já tenho novo plano que vou testar antes (foi o meu erro, devia ter testado), e já tenho remédio para os dois furos inúteis que vão deixar de o ser.
E melhor de tudo, senti-me bem. Muito bem. Bricolar é uma das minhas tarefas preferidas, ali quase a par e passo do lego de adultos que é montar móveis. É giro também constatar que tenho alguns dos tiques do meu pai: o de falar sozinha para um buraco acabado de fazer gabando-lhe a perfeição e redondez; virar-me para o Max, que me observa, e explicar-lhe o totoloto que é furar paredes numa casa com quase 90 anos, aqui calhou areia, com uma broca de quatro fez-se um furo de cinco (o pretendido, ver regra 1 e 3) e ainda sobrou (dica: palitos); quando alguma coisa corre extremamente bem ou extremamente mal, dizer um palavrão baixinho e, acto contínuo, virar-me para o assistentes (que antes era eu, agora, pelos vistos, é o Max) e dizer "tu não ouviste nada, hã".
Isto vai passar.
Isto vai correr bem.
[o seu corpo desistiu no dia 13 deste mês, e o meu pai é agora memória. e ela está em todo o lado, em inúmeros objetos mas também paredes que ainda pintou, quadros, suportes de cortinados, e candeeiros que pendurou. são muitas e boas memórias, e as melhores são as não corporizadas. estão sempre comigo e alegram-me, embora às vezes com lágrimas.]
quinta-feira, 19 de março de 2020
quinta-feira, 12 de março de 2020
Do the Right Thing (2)
Estou oficialmente liberada para teletrabalhar. Na verdade já podia, mas não todos ou quase todos os dias, e além disso odeio teletrabalhar. Se é para sofrer, que não seja em casa, dá muito mau ambiente ao nosso sagrado refúgio.
Mas mais que poder, tem de ser. E vai ser. Silver linings: tenho muito furo para abrir em paredes, pode ser que agora vá. E há chocolate.
Os meus sobrinhos continuam a ter aulas (aaarrrrghhh!, e não digo mais nada), mas na eventualidade de serem fechadas as respectivas escolas estou disponível para coordenadora de ATL de um adolescente e um pré. Andar na rua é que nem pensar, ficam a aturar a chata da tia, a ver um filme, a receber uma formaçãozinha em bricolage, jardinagem, passar o chão a pano, super a favor de trabalho infantil familiar. Induca.
Me mate, assalariado de uma empresa hipercapitalista e, nem por acaso, bastante rentável, que nem se dignou a forjar um plano de contingência a não ser para os top-chefes, que presta zero informação aos trabalhadores além de uns lamirés no mínimo insultuosos, tal é a falta de respeito pela sua saúde e bem-estar de quem ali trabalha, nem falando dos fregueses com quem contactam, continua a laborar fora. Vai ter serviço de transporte porta a porta por uber-eu, apesar dos seus protestos, porque somos uma família e tem quatro felinos para criar.
Falando de felinos, temos quinze quilos de ração e trinta de areia, acho que sobrevivemos todos.
Se alguém, porventura, acha isto alarmista ou palerma, ponderai que alguém pode ter um pai com mais de 75 anos, diabético, com insuficiência cardíaca e respiratória, e que, azar dos Távoras, está neste preciso momento internado com uma pneumonia. É por essas e tantas outras pessoas vulneráveis que o fazemos. A umas conhecemos os nomes e temos afectos, a outras não mas isso não interessa nada. Somos todos por todos.
E por amor da santinha, ou acabam com o fetiche de acumular papel higiénico ou me explicam o racional da coisa, porque, que eu saiba, a epal não vai cortar fornecimento, vamos todos sobreviver, e limpinhos.
quarta-feira, 11 de março de 2020
Do the Right Thing (1)
Ou valha-me a Nossa Senhora dos Aflitos, que ontem o home começou com espirradeira e tossidela, arrepios de frio, dores nas articulações. Já nos constipámos ambos (primeiro ele, depois eu, um viva ao casamento com comunhão de vírus), pelo que estar outra vez na mesma é um bocado chato. Só que a constipação inicial ocorreu antes de cá chegar o bitcho mau covid de sua graça, e esta aparece numa péssima altura.
Vai daí, reunido o conselho familiar de dois, discutimos se era caso para alarme, ou se aguardava. Ele não queria estar a ligar para o saúde 24 e fazer figura de idiota alarmista. Eu, ainda que achando que não era caso para preocupação, apelei ao civismo, liga-se e eles é que sabem. Até porque me mate tem uma maior exposição a 'ssoas que eu, e no xervixo dele não há qualquer plano, zero instruções sobre o que fazer. Já eu, aqui na xafarica do tão mal visto e vilipendiado sector público, estou sempre a receber actualizações por email sobre procedimentos, há um plano exaustivo e sei o que fazer caso tenha qualquer suspeita de contágio.
Anyhoo, me mate lá cede e vai ligar. Eu espero. E espero. Natural, a linha deve estar apinhada. Continuo à espera. Ouço-o a falar (finalmente!) e, de repente, palavrões, vou ver, iam passar a chamada para alguém e a linha caiu. Mate volta a ligar. Mais tempo. Não contei, mas cerca de 20 minutos, no mínimo, para ser atendido, de cada vez. Explica-se de novo, vão passar a chamada, e esta cai.
