A Scully está a morrer.
(estamos todos)
O que quero dizer é que a Scully vai morrer, como vamos todos, mas ela está já, inexoravelmente, a caminho, levada por um linfoma que só deu sinais há um mês (?) e foi confirmado a semana passada. Não tem cura. Podíamos comprar mais uns meses da sua existência em troca se sessões semanais de quimio, seis meses vezes quatro, vinte e quatro semanas, sem garantia de quanto tempo, de que recupere a capacidade (vontade) de se alimentar por si, ganhe algum peso, o tratamento não lhe cause mal estar, dor, ou sofrimento.
Quando a trouxemos do hospital veterinário viemos com a lição da alimentação por sonda aprendida; a folha A4 de cuidados, doses, intervalos horários semi decorada e esclarecida; e a esperança que a TAC e biópsia provassem que era tudo um engano, entrou-lhe uma pedrinha da areia para o nariz e inflamou, tem nada um linfoma, dez ou onze aninhos, uma doce refilona, não pode ser. Mas ali estava ela, uma pluminha acabrunhada, apática, deitada na almofadinha em frente ao radiador, escondida no túnel, um ruído raspado a cada respiração, com força apenas para se debater à hora da refeição dada num tubo. Preparámo-nos para o pior, a decisão, a necessidade da decisão. Quatro dias depois a médica veterinária explica-nos o resultado da TAC, e desabamos. Dias depois, a biópsia, e tudo se confirma. Vamos pensar no fim de semana, vamos pensar, dizemos, sabendo que o que vamos é preparar o coração, a decisão está tomada, vamos só roubar uns dias para nós, para nos despedirmos.
E uma manhã, de repente, toca o despertador e a Scully em cima da cama, a dar-nos os bons dias. A ondular a cauda. E segue-nos para todo o lado, até às taças de comida - sustemos a respiração, mas nada, não lhes toca. Pede festas. Ensaia ronrons. Dorme com satisfação. Quer ser escovada. Dá marradinhas aos irmãos. Volta a miar por atenção. E resmungar só porque sim. Adormece ao colo de me mate. E, de repente, não podemos. Ela quer estar em casa, é na sua casa que vai estar. A Vet alinha em guiar-nos e ir verificando o estado da menina. Ao mínimo sinal de sofrimento, a decisão está tomada. Mas, por enquanto, tomou ela uma decisão, e vamos respeitá-la. A pequenina quer morrer em casa, na sua casa. Assim seja.
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