terça-feira, 6 de abril de 2021

De volta ao (meu) normal

 Primeiro dia de trabalho desconfinado, presencial, portanto (há situações em que tem mesmo de ser); excitex já na véspera, eheheheheh, sair de casa, ihihihih, estar com 'ssoas, ohohohoh, contactar com 'ssoas, ahahahahah, trabalhar normalmente. Roupinha bonita escolhida (tenho pelo menos dois terços do guarda roupa em stand by, já vai para um ano, há que aproveitar para arejar os trapos), cara arranjadinha, yay, horário a cumprir, iupi, fazer cenas e falar com gente, hurra! 

Nem são onze e meia e já estou em estado de "kill me now", "odeio 'ssoas" e "qué i pa caja".

Desconfinei, física e mentalmente. É oficial.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Então cá estamos

 


Na sexta feira, ali à roda das sete e tal, acabei o que tinha ainda pendurado, fechei o computador e entrei oficialmente de férias. Hurra, uma semananinha para por em ordem coisinhas cá da minha vida, fazer arrumações há muito adiadas, desforrar-me na leitura, yay! Donde, sábado crashei e passei o dia numa espécie de nevoeiro mental e papa corporal, deitadinha no sofá, deitadinha na cama, aiaiai que estou tan cansada. Domingo arrebitei um bocadinho, até porque tinha de sair de casa (é o dia de lanche semanal com mamãe, mano e sobrinhos, é a minha bolha, constante e arduamente mantida desde o início desta maluqueira, fuck you proibição de atravessar concelhos, é tudo área metropolitana e nós, lisboetas, não somos grande coisa nisso dos limites de concelhos, mais faltava não poder ir ao leroy que me dá mais jeito, culpa tenho eu que o tenham aberto ali ao lado); segunda não me lembro de todo o que fiz (além de irmos tratar de umas papeladas), mas ontem, pá, ontem é que foi. Calcei os crocs, calças velhas e sweat, luvas, e vai de esvaziar o compostor, à pázada, para o preparar para novo ciclo de compostagem. Entrementes, espalhar o composto pelos vasos e árvore, retirando, antes, as pedras decorativas que a rodeiam (e estavam a enterrar-se). Desfiz / separei em peças um banco de madeira que estava podre e em inteiro pesava horrores; preparei a tralhinha toda para pormos na rua à hora que a Câmara mandou e antes de chegarem os senhores da camioneta dos monos. Tirámos os dois móveis do corredor, enrolámos o tapete / passadeira, levámos tudo para baixo, e provavelmente eram as serotoninas e dopaminas a falar, mas eu estava, ó, com os músculos todos aos berros, mas eu-fó-ri-ca, já a planear o trabalhinho de jardinagem e arranjo do pátio que ia continuar hoje.


No can do. 

Como seria de esperar - e eu não queria acreditar - acordei toda empenada das cruzes, com uma moinha na cervical, e o ombro direito fechado para obras. Daqui a pouco talvez faça uma tarefa apropriada à minha vetusta idade e pobre condição física, como trocar plantas de vasos, se isso não implicar carregar peso, andar escada acima e abaixo, baixar-me, estar de cócoras, enfim, acho que vou tratar daquela cena da leitura. Se não adormecer. Caraças, tenho tanto soninho.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Novidades? Não temos.

Senhora minha progenitora já anunciou que não quer e se recusa a tomar a vacina da astra zeneca, pretende a da pfizer. A minha reação foi entusiástica: eu vou contigo, digo logo que é uma pena estragar-se, e podem dá-la aqui a moi. Mano teve uma reacção mais severa (e adulta, vá): que isto não é assim que funciona, toma-se o que houver e acabou, e qual o problema com a az, os casos de coágulos são ínfimos e não está provado nexo de causalidade. Para não dar (totalmente) o ar de tolinha da família fui fazendo que sim com a cabeça, sublinhando o bom senso fraterno. Mas voltei a frisar que se ela não quer, mais fica, oras, e como filha primogénita me ofereço para herdar. Caneco, eu cá aceito o que me quiserem injectar, até a sputnik, qué lá saber; se só por si a vacina já diminui, comprovadamente, o risco de doença grave, hospitalização e morte, venha a pica. E fala daqui a caguinchas maior de picas. Mas mamãe insiste porque, ainda que tenha sobrevivido aos efeitos secundários das pílulas de primeira geração (coágulos, risco de coágulos for everybody!) parece que teve um desmaio que a médica lhe diagnosticou como um mini-avc, e coise. Quem nunca, pá. Eu sofro de mini a médios avc às dezenas, só por semana. A sério, sofro de tonturas frequentes, com sensação de corrente eléctrica a passar no cérebro, sempre atribuí ós nervos, fazem engarrafamento nas sinapses e de vez em quando chocam, mas parece que também é uma das manifestações de mini avc. 'Tá bem. Eu quero é a vacina, bácina, toda a gente vacinada. Juro, se no primeiro confinamento até levei bem a coisa, neste estou à beira de me tornar a maluquinha da freguesia. Apetece-me sair pela rua a correr, de bracinhos abertos, e a gritar iupis, e até voltar ao trabalho como ele era ali em Setembro de 2019. Depois cai a pequena réstea de sensatez que me resta, e nã, afinal estou bem em casa (não estou), não preciso mesmo de sair hoje (por acaso fazia-me bem), apesar de estar fartinha de limpar o fogão, aspirar cotão, e sentir-me numa espécie de coma mental, um nevoeiro peganhento que não levanta, se entranha até aos ossos, e me está a empenar física, emocional e intelectualmente. Já não leio, por pura anomia, já não bricolo, porque me canso só de pensar e planear. Trabalho o que posso ao ritmo de uma lesma paraplégica, e escavaco as cutículas.  E é isto.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Para o almoço, cascas de tremoço; ao jantar, bordas de alguidar*

 Ah, que saudades, saudades. 