Pá, não há condições. Já era hora do ó-ó, os senhores ficaram com todos os dados dele, se acharem que é caso disso que liguem de volta. Hoje viemos ambos trabalhar, aconselhei-o a dizer ao superior hierárquico como estava e este que decidisse, assim já ninguém o pode acusar de ser uma Typhoid Mary. Ligou-me há pouco: cagaram.
Sim senhora, assim seja.
Considero cumprido o nosso dever cívico, mas não me venham cá com coisas que estamos preparadíssimos.
[não, não sou - mesmo nada - histérica ou alarmista, mas estar a desvalorizar qualquer possibilidade de contágio não é sério nem é responsável. verdade que ele não tem febre nem dificuldade em respirar, mas já foi divulgado que há formas leves de manifestação, sei lá eu. e sucede que tenho três familiares com elevado risco - doenças respiratórias crónicas, sendo que no caso do meu pai acumula diabetes e insuficiência cardíaca - e era muito simpático poder ficar sossegada, e não estar a preocupar-me que os vou matar ou coise. e não, não faço questão de ficar de quarentena - se ele fica, eu também tenho de ficar, né - porque isso implica um verdadeiro pesadelo logístico, dado que nem mamãe nos poderia vir trazer uma sopinha. oh well. ao menos temos papel higiénico. comida nem por isso, mas haja papel higiénico, não é?]
Vai daí, reunido o conselho familiar de dois, discutimos se era caso para alarme, ou se aguardava. Ele não queria estar a ligar para o saúde 24 e fazer figura de idiota alarmista. Eu, ainda que achando que não era caso para preocupação, apelei ao civismo, liga-se e eles é que sabem. Até porque me mate tem uma maior exposição a 'ssoas que eu, e no xervixo dele não há qualquer plano, zero instruções sobre o que fazer. Já eu, aqui na xafarica do tão mal visto e vilipendiado sector público, estou sempre a receber actualizações por email sobre procedimentos, há um plano exaustivo e sei o que fazer caso tenha qualquer suspeita de contágio.
Anyhoo, me mate lá cede e vai ligar. Eu espero. E espero. Natural, a linha deve estar apinhada. Continuo à espera. Ouço-o a falar (finalmente!) e, de repente, palavrões, vou ver, iam passar a chamada para alguém e a linha caiu. Mate volta a ligar. Mais tempo. Não contei, mas cerca de 20 minutos, no mínimo, para ser atendido, de cada vez. Explica-se de novo, vão passar a chamada, e esta cai.
Pá, não há condições. Já era hora do ó-ó, os senhores ficaram com todos os dados dele, se acharem que é caso disso que liguem de volta. Hoje viemos ambos trabalhar, aconselhei-o a dizer ao superior hierárquico como estava e este que decidisse, assim já ninguém o pode acusar de ser uma Typhoid Mary. Ligou-me há pouco: cagaram.
Sim senhora, assim seja.
Considero cumprido o nosso dever cívico, mas não me venham cá com coisas que estamos preparadíssimos.
[não, não sou - mesmo nada - histérica ou alarmista, mas estar a desvalorizar qualquer possibilidade de contágio não é sério nem é responsável. verdade que ele não tem febre nem dificuldade em respirar, mas já foi divulgado que há formas leves de manifestação, sei lá eu. e sucede que tenho três familiares com elevado risco - doenças respiratórias crónicas, sendo que no caso do meu pai acumula diabetes e insuficiência cardíaca - e era muito simpático poder ficar sossegada, e não estar a preocupar-me que os vou matar ou coise. e não, não faço questão de ficar de quarentena - se ele fica, eu também tenho de ficar, né - porque isso implica um verdadeiro pesadelo logístico, dado que nem mamãe nos poderia vir trazer uma sopinha. oh well. ao menos temos papel higiénico. comida nem por isso, mas haja papel higiénico, não é?]
sexta-feira, 6 de março de 2020
Palavra da Senhora
Vinde, vinde a mim, pequenitas e bondosas almas sequiosas de conhecimento, que titi Izzie tem algo mui premente, mui gigante para partilhar.
Adivinho uma certa estranheza, e até suspeita, ó minha estrúspida, tu não estavas aí atada pelo pé numa caverna a escavar um túnel para não sei onde e tinhas até anteontem para o terminar?, qué lá isso de agora apareceres aqui cheia de urgências comunicativas? Titi explica, titi apazigua: pobre titi Izzie, essa assalariada oprimida e torturada pelas exigências de uma sociedade individualista, insensível, e indiferente, de facto está há coisa de um mês a pão e auga, amarrada por correntes a uma empresa quasi impossível e um prazo desumano. Mas titi Izzie prevalecerá, titi Izzie já passou a fase inicial do ohraisparta isto é impossível eu vou falhar porque sou uma falhada eu vou morrer porque não aguento eu vou desistir porque não consigo; passou para a etapa do enaenaena já a meio só mais um bocadinho vá, upa upa arriba; seguiu para o túnel - sem uaifai! - do ohquecaraças que o quase no fim é o pior eu vou mazé falecer na praia encravei isto não há meio de de acabar deem-me um tiro por caridade e aprovem lá a eutanásia que é a minha única esperança de uma morte digna; e está agora nos finalmentes, a aproveitar a energia desta espécie de melhoras da morte, e confiante que domingo termina esta porra nojenta, esta caca fedorenta, esta gigantesca e pulsante chaga, esta pústula agoniante, e segunda chegará ao lugar infecto onde passa horas a ganhar a vida de costas direitas, olhar triunfante, cabeça erguida, e também olheiras até ao joelho, ojolhos raiados, uma espécie de vazio cerebral, e um fio de baba a escorrer pelo canto da boca, entregará a encomendinha, e dirá qualquer coisa memorável como está feito, que vini, vidi, vici já foi usado por outrem e, na verdade, é um bocado mentira.
