quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Não está tudo bem, não vai ficar tudo bem*

 A oeste nada de novo enquanto a Gilead outrora ficcional vai lançando as primeiras pedras; na Europa o extremismo de direita e religioso a marcar pontos; a pandemia a continuar a ser pandémica e as pessoas a demonstrar que a inteligência, essa qualidade que nos impusiona a melhor informar, seguir quem sabe, e adaptar, é um bem escasso.

Neste dia, só uma luz me dá alguma esperança na humanidade: a coragem e determinação das mulheres polacas. Bravas, bravíssimas.




Hoje são elas, amanhã podemos ser nós. Já esteve mais longe. Nós somos elas.


*'tá tudo a ir co'caralho, isso sim

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Nós por cá todos bem

Tirando o facto de não estar a conseguir encaixar [spoiler alert - Years and Years] porque é que quando o Daniel e o Viktor têm de sair de Espanha não seguem para Portugal, em vez de optar pelo salto (ilegal e perigoso) para o Reino Unido, via (ilegal e também perigosa) França.

Tirando isso - pah, não estou a conseguir lidar - adorei a série, o Rory Kinnear e a Emma Thompson são national world treasures, a bélhota é uma joia, e foi uma grata surpresa dar conta de que foi criada e escrita por um antigo showrunner e argumentista do Doctor Who (Russel T. Davies).  Yay.

Mas sim, ainda estou a obcecar com o facto de a existência de Portugal ter sido a) flagrantemente ignorada; b) estupidamente esquecida; c) deliberadamente obliterada. Quero, preciso!, saber o que aconteceu a Portugal numa série de ficção, passada num hipotético ano de 2027 e picos. Yep. Há três dias nisto. Não sou maluca, mas dou ares. 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

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(true story, e o que eu adoro camisas de flanela, com techérte branca. não saí dos anos 90, pronto)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Não se ralem muito com as listas de presentes, vamos todos morrer antes do Natal

 Mamãe requisitou a minha presença numa demanda necessariamente presencial junto de uma operadora de telecomunicações, a fim de entregar papeladas para finalizar cenas que eu iniciei por telefone e tal, tens de vir comigo e arrumamos o assunto (spoiler: eu não tinha de ir). E eu, filha dilecta e obediente, sim senhora, deixa só pesquisar aqui uma loja num sítio amplo e arejado, mas não, tinha de ser na do Colombo, porque já lá tinha ido informar-se das diligências necessárias e, portanto, a menina já a conhecia e ao assunto, tinha de ser lá. Ainda pensei objectar que a menina - chamemos-lhe Gumercinda - deve atender dezenas de pessoas por semana, ora isto em quinze dias decorridos não era garantia de que era só aparecer, acenar um familiar iuhuuu, a menina Gumercinda a abrir os braços olha a Senhora Dona Mamãe de Izzie, então traz aquilo, vamos a isso, e pronto. Mas uma pessoa não objecta assim sem mais. Mamãe apenas aceita uma quota de objecções mínima, costumo esgotar a minha logo nos primeiros dias de cada mês, e entre estar a argumentar com mamãe ou inscrever-me num treino de crossfit, prefiro morrer a empurrar um pneu de tractor.   

Fomos então ao Colombo (onde já não punha estes pés de Cinderela há, seguramente, um ano; para mais e não para menos), duas da tarde, dia da semana. Não sendo religiosa, apenas me restava a esperança de que naquele dia e hora as pessoas andassem entretidas por outros sítios, tipo trabalho, a casa delas, que era onde eu devia estar: em casa, a trabalhar. Não sou religiosa mas mal assomei ao piso de rés-do-chão invoquei todo o Olimpo, ai que ou a) ainda há muita gente de férias; b) o desemprego realmente aumentou; c) a percentagem de pessoas em teletrabalho desviadas por familiares para acompanhar em recadinhos é maior que eu pensava (achava que só a mim calhava o ah, estás a trabalhar em casa?, então tens flexibilidade para.)

