segunda-feira, 19 de maio de 2025

We don't talk about Bruno


Aqui há quase um ano, ano e picos, deu-me uma comichão do caraças não entender como é que tanta gente que compunha a base de apoio do Trumpas pertencia, precisamente, a uma classe ou grupo social que muito provavelmente seria prejudicado com a sua reeleição - e, na melhor das hipóteses, não tinha ganhado nada com a sua presidência.

Vai daí, decidi lançar-me num deep dive em busca do que pensam essas pessoas, afinal quem melhor para nos explicar os seus quês e porquês. Iniciada a demanda, pus de parte preconceitos do tipo "deploráveis", "red necks", "burros em geral". Queria entender, não confirmar um pretenso julgamento.

E tcharam. Resumidamente, dei cabo do meu algoritmo, ainda hoje o iutubas me recomenda coisas que tenho vergonha de admitir, pronto, vá, vi muita coisa do Da*ly W*re, e foi uma descoberta. Dali saltei para alguns influenciadores com canais próprios, e, entrementes, a título de limpa palato, lá ia vendo uns vídeos de plnatinfluenciadores ou artistinfluenciadores, que é do conteúdo  mais wholesome as fuck que há.

Dizer que aprendi imenso talvez seja exagerado. Principalmente: recolhi muita informação. E percebi as pessoas do outro lado. Para uma esquerdalha moderada cinquentona como eu não é fácil admitir, mas cá vai: não concordo com as soluções propostas (uma ateia pode benzer-se?, é que me benzi muitas vezes); não acompanho a maioria dos diagnósticos feitos, mas tenho de reconhecer, cabeça baixa, braços ao longo das pernas, palmas para dentro: têm razão em muita coisa. Nas queixas, principalmente. A esquerda (e a direita, já agora) moderada abandonou quem dela mais precisa. Tornou-se um bastião de virtude, de bandeiras cada vez maiores, e deixou aqueles conceitos antigos como "classe", "justiça", "mobilidade social", "redistribuição de riqueza", "segurança no emprego", "apoio no infortúnio", "igualdade de oportunidades" (podia estar aqui o dia todo) a ganhar mofo num armário da cave. E depois ainda escarnecem dos que precisam dessa esquerda/centro/direita democrática, tratando-os como burrinhos sem discernimento. Admiram-se? Eu já não.

Em agosto não tinha dúvidas de que o Trumpas ia ganhar, e achei muita graça à kamaleuforia. Graça no sentido fado tuga, ai, que agora estás tan féliiiz, mas logo te desgraças.

Em setembro disse a uma eminência parda do partido que arranjassem maneira de se livrar do PNS*, e depressinha, ou acabavam irrelevantes, como aliás (eu achava que) já eram. Ninguém liga à Izzie, ninguém tufona à Izzie a pruguntar como deve fazer, e depois ó.

Donde, se os 50 na assembleia me chocaram, porque ainda não sou uma velha cínica, infelizmente não me surpreenderam. É hora de se fazer uma grande reflexão, e não só internamente. Avançamos por tempos perigosamente interessantes, daqueles que acontecem quando os centrões democráticos esquecem as suas bases (o povo, 'tá a ver?).

Não vou dizer mais nada, que odeio ter razão nas piores atoardas que venho mandando. Quero enganar-me desta vez, se faz favor. 

E não chamem burros aos eleitores. Façam esse favor. Tentem sim perceber de onde vêm e para onde querem ir. E depois conversem.


*não disse PNS, disse taberneiro, mas de uma taberna boho-chique cheia de conceito, com pratos, copos e talheres  desirmanados, e onde a comida é uma merda.


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Fool on the hill

 Visita de rotina à ginéc, o costume, como tenho estado desde a última vez, queixas, não queixas e, para além do que ali me leva, relato que estive de baixa dois meses e picos, nada físico, enfim, foi, pois, assim como que queimei... e do outro lado para surpresa de ninguém, hum?

Uau, U-au. Vou lá duas vezes por ano, a última em outubro, setembro. De duas uma, ou a çenhoura doutora tem uma memória e perspicácia que sim senhora, ou eu já causava uma profunda impressão em profissionais de saúde, mas não do tipo que gostaria.

Ok. 

[a sério que a) não percebi que se notasse tanto; b) porque até eu estava convencidíssima que me tinha ido um niquito abaixo mas nada que não fosse ao sítio; c) por pura justiça narrativa, sublinhar que me mate também notou, e fez uma festa quando me deram baixa, isto se levantar os braços e berrar atéquimfimufabolasfinalmente se pode considerar uma festa, adiante]  

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Uma coisa boa por semana (i)

i. Lojas a que dou preferência por culpa de quem lá trabalha

 A vida é demasiado curta para aturar gente aborrecida, quanto mais mal educada. Ganha-se irritação para o dia todo, ou seja, perde-se um dia inteiro a remoer a desfeita. Há gente, situações, cenários que temos mesmo de aturar, que remédio, chama-se ganhar a vida. Mas se preciso de um bem ou serviço, não contem comigo para voltar onde fui mal atendida ou mal recebida. Pelo contrário, se há sítios onde o tratamento é consistentemente bom, mesmo acima da média, ganham uma fã para o resto da vida. Porque as coisas boas são para elogiar (e partilhar, já agora, se alguém sentir essa necessidade, faça o favor ali na caixinha de comentários) cá vai uma listinha, área comércio em geral:

- Nunca fui mal atendida na Papelaria Fernandes, em concreto, nas lojas da Miguel Bombarda e da Rua do Ouro. O atendimento flutua entre o bom+ e excelente; é simpático, cordial, bem disposto; conhecem o stock e sabem aconselhar; e se a dúvida que acabámos de colocar é mesmo muito parva, burra, tola, não dão a mínima nota disso, pelo contrário, explicam ou aconselham como se tratasse duma questão mui pertinente. Gosto muito, sou freguesa fiel. 