Explicado isto e, espero eu, conseguida uma quantidade mui apreciável de simpatia e comiseração pela minha lamentável e atormentada pessoa, passemos à boa nova que me faz suspender a minha laboriosa actividade.
Ahééém.
A máquina de cortar pão do Lidl. Eu repito, devagarinho. A. Máquina. De. Cortar. Pão. Do. Lidl.
[pausa dramática]
Quem conhece já está aí desse lado fremente, aos pulinhos de excitação infantil - espero.
Quem não conhece, é correr - correide, correide! - ao Lidl mais próximo e ficar de mãos postas perante tal portento.
Ó pá. Óóóóó pááááá. A minha semana não é bem sucedida se não for, pelo menos uma vez, comprar pão ao Lidl e fatiá-lo na dita máquina. É um milagre da téquenologia, é uma maravilha do engenho humano, é um mash up da bricolage e panificação, pura arte do quotidiano, um bálsamo para alma ver aquela lâmina potente, possante, poderosa a transformar um pãozão em fatias fininhas - ou mais grossas, no caso da broa, sim, esta máquina corta broa na per-fei-ção, sem esboroar - é, de facto, aquela máquina de que falavam os profetas, o princípio e o fim das coisas, o instrumento que traz sentido à vida, o elemento primordial da existência.
Acalmem-me, por favor: digam-me que não estou sozinha neste êxtase.
Ou então indiquem-me um bom grupo de auto-ajuda.
Adivinho uma certa estranheza, e até suspeita, ó minha estrúspida, tu não estavas aí atada pelo pé numa caverna a escavar um túnel para não sei onde e tinhas até anteontem para o terminar?, qué lá isso de agora apareceres aqui cheia de urgências comunicativas? Titi explica, titi apazigua: pobre titi Izzie, essa assalariada oprimida e torturada pelas exigências de uma sociedade individualista, insensível, e indiferente, de facto está há coisa de um mês a pão e auga, amarrada por correntes a uma empresa quasi impossível e um prazo desumano. Mas titi Izzie prevalecerá, titi Izzie já passou a fase inicial do ohraisparta isto é impossível eu vou falhar porque sou uma falhada eu vou morrer porque não aguento eu vou desistir porque não consigo; passou para a etapa do enaenaena já a meio só mais um bocadinho vá, upa upa arriba; seguiu para o túnel - sem uaifai! - do ohquecaraças que o quase no fim é o pior eu vou mazé falecer na praia encravei isto não há meio de de acabar deem-me um tiro por caridade e aprovem lá a eutanásia que é a minha única esperança de uma morte digna; e está agora nos finalmentes, a aproveitar a energia desta espécie de melhoras da morte, e confiante que domingo termina esta porra nojenta, esta caca fedorenta, esta gigantesca e pulsante chaga, esta pústula agoniante, e segunda chegará ao lugar infecto onde passa horas a ganhar a vida de costas direitas, olhar triunfante, cabeça erguida, e também olheiras até ao joelho, ojolhos raiados, uma espécie de vazio cerebral, e um fio de baba a escorrer pelo canto da boca, entregará a encomendinha, e dirá qualquer coisa memorável como está feito, que vini, vidi, vici já foi usado por outrem e, na verdade, é um bocado mentira.
Explicado isto e, espero eu, conseguida uma quantidade mui apreciável de simpatia e comiseração pela minha lamentável e atormentada pessoa, passemos à boa nova que me faz suspender a minha laboriosa actividade.
Ahééém.
A máquina de cortar pão do Lidl. Eu repito, devagarinho. A. Máquina. De. Cortar. Pão. Do. Lidl.
[pausa dramática]
Quem conhece já está aí desse lado fremente, aos pulinhos de excitação infantil - espero.
Quem não conhece, é correr - correide, correide! - ao Lidl mais próximo e ficar de mãos postas perante tal portento.
Ó pá. Óóóóó pááááá. A minha semana não é bem sucedida se não for, pelo menos uma vez, comprar pão ao Lidl e fatiá-lo na dita máquina. É um milagre da téquenologia, é uma maravilha do engenho humano, é um mash up da bricolage e panificação, pura arte do quotidiano, um bálsamo para alma ver aquela lâmina potente, possante, poderosa a transformar um pãozão em fatias fininhas - ou mais grossas, no caso da broa, sim, esta máquina corta broa na per-fei-ção, sem esboroar - é, de facto, aquela máquina de que falavam os profetas, o princípio e o fim das coisas, o instrumento que traz sentido à vida, o elemento primordial da existência.
Acalmem-me, por favor: digam-me que não estou sozinha neste êxtase.