Do tempo em que era jovem e tinha sonhos, e a coisa mais excitante que tinha para relatar não era o ter passado a ter um novo produto de limpeza favorito (adeus cilit, olá sanytol: o de casa de banho não só desinfecta como.... tcharam... limpa o calcário! dois em um! maravilhoso, eu sei :') claro que não dispensa o gel lixívia, mas pronto, coise, estou muito feliz e isso é que importa, né, sermos felizes e assim)

Assim de repente, também tenho muitas saudades daquele tempo em que se passava um "oh, pá, que chatice, tenho de ir outra vez ao supermercado", em vez de um "de certeza que não nos falta nada e não pecisamos de ir ao supermercado?" (conta como passeio, yay).

Falando de comes e bebes, também sinto muita nostalgia dos tempos em que no congelador cabiam, sempre, e à vontadinha, umas três ou quatro cuvetes de litro de gelado. Agora (o horror!) está a abarrotar de comida-comida; e entre a carne, peixe, legumes e sopa congelada não se consegue enfiar um magnum, quanto mais. Outros tempos.

Já que menciono outros tempos, nostalgias e saudades, nota especial para a actividade absolutamente subversiva, completamente clandestina, perigosamente activista que me mate desenvolveu ontem: foi comprar um livro. Oh! Ah! E se o apanham? Apanharam? Não, nem ao dono da loja, que lhe ligou a informar que tinha chegado a encomenda, a coisa foi muito bem combinada: multibanco da Caixa, convenientemente perto mas também afastado da loja, transferência feita, saquinho não marcado a passar de mãos. Juro. Contado ninguém acredita. (a loja é a Kingpin Books, já agora, não deixem de visitar quando esta loucura terminar - ou abrandar, que já não acredito em nada -, e depois podem ir lanchar um bolinho à Docel, hashtag naodeixemacabaromeucomerciofavorito, coração com os dedos).

(*a resposta da minha avó e mãe à catraia que lhes perguntava o que seria o repasto. linguas de perguntadeira também calhava muito)

(entretanto a pilha do rato faleceu, já tenho só uma nova, preciso de ir ao supermercado, yay!)

  

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Cabin Fever

Já muito se escreveu sobre o drama do teletrabalho com filhos em casa.

Fica por relatar (me aguardem) a tragédia do teletrabalho com os filhos dos outros em casa. 

Não apoia, não incentiva, não celebra as pequenas vitórias

 Uma pessoa vai ao lidl (a um domingo, e bem cedinho), volta de lá es-tri-ta-men-te com aquilo que era necessário ir lá buscar, não traz uma oportunidade da semana, não afinfa uma ferramente, não aproveita para dar lar a (mais) uma plantinha, e ele? Faz uma festa? Dá-nos os parabéns? Nota, sequer? 

Nadinha. Um bruto insensível. Um monstro totalmente desprovido de empatia. Um dia destes vou ao horto e ele vai ver. Ahahahahah. Vai ver.


[as ferramentas eram todas auto, e a única plantinha com um ar sim senhora já tenho, mas não interessa, é o princípio da coisa]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Passeio higiénico, educativo, e de encher as vistinhas

 Quando vim morar para estas bandas havia quem dissesse que ah, não sei quê, essa zona não é um bocadito má, e isto era as 'ssoas a tentar ser educadas, o que elas estavam a dizer é essa zona é má. Algumas eram mais directas, iam logo ao assunto, isso não é perto da sopa dos pobres; e eu que sim, é. A quem dizia isto se calhar fazia falta passar lá em frente, de vez em quando, e ver o tamanho da fila logo ali às onze e picos. Também lhes faria bem ver como vive parte da nossa população, sim, estou a falar especificamente da sem abrigo que, ou muito me engano, ou está a aumentar outra vez (aumentou muito na altura da troika). É educativo, e reforça ou ao menos exercita o músculo da empatia. Quero eu crer. Ah, não me digas que tu és daquelas vermelhuscas que acham que lhes devíamos dar casa e comida de borla, e nós a pagar. Pronto, então não digo. Envergonha-me profundamente saber que há quem viva na rua e passe fome. 

Adiante.

Voltando à zona: isto aqui pelos Anjos, Arroios e zona baixa da Penha é espectacular. Primeiro, porque em 2003 ainda se conseguia (eu consegui, pelo menos) comprar casa. Até há pouco tempo também se conseguia arrendar, pelo que é uma zona que tem GENTE. Pessoas a sério, normais, de todas as idades: velhos a passarinhar e atravancar passeios e filas de supermercado; crianças de mochila a ir para a escola; tudo o resto pelo meio a ir para escola, universidade, trabalho. Gente de vários estilos, proveniências (parece que em Arroios vivem pessoas de 70 nacionalidades), muitas caras diferentes, e isso é que faz um bairro, que digo eu, uma cidade. Gosto disso. E comércio tradicional, de pessoas, para pessoas. Vieram os turistas e a loucura do imobiliário, e a coisa desmoronou-se um pedaço, mas tenho esperança que se mantenha. Por agora, voltámos à normalidade de bairro, embora com menos circulação. Certo, fizeram um condomínio de luxo ali no topo da Angelina Vidal, onde um T2 vale a pechincha de seiscentos mil e coiso, mas depois veio o PCP e pintou um mural no paredão que dá para a rua, e isso fez-me rir. Sim senhora, dito condomínio está quase todo vendido, às tantas a troco de muito visto gold, mas foi carimbadinho com exigências de justiça social. Loooove.