- Na Bertrand do CC Amoreiras há um livreiro que é o meu preferido de sempre. Acho que conhece o stock da loja - e do catálogo! - de cor, se lhe pergunto por um livro rara é a vez que recorre ao computador, normalmente a resposta fica entre ah, acho que o vi ali, vou buscar ou sei perfeitamente, está aqui. Falhou uma vez (nem é bem uma falha, o exemplar tinha sido vendido há pouco tempo) mas não faz mal, encomendou-se. Oferece ajuda, estabelece diálogo com os clientes sobre os livros que procuram, faz sugestões (boas, já agora, e não limitadas a livros, filmes também acontece, se vier a propósito); extremamente educado e simpático, nota-se à légua que adora livros. Aposto que não ganha o que merece, facto extensível a todas as pessoas que menciono aqui.

- Na Caroll, também no Amoreiras, há uma empregada que é simplesmente amorosa; acerta no nosso tamanho (amo muito esta qualidade), educada, informa e mostra-se disponível sem ser intrusiva. A Guerra Junqueiro fica-me mais em caminho mas, temos pena, prefiro ir ao Amoreiras.

-  Deixei-me convencer há coisa de um ano que, de facto, vale a pena gastar o que custa um par de Levi's. Depois de comprar um à experiência, já tenho três pares e são os jeans que visto, não tarda os outros têm guia de marcha. Ora na loja do CC Ubbo há um empregado (que acho que é gerente da loja) que também acerta no nosso número, largura e altura, e espanto, no modelo que nos fica melhor. Estava lá com me mate, que só veste Levi's porque padece de um tiquinho de mania, e o tal empregado ouviu-me dizer-lhe, revirando olhos, tá bem, que um dia experimentava, até precisava de umas pretas, mas para quê as mango que tinha vestidas me custaram trinta paus, precisavam era de tingir outra vez. Perguntou-me que tipo de corte gosto, deu-me um par para as mãos, experimentei, e paguei. As da mango pretas (que, de facto, me custaram trinta paus mas tive de tingir umas quatro vezes, com pouco sucesso), já foram. Só para finalizar, quando lá fui dois meses depois comprar o segundo par, não só se lembrava de mim como do modelo e número das calças. A estas pessoas não dão eles o nobel, e está mal.   

- Para terminar um serviço tenebroso, temível, tremendo, que passei a precisar com assustadora frequência: tirar sangue. Há duas coisinhas aqui perto de casa, dois, cinco minutos a pé. Uma série no caminho. Mas nem que chovam pedras, faço os oito quilómetros para cada lado (e pago o parque) para tirar sangue no Hospital da Luz. Ali não preciso de fazer o meu habitual relambório de veias fundas, pouca pressão, perco os sentidos se demorar derivado de tensão baixa e fobia. Népia. Quer dizer, hoje em dia já sei que não preciso. Perguntam só de que braço costumo tirar, põem torniquete e não questionam se o esquerdo seria melhor - canudo, basta ver o meu histórico, a esta altura eu já sei, de certezinha, de que braço conseguem tirar - , vão buscar a borboleta sem necessidade de sugestão nesse sentido, acertam na veia à primeira, e conseguem sacar dois tubos antes de começar a ver tudo a andar à roda. Espero que saibam o que valem, aqueles anjos do vampirismo médico, e lhes paguem em conformidade. Se eu mandasse, coise, mas não mando, e se calhar é por isso que isto tudo está a merda que está.

 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Tomorrow never knows

 Ontem fez duas semanas que voltei ao trabalho, depois de uma baixa de 77 dias. Não foi um feliz acaso: na consulta em que (supostamente) renovaria a baixa por mais trinta dias, disse: quero voltar ao trabalho no dia tantos do tal. A médica fez um ar façanhudo, e percebi que não achava bem. O meu psi de muitos anos, que já me conhece de gingeira e já tinha sido avisado do plano na semana anterior, fez só um ar de suspiro. Provavelmente repetiu, desta vez apenas mentalmente, o que já me tinha dito em fins de novembro, princípios de dezembro: pois, a Izzie é assim, muito voluntariosa, mas se precisar, venha cá.

E precisava, mas não queria. E confirma-se, sou muito voluntariosa, esse simpático eufemismo para teimosa como uma mula. 

Às tantas, deveria ter percebido que precisava logo ali em agosto quando, pela primeira vez na vida, não consegui ler um livro do princípio ao fim, quer dizer, consegui, mas ler um policial num mês de férias é um nadinha anómalo, ainda mais quando tantas vezes não conseguia terminar o capítulo e quando lhe voltava a pegar não me lembrava do que ficara para trás. E era um livro de que estava a gostar imenso. Mas não conseguia ler. Nem esse, nem nenhum. Tentei outros, mas nem contei os que deixei a meio. É aborrecido, não estou na melhor fase para ler este, a letra é muito pequenina. E parei de tentar.

Ou se calhar podia ter dado conta quando em setembro, outubro, por ali, levava horas para fazer coisas de trinta minutos, arfava, sentia uma mão invisível a estrangular-me, acordava às quinhentas e não voltava a dormir, bloqueava em frente ao ecrã, na terça não me lembrava do que tinha feito na segunda e precisava de ir rever tudo, deixava frases a meio, irritava-me com os fregueses (mereciam, vá), não me continha (ainda mereciam pior, mas pronto, não se pode). E a pressão. Porque levar três vezes mais tempo a fazer qualquer coisa acumula muita papelada. E o stress. Comprar pasta e elixir paradontax porque acordo com a boca a saber a sangue, tenho de marcar dentista, como se não soubesse que passava a noite - e o dia - a cerrar e ranger dentes. E chorar. De raiva, de cansaço, de frustração. Chorar por causa do trabalho, porque me sinto velha, porque já não sei pensar, porque estou a ficar burra, porque odeio isto tudo.

Foi nesta altura que calhou uma consulta de revisão, e o comentário da voluntariosa. Mas nem assim. Garanti que estava a dar a volta, foi o fideputa do metabolismo que, na verdade, andou mauzito ali entre maio e novembro; que tinha arranjado umas vitaminas que me estavam a (re)animar; que o ginásio me estava a fazer bem.