Ou então indiquem-me um bom grupo de auto-ajuda.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
[ ]
[estou numa corrida contra o tempo e a minha capacidade de dar resposta a um deadline que é mais uma line que dead, que não morre ninguém se não conseguir, embora exista a possibilidade de me lixar com f maiúsculo se não cortar a meta, anyhoo, suspeito que dead é o estado em que estarei se o fizer dentro dos tempos fixados, mas hoje almocei uma sopa o que foi uma fofa e saudável alternativa ao meu variado menu - sandes de queijo / tosta de queijo - dos últimos tempos; vegetais, do your work, que quem percebe disso diz que tomar vitaminas só contribui para uma urina mais cara, mas neste momento eu já me agarrava a qualquer crença que me mantenha de pé, pensante, e dedinhos ágeis e teclantes, mas o chocolate também é - maioritariamente - vegetal, e se não resulta mêmo, mêmo, ao menos consola, vamos a isso, mais uma volta e se isto correr bem até acabo antes da tal linha de morte, pausa para gargalhadas, ahahahahah, chuif]
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
Um subsídio, uma bolsa para estudar isto e arranjar uma cura
Me mate está constipadíssimo, e pronto, podia acabar aqui e ficava o post e imagem sobre este difícil momento familiar já completo.
Não fosse um pequeno senão, uma pequena nuance, uma mínima divergência: decerto fartinho de me ouvir fazer pouco da man flu, e encaixando todo esse gozo como justíssimo, merecidíssimo, e assente em factos reais, desta vez prometeu-me que não senhora, não ia fazer fita, nada de gemidos de sofrimento, népia de suspiros, muito menos queixumes lânguidos, pieguices em geral e birrinhas em particular.
Está a cumprir. Em 90%, vá, sejamos magnânimas.
Mas desde que começou com os primeiros sintomas, naquele malfafado e aziago sábado, que não se cala com a constatação de que "hã, olha que desta vez, hã, estou a portar-me bem, hã, ainda não me queixei, hã".
Se alguém não consegue ver a ironia da coisa, pá, juntem-se a ele, fundem um grupo, reunam de preferência já, e tirem-mo de casa, antes que os meus olhos saltem das órbitas de tanto os girar.
Não fosse um pequeno senão, uma pequena nuance, uma mínima divergência: decerto fartinho de me ouvir fazer pouco da man flu, e encaixando todo esse gozo como justíssimo, merecidíssimo, e assente em factos reais, desta vez prometeu-me que não senhora, não ia fazer fita, nada de gemidos de sofrimento, népia de suspiros, muito menos queixumes lânguidos, pieguices em geral e birrinhas em particular.
Está a cumprir. Em 90%, vá, sejamos magnânimas.
Mas desde que começou com os primeiros sintomas, naquele malfafado e aziago sábado, que não se cala com a constatação de que "hã, olha que desta vez, hã, estou a portar-me bem, hã, ainda não me queixei, hã".
Se alguém não consegue ver a ironia da coisa, pá, juntem-se a ele, fundem um grupo, reunam de preferência já, e tirem-mo de casa, antes que os meus olhos saltem das órbitas de tanto os girar.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Se calhar é por isto que ninguém me atura, e não os tenho :(
Tenho de desafafar, tirar esta pedra que carrego no peito: não entendo, não gosto, e não entendo quem gosta de Friends. Não percebo o hype, a fandom, a loucura, e quem dê dinheiro por uma techérte com o logo. Ou pior, as fotos dos moinantes.
Aaaaaahhhhh. O alívio.
Atenção, não quero com isto insinuar que sou uma pessoa com melhor cómico-série-gosto que azoutras (que até sou); não estou a desfazer, intelequetualmente, em quem gosta de Friends (too easy), não me estou a por num pedestal de superioridade relativamente a quem gosta, idolatra, ama Friends (já lá estava)*.
Não, agora a sério. Porquê?
E não me venham com o "ah, se calhar nem viste", porque vi.
Quer dizer, fui vendo. Estava a passar num canal qualquer, calhou apanhar e pensei "ora aqui está uma oportunidade de por à prova o meu preconceito" - que existia, sou çinçera. Dei, portanto, uma oportunidade à coisa. Não é a primeira "coisa" relativamente à qual tenho a ideia que vou odiar e, em dando uma oportunidade, até passo a gostar. Exhibit A: Brooklyn 99. Odeio o Samberg, ergo, já odiava a série antes de ver um segundo. Vi um só episódio e já adorava a série, e considerava a hipótese de, numa realidade paralela, até ser amiga do Samberg. Friso: realidade paralela.
Voltando à vaca fria, Friends. Não vi só um episódio, porque ao fim de um continuava a não perceber/gostar. As personagens pareciam-me desinteressantes, zero empatia, zero vontade de as conhecer melhor, planas, unidimensionais, superficiais, sem interesse de maior ou sequer.
Insisti, portanto, vivas ao método científico. Não correu bem.
Para além de confirmar o que já intuía acerca das personagens, soma-se a banalidade do texto. A pesada, aborrecidíssima, patente banalidade. Piadas óbvias, ao nível zero da inteligência, muitas delas abaixo de zero, sim, estou a falar do humor (?) sobre aspectos físicos, por exemplo. Quantas piadas sobre gordas é possível fazer até matar alguém de tédio? Para quem escrevia aquilo, infinito mais um, ao que parece.
Isto é inédito, mas nunca ri, física ou mentalmente - os outros não sei, mas muitas vezes as minhas gargalhadas são apenas mentais. Exhibit B: Seinfeld e Curb Your Enthusiasm.
Ou seja, no total devo ter visto uns vinte episódios (pronto, já aí vem a turba do "aaahhhhh, sem ver tudo não percebes a dinâmica, o entrosamento, a táctica, a ligação"; lamento mas percebi, tão óbvio aquilo é, como na maioria das telenovelas uma pessoa pode saltar n episódios que apanha logo no seguinte, temos pena) e é tempo que não recupero, mas ao menos não morro inguinorante.
Pronto, posso afirmar de cátedra que aquilo é uma real, valente, fumegante poia**.
