terça-feira, 24 de março de 2026

And in the end, the love you take is equal to the love you make*

 Dana Scully vive, às vezes desconfio que por pura teimosia. No domingo estava muitíssimo bem disposta: passou o dia entre banhos de sol na sua cadeira da varanda, passeios pela casa ondulando a cauda, e repouso em frente ao radiador (que se mantém ainda ligado, nos mínimos, por mor de Sua Alteza). No meio desta agenda preenchidíssima, conseguiu encaixar um refilanço que me foi dirigido, e um ralhete bem vincado, desta feita a me mate. Quem a acarinhou nos últimos dez anos sabe o que isto significa: de cabeça e de humor, está óptima.

Amanhã vamos fazer uma avaliação com a vet, mas por enquanto não há sinais de dor ou sofrimento, (e tenho analgésico em stand by para o caso). Continua a gostar de festas e mimos, odeia a hora da refeição forçada (sonda), outro dia apanhei-a a beber água, mas comer por si, não há maneira. Vem acordar-nos à marradinha, ainda não raiou o sol. Adormecemos e acordamos com ela à nossa beira. Volta e meia ainda se nos solta um choro; mas é maior a alegria e gratidão de ainda nos acompanhar. 

Cada dia é um presente, motivo de festa. Cá em casa, estamos em paz.

*The Beatles, claro. Há sempre música dos Beatles adequada a toda e qualquer ocasião.

terça-feira, 10 de março de 2026

E pur si muove

 Da escuridão dos últimos tempos, rompeu o canto das andorinhas que voltaram ao seu ninho, construído no saguão do prédio. Tomo duche a ouvi-las cantar o alongar dos dias. Já vou ao ginásio de dia, deixo o caminho para as pessoas civilizadas e corto pelo relvado pejado de manchinhas brancas, passo de perto junto das romanzeiras já pintalgadas de brotos novos, sinto o cheiro da terra ainda húmida e fértil. Não danço sem salto por vergonha, que seria!, senhor guarda, senhor guarda, está ali uma senhora grisalha de leggings e mochila a saltaricar como uma mocinha, leve-a, tranque-a; não, na verdade não danço nem salto por atenção à minha L4-L5, deunossossenhor a mantenha controlada, como a operada e bem comportada L5-S1, ambas muito sugadinhas, por favor. A ansiedade continua, e o psi autoriza-me a tomar dois ansiolíticos por dia, mas vou evitar. A tristeza, é aguentar, que estou resvés a dose máxima e é preciso uma margem de manobra. Tenho chorado muito, nem tanto de tristeza mas de amor prestes perdido. Aumentei - nem sabia que era possível! - o mimo à gatinha enferma, agora é intencional, se estou a trabalhar em casa sinto saudades e vou matá-las, dias como hoje desforro-me à noitinha, mas e depois, como será. Semana passada tive um raro momento de intensa felicidade, uma coisa tão rara e, desta vez, nada fugaz, durou quase 24 horas seguidas: saí da aula de desenho em êxtase, consegui fazer uma coisa que nunca pensei que me fosse possível, sério, e isto é muito raro, não é gabarolice, já mamei muita frustração naquelas aulas, o ruim do carvão ia-me tirando a vontade de viver, mas na quinta, consegui, e gostei (muito) do resultado; sexta de manhã saí de casa de sorriso posto, ainda a pensar nesta conquista, de como preciso de insistir, treinar mais, pô, eu chego lá, e na rádio passam o Tiny Dancer, tem a mesma idade que eu, e senti-me uma miúda, a miúda que passava tardes a cantarolar cantigas inventadas, a desenhar a sua vida de aventuras futuras, em vinhetas toscas saídas de um lápis rombo e demasiado carregado. Feliz. Radiante. Confiante. Entretanto meteu-se a vida e já passou, mas sei que consigo. Ainda consigo. E vou continuar a conseguir.   

Valsa do adeus

 A Scully está a morrer. 

(estamos todos)

O que quero dizer é que a Scully vai morrer, como vamos todos, mas ela está já, inexoravelmente, a caminho, levada por um linfoma que só deu sinais há um mês (?) e foi confirmado a semana passada. Não tem cura. Podíamos comprar mais uns meses da sua existência em troca se sessões semanais de quimio, seis meses vezes quatro, vinte e quatro semanas, sem garantia de quanto tempo, de que recupere a capacidade (vontade) de se alimentar por si, ganhe algum peso, o tratamento não lhe cause mal estar, dor, ou sofrimento.