E deu-se que dias depois fui a uma consulta de medicina do trabalho, obrigada, claro, preciso lá eu dessas merdas, aptíssima, e a meio do meu mega rápido resumo de estado de saúde a médica pergunta, assim à bruta, e há quanto tempo está deprimida? Calou-me. Não soube responder. Quer dizer, eu sempre fui deprimida, doutora, há fases piores, mas passam. A cara de não me enganes, não me faças perder tempo, sabemos as duas, e desabei, abriram as comportas. Fez-me prometer que ia a uma consulta, e escreveu uma nota para a minha médica de família (o psi é particular, consegue passar-me uma baixa mas é preciso um trabalhão). E pronto. Fui ao centro de saúde, marcaram-me uma consulta para essa semana, e lá estive, envergonhadamente, a expôr à minha médica de família a minha fraqueza humana. Baixa, claro, mas atenção (saca da agenda de trabalho) dava-me mais jeito que começasse no dia tal porque antes tenho de deixar aqui umas coisas em ordem. Revirar de olhos mental da médica (também pratico, sei reconhecer), e pronto. Deixei tudo em ordem, avisei quem tinha de avisar, ei, trinta dias, mas daqui a quinze estou fina, não estava, e se me perguntarem o que fiz mês e meio, não sei, porque estava um nevoeiro cerradíssimo.

Depois, numa aberta, decidi que tinha de voltar, ei, e voltei. 

Senti-me tão, tão bem por estar a trabalhar; depois senti-me ultra miserável porque quem é que quero enganar; mas estou a conseguir fazer coisas, ei, ainda percebo disto; e olha preciso de uma choradela na casa de banho. E isto só no primeiro dia. Entretanto houve merdas bur(r)ocráticas que me fizeram chorar outra vez, e uma solidariedade de colegas que me comoveu, e voltei a chorar.

Vai correr bem. Porque sim, porque eu digo que sim, já passei por isto antes, ei, eu sei.

Vai correr bem. Voltei a ler. Comecei com BD, já me atrevo a coisas mais encorpadas e só com letras!, sem bonecos!, e se não ler todos os dias não faz mal, lá chegaremos. Beijinho a mim.

Vai correr bem. Há uma semana que não choro. Ontem foi por um triz, por causa de trabalho (que não estava a conseguir fazer), mas depois fui ao treino, e a seguir terapia, passou. Hoje também esteve quase, que as minhas endorfinas são muita pucaninas, não duram nada, mas não sucedeu.

Vai correr bem. 

[e voltei aqui, também.  nhã-nhã-nhã, que agora o que se usa é o subetáque, mas tenho lá idade, paciência, e tempo para aprender uma rede xoxial nova.

um dia de cada vez. amanhã é dia de postar uma cena boa. um dia uma nhéc, um dia uma boa, além de xoné agora também alterno. vidas.]  

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O fim da espécie

Depois de mês e meio a frequentar, pelo menos uma vez por semana, a mesma grande superfície prestadora de serviços na área de saúde, estou em condições de afirmar que não pagam o suficiente às pessoas empregues na nobre tarefa de fazer atendimento ao público. Ah, Izzie, mas sabes quais as ordens de valores em causa? Não, mas não são suficientes. Eu não fazia aquilo por três mil limpos, vá, vamos assumir, até cinco mil limpos me parece não compensar oito horas diárias daquilo, a menos que me dessem a possibilidade de eleger um utente por mês para assassinar sem consequências. Ou quatro para espancar valentemente. Assim já falávamos.

Muito a sério, as peçoas (está bem escrito, está: deriva de peçonha) são, genericamente, uma merda. E a minha amostra é curtíssima, visto que entre tirar senhas, esperar a minha vez para a admissão, e esperar a minha vez para entrar lá para onde ia, devo ter gasto, no total, menos que o equivalente a uma jornada de trabalho. Ainda assim, não houve dia em que não assistisse a uma cena triste encenada por peçoa de merda que se porta merdosamente, ou pior, fez merda mas insiste em transferir para outrem a) a responsabilidade pela merda de situação criada pela merda de opções da peçoa de merda; b) resolver ou lidar com as consequências de merda que se seguem a decisões ou situações de merda criadas por peçoas de merda. 

Ah, mas ele/a/s estão lá é para fazer o seu trabalho e lidar com os fregueses, Izzie. Pois estarão, mas os fregueses podiam ter mínimos de boa educação, começando, na loucura, por cumprimentar, seguindo pelo tom de voz empregue ao dizer ao que vêm, e passando por ouvir as instruções com atenção. E, havendo algum problema para resolver, expor a situação com educação e solicitar, insisto, educadamente e com tom de voz amistoso, a ajuda do atendente. Costuma resultar. Não tenho razões de queixa. Até acrescento mais: se a situação a resolver derivar de asneira nossa, assumir logo à partida a responsabilidade ("acho que fiz asneira e esqueci-me / enganei-me / cheguei muito em cima da hora") abre, muitas vezes escancara, as portas da boa vontade de quem nos ouve. Tenho tido excelentes resultados, e penso que não é por ser muito sortuda: já vi a acontecer com outras pessoas. E noutras situações! O espanto! Não custa nada, sermos um bocadinho melhores uns com os outros. E não sermos a causa da azia, tremelique, consumo de xanax, avc, burnout alheio. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Alerta, acudam, aqui d'el rei

Acho que não estão a fazer reposição dos gelados no Lidl.

Quer dizer. Quer-se dizer. Com coisas destas a passar-se e não há uma equipa de reportagem à porta de cada estabelecimento, a entrevistar utentes desmoralizados, abatidos, desfeitos? Hein? Não há um um fórum TSF dedicado ao tema? Não há um levantamento, uma sublevação, uma revolta popular? 

Isto aqui, hã, isto aqui é um povo manso, é o que é. Já não bastou o silêncio total sobre o escândalo de termos passado um verão inteiro, sublinho INTEIRO sem reporem o sabor morango das caixas gelateli (já nem falo da nata e stracciatella, desaparecidas circa 2023, para nunca mais serem vistas), e agora os gelados de cone e/ou pauzinho são tão poucos que se vislumbra o fundo da arca. 

Qué lá isto? Ainda agarrados a conceitos longevos e caducos como a sazonalidade do produto? Aqui não neva, senhor Lídele. Aqui não é como nas Alemanhas, senhor Líder. A gente aqui é latinos, pah, a gente come gelados todo o ano, pah.