No hard feeelings.
*estou evidentemente a gozar. vejo, consciente e deliberadamente, muita merdinha e pasme-se, gosto de imensa merduncha. ainda anteontem assistimos, felicíssimos como dois basbaques com severo atraso cognitivo, ao Con Air. e está a dar Murder She Wrote?, vejo e ainda me gabo. e por aqui me fico, que já têm material para me gozar daqui à lua. mas sei que é merdéque, e não a quero fazer passar por alta arte ou coisa de merecimento. é o que é.
**não é única, no meu rol de "séries com aclamado sucesso que odeio", Exhibit C: Cheers, que é uma farpa no meu casamento, mas é lidar.
Aaaaaahhhhh. O alívio.
Atenção, não quero com isto insinuar que sou uma pessoa com melhor cómico-série-gosto que azoutras (que até sou); não estou a desfazer, intelequetualmente, em quem gosta de Friends (too easy), não me estou a por num pedestal de superioridade relativamente a quem gosta, idolatra, ama Friends (já lá estava)*.
Não, agora a sério. Porquê?
E não me venham com o "ah, se calhar nem viste", porque vi.
Quer dizer, fui vendo. Estava a passar num canal qualquer, calhou apanhar e pensei "ora aqui está uma oportunidade de por à prova o meu preconceito" - que existia, sou çinçera. Dei, portanto, uma oportunidade à coisa. Não é a primeira "coisa" relativamente à qual tenho a ideia que vou odiar e, em dando uma oportunidade, até passo a gostar. Exhibit A: Brooklyn 99. Odeio o Samberg, ergo, já odiava a série antes de ver um segundo. Vi um só episódio e já adorava a série, e considerava a hipótese de, numa realidade paralela, até ser amiga do Samberg. Friso: realidade paralela.
Voltando à vaca fria, Friends. Não vi só um episódio, porque ao fim de um continuava a não perceber/gostar. As personagens pareciam-me desinteressantes, zero empatia, zero vontade de as conhecer melhor, planas, unidimensionais, superficiais, sem interesse de maior ou sequer.
Insisti, portanto, vivas ao método científico. Não correu bem.
Para além de confirmar o que já intuía acerca das personagens, soma-se a banalidade do texto. A pesada, aborrecidíssima, patente banalidade. Piadas óbvias, ao nível zero da inteligência, muitas delas abaixo de zero, sim, estou a falar do humor (?) sobre aspectos físicos, por exemplo. Quantas piadas sobre gordas é possível fazer até matar alguém de tédio? Para quem escrevia aquilo, infinito mais um, ao que parece.
Isto é inédito, mas nunca ri, física ou mentalmente - os outros não sei, mas muitas vezes as minhas gargalhadas são apenas mentais. Exhibit B: Seinfeld e Curb Your Enthusiasm.
Ou seja, no total devo ter visto uns vinte episódios (pronto, já aí vem a turba do "aaahhhhh, sem ver tudo não percebes a dinâmica, o entrosamento, a táctica, a ligação"; lamento mas percebi, tão óbvio aquilo é, como na maioria das telenovelas uma pessoa pode saltar n episódios que apanha logo no seguinte, temos pena) e é tempo que não recupero, mas ao menos não morro inguinorante.
Pronto, posso afirmar de cátedra que aquilo é uma real, valente, fumegante poia**.
No hard feeelings.
*estou evidentemente a gozar. vejo, consciente e deliberadamente, muita merdinha e pasme-se, gosto de imensa merduncha. ainda anteontem assistimos, felicíssimos como dois basbaques com severo atraso cognitivo, ao Con Air. e está a dar Murder She Wrote?, vejo e ainda me gabo. e por aqui me fico, que já têm material para me gozar daqui à lua. mas sei que é merdéque, e não a quero fazer passar por alta arte ou coisa de merecimento. é o que é.
**não é única, no meu rol de "séries com aclamado sucesso que odeio", Exhibit C: Cheers, que é uma farpa no meu casamento, mas é lidar.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
*suspiros*
No 12º ano tive um colega uber-mega-hiper palerma que passava a vida a contar, entre outras sem graça nenhuma, piadas racistas. Tal como as outras, não tinham graça nenhuma porque a) racistas; b) eram más, mesmo - se isso fosse possível - tirando o factor racismo.
Quando estes surtos piadistas me tinham como público involuntário, para além de não me rir e eventualmente revirar os olhos, fazia-lhe notar que já deixava de ser um traste racista e de estar sempre a debitar graçolas sobre o tema. A resposta era sempre a mesma: "é só uma piada!", seguindo-se o rame-rame do "não tens sentido de humor". Ter, tinha; e tenho, mas era e é um bocadinho, só um bocadinho mais sofisticado e exigente. Adiante.
Na altura ainda não estava em voga o argumento do "politicamente correcto que vai acabar por matar o humor" (chuif, que tragédia), vá lá. Mas já existia o argumento do "até tenho amigos que são", e se o gajo o estafava. É que na turma havia um, apenas um, colega negro, a quem o gajo vivia colado. Dizia que eram amigos (debatível: esse colega era um tipo extremamente sossegado, introvertido, até; suspeito que aturava o outro por educação, um maior sentido de sacrifício do que eu alguma vez tive, ou simples pressão, incapacidade de, minoria muito minorotária que era, se rebelar), e o amigo não levava a mal, sabia que ele estava só a brincar. Donde, não era racista, lá agora.