Quando a trouxemos do hospital veterinário viemos com a lição da alimentação por sonda aprendida; a folha A4 de cuidados, doses, intervalos horários semi decorada e esclarecida; e a esperança que a TAC e biópsia provassem que era tudo um engano, entrou-lhe uma pedrinha da areia para o nariz e inflamou, tem nada um linfoma, dez ou onze aninhos, uma doce refilona, não pode ser. Mas ali estava ela, uma pluminha acabrunhada, apática, deitada na almofadinha em frente ao radiador, escondida no túnel, um ruído raspado a cada respiração, com força apenas para se debater à hora da refeição dada num tubo. Preparámo-nos para o pior, a decisão, a necessidade da decisão. Quatro dias depois a médica veterinária explica-nos o resultado da TAC, e desabamos. Dias depois, a biópsia, e tudo se confirma. Vamos pensar no fim de semana, vamos pensar, dizemos, sabendo que o que vamos é preparar o coração, a decisão está tomada, vamos só roubar uns dias para nós, para nos despedirmos.

E uma manhã, de repente, toca o despertador e a Scully em cima da cama, a dar-nos os bons dias. A  ondular a cauda. E segue-nos para todo o lado, até às taças de comida - sustemos a respiração, mas nada, não lhes toca. Pede festas. Ensaia ronrons. Dorme com satisfação. Quer ser escovada. Dá marradinhas aos irmãos. Volta a miar por atenção. E resmungar só porque sim. Adormece ao colo de me mate. E, de repente, não podemos. Ela quer estar em casa, é na sua casa que vai estar. A Vet alinha em guiar-nos e ir verificando o estado da menina. Ao mínimo sinal de sofrimento, a decisão está tomada. Mas, por enquanto, tomou ela uma decisão, e vamos respeitá-la. A pequenina quer morrer em casa, na sua casa. Assim seja.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pequena interrupção na vida actual*

Para vir dizer, a quem ainda não saiba (espero que entre zero e nenhuma pessoas), que Wuthering Heights não é uma história de amor. Dê-se as voltas que se der, lamento. 

Até compreendo que a realizadora da última bostice "baseada em" que deu à costa se tenha justificado (desculpado?) com o facto de querer transmitir o que sentiu quando leu o livro com 14 anos. É natural, aos 14 anos (ainda) não sabemos nada, e temos o disco rígido todo formatado para aceitar o pior dos piores, no que diz respeito a relações, porque, e muitas aspas nisto "uma boa mulher muda o pior dos homens", (vide A Bela e o Monstro). Não muda. 

E, no caso, nem Heathcliff nem Catherine querem mudar. São pessoas muito mal formadas, que vivem um episódio de cio / obsessão / domínio / poder que não é normal, potenciado pelo isolamento, negligência e abandono, falta de role models positivos e, principalmente, preconceitos de classe e de raça. Porque, newsflash, Heathcliff não é branco. Não se deduz, está lá escrito. Um dia talvez se faça justiça a este elemento essencial da história - não que esteja desejosa de outra adaptação cinematográfica sendo que, até agora, e deste romance, vi nenhuma. E muito menos verei uma em que Catherine é loura e trintona, há limites.

Vi, por curiosidade, alguns vídeos no youtube de pessoal que se dedica a canais sobre livros, a malhar forte e feio no filme, e fiquei surpreendida não com este facto, mas com alguns dizerem que detestaram Wuthering Heights - eram millenials ou z, coincidência?, não sei. Achei, das opiniões formuladas, que levaram o livro muito literalmente, pelo que, claro, acharam as personagens horríveis, o tom tenebroso, etc e tal. Espero estar enganada, mas suspeito que a nuance se perdeu a partir da geração X. A nuance e a estética gótica, lagriminha. 

Bom, fica a dica da semana, e aproveito ainda para juntar que Jane Eyre também não é uma história de amor, e Rochester é um homem asqueroso, um pulha nojento, e não valia a pena terem escrito Wide Sargasso Sea para perceber; aliás, para livro pucarrucho custou-me horrores a acabar, maçou-me imenso. Mas o livro é melhor que Villete. Muito à frente é The Tennant of Wildfell Hall, e pronto, já dei a volta a todos os que li das manas Brontë, aconselho todos, até os que não li, mais uma lagriminha.

(E Better Man não é uma canção de amor, juro que termino aqui.)