Lá a ver isso. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Not understanding the assignment

Enquanto estou aqui a lidar com a velha conhecida ansiedade paralisante, que volta e meia faz o favor de bater à porta, entrar sem cerimónia e instalar-se de perna traçada, impondo a sua presença, desconcentrando, impossibilitando um mínimo de produtividade que, sendo conseguido, desencorajaria outra velha visita, a prostituta da culpa, dou comigo a pensar que bom que é hoje em dia uma pessoa já poder falar nestas coisas da saúde mental sem problemas, porque há uma consciencialização transversal para a questão, e tal, uma maior aceitação, a 'ssoa já não é vista como disfuncional, a maluca, o problema, não, a pessoa tem um problema, ajudemos a 'ssoa a lidar e ultrapassar, a ter o espaço pessoal e o tempo que necessita, e coiso, todos muito uahhhh, só que não. Nope, não, népia, não é nada assim. Ou antes, é assim para umas coisas, para outras não. Case in point, como diria o Rodenberry, há aceitação e muito boa vontade para com alguns problemas, mas não com outros, depende se está na moda, se é fixe. Melhor dizendo: se padeces de distúrbio / problema / glitch que se enquadre no conceito (atualmente aceitável) de neurodivergência, tudo ok, o resto, iuc. E o que é isso da "neurodivergência", não sei bem. A sério, não sei. Acho que tem que ver com o funcionamento do cérebro, isto é, se é defeito de fabrico, ai, isto não soa nada woke, melhor dizendo, se vens assim de origem, se é um problema de hardware, tudo ok. Se o problema é do software, que passa a funcionar mal, ninguém quer saber. Ora, sendo encaradas como integrando este conceito, e portanto neurodivergentes, sem polémica: espectro do autismo, supé in, ADHD idem, disforias também (porque se convencionou que se trata de algo que nasce contigo, não vou discutir). Este catálogo é tão apetecível como explicação de uma depressão, ansiedade, ou simples quirkiness, que há quem se autodiagnostique. O "eu acho que estou no espectro" é algo que se banalizou. É normal ler / ouvir apreciações como "a ansiedade é da minha TOC / ADHD". Pelo contrário, não se ouve ninguém a desabafar que está a chocar uma psicose, desconfia que a sua depressão está ali a raiar a bipolaridade, ou sente-se um niquinho esquizofrénico. Embora se trate de diagnósticos que podem ser enquadrados na definição de neurodivergência. Mas não são cool. Fixe é ser neurodivergente as in diferentão, muito fora. Agora diferente do tipo ouvir vozes, achar que se aproxima o fim dos tempos, ver auras... neurotípico não é, de certeza, mas é o tipo de excentricidade "errada". "Ah, e como é que sabes que é assim?" Eu cá num xei nada. É o que anda na net. É o que se diz na net. É o que é acreditado na net. Não vamos estragar a vibe dos diferentões modernões. Mas eu, que sou antiga, garanto: esta ansiedade não interessa se é de origem. A depressão (que se vai seguir, pela culpa de não ter estado capaz de trabalhar em condições) também não sei se é defeito de fabrico. Não é relevante, socialmente, se é hardware ou software. Esta estranha maneira de viver não é uma excentricidade que use como uma medalha, de que me gabe, ou que careça de validação. Incomoda muito. Dá uma trabalheira a desmontar e a lidar. Não faz de mim melhor ou pior pessoa. Mas não justifica nem desculpa quando, por causa dela, ajo pior. E, muito menos, faz de mim uma coitada muito desgraçada, marcada por uma inevitabilidade comportamental indelevelmente gravada nos meus genes (?), tecidos (?), células (?), que os outros têm a obrigação de acomodar. Own it, deal with it. Sem desculpas. E, se preciso, tomem qualquer coisinha (prescrita por um profissional competente, claro). Ajuda e, às vezes, até resolve.  

terça-feira, 8 de outubro de 2024

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Pagando por todos os pecados, a pronto

Não posso deixar de achar graça, assim num tom ahahahahah-chuif, de humor quasi fatalista e até, vá, convenhamos, acusatório como em estavas a pedi-las, tu é que te ofereceste, ao facto de estar a trabalhar com millenials na nobre tarefa de passar conhecimento a garotada da geração z. Ouviram aqui, da boca de uma gen-X: poderá ser a definição mais aproximada de purgatório que já se me apresentou. Inferno não digo porque não sou uma me-me-me como os millenials ou uma mi-mi-mi como os gen-Z, e sei que há coisas bem piores a acontecer a muitos outros. 

Resumindo, e numa afirmação muito gen-X, está a ser interessante mas já me vai faltando a paciência - principalmente para os millenials, pasme-se.

(pondero, cada vez mais fortemente, uma reforma dedicada ao eremitismo)

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

:)

 

(oh pah, teijam calados, calores tropicais nunca foi a minha cena, e com Graves / hipertiróidismo é pura tortura)

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Problemas de simetria

Tenho imensos, perturba-me horrores, e ocupa-me demasiado tempo e espaço cerebral. 

Uns exemplos:

Não consigo viver com padrões que se repitam muitas vezes, ou dou por mim obcecada em "partir" o padrão, isto é, perceber onde começa e acaba a repetição, como que a imaginar a prancha de impressão. Acontece-me com roupa de cama, papel de parede, azulejos e revestimentos em geral, que tenham um padrão, principalmente geométrico. Se o padrão for muito grande em relação à peça (por exemplo, uma manta), e seja percetível logo num olhar, tudo bem. Se for uma peça grande com um padrão muito miúdo, consigo ignorar. Lençóis com flores pequeninas ou quadradinhos / riscas finas ou de igual espessura, ok. Papel de parede com flores pequeninas: péssimo, vou ficar a olhar com ar perdido à procura das "costuras". Papel de parede, com franqueza, qualquer padrão dá comigo em doida, porque vou estar, inconscientemente, a ver se o padrão está alinhado nas junções (para além de identificar as repetições). Faço o mesmo na roupa, fico à beira da loucura quando o padrão não "casa" nas costuras, donde, não compro casacos ou calças de padrão, blusas consigo porque estão demasiado perto / junto ao corpo para me perder a olhar. Se for um tapete, tolero. Adoro motivos persa ou afegão, por exemplo, e a assimetria do tingimento do material no kilim. Esquisita, esta excepção, eu sei. Mas padrão a dar ideia de abstracto: ai. E se detecto um problema de simetria, pronto, chamem a ambulância e vistam-me a camisa de forças. As juntas doa azulejos lá de casa já estiveram mais longe de me enviar para o asilo. Mas sou forte, hei-de superar esta provação. Mas quando se fala de medidas mal tiradas, pah. Xanax. E lembrei-me disto porque ando a adiar tirar as medidas a uma cena lá em casa, que tenho a certeza que o tipo que me pintou o quarto e instalou as guarnições de madeira novas (as antigas tiveram de ser substituídas) deixou uma diferença de um, dois centímetros entre os dois lados. Juro que o alinhamento daquelas bandeiras de janela me andava a perturbar, e não conseguia perceber porquê, foram meses a tentar ignorar a sensação de desconforto, até que aqui há dias aconteceu: fiquei parada à porta de olhar perdido, e zás, o c@br@o colou aquela mais alto que esta aqui, phod@-se, que c@r@lho, agora vai ser bonito para instalar os varões de cortinado (que ainda não me tinha decidido a comprar, e ainda bem).