Era. Era sim senhora. Além de outras características muito pouco abonatórias, era um poltrão de um racista.
Passou-se isto ali em 1988, 1989 (sou um bocadicho antiga, pois é). Se nessa altura me dissessem que no ano da graça de 2020 este tipo de pessoas andaria por aí de cabeça erguida, a vomitar o mesmo tipo de dichotes com um ar de "quero, posso, e devo", como se não tivesse mal ou importância, como se fosse aceitável, próprio de uma pessoa decente, e que os demais deveriam tolerar sem ruído porque liberdade de expressão, porque é uma piada, porque sim, tinha cortado logo os pulsos e escusava-me à vergonha profunda que este estado de coisas me faz sentir.
Quando estes surtos piadistas me tinham como público involuntário, para além de não me rir e eventualmente revirar os olhos, fazia-lhe notar que já deixava de ser um traste racista e de estar sempre a debitar graçolas sobre o tema. A resposta era sempre a mesma: "é só uma piada!", seguindo-se o rame-rame do "não tens sentido de humor". Ter, tinha; e tenho, mas era e é um bocadinho, só um bocadinho mais sofisticado e exigente. Adiante.
Na altura ainda não estava em voga o argumento do "politicamente correcto que vai acabar por matar o humor" (chuif, que tragédia), vá lá. Mas já existia o argumento do "até tenho amigos que são", e se o gajo o estafava. É que na turma havia um, apenas um, colega negro, a quem o gajo vivia colado. Dizia que eram amigos (debatível: esse colega era um tipo extremamente sossegado, introvertido, até; suspeito que aturava o outro por educação, um maior sentido de sacrifício do que eu alguma vez tive, ou simples pressão, incapacidade de, minoria muito minorotária que era, se rebelar), e o amigo não levava a mal, sabia que ele estava só a brincar. Donde, não era racista, lá agora.
Era. Era sim senhora. Além de outras características muito pouco abonatórias, era um poltrão de um racista.
Passou-se isto ali em 1988, 1989 (sou um bocadicho antiga, pois é). Se nessa altura me dissessem que no ano da graça de 2020 este tipo de pessoas andaria por aí de cabeça erguida, a vomitar o mesmo tipo de dichotes com um ar de "quero, posso, e devo", como se não tivesse mal ou importância, como se fosse aceitável, próprio de uma pessoa decente, e que os demais deveriam tolerar sem ruído porque liberdade de expressão, porque é uma piada, porque sim, tinha cortado logo os pulsos e escusava-me à vergonha profunda que este estado de coisas me faz sentir.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
O mundo está perdido?
A resposta é "está sim senhora", pronto, poupei já o trabalhinho de ler o resto do post.
Para quem tenha paciência e queira saber, não, não cheguei a essa conclusão abrindo um jornal, assistindo a um noticiário, népia. Bastou uma ida ao lidl, muito a correr, para comprar pão (sou especialmente fã daquele de espelta, e de onde vínhamos calhava um lidl de caminho).
Ora lá estamos eu e me mate, com o cestinho com rodas (uma pessoa precisa sempre de mais alguma coisa), a chegar à zona do pão. Para quem não seja freguês, aquilo funciona muito modernamente (e civilizadamente) em modo self-service: o pão está em tabuleiros, separado por tipos; há uma geringonça com que puxamos / empurramos o pão que nos interssa para uma calha, e depois é ensacar. Ora sucede que, para o estimado cliente concluir esta operação, o supermercado tem à disposição a) sacos de papel para o pão, em dois tamanhos; b) luvinhas de plástico, como as da estação de seerviço, para pegar no pãozinho.
Dizia eu então que tínhamos acabado de chegar à zona de pão, estamos a observar as existências, e eu nem tenho tempo de soltar um "oohhhh já não há o de espelta", porque já estamos ambos embasbacados a olhar para o sujeito que sacava da dita calha um pão, manápulas nuas, e pronto, é mau mas o problema seria dele e da sua afeição às bactérias, mas vai daí olha para o pão, o pão não olha de volta mas ele não gostou decerto da cara daquele pão, acto contínuo joga-o outra vez para dentro do respetivo tabuleiro, tira outro, repito, de gânfias desluvadas, e ensaca-o.
Nem tivémos tempo de olhar um para o outro, porque o dito guna volta atrás, tira o pão do saco, joga-o para dentro do tabuleiro, e vai buscar um outro tipo de pão, no qual pega, insisto, em contacto directo patinha - pão.
Finalmente, os nossos olhares cruzaram-se. Estávamos os dois de boca entreaberta e olhinhos esbugalhados. Tu viste aquilo?, Vi, De repente já não me apetece pão, Iá, compramos lá ao pé de casa, meia volta volver.
Eu sei, eu sei que estes sistemas não sei quê, há sempre um porcão a lixar tudo, a gente nunca sabe quem lá passou, mas pá, ó pá, há anos freguesa, há anos a levar pão do lidl, mas no meu lidl nunca vi semelhante.
Cho-ca-da. Fé (a que restava) na humanidade: foi-se. Por mim a extinção está bem.
(capaz de apostar que na estação de serviço põe a luvinha, o jagunço)
Para quem tenha paciência e queira saber, não, não cheguei a essa conclusão abrindo um jornal, assistindo a um noticiário, népia. Bastou uma ida ao lidl, muito a correr, para comprar pão (sou especialmente fã daquele de espelta, e de onde vínhamos calhava um lidl de caminho).