Fomos à tal loja, à porta da qual havia um autocolante a dizer "espere aqui", e uma máquina de senhas, sem nenhum funcionário por perto. Como ninguém manda em mim, tirei senha, e parece que era esse o procedimento, porque só se aproximou alguém para saber do número x, e não para ver se alguém estava a esperar ali. Mamãe explica que quer falar com menina Gumercinda, porque menina Gumercinda já a conhece. Menina Gumercinda não a reconhece, e só depois de uma, ainda que breve, explicação diz recordar a situação (nota: estas pessoas não ganham o suficiente, não ganham). Entramos ambas, mas um fulano diz que não podemos estar ali duas; lá vou eu esperar fora da loja. Soltei o adequadíssimo foda-se mental, e ingenuamente pensei que seria rápido, segundo mãezinha querida aquilo era só finalizar. Não há onde sentar. Passam pessoas, muitas pessoas. Porque estão aqui tantas pessoas. Desinfecto as mãos pela 462ª vez. Continuam a passar muitas pessoas. Começo a sentir as costas a reclamar, inicio uma marcha de maluquinhos para a frente e para trás. Entre mais pessoas. Muitas acompanhadas. E com sacos. As costas começam a ensaiar o berro, vou lá dentro dar conta que vou para sítio x para me sentar. Vou. Estupidamente optimista, não levei nem óculos de ver ao perto nem livro. Aborreço-me e panico, a ver cada vez mais pessoas. Nisto senta-se ao meu lado uma sujeita, assentando o rabiosque em cheio no sinal "não sentar". Reclamo. Sicrana ignora-me e volta-me as costas. Desinfecto as mãos, agora pela 567ª vez, e tento respirar pouco. Nisto já lá vai hora e meia, tenho onde estar daí a quarenta e cinco minutos, e a segunda circular anda em obras. Solto um muito a propósito ai o caralho da minha vida mental. Decido-me e volto à loja, passo por inúmeras pessoas, mãe, tenho de ir, não sou precisa, pois não? Não era. Olha a novidade. Vou para o parque, sempre cruzando-me com tantas pessoas, porque estão aqui tantas pessoas, porque há tantas pessoas, entro no carro, desinfecto as mãos pela 612ª vez, o volante também, e vou à minha vida.  

Cheguei a casa com vontade de me enfiar no chuveiro e esfregar-me com palha de aço. Que eu sentia, ó se as sentia, as patinhas minúsculas de dona Covid fazendo treking por mim acima, por mim abaixo. Contive-me, tinha de trabalhar. Trabalhei. Quero confinar quinze dias. Preciso de confinar quinze dias.  Se ligar para a saúde 24 e contar que fui a engano para o colombo, será que me passam justificação?, aposto que não passam. Juro que não sou hipocondríaca, mas a minha agorafobia está em níveis olímpicos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Parentalidade não sei quê ou como criar um neurótico

 Uma das coisas que sempre me deixou estupefacta - e um bocadinho invejosa, confesso - é o alto nível de auto-estima que tanta gente consegue ter. Não estou a falar de auto-confiança, é mesmo auto-estima. Aquilo de uma pessoa olhar para as suas pequenas e grandes obras e dizer-se "sim senhora, está aqui uma coisa mesmo bem feita". E isto sem notar que, se calhar, está ali uma coisinha que precisava de ser mais trabalhada, um cantinho com uns ciscos por apanhar, uma aresta que precisava de mais polimento. Não; estas pessoas dão a empreitada por terminada, e perfeitamente acabada, em pontos em que eu, por exemplo, ainda estaria a ponderar desmachar e voltar tudo ao início, porque está uma valente borrada, e nem morta apresento isto como o resultado final. 

A certeza que eu tenho é que estas pessoas não tiveram pais uma educação tão crítica como a que me calhou. Mamãe, para dar o exemplo mais extremo desta corrente, não acreditava em mentir à prole para fazer a prole sentir-se bem. Sim senhora, o desenho está bom para idade e desenvolvimento que tens, mas o sol não tem olhos nem boca, o céu não é uma tira azul, essa senhora não é muito parecida comigo, pronto, é imaginação, está bem, mas podes fazer melhor. Adapte-se a redacções, trabalhos de casa em geral e especial de matemática, modelagem em barro, lides domésticas e, ainda que fosse muito nova para me lembrar, aposto que algo semelhante terá sucedido quando comecei a ir ao bacio "muito bem, a menina já não faz na fralda, mas também já não era sem tempo".