Bom, e é por esta zona má que fazemos os nossos passeios higénicos. Há quem prefira centros comerciais ouo ikea, mas digam lá se no monstro sueco (sem desprimor, hein, também sou freguesa e fã) encontram as verdadeiras pérolas da decoração de interiores que ainda sobrevivem na Almirante Reis:



Roam-se.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Hoje almoçamos douradinhos

 (mas com talher de peixe, que não somos uns selvagens)

Isto da alimentação saudável é muito giro, na teoria, mas os brócolos ( outras cenas verdes) não nascem nos cantos (a menos que se trate de bolores e aí, yeww), ficam amarelos com uma rapidez incrível, e nesta altura do ano a fruta não é por aí além variada ou apelativa. Acresce que uma pessoa tem de trabalhar e ainda limpar a casa toda antes de almoço, que já não dá para ignorar o estado de la-men-tá-vel acumulação de cotão e pó (daqui a nada ganha vida e depois temos um filme de terror cá em casa, fazemos a abertura noticiosa da cmtv, descoberta macabra: casal devorado por monstros de cotão. não queremos isso, não. 

Entretanto irritei-me (ainda mais), eu que até sou pessoa que anda a evitar irritar-se, derivado de já ser muito doente dos nervos e não precisar de estímulos extra, quando ontem vi no telejornal imagens de pessoas alegremente passeando (isso ainda vá) e abancadas em jardins (é proibido, caraças, proibido). Já vamos no décimo segundo mês disto e basta um raiozinho de sol para se mandar às urtigas todo o sacrifício que já levamos às costas, e com resultados evidentes; pô, ontem fomos desentorpecer as pernas de e até ao atm e ainda há gente que anda alegremente sem máscara, como se vivessem sozinhos no mundo, os psicopatas. Qualquer dia faz anos que se ia bater palminhas à janela aos médicos, enfermeiros e pessoal hospitalar; agora são mais os piretes e comentários abjectos (eu sei, eu sei, tenho de deixar de abrir caixas de comentários de notícias) de eles não querem é trabalhar, é para isso que lhes pagamos e por aí fora, já nem mencionando os chalupas pela verdade lá deles, que garantem que isto é tudo um grande embuste, os hospitais estão às moscas e os médicos e enfermeiros cantando e bailando. É como diz aquele chiste muito antigo (eu sou uma pessoa antiga, ainda me lembro do metro parar em em Arroios, vejam lá), se a estupidez pagasse imposto andavas todo carimbado e, acrescento eu, a avaliar pela parvoeira que por aí anda, não precisávamos de bazuca europeia que tínhamos os cofres cheios.

Haja paciência.  Hoje estou muito precisadinha.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Então isto hoje são quantos de quando?

 Entrados em pleno no mês doze do ano da peste, agora sim, estou a perder a noção do tempo. Nota: hoje é quarta [iep, achei que era quarta, mas fui conferir] quinta feira, onze de Fevereiro. Um grande bem haja ao telemóvel, que cada vez que o abro mo confirma.

Mas piretes para o mau, foco no bom. Não que tenha ânsias de me tornar uma pessoa mega-hipé-positiva, a espalhar, com minhas palavras, luz por todos os recantos escuros da existência, mas porque hoje preciso. Dói-me a cabeça (outra vez), não consigo dormir oito horinhas seguidas porque acordo ainda de nôte com preocupações que não lembram a ninguém, estou fartinha do teletrabalho em especial, e do trabalho (no qual incluo a lida doméstica, é trabalho) em geral.

Vamos a isso? 

Vamos.

Um: a lego vende online e a entrega não é feita pelos CTT (graçádeuz, né, que o ikea já despachou a minha dia nove, com previsão de chegada dia 10, e os CTT ainda nem sequer me mandaram o tracing da encomenda. os livros técnicos que a almedina despachou hoje devem chegar pela Páscoa, presumo). Temos até a hipótese de ir levantar em pontos de recolha (tenho um bem perto), funciona lindamente. Ah, e tu tens tempo para fazer legos? Arranjamos, ora. O lego faz parte do nosso zen conjugal. Há meia hora, monta-se mais um andar da casa da Rua Sésamo.