Ora lá estamos eu e me mate, com o cestinho com rodas (uma pessoa precisa sempre de mais alguma coisa), a chegar à zona do pão. Para quem não seja freguês, aquilo funciona muito modernamente (e civilizadamente) em modo self-service: o pão está em tabuleiros, separado por tipos; há uma geringonça com que puxamos / empurramos o pão que nos interssa para uma calha, e depois é ensacar. Ora sucede que, para o estimado cliente concluir esta operação, o supermercado tem à disposição a) sacos de papel para o pão, em dois tamanhos; b) luvinhas de plástico, como as da estação de seerviço, para pegar no pãozinho.
Dizia eu então que tínhamos acabado de chegar à zona de pão, estamos a observar as existências, e eu nem tenho tempo de soltar um "oohhhh já não há o de espelta", porque já estamos ambos embasbacados a olhar para o sujeito que sacava da dita calha um pão, manápulas nuas, e pronto, é mau mas o problema seria dele e da sua afeição às bactérias, mas vai daí olha para o pão, o pão não olha de volta mas ele não gostou decerto da cara daquele pão, acto contínuo joga-o outra vez para dentro do respetivo tabuleiro, tira outro, repito, de gânfias desluvadas, e ensaca-o.
Nem tivémos tempo de olhar um para o outro, porque o dito guna volta atrás, tira o pão do saco, joga-o para dentro do tabuleiro, e vai buscar um outro tipo de pão, no qual pega, insisto, em contacto directo patinha - pão.
Finalmente, os nossos olhares cruzaram-se. Estávamos os dois de boca entreaberta e olhinhos esbugalhados. Tu viste aquilo?, Vi, De repente já não me apetece pão, Iá, compramos lá ao pé de casa, meia volta volver.
Eu sei, eu sei que estes sistemas não sei quê, há sempre um porcão a lixar tudo, a gente nunca sabe quem lá passou, mas pá, ó pá, há anos freguesa, há anos a levar pão do lidl, mas no meu lidl nunca vi semelhante.
Cho-ca-da. Fé (a que restava) na humanidade: foi-se. Por mim a extinção está bem.
(capaz de apostar que na estação de serviço põe a luvinha, o jagunço)
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
[who are you?]
"Blogs are a conversation no one wanted to have with you."
Disse a Michelle Wolf (num clip de apresentação de um stand up, que vi há atrasado).
E eu ri-me. Porque é verdade, andamos todos aqui a falar sozinhos, como os malucos. Volta e meia aparece alguém que faz a caridade de nos ouvir e, ou segue caminho, ou se mete na conversa. sinal de que se calhar não somos assim tão malucos, ou então somos mais do que pensamos. Uma convenção de malucos, as caixas de comentários. Ou de irredutíveis solitários. Não necessariamente sós, pode dar-se o caso de que os blogs sejam apenas o reduto dos temporariamente solitários, em periodos determinados. Ou dos temporariamente a tender para definitivamente sós.
Eu ri-me porque me identifiquei quase totalmente.
Para que me serve isto, afinal. Pergunto-me muitas vezes. E muitas vezes me respondi que era como a cova que o barbeiro do Príncipe das Orelhas de Burro cavava, e onde ia gritar um segredo impartilhável. A tal conversa que não podia ter com ninguém. Mas vai além disso: é mesmo a "conversa" que ninguém tem connosco, ou porque não quer, ou, numa perspectiva mais suave não pode. Não está para isso, na verdade.
Seja uma cova, a gaveta da tralha, um recurso de solitários, um blog serve para o que serve. Este (e outros anteriores) vêm-me servindo como o veículo para a conversa que não tenho com mais ninguém, essa é que é essa. Um blog é um óptimo refúgio para um introvertido que, por acaso, gosta (até) muito de conversa. Se calhar esta esgota, ou a espaços esmorece; é o que tem vindo a acontecer por este poiso. Não sei muito bem o que fazer a isto, e nisto. Sou a mesma e não sou, não sei bem o que me traz aqui, na época em que o blog se tornou obsoleto e o tio velhinho (e chato, e quiçá senil) dos podequéstes, tuítas, instagrãs. E eu tambem já não vou para nova, hein.
Enfim, pode ser muito 2008, fora de moda, gasto, muito visto, coisa de antigos, mas continuo a gostar disto. Mesmo sabendo que corro o risco de estar a falar para as paredes, tendo a notória percepção de que atualmente não tenho interesse nenhum, nem para mim, fartinha de me aturar, credo, e que nem sozinha (como os malucos) me apetece falar.
Mas isto um dia pode dar a volta. E me aprecie mais, a pontos de achar que tem algum propósito plantar um caixote da fruta no meio das internetes e daí botar um discurso que a ninguém, a não ser a mim, interessa. No entretanto, cá estamos.
Disse a Michelle Wolf (num clip de apresentação de um stand up, que vi há atrasado).
E eu ri-me. Porque é verdade, andamos todos aqui a falar sozinhos, como os malucos. Volta e meia aparece alguém que faz a caridade de nos ouvir e, ou segue caminho, ou se mete na conversa. sinal de que se calhar não somos assim tão malucos, ou então somos mais do que pensamos. Uma convenção de malucos, as caixas de comentários. Ou de irredutíveis solitários. Não necessariamente sós, pode dar-se o caso de que os blogs sejam apenas o reduto dos temporariamente solitários, em periodos determinados. Ou dos temporariamente a tender para definitivamente sós.
Eu ri-me porque me identifiquei quase totalmente.