Nada, mas mesmo nadinha, correspondia aos altos padrões de mamãe. Nunca vi uma lágrima comovida com um sucesso (qual sucesso?, podias fazer melhor, recorde-se) dos filhos; nunca assisti a uma ovação de pé; e mesmo perante graçolas mesmo engraçadas que a faziam rir, logo travava a fundo para me retrucar que eu tinha uma graça relativa / se calhar estava ali a roçar o insolente / tinha um humor retorcido que nem toda a gente apreciava, vê lá isso que cá em casa é cá em casa, mas lá fora. Eu a pedir livros do Asterix e ela a responder que era muito infantil e lê antes Tintin; pedia mais Tintin / Os Cinco / etc., e já tinha muitos e se calhar avançava para qualquer coisinha mais sofisticada. Eu a querer mais Sandokan, Três Mosqueteiros, e ela a indicar-me clássicos que tinha lido na minha idade (juro, que infância infeliz deve ter tido, concluí eu depois de ter acedido à Morgadinha dos Canaviais e ter tido uma embolia). Nem a jogar cartas, ou jogos de tabuleiro, nunca mãezinha querida perdeu de propósito para nos incentivar ou alegrar. Aquilo era assunto sério, se queríamos ganhar tínhamos de nos esforçar e fazer melhor.

Se este estilo tem algumas vantagens? Tem. Sou extremamente exigente com tudo o que faço ( menos na lide doméstica, porque preguiçosa), vejo os mínimos defeitos, raramente considero qualquer resultado do meu trabalho ou hobby descomprometido algo digno de ser mostrado.

Se tem desvantagens? Também. Sou extremamente exigente com tudo o que faço - a um nível de ansiedade extrema; vejo os mínimos defeitos - a um nível obsessão; raramente considero qualquer resultado do meu trabalho ou hobby descomprometido algo digno de ser mostrado - ao nível de raramente algo que faça seja motivo de orgulho e muito menos bazófia. 

Em suma, padeço de ansiedade e tensão perante, durante e depois de qualquer empreitada; sou muito miudinha no preparar e fazer para garantir que fica mesmo bem feitinho (nunca fica), tenho um camadão de síndorme de impostor que dava para embalar à dose e comercializar.  

Hoje em dia - dizem - já não se educa assim. É a cena da parentalidade positiva, que me dá um bocado de inveja. Admito. Tudo se aplaude, tudo se recompensa, yay, conseguiste. Tem vantagens do ponto de vista emocional, que tem. Invejo isso, imenso. Mas depois, bom, depois... já vi o resultado disto ao vivo e a cores e caramba. Ok, parecer que a minha mãe tinha a expectativa que eu pintasse como o Pablito o fazia com a mesma idade (ele era filho de um professor de arte!, ia às aulas do pai, para adultos!) é um disparate, mas às vezes vejo gente a exibir cenas que produziu / faz que valha-me. Tipo, falta aí uma pitada de sentido crítico, hein. Não, não danças como a Fontayn, não és um Picasso ou um Renoir; essa escrita não está ao nível de um Pessoa; ainda tinhas de comer muita sopa para chegar aos calcanhares do Laurence Olivier; para Callas falta-te um Everest assim. Mais prosaicamente, esse trabalho está uma vergonha, é rascunho, só pode ser rascunho e, ainda assim, olha, rasga e começa de novo.

