terça-feira, 15 de setembro de 2026

Qualidades de vida

Na qualidade de consumidora final estou em condições de afirmar que, em relação à péri, a meno se está a revelar mais empática, até simpática. Sim, ainda tenho vontades súbitas de esganar 'ssoas, mas menos vezes. Sim, há dias em que alguém a mastigar um pãozinho de leite ao meu lado é suficiente para me lançar naquele estado. Continuo com comichão no canal auditivo, todos os dias, a qualquer hora, e sim, tenho mesmo de enfiar o dedinho para acalmar, ou, leia-se supra. Mas não me doem as articulações (por enquanto), não me cai mais cabelo que o normal (por enquanto), já não acordo, sistematicamente, às três da manhã, mas neste ponto há que dar crédito ao magnésio, bendito seja, bisciglinato ou outra formulação, tem é de ser muito.

Só uma coisa piorou: os calores. O calor. Sempre fui hiper friorenta, e agora ando sempre a destilar. A suar da testa, do bigode. Da nuca. Onde a roupa está mais justa. Tenho muito, muito calor, permanentemente. E, de quando em vez, tenho ainda mais, muito mais calor, como se tivesse uma fornalha em brasa aqui dentro e alguém deitasse mais uma pázinha de carvão, só por maldade. Nessas alturas juro que morro, tenho a certeza que estou a deitar fumo pelo cocuruto, decerto estarei também vermelha como um pimento, mas me mate garante que não, estou normalíssima. Normalíssima o caraças, o meu spot preferido é, atualmente, o corredor dos frios do Lidl, aquele que tem arcas de congelação de dois metros de altura de um lado, os frescos a ocupar a parede toda do outro, paro ali o carrinho e finjo que estou a ver uma coisa muito importante no telemóvel, mas estou só a repor a minha coolness, juro, é decadente, mais, de-ca-den-te ter-me transformado em salamandra ambulante, logo eu, que tenho camisolas de lã muito catitas e casacos quentinhos giríssimos, que desperdício.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Tenho demasiadas encomendas em trânsito, para quem só faz teletrabalho uma ou duas vezes por semana

- Eeeeeehhhh, estas leggings em bordô são mesmo, mesmo giras, leva.

- Já tenho que chegue, não.

- Em bordô não tens.

- Mas preciso? Não. Tenho pretas, azuis e caqui, é suficiente.

- Estas ficam bem com tudo: azul, preto...

- Não tenho ténis de ginástica azuis.

- Mas tens os pretos. E os brancos. E vais sempre de t-shirt branca, portanto...

- Pah, não vou comprar mais leggings, não sou atleta olímpica, para que preciso de tantas.

- Também usas por casa...

- Ok. As outras já chegam.

- E ficavam giríssimas com esta t-shirt aqui.

- É de manga comprida. Não uso manga comprida no ginásio, calor.

- Mas combina com as leggings. E às vezes já vais equipada para lá, ias toda gira.

- Pah. Não. Não ao quadrado.

- Duas razões: uma: riscas...

- Ó que caraças, já tenho t-shirts de riscas!

- Duas: ... bordô, desta cor não tens.

- Confundiste-me com o catálogo da robialac, não compro, não vai acontecer.

- E, se fosse a ti, ainda pensava bem no polo de riscas azul e cinza...

- Vou-m'embora, adeus, adeus.


Não levei. 

No dia seguinte, abri o site e mandei vir. Menos o polo de riscas. Porque tem de haver limites, e não me posso fazer as vontades todas, ora. 



 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

E então

 outro dia vi uma velhota, bengala e asas do saco de plástico na curva do braço, a esmiuçar o conteúdo do ecoponto amarelo. Não daqueles enterrados, a pobre não tinha condições de fazer dumpster diving em profundidade; foi nos contentores que estão em frente ao bairro cooperativo onde há atrasado mataram um barbeiro e mais uns clientes, levou vinte e cinco anos, o fideputa, qual a dúvida, caso fácil, é um bairro pobre, as paredes dos prédios a exibir a humidade das condensações, certificado energético z, apostava, passa ali a Mouzinho de Albuquerque, que é o meu caminho para o Lidl de Xabregas, e há quatro, quatro!, um lucho, conjuntos de ecoponto, mas ainda foi um tetris conseguir enfiar a minha caixa de cartão, espalmada e dobradinha, no pouco espaço que sobrava no azul, mas falava da velhota: desde que começou o volta já vi carochos, tóxicos, pessoal com ar de ganhar ao biscate a arrastar sacos pretos de cem litros, costumam ser muito simpáticos e deixam-me sempre passar para deixar a meia dúzia que trago, a miséria tem maneiras, ao menos aqui em Xabregas, no da Forno do Tijolo o drógado foi um bocadinho mal educado quando a máquina encravou, devia estar a ressacar e não metia crack há umas duas horas, os braços não eram de heroína, parece que voltou, ah, o 80's revival, Marim Moniz cheio de pedintes, sem abrigo, bandos à naifada, tóxicos, alcoólicos de pacote de vinho, tivemos uns 15-20 anos bons e olha, adeus, nem com a esquadra ali; atenção, em Xabregas também há alcoólicos, já os conheço, juntam-se debaixo do telheiro junto ao parque de carrinhos, está sempre sombra, e ali não bate chuva, mas são finos, alimentam o vício a cerveja Argus, haute buber em relação a vinho de pacote, e, zás, são educados, a única mulher sempre arranjada, nunca os vi a meterem-se com ninguém, não se ouve palavrão, conhecem os empregados pelo nome, e estes juntam-se à conversa quando vão lá fora fumar um cigarro. Mas e a velhota?, ah, a velhota, pois, é a demonstração da falência não de um sistema de recolha de resíduos, mas de um modo de vida, de organização social, de estrutura económica; por vergonha não lhe ofereci as três latinhas que tinha na bagageira, não soube fazê-lo sem correr o risco de lhe ferir a dignidade, só mais tarde me ocorreu, "ó senhora, está à procura de voltas?, sim?, fica-me ali com umas que estão a ocupar espaço?, assim escuso de ir de propósito levá-las à máquina, obrigada eu, já me fez um favor." Apesar de que, com fraqueza, preferia não voltar a vê-la.