*que tem sido feita de stress e depressão sazonal

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Que las hay?

 Sou zero adepta de teorias de conspiração, embora tenha de admitir um fraquinho pelo terraplanismo, caramba, elevar a ignorância ao nível da 4ª classe a "teoria" é obra. A cena da inteligência artificial assusta-me q.b., afinal vi o 2001 e o Terminator, mas ainda morro antes dos computas nos exterminarem. As cenas dos algoritmos até me dá jeito, quando funciona, confesso que até os alimento para que me sugiram cenas que sejam a "minha onda". A coisa de estarmos a ser vigiados e ouvidos e filmados, uhuhu, nunca me preocupou muito, a minha vida é extremamente aborrecida e não interessa a ninguém.

E eis que. Acho que toda a gente já passou pela experiência de andar a pesquisar, por exemplo, qual o desumidificador melhor / mais eficiente / mais em conta, e, de repente, ter as redes inundadas de anúncios do dito produto, vendido por A, B, ou C. Mas o que vou contar não se seguiu a uma pesquisa na net. Foi uma conversa de dois, três minutos, sobre um produto muito específico, cuja existência desconhecia, aliás, capaz de apostar que em Portugal não se vende ou sequer existe, a menos que o tenham trazido do estrangeiro, como foi o caso. Limitei-me a notar que dava muito jeito, sim senhora; não me importava de ter em casa; onde se arranja disto?; e responderam-me que tinha sido trazido do país tal, pela fulana de tal (por acaso natural de lá). E eu, oh, que pena, mas deve ser coisa que se arranja na @m@zzzzoin, a alemã, pelo menos. Dia seguinte, intervalo de um jogo no telemóvel, a cadeia de ferramentas e utilidades do lar de que sou freguesa mais que habitual informa, com fotografia do zingarelho, que o tem à venda no seu site / marketplace. Sim senhora. Pois está bem.

Acho que vou comprar mais papel de alumínio e forrar os meus chapéus e boinas. E telemóvel.

   

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cenas dos próximos capítulos

 Logo que tenha vagar venho aqui contar como a Epal cometeu um erro tremendo que teve como consequência tentarem cortar-nos a água, não facturarem nem fazerem contagens durante quatro anos, e agora apresentaram-me uma factura de mil e poucos euros.

A vida é uma eterna canseira. 

(primeiro, não, não dei por que me tinham deixado de mandar as facturas, recebo muitas e todas electrónicas e os pagamentos são todos por débito directo; sim, já reagi, e invoquei a prescrição dos serviços com mais de seis meses, googlem lei dos serviços essenciais; temo que isto ainda dê pano para mangas, e ainda tenho a outra canseira de marcar oficina para reparação de um pára-choques que uma motociclista atropelou e depois ainda teve a lata de se armar em histérica comigo porque, sic, «eu a podia ter matado», fia, cê é que se atravessou, if you die, you die, tá a ver, credo)

Anyhoo, completando, parece que por um erro lá deles, a Epal considerou o meu contrato «rescindido»* em 2021, capaz de apostar que foi algum do peeps que rodou pelo rés do chão e se enganaram a digitar e zás, primeiro andar não tem contrato, mas tem abastecimento. 

Vai daí, há uma sexta feira pelas dezassete em que, graças a tudo e mais um par de bolas, me mate estava a trabalhar em casa, ouviu barulho na escada, uma fulana ao tufone a dizer que já cá estava, e ia então fechar a água (o escritório confina com a caixa de escadas, graças a tudo e um par de berlindes); o home resolve ir à porta, abrir, interpelar sujeita, e confirma-se, vinha fechar a nossa água, não dá justificação.