Era de apostar num meio termo, digo eu. Um que não condenasse as pessoas a ter os nervos cronicamente em frangalhos; mas também não resultasse numa moderada impavidez, displicência, mesmo, quando dois filhos pré-adolescentes passam de ano com média de três, e... negativas. Esforçaram-se, dizem. Têm de se esforçar mais para o ano, dizem, num tom que pretende ser - não é - severo. Não, não se esforçaram. Pior: não querem saber. Se fossem electricistas, aquilo era curto circuito certo, pegavam fogo ao prédio, podiam morrer pessoas. Vão lá à unidade de queimados dizer que se esforçaram, vão. Perdoem a minha bota-de-elasticisse, mas entre o constante picar de flancos e o permanente afago do ego haverá um equilíbrio. Se bem que, no caso dos sumos calões dos meus sobrinhos, quando ouvi contar, tive tanta, tanta vontadinha de lhes assestar a planta do pé nos reais traseiros. E aposto que não se estragavam por isso.

(os filhos que eu não tive têm tanta, tanta sorte de não existir. deviam dar-me imensas e belíssimas prendas no dia da mãe. sociedade mais ingrata.) 

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Disto ninguém fala

Mas é um assunto fracturante, impactante, de extrema relevância social, ambiental, e quiçá económica.Autocolantes na fruta: porquê. para quê. A seguir ao hábito de empacotar fruta em embalagens de plástico, uma prática muito irritante e pra a qual não encontro qualquer justificação válida, a cena do autocolanteco pespegado na casca da frita é coisa para me levar à loucura. 

"Ai, pá, tu embirras com tudo, qué c'aquilo incomoda, ao descascar a fruta vai tudo junto, pá". As outras pessoas não sei, e em sua casa manda quem lá mora, mas eu como as maças e peras com casca. Lavo bem lavadinho, e pronto a comer. Simples, natural, zen. E com fibra. Mas nããããão, é preciso espetar a unha e descolar o fideputa ruim do autocolante, às vezes dois (onde anda a polícia!), e depois tirar a cola (blérgh) que às vezes fica na casca. Além da evidente trabalheira, e eu sou contra toda e qualquer trabalheira, é porquicho colar cenas na fruta. E para quê, pergunto, questiono, inquiro eu de dedo indicador esticado. Para saber quem é o produtor? Eu ralada: é uma maçã / pera, por norma tuga porque as prefiro e leio a informação que é obrigatório constar da tabuleta, quero lá saber (mais) particulares da vida da fruta. E depois? qué que uma 'ssoa faz ao papelucho? Deixa no lava loiça e arrisca mais um desgaste no sagrado matrimónio (é uma das pet peeves de me mate, eu deixar o 'tocolante no lava loiça. ou as saquetas de chá.) Ou vai botar no lixo e depois tem de lavar as mãos outra vez, isto quando já podia estar a degustar a simpática polpa da amável frutinha? Só complicações. Além de que, posto que está que não tem qualquer serventia, aquilo é lixo, lixo! Já há pouco, não? 

Donde: utilidade zero, recursos desperdiçados, um custo acrescido para uma empresa agrícola, uma irritação no consumidor (sim, irrita-me muito, deixem-me 'tar).  E não me venham com o argumento de "ah, queres acabar com emprego, coitadinho do trabalhador colador de cenas, que vai para a rua por tua causa". Nã. Não acredito que seja uma pessoa a colar aquilo, apostava na máquina (outro custo, adiante), que só uma máquina conseguia a proeza de, tantas vezes, colar dois quase em cima um do outro.

"Tantos problemas no mundo, coisas mesmo sérias a contecer, e tu a fazer um manifesto por causa de autocolantes na fruta", pensarão alguns - a maioria? - enquanto reviram os olhos. Pois, eu sei. Estou a par. Tenho conhecimento. Mas porque é que acham que tomo a opção livre, deliberada, conciente, de estar aqui a espraiar quatro parágrafos, tentar incendiar as massas, iniciar a revolta popular para abolição do autocolante na fruta? Acham mesmo que eu tenho nervos que aguentem esmiuçar o actual estado de coisas a nível local, nacional, mundial? Oh, não há reservas de xanax, 'ssoas, não há. Pertantes, façam o favor aqui à tresloucada, finjam que sim senhora.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Eeehhh... What's up, Doc?


