E agora vinha aqui fazer beicinho e birrinha de ai que chatice estar em casa, mas não, lamento, checked my privilege e tenho tudo o que preciso (menos chocolate, está a acabar. vinho também. a tragédia, o horror, vou tentar manter a serenidade). Não caem bombas lá fora, o ordenado cai por inteiro, eu gosto mesmo de mi casita, e dispenso a (maior parte da) interacção social. Descobri entretanto que sou como os cãezinhos e me faz muita falta ir dar uma volta à rua, mas varanda. Agora não, que está frio, mas varanda. Donde, 'tá-se, pelo menos por aqui.
O que não implica que admita algumas dificuldades. A ansiedade está controlada, mas houve dois dias que exigiram um esforço extra. A deprê é o pior (passei três dias seguidos em que fiz nada, nenhum, nestum, para além de ter o rabo colado ao sofá e a tv ligada), mas eu já cheguei a um nível avançado, sei a) reconhecer; b) perceber que em grande parte é reactiva, derivado de situações; c) dar-me tempo; d) ser generosa e paciente comigo; e) estratégias para reagir, sempre considerando as alineas c) e d).
Tirando a parte psicopatológica da coisa (it is what it is), a coisa faz-se. Não obstante e apesar de
- custar-me imenso não ver a minha mãe (o meu irmão, os meus sobrinhos) desde o funeral, mas we'll always have tufone;
- me mate continua a trabalhar presencialmente lá no bordel onde ganha o tostão; como não conduz eu saio duas vezes por dia (ooohhhhhhhhhh) para o levar e trazer, o que também me obriga a manter uma rotina (que a minha velha amiga neurose se empenha em destabilizar);
- só de pensar nas filas (aawwwwww) cada vez tenho menos vontade de ir às compras, mas também é menos que se gasta em porcarias;
[falando em compras, a situação mêmo, mêmo crítica não se prende com chocolate e vinho, mas com os biscoitos dos gatos. estão a acabar, e temo uma sublevação que faça da revolução francesa uma brincadeira de carnaval. e aqui a estúpida esqueceu-se deste pormenor quando mandou vir cerca de meia tonelada de areia da zooplus.]
- o home vai ter de cortar o cabelo e aparar a barba em casa, e isto roça a tragédia porque está em causa um exemplar que tem por hábito ir ao barbeiro de três em três semanas e eu já não o posso ouvir [a menina cheia de raízes e a menina, estóica, não bule, não bulha, não bufa], mas chegou hoje a encomenda de máquina de corte, haja piedade;
- esta casa precisa mesmo, mesmo, mesmo de ser aspirada com frequência, isto de quatro gatos é muito giro mas apre;
- continuo a ter imensa dificuldade em me concentrar e trabalhar em casa mas, felizmente, também não tenho muito para fazer, graças à falta de entradas e solicitações derivado da (quase) ausência de fregueses; assim se mantenha, mas o depois é que vai ser, credos, penso nisso depois;
- agora que era uma óptima oportunidade para fazer umas senhoras arrumações e me livrar de monos é que a Câmara limita a recolha de lixo; eu percebo, sou empática, o pessoal da higiene urbana está muitíssimo exposto, ganha mal que se farta e ninguém lhes dá valor (pelo menos fora destas épocas de excepção), mas eu sou uma fã de longa data e, se mandasse, não levavam menos de mil líquidos para casa, mais subsídos;
- os cafés estão todos fechados, pelo que não há aquele magnum cor de rosa para ninguém, e isso aflige-me muito, do que me fui lembrar, já não consigo dormir hoje;
- eu cá não sou de intrigas nem de andar a fomentar feique nius, mas tenho p'ra mim que esta casa tem um poltergeist que se entretem a sujá-la, só isso explica que o casal residente faça a lida de ponta a ponta, com todo o brio, e no dia seguinte já esteja tudo com um ar apocilgado.
E depois há as partes muito, muito boas, tais como
- Parasitas é mesmo um grande filme, e ainda não percebo como levou o oscar, desconfio que muita gente lá nos states não tenha percebido bem, porque, pá, sejamos francos, um povo que premeia esta pérola mas ao mesmo tempo mantém intenções de eleger o Cheeto in Chief de novo, pá, não computa;
- ontem vimos uma chanfradice com o Vincent Price e a Diana Rigg que aconselho muitíssimo porque a) é uma chanfradice; b) Vincent Price; c) Diana Rigg; d) é uma farsa que ó, com uma estética brilhante, um tom e um over acting comoventes, Theatre of Blood, superb;
- praticamente não leio, mas não é de agora (tenho a meio um livro, aliás belíssimo e que estou a adorar, desde as últimas férias de verão), nem se explica depressa, mas como acho este estado de coisas uma tristeza, virei-me para a graphic novel e, chegando agora ao ponto, Blankets is a thing of beauty, e me aguardjem que tenho ainda o Habibi por encetar [não recomendo Sabrina, apesar de ser mesmo muito bom, porque para ter vontade de cortar os pulsos já basta o que basta];
- o quarto extra começa a ganhar forma e até já parece uma divisão normal, em vez da caverna tenebrosa que servia de depósito de livros, action figures, lego, ferramentas, DVD (sim a gente ainda usa disso, experimentem encontrar aí nos vossos streamings coisas omo aquela que citei ali acima, ou o Phantom of the Paradise, uma senhora maradice em formato musical que é um diamantezinho que ó) e outras cangalhadas de bricolage e DIY;
- não tenho metade do apetite que tinha antes disto começar, as calças ainda me servem, e até estou a comer melhorzinho. ahahahahah, comer melhorzinho. pois, ignorar esta parte, mas o resto é verdade. a sério, como é que se tem fome se um gajo não faz nadinha, para além da caminhada sala - cozinha -quarto- casa de banho? nem fome nem gula. [não conheço esta pessoa. não sei se a quero no meu inner circle].