Estou à beira de um esgotamento. Rectificar aquilo vai dar uma trabalheira, a dois metros e setenta de altura, e tenho vertigens. Maldita seja a minha vida.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

É tudo treta (ou "bem vindos à minha ted talk")

Não tens de ser, nem sequer estar feliz. O ser feliz, aliás, é uma mentira giga-mega-ultra: uma pessoa não é um sentimento. Uma pessoa tem sentimentos, ocasionalmente, fugazmente. Ninguém é feliz. Quem diz que é feliz ou te está a pregar uma valente peta, a fazer-te sentir, desnecessariamente, menos que, inferior, inadequado; ou te quer sacar algo. Liberta-te, dá-te licença para existir sem a grilheta do ter de ser [alguma coisa].

Dito isto: 

Motivação é treta. Pior: desnecessária. Não precisas de motivação para fazer seja o que for, faz e pronto. Porquê? Porque sim, porque tem de ser. Não precisamos de motivação para comer, dormir, acordar, lavar os dentes, tomar banho. Fazemos porque sim, tem que ser. Porque a alternativa é pior. 

Exemplo, há três meses que vou regularmente ao ginásio. Estou toda motivada? Não. Pelo contrário, acho uma merda, é um sacrifício, preferia ficar a fazer seja o que for, até ver tinta a secar, do que ir ao ginásio. Mas vou. Porque tem que ser, derivado das prostitutas das minhas costas, que já não doem há - também - três meses. 

Ah, então estás motivada pelo resultado. Nope. Piretes para o resultado. O facto de estar a resultar só reforça que tenho de continuar a ir (o horror) e, se quero manter os discos no sítio, provavelmente aumentar a frequência (o medo). Isto é péssimo. Muito desmotivador, sinceramente. Porque eu queria era fazer o que me apetece, que é tudo e mais um par de botas, e não isto, o que tem que ser. Se vamos a esmiuçar conceitos, eu estou motivada é para o ócio e diversas actividades conexas, porque me é natural. Puxar ferro num sítio aromatizado por peúgos transpirados, não. Mas vou. Como vim hoje (e ontem e a semana passada, lágrimas de sangue) trabalhar. Tem que ser. Sem trabalhinho não há dinheirinho, e o supermercado não se paga com palavrinhas de arrimo. É necessário à sobrevivência, ou a um certo padrão de sobrevivência. E um gajo faz, que remédio. Porque se não faz, consequência. 

Ah, mas uma pessoa deve lutar por fazer aquilo de que gosta / para o que está motivado / a faz feliz. Ahahahahahahahahahahahah. Boa. Força aí, nesse conceito de vida. Vamos a pensar retrospectivamente: desde quando é que a humanidade abraçou essa coisa de fazer o que nos faz felizes? Umas dezenas de anos? E que franja (curtíssima) da população humana é que, desde tempos imemoriais, pode fazer só ou principalmente o que gosta? Ou ganhar a vida a fazer o que gosta? Mais, tendo tempo livre para (prosseguir seriamente) o que lhe dá prazer? Quem vos vende esta tretona está a enganar-vos. Triste e lucrativamente. É o princípio da lotaria (ou da meritocracia, mas isso é outra conversa): convencer-nos que (todos!) podemos ser aquela pessoa sortuda que, de um momento para o outro, vê a sorte bafejá-lo e fica milionária. 

Ou então, estão a tentar convencer-nos de outra coisa bem mais maquiavélica: que a felicidade é possível, basta encarar a vida, o trabalho, as dificuldades, com determinação, ter a força de vencer obstáculos e, se estivermos verdadeiramente motivados, lotaria!!!!, só depende da nossa vontade!!! Ahém: não acontece. Ou só a poucos, vá. Dificilmente (nos) vai acontecer. E não será por falta de vontade ou empenho, o mundo está a transbordar de gente esforçadíssima que não passa da cêpa torta.

Notinha final: não faz mal. Não faz mal que às vezes não apeteça, que nos sintamos no lodo, uns falhados, uns tristes. O mundo, a vida, não nos deve motivação. Não nos deve nada, na verdade. Nascemos nus e indefesos, sem controlo nos esfíncteres, mas hei, melhora. Podemos ser melhorzinhos uns para os outros, já ajuda. Não estarmos sempre focados na nossa motivação!, sucesso!, liberta algum tempo e foco! para olhar para o lado. E até aproveitar melhor os momentos que nos dão alegria. Já lá dizia o almada, a alegria é a coisa mais séria da vida, tenho um crachá com isto impresso, e juro por esta máxima.  E, a alegria, não é treta, existe. Sabemos que é passageira, é aproveitar e espremê-la enquanto a temos. Já a felicidade, bom, boa sorte e tudo de bom. Mas tirando alguém a curtir uma valente trip de substâncias, não me lembro de ver alguém em verdadeiro estado de felicidade duradoura.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Razões de força maior*

Nada diz (grita!) tanto "geração X" como uma pessoa achar que, para suar e andar a fazer esforços não desejados, ir treinar de leggings pretas de trazer por casa, e t-shirt largueirona que o home já não usa (está apertada/larga/desbotada/ratada) está muito bem, muito ok, até muita estilosa, por sinal. 