Izzie sugadita no seu local de trabalho recebe telefonema de su mate, e por sorte pode atender, o home diz que está ali uma pessoa humana para nos cortar a água e não diz porquê, mas vai passar o telefone à titular do contrato (eu); indivídua diz que não fala com ninguém, tem ordens para cumprir; eu digo a mate para transmitir que não recebemos nenhum aviso, as contas são todas pagas por débito direto, donde, não pode cortar a água, recado que é prontamente transmitido e ignorado. Entretanto, Izzie já googlou o nº da epal e está em linha, e pelo móvel dá instrução a su mate para bloquear fisicamente o coiso da iauga nas escadas e não deixar a coisinha aproximar-se, que chame a polícia e mostre ao agente a notificação para corte. Atendem Izzie na linha de apoio, identifico-me e explico a situação, que chamo a polícia, que ninguém me corta a água a uma sexta e me deixa três dias sem um bem essencial, que nunca recebi nenhum aviso, assim não pode ser; tufonista diz que vai averiguar, averigua, e informa que contrato não existe, foi dada baixa em 2021, «por quem, por mim não foi», e não sabe mais nada, diz que vai averiguar de novo, que aqui já será código para «falar com um superior», até porque já tinha aberto no computas a Lei dos Serviços Essenciais e explicado que o que estavam a fazer era ilícito e taletal, depois de uns minutos a averiguar e eu em espera, mate diz no móvel que «olha, a tipa está a ir-se embora», e no mesmo momento a tufonista diz que assunto vai ser regularizado e em dezembro me enviarão fatura [esqueci de dizer, mas antes do bloqueio físico a outra funcionária, que aliás recusou mostrar identificação que provasse trabalhar para a epal, teve acesso ao nosso contador, porque me mate achou por bem mostrar que não tínhamos uma puxada macaca, era contador legítimo e a funcionar, e brabuleta tirou a contagem.]  

E pronto. Não ganhámos para o susto, juro que ia tendo um meltdown. Entretanto fiz busca na pasta «facturas electrónicas» do gmail e, de facto, não tinha facturas posteriores a 2021. Mas não sou eu que tenho a obrigação de as emitir, né. E esta está emitida de uma forma que não cumpre a lei: enuncia consumos (estimados? calculados em média?) e valores por períodos anuais e semestrais. Um total escandaloso, que me querem cobrar de uma só vez. Já enviei mail (e seguirá carta registada com AR) a exigir discriminação de valores mensais, e a invocar a prescrição de valores com mais de seis meses. É a lei, madafâquer. 

Ainda tenho de pensar se cancelo o débito directo na véspera, se não me derem resposta, ou deixo ir e depois reclamo a devolução. Tenho receio de, não pagando - mesmo tendo prova de que invoquei a prescrição e ofereci pagamento de seis meses - voltem a tentar o corte.

*preciosismo de jurista, mas vamos exterminar o «rescindir». os contratos findam por denúncia ou por resolução**, neste caso terá sido uma denúncia, i.e., «então bom dia, já não quero os vossos serviços a partir de tantos do tal, fazer o favor de desligar, agradecido».  

**podem findar por outros meios, mas não me pagam para dar aulas de introdução ao direito.

   

domingo, 4 de janeiro de 2026

Nem uma semana de uso regular e normal

Zás, já se estragou o ano novo.

Duas sugestões, duas alternativas: ou se devolve (espero que alguém tenha guardado o recibo) e esperamos por um novo (avançando já para 2027 sem parar na casa partida e prescindido dos dois mil paus); ou põe-se de parte e bem vindos a 35 de dezembro de 2026.

Estou aqui para lá de indecisa.


[Arriscando o cancelamento, mas não me consigo segurar: espero que as pessoas que agora proclamam que se pode ser contra o Maduro e contra a intervenção dos EUA na Venezuela (nada contra, idem aspas); agora entendam que: 

a) se pode apoiar a existência do Estado de Israel e não querer o "desaparecimento", (ou sequer mal, pelo contrário, paz e tudo de bom, e, já agora, melhor governo) do povo palestino; 

b) se pode condenar veementemente a atuação do H*m*s em 07.10, considerá-la aliás um ato de guerra (invasão de território e morte de cidadãos de outro Estado, anyone?), entender como lícita e até legítima a resposta de Israel (como dizia o outro, eles é que começaram), mas não aprovar a forma como tal guerra foi conduzida e achar que em muitas situações foi empregue um excesso de força, mas ei, é um dos riscos da guerra; 

c) se pode estar convencidíssima que a palavra genocídio tem costas largas (na guerra morrem civis, muitos. perguntem aos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, Dresden e até Berlim, e reparem que estou a mencionar, deliberadamente, só cidades dos "maus"), que a informação vinda daquele lado era deturpada e sem credibilidade e, infelizmente, como se veio a comprovar, muita da ajuda humanitária acabou na lixeira, mas também detestar visceralmente o Bibi, as suas posições e ideologia extremada, e achar que devia estar preso.

Aaaahhhh, que alívio. Ufa, até vou dormir melhor.

(quando tentei explicar aquilo ali em cima ao meu irmão, não ouviu metade, acusou-me de apoiar o massacre de crianças e civis, e chamou-me genocida. foi um almoço muito alegre.)