Dois: filmes e séries. Coros de anjos. Caraças, não fosse a tubisão e já tínhamos enlouquecido. Como tenho uma memória de peixinho, em 2020 comecei a apontar todas as séries e filmes que abatemos e, eia, de facto temos muito tempo livre. Ou ocupamo-lo bem. Os melhores filmes que vi em 2020? Parasite (top, top, top, tão bom, tão bem feito, tão marxista, tão doloroso); Jojo Rabbit (chorámos ambos); A Laranja Mecânica (um filme com a minha idade e que - choque! -nunca tinha visto; ó pá, que caneco); A Queda (também ainda não tinha visto - vergonha!); A Favorita (amor eterno por Olivia Colman), e Tropa de Elite. Diverti-me muito com Birds of Prey, mas apanhei um secão (e dormitei) com The Avengers. Apanhei o cagação mais longo e intenso - aquilo é um suspense de cortar à faca, e quando se pensa, nã, não vai piorar, piora - com Midsommar; e deleitámo-nos com terror / suspense old school de Carpenter (The Thing, um prodígio de feitos pré CGI; The Fog, que deve ter custado uma merreca mas é bem bom; e é sempre bom revisitar Escape from New York). Da produção nacional, fiquei agradavelmente surpreendida com Variações (já agora, aquele dos Queen e do Freddy Mercury é uma joça, mas o Rocketman achei um musical muito bem conseguido); e muito, muito agradavelmente surpreendida com A Herdade.

Foi um total de 55 filmes, se não me falhou tomar nota de algum. 

De séries, começámos 2020 a despedir de Buffy (muito, muito fixe, e envelheceu muito bem); a degustar Good Omens (pá, é um doce muito especial e que apreciei deveras, espero que Sandman seja adaptado com tanto amor como este); e seguimos a alta velocidade com Narcos, After Life (pô, tão bom), e passámos uns bons meses na refeição gourmet que é The Americans. Que. Série. Do. Caraças. Espreitámos e ficámos fãs de Cobra Kai (terceira temporada já devidamente digerida, em 2021); e claro, euzinha, sozinha, que sou uma pessoa de gosto, adorei The Good Place e The Crown. Des (correide todos à HBO e vede, vede) já no fim do ano, seguido de The Handmaid's Tale (foram todas as disponíveis, e uma pessoa pensa ah, já li o livro, que terão estes a acrescentar, e vai na volta e têm, apesar de no início da terceira temporada bater aquela dúvida sobre se vale a pena ir à quarta, provavelmente vamos, we ain't no quiters).

No total, 15 séries. Definitivamente, temos muito tempo livre (noites e fim de semana, c'a gente trabalha com'ás outras'ssoas). Ou aproveitamo-lo mesmo bem.

2021 é que está a começar fraquinho: só dois filmes e três séries? Hum. Se bem que His Dark Materials (HBO) vale por cem, pá. O elenco é, ó do caracing, e a Ruth Wilson é a melhor vilã de sempre, sempre, sempre. Maravilhosa. De uma forma (subtilmente) aterradora, claro. Me mate é superfã dos livros, pelo que estava muito apreensivo; acabou tirando o chapéu, o que é, para ele, um grande elogio. Ansiamos pela terceira e última temporada, mas ansiamos a um nível de grande ânsia. Digo já que foi a primeira série de fantasia que me pôs a uivar de dor e revolta (literalmente: cheguem ao último da primeira temporada e depois falamos. e voltamos a falar no último da segunda. olaré. quem não chorar tem uma pedra de calçada no lugar do coração), mas também a bater palminhas e a ter reações completamente futebolísticas (I know, I know, despicable me) de Aaaaahhhh!, 'Bora, c@ra; Pá, este gajo/a, matem-me este/a gajo/a.  

E hoje fico por aqui. Até porque o Três: livros, não tem tido grande andamento. Surpreendente, eu sei; mas passo o dia ao computas a ler inanidades, a cabeça não chega para tudo. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Namasté, ou o caraças

Se já andei a "passear" em sites de venda de produtos de cabeleireiro, a pesquisar tesouras de corte e de desbaste? Sim. Se desisti a tempo? Felizmente, também sim.

Muita forcinha zen para esta lucidez me durar até à Páscoa, muita mesmo.


[cabelo fino + abundante+ pesado + extra liso + tesourada amadora = esfregona cruzada com porco espinho, só remediável a máquina zero. este é o mantra a recordar.] 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

[ a emissão segue dentro de momentos ]

 



[a norma das sequelas - salvo raras e honrosas excepções - é esta, não havia razões para que "Confinamento 2 - A Vingança de Corona" fosse melhor que o original. níveis de ansiedade, cansaço, cagufa, desalento a bater recordes. chatice, pá. me no like. 

felizmente já ninguém anda com aquela positividade tóxica do "vai acabar tudo bem", "isto vai-nos tornar melhores pessoas", porque a) até acabar, não me doa a cabeça - a sério, não me doa; b) vai acabar bem o caralhinho, há quem já esteja acabado ainda a procissão vai no adro; c) quanto à natureza humana, bom, não tenho vontade de filosofar, é o que é. 

há bocado fomos à rua, porque era preciso aviar uma receita. aproveitámos para um passeozito, a desenjoar, eu, dos meus trajectos casa - garagem - viatura - trabalho - inverso, e ele de ir ao pão e pouco mais. não contei, porque os nervos me estavam a incapacitar um bocadito, mas tivesse dado uma paulada a cada pessoa sem máscara, e ia passar uma boa temporada na cadeia.

enfim, é o que é. muita paciência, juizinho, e caaaalma. que se foda a calma, ó. chocolate. quero. mais. preciso. mais. chocolate. nunca fiquei tão contente por estar quase a ser "dia de supermercado"]   

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Calhou cocó

 


Aceitam-se apostas, ou meros palpites, sobre:

- Quando é que o Trampas vaga a casa alva, e se sai pelo seu pé ou ao colinho / arrastado / à mangueirada;

- Novo confinamento: sim ou não; se sim, quando e por quanto tempo;

- Quantos xanax a mais se aviaram neste país à conta dos debates presidenciais;

- Três dias a voltaren serão suficientes para repor as minhas costas num estado minimanente funcional (já não peço mais) (sim, escangalhei-me logo no segundo dia de trabalho aqui na arca frigorífica);

- O valor do acerto que a EDP me vai mandar ali para Fevereiro, Março.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Ready to start

Toda eu sou contrariedade e amuanço, neste recomeço de hostilidades laborais; pareço os catraios no regresso à escola. E frio, muito frio: os pés parecem blocos de gelo e não há meio de os aquecer; estou encostadinha ao radiador (o que é uma maravilha para gargantas sensíveis, valha-me são brufen), vou-me mexendo como posso, mas nada resulta. O termómetro do carro acusava mais de dez graus, mas parecem-me metade disso, as minhas extremidades concordam. Tanta coisa para calhar ser, havia de me sair na rifa friorenta. E facilmente entediada.  

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

And in the end the love you take is equal to the love you make*

Não estão tempos para balanços e retrospectivas, que não estão: ainda ontem pensava eu, rejubilante, que esta coisa das máscaras era um fantástico silver lining, e a manter para sempre, que consegui chegar ao fim de Dezembro sem as duas constipações / dores de garganta / tosses / ranhosices da média e tau, hoje tenho aqui um piquinho na amígdala.

Sim, sim, twenny-twenny foi aquele ano que, como comunidade, já se sabe. Mas foi também o ano, não há como não frisar, o mesmo ano em que foi declarada uma pandemia e descoberta / desenvolvida / distribuída uma vacina. Isto é um bocado uau, para não dizer estupidamente yay. 

Donde, e a um nível a modos que global, 'tá-se. Mais um bocadinho de paciência e em Abril, Maio mamãe já está vacinada (um peso enorme que me tiram); lá para Junho, Julho calha a moi e aos que me rodeiam (e já posso ir de manga curta, não obrigando ninguém a ter de encarar meu torso desnudo - estou a brincar, senhores, levai mangas curtas, ninguém precisa de ver mais man-boobs).

O resto logo se vê, sorry (not sorry) pelo egocentrismo, mas tenho mais com que me ralar num futuro próximo. É que twenny-twenny não levou só o meu pai e o casamento do meu irmão: a partir de amanhã a outra metade deste casal vai estar desempregada. Quer dizer, em situação de não empregada. Sem trabalho? Isso. Não se trata de uma consequência directa da covid, pois estava já a entrar no simpático e aconchegante forno do capitalismo há precisamente um ano; mas a pandemia veio reforçar e acelerar uma decisão executiva, tomada por doutores engenheiros daqueles que ganham chorudamente para pensar nestas coisas, e ainda vão levar de presente um bambúrrio em prémios por as concretizar. Parece que as empresas, mesmo as que deram lucro (e do bom) antes e durante a pandemia, não precisam de trabalhadores. Quer dizer, já não precisavam antes, que trabalhador é bicho em vias de extinção e extinto será depois de caçado até ao último exemplar; agora o que se precisa é de colaboradores (qualquer pessoa que tenha umas luzes mínimas sobre os tempos da Segunda Guerra sente arrepios ao ouvir e ler esta palavra), que são umas pessoas muito colaborantes, isto é, não chateiam com coisas de somenos importância como vínculos, estabilidade, horários, salário digno e adequado, pagamentos à Segurança Social a cargo do benfazejo empregador, helás, são pessoas muito modernas e eficientes, que fazem o que lhes pedem para fazer e não maçam quem manda fazer - que seria! - nem são entrave à mais valia para quem, nesta relação, tem de ser preservado, apaparicado, premiado - estou a falar do accionista, claro, que o aparicamento e prémio do shôr director estratega engenheiro ninguém esquece. Donde, pErtanteS, mais uma empresa que qualquer dia tem mais dirigentes que empregados colaboradores, e mesmo estes não têm qualquer parentesco com a dita empresa, mais faltava tais intimidades, são apanhados no largo da aldeia pela carrinha, manhã bem cedinho, escolhidos conforme a batata que há para cavar, pagos ao dia de jorna e cheios de sorte. É isto, é. E se, para arranjar lugar para este novel (lol) modelo de gestão de pessoal (lol) é preciso vagar os lugares ainda detidos pelos tais bichos raros dos trabalhadores, emprega-se os meios que forem adequados, ora essa. Chumbo grosso, armadilhas de urso, fossos com estacas. Ou ameaça de e de. Até a pessoa achar melhor solução a saída pela porta desengonçada que lhe abriram, mandar um sonoro fodam-se vocês, que a mim já ninguém fode** e ir. 

Anyhoo, como diria um motivador / influencer de algibeira / antigo primeiro ministro com um apelido de bichinho fofinho, é uma oportunidade. De quê, ainda não sabemos. Mas vai ser, porque sim. Sou uma pessoa um bocado teimosa, e quando embico pelo optimismo, ui. Até porque não pode ser tudo mau, na puta desta vida. 