Parece que não, e ainda bem que tinha outra t-shirt na mochila; o Eddie fica só lá para casa, que os gatinhos - e ele - não ligam a essas coisas.

(não, não vou gastar uma pipa em roupinha de fitness, mas é tooooodo um sector toooodo pipoquento, não é? vou ter que ir à Decathlon, não vou? ei, mais caro que a Decathlon, não. há limites. Oisho, talvez? cansaço. isto do dress code é um cansaço.) 


*tais como estar toda fornicada dos ossos, articulações e músculos; e gostava de, um dia acontecendo, falecer com melhor ar. e saudável.

Segredos de um casamento feliz

Diz que vai estrear um novo filme do Planeta dos Macacos. Como é que eu sei? Hum, vivo com uma certa pessoa já há dezoito, qualquer dia dezanove anos. Há meses que sei, de re-pe-ti-da-men-te ouvir dizer, que vai estrear um novo filme do Planeta dos Macacos. Sei também que é depois do César morrer, o resto já não ouvi fixei. Vai passar no cinema, em Alvalade, por exemplo. Estava lá o cartaz. Não que tenha reparado, mas fizeram-me reparar. Mas se calhar ele espera que passe no streaming, porque não lhe apetece ir ao cinema sozinho (pequena pausa, olhar de esperança, hum-hum da companheira de vida); de qualquer forma, vê em dvd, porque vai comprar o dvd, ou bluray, já tem os outros (confirmo. tem todos. não, não é só um ou dois, googlem e surpreendam-se). O seu crítico preferido (Kermode, disponível hoje no iutube) aponta falhas, mas parece que também gosta da saga e vai acompanhar, porque é o primeiro de uma trilogia (malucos, malucos everywhere). Também já vi o trailer, até penso que mais que uma vez. Qual é a história? Então, há um chimpa pucanito, uma aldeia a arder, um orangotango mau que fala com voz de mau, e uma senhora boa. Tinha voz de boa, pelo menos. Assim de esguelha, parecia desenho animado daquele moderno, que há agora, em computador, pseudo realista. E é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto, e é mais do que gostaria de ter a dizer sobre o assunto.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

TV Guia

Posso não servir para mais nada, mas faço recomendações do caraças. E se calhar sou um bocado peneirenta. Mas são boas recomendações! Que são! "Ah, mas é tudo canais a pagar, és peneirenta e elitista!". Pah, em vésperas do 25.04, pah, não vale. Além de que os quatro canais, quando foi a última vez que vos deram uma alegria?, eu já não m'alembro. 

Então, o que é bom e anda aí:

- Ripley (netflix): esta série não é só boa, se eu mandasse era obrigatória. Andrew Scott já foi o melhor Moriarty de sempre, um hot priest do caraças, e tcharam. A Dakota Fanning 'tá crescida. A fotografia é poesia, a história está lindamente contada. 

- Baby Reindeer (netflix, a justificar a mensalidade): uma das melhores série que não quero voltar a ver. É uma autópsia ao trauma puro e duro, e ele há ali bocados (ahééém, episódio 4, ahééém, e não melhora) que ficam a trabalhar. Não conhecia a actriz que interpreta Martha, mas agora quero ver tudo o que ela já fez.

- To Kill a Tiger (novamente netflix, agora já estamos a lucrar): porque já estamos preparados, vamos então continuar no tema, sendo que este é trauma, violência sexual, sociedade, justiça. Agora, na India. Um filme documentário muito bem feito, sensível mas sem paninhos quentes. Revolta muito, mas, ao mesmo tempo, aquece o coração saber que há tanta gente íntegra e boa a fazer trabalho essencial. Comovi.

- Quiet on Set (HBO), ena, agora já entrámos na overdose de abuso e violência sexual, mau trato, e por aí fora. Quando era gaiata via os desenhos animados da Warner Brothers, mas depois veio uma época em que foram banidos, buhu, muito violento, um coelho que é um boneco dar um tiro na cara de um pato (outro boneco) e este ficar com o bico virado para trás. Ou desenhos atirarem bombas (desenhos...), bigornas (também desenhos...) a outros bonecos desenhados. E veio a época da Nickelodeon, que já não me apanhou, pelo que não fazia ideia. Mil vezes o Bugs a escavacar o Daffy. Surreal, aqui é tudo surreal. A forma como era tratado o staff e os putos-actores; o silêncio e conivência dos responsáveis, o porem miúdos a fazer cenas com conteúdo sexual ÓBVIO para qualquer adulto com dois dedos de testa, enfim, e o pior do pior, claro, um ambiente destes é natural que atraia todo o tipo de tarados, principalmente quando quem manda no show é ele próprio um tarado porno-viciado, ressabiado, misógino, a viver a sua power trip. 

E pronto, já é uma listinha boa. Agora vamos acabar o Conan O'Brien Must Go, um excelente limpa palato, e depois logo se vê para onde seguimos.  

Se são daquelas pessoas que têm o Filmin (nada contra, mas tenho de gozar porque mano tem, e uhu, filmes intelequetuais, uhu, olha o menino), passem os olhos por A Zona de Interesse, para ficarem monumentalmente deprês; para acamar, e ainda o apanhando, vejam o Anatomia de uma Queda (já agora, Sandra Huller, não conhecia, mas quero ver tudo o que já fez).

Adeus, adeus, que tenho legos para montar. Viva a liberdade!

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Cinco minutos de lamechice

 Sim, reconheço que no mais que aleatório sorteio da doença auto imune me podia ter calhado (substancialmente) pior, mas, ainda assim, acho mal terem enfiado o meu nome na tômbola. 

Ok, não é lupus, nem uma esclerose qualquer (bate na madeira), mas começa por o nome ser muito estúpido e, quando comunicado por escrito, dar azo a mal entendidos: não, mãe, não é uma doença grave, é a doença de Graves. E é tipo ovo kinder: nas entranhas de um chocolate fajuto e muito pouco satisfatório, esconde-se um brinde não menos fajuto e imprestável, que vai ficar lá em casa a ganhar pó e a estorvar e uma pessoa sem coragem para o deitar fora, que era admitir que gastámos numa porcaria nem sabemos porquê, a saber, o hipertiroidismo. 