Para que me serve isto, afinal. Pergunto-me muitas vezes. E muitas vezes me respondi que era como a cova que o barbeiro do Príncipe das Orelhas de Burro cavava, e onde ia gritar um segredo impartilhável. A tal conversa que não podia ter com ninguém. Mas vai além disso: é mesmo a "conversa" que ninguém tem connosco, ou porque não quer, ou, numa perspectiva mais suave não pode. Não está para isso, na verdade.
Seja uma cova, a gaveta da tralha, um recurso de solitários, um blog serve para o que serve. Este (e outros anteriores) vêm-me servindo como o veículo para a conversa que não tenho com mais ninguém, essa é que é essa. Um blog é um óptimo refúgio para um introvertido que, por acaso, gosta (até) muito de conversa. Se calhar esta esgota, ou a espaços esmorece; é o que tem vindo a acontecer por este poiso. Não sei muito bem o que fazer a isto, e nisto. Sou a mesma e não sou, não sei bem o que me traz aqui, na época em que o blog se tornou obsoleto e o tio velhinho (e chato, e quiçá senil) dos podequéstes, tuítas, instagrãs. E eu tambem já não vou para nova, hein.
Enfim, pode ser muito 2008, fora de moda, gasto, muito visto, coisa de antigos, mas continuo a gostar disto. Mesmo sabendo que corro o risco de estar a falar para as paredes, tendo a notória percepção de que atualmente não tenho interesse nenhum, nem para mim, fartinha de me aturar, credo, e que nem sozinha (como os malucos) me apetece falar.
Mas isto um dia pode dar a volta. E me aprecie mais, a pontos de achar que tem algum propósito plantar um caixote da fruta no meio das internetes e daí botar um discurso que a ninguém, a não ser a mim, interessa. No entretanto, cá estamos.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
[ motivação ]
Esta semana está a ser um bocadinho difícil a nível de pessoas, e por pessoas entenda-se fregueses.
(aquela cena de ouvir e pensar antes de falar, não se comportar como se tivesse o rei na barriga, ou pensar um bocadinho na merdunca que se fez antes de desatar a responsabilizar toooodos os outros ou, isso falhando, o estado - ei, nunca falha - é tão século passado, não é?)
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Organizadíssima, concentradíssima
Sábado de manhã, enquanto tomava o pequeno almoço, fiz uma listinha das tarefas que tinha e ia mesmo realizar no fim de semana.
Em boa hora: agora já tenho a lista de tarefas feita para esta semana, o trabalho que eu poupei.
Em boa hora: agora já tenho a lista de tarefas feita para esta semana, o trabalho que eu poupei.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
Ah, a primeira vez!
A minha primeira vez a mascar uma pastilha de nicotina (como são profícuos em boas intenções, os primeiros dias do ano) e posso já adiantar que
- o prometido sabor a mentol acaba num instantinho;
- a boca sabe-me pior que se tivesse fumado um cigarro;
- estou li-gei-ra-men-te agoniada;
- e tenho a língua um nadica dormente.
Mas não fumei um cigarro.
E ainda bem, que só tenho dois e ainda pelo menos uma hora de trabalho.
[acho que vou antes experimentar os pensos de nicotina]
[alguém tem uso para 29 pastilhas de nicotina? novas! nunca usadas! estado impecável!]
- o prometido sabor a mentol acaba num instantinho;
- a boca sabe-me pior que se tivesse fumado um cigarro;
- estou li-gei-ra-men-te agoniada;
- e tenho a língua um nadica dormente.
Mas não fumei um cigarro.
E ainda bem, que só tenho dois e ainda pelo menos uma hora de trabalho.
[acho que vou antes experimentar os pensos de nicotina]
[alguém tem uso para 29 pastilhas de nicotina? novas! nunca usadas! estado impecável!]
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
[ahéééém]
Então (como diz que é de praxe) feliz ano novo para todos, muita saudinha e felicidades, etc e tudo de bom!,
(mas, e, especialmente para aquelas pessoas que no dia 1 - um -1 já estavam acordadas às seis e pouco a dar uma cápsula de omeprazol ao filho do demo mai'novo, a suportar os olhares de reprovação da mai'velha por não haver paparoca a noite toda, voltaram para a cama mas puseram o despertador para daí a meia hora, voltaram a levantar-se, encheram as malguinhas da prole felina faminta que asinha acorreu ao chamamento do granulado, e voltaram para a cama de onde arribaram daí a umas parcas horitas com uma inexplicável, surpreendente dor de cabeça. muita forcinha para essas pessoas no ano que se avizinha, e principalmente nos próximos dez dias de omeprazol que o peste mai'novo, que come tudo o que deve e não deve, parece não apreciar por aí além)
(mas, e, especialmente para aquelas pessoas que no dia 1 - um -1 já estavam acordadas às seis e pouco a dar uma cápsula de omeprazol ao filho do demo mai'novo, a suportar os olhares de reprovação da mai'velha por não haver paparoca a noite toda, voltaram para a cama mas puseram o despertador para daí a meia hora, voltaram a levantar-se, encheram as malguinhas da prole felina faminta que asinha acorreu ao chamamento do granulado, e voltaram para a cama de onde arribaram daí a umas parcas horitas com uma inexplicável, surpreendente dor de cabeça. muita forcinha para essas pessoas no ano que se avizinha, e principalmente nos próximos dez dias de omeprazol que o peste mai'novo, que come tudo o que deve e não deve, parece não apreciar por aí além)
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