Calhou também que, neste ano da desgraça, tenha tido a melhor notícia de sempre - até agora - que foi a sobrinha bomboca-linda ter ido estudar o que sempre quis para uma universidade lá fora onde nunca pensou que conseguisse entrar, que a concorrência é muita. Concluindo, preciso muito da vacina, pode ser bácina, também. Porque nos próximos quatro anos (tudo correndo bem), vamos inaugurar um corredor aéreo Lisboa - Berlim sem precedentes. Nos próximos quatro anos, tudo correndo bem, tornar-me-ei transportadora de bacalhau seco, lata de atum e sardinha, azeitona, azeite, superbock, em mala de porão. Nos próximos quatro anos, tudo correndo bem, serei capaz de perceber a menina da caixa quando me disser quanto tenho de pagar pelos 271 ritter sport (chocolate com iva a 6%!!) que estou a aviar. Nos próximos quatro anos, muito provavelmente, não conseguirei converter-me ao currywurst (aarrrrggghhhh) ou qualquer tipo de salsicha (what gives? a sério.) mas me mate ficará saciadinho e feliz. E a culpa não é só do babanço que temos pela sobrinha. A culpa, maioritariamente, é do Brexit e pó que actualmente tenho aos ingleses.  E de termos ido a Berlim há quase dois anos, e nos termos apaixonado. A certo ponto olhámos um para o outro e disse eu, "é para aqui, agora?", e ele fez que sim. É para ali, agora. E onde calhar. 

A ver se temos sabedoria e sorte na leitura de mapas. Não temos, eu sei; mas ao menos fazemos figura de idiota juntos. Isso é certo. Confortável, aconchegantemente certo.


*há sempre uma música dos Beatles adequada a qualquer, repito, qualquer situação. o mesmo sucede com as tirinhas da Mafalda.

**citando João César Monteiro, ídolo de me mate (eye roll), numa das poucas ocasiões em que lhe achei graça.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Contem-me tudo, não me escondam nada

 Aquilo que nos antigamentes, naqueles tempos pré-pandemia, as pessoas chamavam "conference call", eram os zooms e os skypes de agoramente, não eram?

(o mundo corporate e o seu fascinante jargão sempre foram um mistério, para mim)


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Mais problemas, tantos problemas

 Não sei por que alto desígnio do algoritmo que comanda estas coisas, ultimamente o feicebuque insiste em enfiar na minha timeline vídeos de cenas do it yourself e... nail art. 

Quanto ao DIY, sim senhora, até consigo perceber, admito que sou menina que segue no instagrã imensas contas de home improvement. Só que estes vídeos são, todinhos, relativos a (dizem eles) life hacks na área da indumentária, implicando corte e costura ou pintura de roupas e calçados vários que, ahém, como dizer, credo, acho que nem um catraio de três anos daltónico e com duas mãos esquerdas acharia bom ou bonito. Não, não vou escortanhar jeans ou techértes, dar nós, esfiapar bainhas, e sair à rua naquelas figuras. Também não pondero macular ténes, sandálias ou chanatos, nem sequer os mais velhos, com tintas várias, glitter ou aplicações brilhosas. Nope.

Já os vídeos de nail art, e desde já fazendo o disclaimer que de art aquilo não tem nada, não faço a mínima ideia como me foram distribuídos. Nem gelinho, quanto mais unhas acrílicas, foram alguma vez implantadas nas minhas unhifas. E não, não há a mais pequena possibilidade de alguma vez decidir experimentar uma Hello Kitty estampada no indicador, quanto mais um padrão tigresse, ou o logo de uma marca (e se ficassem por aí, mas não, toma lá um lv ou ou gc em douradinho e uma correntinha dourada à roda da unha, com franqueza, pá, que coisa mais barracosa). Mas confesso o fascínio: em tendo tempo, vejo aquilo com um misto de angústia e fascínio, sempre a pensar "pronto, agora já está bom, pára" - não está, eu parava logo na camada de uma única cor, uniforme -  e, tcharam, eis que surge um carimbito em tom contrastante, umas risquinhas, pintas, ou uma mistela a lembrar o tie-dye, finalizado com a colagem de pedrinhas, pérolazinhas, florinhas, correntinhas, e outras merdinhas que não lembram ao demo. 

Se o propósito é humorístico, desde já as minhas desculpas, apesar de não ser beeeem o meu tipo de humor. Mas que é horripilantemente cómico, isso é.

(tenho de descobrir como me livrar daquilo. ou não. há dias muito chatos e uma pessoa precisa de se sentir estilosa, nem que por comparação.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Os meus problemas

 Deixei de usar mala ao ombro (ou só uso muito raramente) desde que tive uma tendinite no dito. Passei a privilegiar o tiracolo, porque a tira se apoia no outro ombro, mas entretanto dei conta que me agravava, e muito, as dores na base das costas. Comprei uma mochila toda gira, de pele, com muita arrumação e de tamanho médio. Se ando muito tempo com ela, fico aflitinha da cervical.

Começo a achar que o problema não é o recipiente, mas o recheio. 

(juro que não inclui um tijolo, apesar de mamãe jurar que parece)

domingo, 6 de dezembro de 2020

Certos casos de caos interno

 


Que não haja mal entendidos: fazer-se nota do surgimento ou aumento de casos de doença mental por causa da pandemia é essencial; a preocupação com a criação ou agravamento de doença mental em consequência da pandemia é séria. Mas vital, verdadeiramente fulcral, era arregaçar mangas perante o fenómeno e discutir-se a sério o combate ao problema; criar,  manter ou aumentar uma resposta estrutural, para o futuro. Prioridades, eu sei. Adiante.