Resumidamente, não é das piores, mas é muito chatinha. E tem muitos sintomas. A maioria deles, confundíveis com os da peri/menopausa, o que dá uma sobreposição giríssima, hilariante, mesmo. E, se não impedem uma existência normal, perturbam um poucochinho. Ou são mesmo socialmente repreensíveis, como o mood swing que te faz explodir à mínima provocação (Nota: a outra pessoa estar viva, respirar, existir, mastigar, calhar estar ali, pode constituir, para quem padece desta patologia, uma "provocação". Ou um trigger, para sermos modernos.) Ao menos já não tremo das mãos nem tenho uns olhões de marreta, que me davam uma vibe de drógada que ui.

O dia a dia pode resumir-se ao primeiro excitex que é "uai, que sintoma, ou sintomas, me vão calhar na rifa hoje?". Sim, o suspense. Até pode não suceder nenhum, mas, até poisares a cabecita na almofada, não sabes. E então, ainda vais a tempo, com a simpática insónia. 

Enfim, é muito giro. A boa notícia é que, com o acompanhamento certo, podemos ter a sorte de uma remissão. Ali num ano, ano e meio de tratamento. Que implica ir ajustando a dosagem de um comprimidinho canininho, e ver como está a resultar com análises ao sangue cada mês e meio a dois meses (não me pagam a pub, mas na Luz tiram sangue que é uma categoria, e uma recomendação destas, vinda de mim, é para guardar e jurar por ela). Anyhoo, mesmo com remissão, pode sempre voltar. Porque todos precisamos de um certo grau de  inquietação, para nos manter finos. 

O único ponto positivo foi o emagrecer, apesar de ter uma fome devoradora e comer tudo o que me apetecesse. Como disse ao médico, pensei que finalmente estava a ter sorte na vida. Já não, com o tratamento voltou o peso todo e mais algum, de bónus. A fome ficou, exceto nos dias em que alterna com uma náusea, que, atenção, também pode ser existencial. Até porque o pior, e que realmente me tira qualidade de vida, me deita abaixo, já me fez quase não sair da cama quinze dias, estar dois meses para ler um livro, não dar vazão ao trabalho, andar com uma sensação de fracasso iminente, de incapacidade burra e acéfala intermitente, é o cansaço, uma coisa que se abate como uma manta e pesa como a atmosfera de Vénus, um cansaço súbito que é uma exaustão total, um agora estás toda fresca, agora quero deitar-me aqui um bocadinho, faz favor, que me drenaram a energia toda e tenho de esperar para carregar. 

Decidi que não tenho idade para isto, pertantes, vai-se resolver. Vai melhorar. Sou uma paciente muito obediente e cumpro tudo à risca, aponto até na agenda dosagens, análises, tudo. Ando a ler sobre a melhor alimentação (pah, mas o açúcar, a farinha, o glúten agora fazem mal a tudo?, e a minha torradinha com manteiga?, vou comprar à gleba, é? do chocolate já não me queixo porque - juro - enjoei - eu, uma chocaólica tão dedicada - como enjoei do tabaco), a ler sobre vitaminas, a ler sobre o melhor exercício (desespero, o grande motivador). E vai melhorar. Porque não tenho idade para isto, apesar de já ter chegado àquela idade (!!!) das pessoas (mais) velhas. O despautério, não se faz. Rameira da vida, çinçeramente.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Acção de Formação

Agradecia do fundo, fundinho do coração que alguém explicasse às meninas / senhoras que trabalham na Sephora que a táctica de perseguir a cliente até ao esgotamento, insistindo em impingir-lhe um produto que, notoriamente, a cliente não precisava nem queria, pode ter o efeito adverso, ou seja, e no que ao caso interessa, a cliente entrou para comprar uma mixuruquice de um sérum da The Inkey List que não chega aos 15 paus, verdade, mas saiu sem nem isso gastar e, calhando terem-na deixado em paz e sossego, vá, ao terceiro "estou só a ver", a pessoa até tivesse motivação para gastar uns quinze minutos a experimentar e pesquisar outras marcas do pó compacto que precisa de repor, mas não faz mal, mando vir da net o do costume.

[e aqui há quinze dias deixei um piparote de massa na concorrência, porque foram metade chatas do que vocês são. mas, ficando satisfeita com as escolhas, passam a ser "do costume", e manda-se vir de onde, onde? pois.]


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Not woke, insomniac

 Hoje em dia não se pode simplesmente 'tar, que és logo acusado de não ser envolvido, ou esquecer o sofrimento de não sei que franja da sociedade. Novidades: o tempo não é elástico, um gajo não consegue ir a todas. Digo mais: desconfio imenso de quem quer ir ou vai a todas. De duas, uma: ou não tem nada com que se ocupar e tornou-se activista profissional (revirar de olhos), ou é um ser acrítico que simplesmente adere a tudo o que está a dar para o seu lado ideológico (duplo revirar de olhos) - porque, a sério, não é fisica, psicológica ou intelectualmente possível - ou honesto - ter uma opinião fundada e informada sobre tudo, mas tudo o que se passa.

É triste, mas dominante: não ter opinião sobre determinado assunto é coisa para pena capital. Não tens opinião, não sabes que determinada questão é problemática, não estás acordado, não estás consciente, e isso, por sua vez é problemático. Estares fora é uma opção, donde, estás a escolher não te interessar, donde, estás a contribuir para a perpetuação do problema, donde, permites a opressão / agressão / exclusão de x/y/z, donde, fazes parte do problema, do sistema, és o sistema. 

O que é problemático, nisto tudo, é a seca que esta forma de estar me dá. Não me acorda mas, admito, contrariada, tem dias que me piora as insónias. O movimento woke está a tornar-me insomne. E cansada. Tão cansada.

As pessoas têm o direito a não ter ou querer não ter opinião sobre determinado assunto. Por diversas razões: ou não sabem; ou não sabem e não querem saber; ou sabem mas não querem saber. Todas são legítimas. Confesso que não tenho opinião formada e informada sobre imensas coisas. Sobre muitas tenho um princípio de opinião, ou seja, tenho certos factos e conclusões como certos, mas não me levam a uma conclusão única, final, e inabalável. Sobre algumas coisas tenho opinião formada, e sobre outras já não quero saber. Mas não partilho estas não, meias e opiniões com toda a gente. Porque não quero, porque não sou parva, e porque sou menina para responder "não tenho conhecimentos que me permitam formar uma opinião" a qualquer pergunta. Sem vergonha. 