Feito este disclaimer, e porque se já se vai falando do assunto, mas muito pouco, tenho pouco feedback sobre como as pessoas que já carregavam o fardo da doença mental estão a reagir, a adaptar-se (ou não). Ao que parece, e do que é noticiado, aumentou a prescrição e consumo de antidepressivos. Presumo que ansiolíticos estejam incluídos (muitas vezes são metidos no mesmo saco, porque podem funcionar como coadjuvantes daqueles seja em situações de depressão como de ansiedade). Mas não se iniciou a conversa de ei, como vai isso, pior, melho, na mesma? Pumbas, inicio eu, ainda que neste tasco semi-confinado e com uma freguesia muito reduzida.

Como não me sinto autorizada a ser porta voz de ninguém, só posso dizer que 'tou bem, obrigada. Verdade que não sou uma deprimida "a sério", isto é, sou só uma distímica ou, em linguagem corrente, padeço de uma depressão altamente funcional. Quer isto dizer que tenho a coisa controlada, quer por uma dose mínima de medicação  - mesmo mínima, no dizer do meu psi subterapêutica, mas é a boia que preciso que esteja ali para me segurar caso me sinta a deslizar - quer por psicoterapia regular há dezassete anos (iep, dezassete, e até devia ter começado antes mas havia um p€queno obstáculo, afinal fui diagnosticada há trinta anos).  Donde, depressão altamente funcional > consigo fazer uma vida praticamente normal, manter um emprego altamente stressante e exigente com bons resultados de desempenho, conhecendo-me ou lidando comigo ocasionalmente até me acham uma pessoa normal (lol), ainda que um bocado bicho do mato, por aí fora. No panorama geral, sou uma privilegiada; não fui sempre, a coisa estava substancialmente mais negra quando recorri a um psi, mas isso agora não é o que interessa. O que queria dizer é que a pandemia não agravou o meu estado de saúde mental. Na-di-nha. Até me atrevo a dizer que melhorou (considerando, também, que concomitante à pandemia me vi num processo de luto). O medo de ficar ou estar doente, com uma doença física, ainda que nova e com contornos desconhecidos, nunca me aconteceu antes, nem surgiu agora. Acho que a constante angústia e ansiedade em que me habituei a viver relegou esse receio, tão humano e compreensível, para um segundo plano. Não tomou a dianteira agora. Claro que não sou tolinha ou destemida, tomo (todas) as precauções que a ciência aconselha, nem as discuto (não tenho habilitações para tanto). Depois, e falando nas tais precauções, o confinamento, afastamento social, e constante preocupação de desinfectar mãos, usar mascara, etc, não me cusam por aí além - vide "bicho-de-matisse" já referida. Acresce que o desacelerar da vida "normal" - que nunca senti como muito "normal", siga - melhorou substancialmente a minha qualidade de vida. Verdade seja dita, o trabalho continua pesado, até porque se teve de ser redimensionado (válido para quem tem de lidar com pessoas), temos de lidar com uma série de circunstâncias que anteriormente nem se colocavam, cautelas acrescidas, adaptação de métodos para manter o serviço e a resposta a correr satisfatoriamente. Mesmo de portas quase fechadas, continuei a trabalhar comó caraças, mas com outro nível de pressão. E, portas abertas, idem aspas. De repente, no silêncio que cobriu o mundo, no deserto que invadiu as ruas, tomei consciência que antigo "normal" era brutalmente anormal, absurdo, desumano. Trabalho de forma diferente, pus pé no travão, conciencializei-me que aquilo antes não era vida, era uma corrida desenfreada e louca. E já não é possível e, no meu caso, felizmente. Por fim, o sentimento de paz. A consciência generalizada de que não dominamos nada, não controlamos o que nos rodeia, não somos donos do tempo, do modo, do existir, cria-me um enorme sentimento de paz. Curioso, porque penso que é exactamente esta incerteza existencial que criou, em muitos, as brechas que agravam a sua saúde mental. Não comigo. Se calhar porque desde muito cedo interiorizei que nao domino nada, não controlo o que me rodeia, não sou dona do tempo, do modo, do existir. Não deixa de ser irónico que o trending de angústia existencial associada à pandemia tenha em mim o efeito contrário ao sentido por os demais, ou ao menos tantos: a normalização do meu habitual estado interior. Sempre vivi assim; o mundo estar agora "assim" funcionou como uma especie de nivelamento. Finalmente vivo a na normalidade. A minha normalidade passou a normalidade geral.  

Ainda que ninguém pergunte, não, não me faz feliz ver mais gente a baixar aos infernos da eterna ou constante angústia. Pelo contrário. Não sou daquelas que rejubile pela desgraça alheia, tenha sentimentos de "toma, agora já sabes como é", nem me sinto superior ou especial por estar a conseguir lidar (nadinha, até me sinto surpreendida, e tenho passado algum tempo a matutar no assunto, como se depreende do lençol que aqui vai). Tenho é um andamento do caraças, um treino que faz favor - e pela primeira vez na minha vida isto revela-se como uma vantagem, nunca pensei. 

Daí achar que é tão importante uma discussão séria sobre o assunto, e a criação de mecanismos de resposta: para que quem agora se sinta assoberbado, sem ar ou chão, não se perca. Para que a assistência ou tratamento sejam fáceis e assessíveis. Para que quem sinta necessidade destas não sofra ainda mais pelo estigma de precisar. Sim, eu cá estou benzinho, mas tempos houve que não estava mesmo nada e só a possibilidade de recorrer a assistência privada me safou. Nunca me esqueço ou esquecerei disto (há trinta anos, seis meses de espera para um consulta não de especialidade mas de traiagem, no público; não creio que tenha melhorado). Já não acredito - confesso que quis acreditar, por um breve momento - que esta situação nos poderia tornar melhores pessoas, individual e socialmente; mas quero muito, muito, mesmo muito que sirva para retirar algumas conclusões que, para mim, são evidentíssimas. Uma delas é de que o investimento público no sistema nacional de saúde é A prioridade, e de que todos os aflitos merecem ser acolhidos, cuidados e tratados. Todos, todos, todos. Balhelas, desiquilibrados, fraquinhos de cabeça (ironia, hein), incluídos.      

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Entretenho-me muito a magicar

E a cisma actual consiste em imaginar se o actual governo (de centro-esquerda) utilizasse, face à inevitável crise económica que a também crise pandémica criou, a mesma retórica que um antigo (e de má memória) governo de direita liberal usou e abusou. 

Imagine-se, por puro deleite hipotético, que todo o sector privado que reclama ajudas, fosse corrido a sermões de que é o mercado a funcionar, têm de se adaptar, sair da sua zona de conforto, e mais!, deixassem de ser piegas. Afinal o dinheiro não nasce nas árvores (ouvi esta tantas vezes), pois não? Não. O dinheiro vem dos impostozinhos, pagos por pessoas singulares e também entidades privadas - se bem que, bom, ao que ouço, enfim, o que eu gostava de ver as declarações de IRC de alguns negócios (as de IVA, deixem lá: o IVA não é um encargo vosso, por muito e estupidamente convencidos que estejam).  

Claro que, como esquerdalha convicta que sou (na verdade considero-me uma social democrata pura, mas para quem esteja à direita isso já equivale a esquerdalhada porque, blhéc, temos preocupações sociais, arrgh), não podia ser mais a favor que o dinheiro dos impostos sirva para acudir a quem precisa. Pessoas singulares ou sociedades comerciais, não excluo uma ou outra. Financeiras já tenho um pé atrás, lamento, até porque no actual contexto não me parece que precisem de uma mãozinha. Mas sim, para além de tantas pessoas que perderam toda a sua fonte de rendimento, ou grande parte dela, muitos negócios estão em maus lençóis e em situações mesmo rés-vés. O lay off ajuda, tanto empregados como empregadores, é um peso que se levanta, mas não chega, é um facto. Continua a haver outros encargos fixos, ele é rendas, leasings, fornecedores, sei lá, não percebo nada de negócio. Por isso, claro que sou a favor de uma intervenção do Estado.

O Estado, aquele Estado, que tanto liberal sempre defendeu magrinho, anoréxico, mesmo. Agora que lhes aperta nas canelas, arrumaram essa bandeira do "menos Estado" na mesma gaveta onde o Soares deixou o socialismo. Com a diferença de que os liberais se vão lembrar onde é a gaveta, não perderão a chave, e lá irão buscar a bandeirinha outra vez, apostava. O Estado, aquele Estado explorador a quem não queriam pagar impostos, porque esse Estado, malvado Estado, gastava tudo em porcarias e com quem não merecia. Ah, a ironia. Aposto que não a apanham. Adiante.

Bom, sucede que, até ao presente, não ouvi ou li uma palavra do governo de esquerda (não é bem, mas acompanhem-me) a negar qualquer ajuda. Pelo contrário. Verdadinha que elas não chegam tão depressa como seria desejável, que o digam os profissionais de audiovisual, queridas cigarrinhas que nos ajudam a manter a sanidade mental com o que produzem, mas vão sendo planeadas (não é fácil) e vão sendo postas em prática. E, em estando em causa negócios, tem de haver uma base de cálculo das ajudas, e esta só poderá ter por base a - tcharammm - facturação declarada. Uma chatice, pá. Depois há aquela coisa que, derivado do dinheiro não nascer nas árvores, se tem de fazer quando o assunto é gastar recursos escassos que a todos pertencem: priorizar, e atribuir de forma equitativa, proporcional. Não chega para tudo, não. 

Some-se ainda os bambúrrios que neste momento - e muito justificadamente - são absorvidos pelo SNS. Lá está, prioridades, é preciso cuidar dos doentes - custa pilim -, pagar aos profissionais - custa bagalhoça, e mal pagos são eles - comprar materiais - muita notinha. Já agora, era simpático que não houvesse gente a passar literal e involuntariamente fome, há muito subsídio de desemprego para pagar, e RSI a atribuir, e até devia haver mais, neste momento: há muita gente que perdeu fontes de rendimento que não tem direito a subsídio. 

Donde, empresas, vai chegar a vossa hora. Está prometido, é aguentar. Ah, mas eu não sei se aguento muito mais tempo. Como não? Então vós, porta estandartes habituais do liberalismo, que defendem ('xa cá ver as minhas notas) que o lucro é a justa retribuição do capital, porque risco, empreendedorismo, job providers e o caneco, gastaram tudo em porcarias e em quem não deviam? Que maçada.