Mas se tenho uma opinião, ó meninos, não me venham dizer que é problemática. Sabem o que era problemático, aqui há 50 anos? Ter uma opinião. Defender algo que é contra-corrente (depende sempre do público, mas hoje em dia ninguém diria) não faz de ti um facho, um não-sei-que-fóbico, um opressor, um traumatizador dos oprimidos. [Essa é outra, a obsessão com o trauma, mas fica para outra diatribe.] Dá lugar a discussão. Isso! Opiniões diferentes -> discussão, debate! Mas não, parece que não se pode. No meu caso, porque sou boomer (não sou, em Portugal ninguém é, no rigor dos conceitos, mas para a chavalada parece que isso não interessa nada), e ao querer contrapor, desafiar, rebater, estou a ferir os sentimentos da parte contrária, que se sente atacada, não se sente segura e, portanto, não me deixa completar uma frase sem me interromper com um destes neo-chavões, e acaba definitivamente com a conversa com uma retirada emocional.

E pior que opiniões ou não opiniões, é gostar de alguma coisa que caiu no desagrado dos iluminados acordados. Ó céus, é o degredo. Não se pode. Não pode. E, mesmo não gostando, lá vão eles, todos!, por dever de ofício, ler / assistir / ouvir, para melhor se indignar. Tenho uma teoria: tempo a mais. É um privilégio que não possuo: se um livro, filme, música não me agrada, até posso dar cinco, dez minutos de benefício da dúvida, mas continuando a má opinião, passa a outro. Há melhor em lista de espera, e não tenho tempo para queimar.

Minto, às vezes lá calha ter um tempinho em que a cabeça não dá para mais, e aproveito para acabar o último do Trevor Noah que deixámos a menos de meio, por puro tédio. Me mate desistiu, eu um dia voltei a pegar, e confirmei, triste. Porque já lhe li um livro fantástico, e ri muito com outro stand-up, mas este é tão insípido, tão blah, tão sensaborão. Não ri, zero, nada. Mas atenção: não ofende ninguém, o que lhe mereceu muitos e bons encómios. É, portanto, um espectáculo insípido. Bom para certos palatos, mas eu gosto da minha comédia como não gosto da minha comida: cheia de sabor, extra-temperada. Como a da Taylor Tomlinson, ou da Iliza Shlesinger. Que não ofendem nenhuma espécie protegida, mas têm muita piada.

É claro que há comediantes que considero ofensivos, ainda outro dia aguentámos uns dez minutos de um que não conhecíamos, Matt Rife. Odiámos. Fomos para as redes vociferar, exigir um auto de fé? Não. Parámos e fomos ver outra coisa. Não é o primeiro.

Depois há aqueles de quem gostamos, mas nunca sabemos se vamos continuar a gostar. Acontece, uma pessoa desgosta-se constantemente. E às vezes até vê e consegue dar valor a coisas que desgostam. Um exemplo, eu odiei, com todas as letras, em caps e bold, Succession; aquela gente e estilo de vida dava-me vómitos, queria que morressem todos, mas mortes lentas, dolorosas e sofridas, e vi tudinho. Porque é uma excelente série, muito bem escrita e interpretada. 

E é isso que me custa, que as pessoas não consigam dizer "é bom, reconheço valor, mas não é para mim". Dizem horrores da Gadsby, quando, na verdade, acho que queriam antes dizer aquilo ali. Ou "não consigo entender comé c'uma gaija feia / gôda / lésbica tem mais sucesso que eu, buhuuu". Eu gosto E dou valor. 

E falemos do Gervais: o gajo não está (podre de!) rico por ter roubado ou enganado meio mundo. O produto dele vende, e vende muitíssimo bem, de forma constante, consistente, e há mais de uma década, porque é BOM. Fim de conversa. Não gostam, não comem. Eu odeio sushi, e consigo sempre comer qualquer coisa nos restaurantes japoneses; não faço é uma fita a exigir p'exinho grelhado com arroz de grelos. Idem para Chappelle. Ui, a urticária. Com este fiz um percurso engraçado e muito anti-woke: gostei, deixei de gostar quando estava no auge, continuei a não gostar quando voltou, e voltei a gostar. Pior: adorei o último, The Dreamer. O que é suficiente para me condenar às chamas do inferno woke, o cancelamento total e irrevogável, mas ainda acrescento um agravamento de pena: o Armageddon é melhor, tanto ao vivo (iep, estava lá :P) como na tv (claro que voltámos a ver), embora não seja tão selvagem, digo, bom como anterior Supernature. É ofensivo? Será, sensibilidades há muitas. Ninguém é obrigado a ver. 

Pronto, já forneci todos os argumentos para a acusação. Quem quiser debater, venha, estamos na boa. Se não souber responder digo "não sei"; se não tiver opinião, admito que não a tenho. Essa honestidade ninguém pode negar que tenho. Tomara muitos. Mas sim, os gostos discutem-se. Já não se educam, a menos que se esteja a falar de vossos filhinhos: a esses eduquem como quiserem, [a minha geração tem feito um trabalho do caralho, estão todos de parabéns, sim, é ironia]. Já eu, sou adulta, e não aceito doutrinamentos, ou tentativas de. Fartinha, a ponto de desmaiar de sofrência, de homilias. Ide pregar para uma azinheira, pode ser que vos apareça a Vossa Senhora e faça a caridade de vos levar consigo.  

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Sim senhora, sim senhora

 Diz ela de mãozinhas atrás das costas, olhando em redor com toda a atenção, tentando micar defeitos na pintura, manchas de humidade. 

Cinco dias de ano novo, dou-lhe cinco em dez, ou seja, tem espaço para crescer. Ou não. A primeira semana não está especialmente famosa, teve um feriado, daí os cinco valores. Mas hummm, não sei. Anteontem fui ao supermercado e já não havia mon chérie. Só um apontamento, hein. 

Lá a ver. Lá a ver.