Nada de especial, mas obrigada pelo interesse (aheéééém). Assim de repente, a minha empregada esteve de quarentena e, finda esta, foi fazer o teste. Os nervos, pá, os nervos. Aguentei a esfregona o ferro até ter notícia, eeeeee... deu inconclusivo. Boa, vai ter de repetir. Donde, estou a teletrabalhar numa divisão que está limpa e higienizada (note-se que não disse "numa das"), a ver se não me distraio com as bolas de cotão a rolar por aí fora (quatro gatos, pessoas, quatro). A casa de banho também está limpinha, mas tem pior sinal que a cozinha. E não tem mesa para o computas e papeles. 

De resto, a melhor compra do ano foi, sem sombra de dúvida, o aspirador vertical, um vaipe que tive ali em Janeiro, com a justificação que dava muito jeito para limpezas intercalares (gargalhadas entre lágrimas) e não me lixava as costas. Está amortizadíssimo.

Mais, mais... 'xa cá ver, ah, é só um quisto, um estúpido, parvo, inofensivo, mas enorme quisto. Dúvida tirada esta manhã. Se me aparecer um a cada quatro anos, acho que sobrevivo e não morro do coração, mas o stress de dois meses já é dose q.b. para esta pobre. Não desfazendo no SNS (que os santos contribuintes e políticas sociais o mantenham vivo por muitos e bons anos), era fixe um gajo poder sair do duche, após o "oh, diabo", ligar para qualquer lado a expor a situação, e marcarem-lhe logo a maminhografia. E eu nem me posso queixar muito, que tenho a possibilidade de ir a um médico privado que me passe prescrição para o exame, mas em época covidiana isto demora mais tempo do que seria simpático conceber. Adiante.

Falando de médico, aproveitei e pedi um check up total, ou seja, um dia destes darei entrada num centro de imagiologia às weee hours da matina e sairei pela noitinha (isto é wishfull thinking, aposto que não me conseguem marcar tudo no mesmo dia, chatice). Toda fotografadinha por dentro, e sem maquilhagem, au naturel. De resto, tenho uma lista de análises tal que me vão ter de tirar dois baldes de sangue para aquilo. Me-do. Ainda não tive coragem, além de que ando a matutar quantos dias sem gelado vou ter de aguentar para não ter resultados de glicémia absolutamente pornográficos (três? chega? eh pá, mais que isso, pá... olha a convenção dos direitos do homem, pá.)   

E é isto.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Saudades

 Do antigamente, do período histórico a que chamaremos AC (antes Covid)? 

Algumas, surpreendentemente, não muitas. Por vezes suspiro pela conveniência que era precisar de alguma coisa e simplesmente ir, sem preocupações de esperas, filas, multidões. Mas não se vai e pronto, ninguém morre por não ir ver aqueles vasinhos tão giros ao ikea, ai, ai, ai o jeito que me davam que no confinamento me tornei ainda mais plantaólica, se as de exterior já eram que faz favor, agora virei-me para o interior, e os escritório está, ó, uma selva - tão bom. 

Do que tenho muitas, mas mesmo muitas, saudades é da Feira da Ladra. De feiras, em geral, mas a da Ladra, ó pá. É que ir à Feira da Ladra é um programão, minto, é O programão. Sair de casa sábado ainda pela fresca (mas sem exageros, é fim de semana, caramba), tica-tica a pé até lá (agora já há lugar nos elétctricos, mas a gente desabituou-se), de caminho ver Sophia a olhar-nos de frente de um prédio (e, se voltarem a cabeça para traz, para a Rua Ivone Silva, vêem um mural lindíssimo na lateral de uma escola, e um outro num prédio), no Largo (onde já não mora a moviflor, no nº28) virar para baixo, um pulinho e já lá estamos. Depois do arco, e com sorte, encontramos à direita fotografias lindas e brincos em prata feitos pelo dono da banca; seguindo em frente, pela esquerda (a gente vai sempre pela esquerda. coisas nossas.), vamos dar ao casão, e de seguida o senhor das peles (cintos, malas, sapatos, sacolas). Antes, com sorte, também lá podem estar a menina que vende desenhos giríssimos, o casal com os sapatos e cintos de pele mais giros de sempre, o indivíduo com as malas de cartão mais uau que já viram (único de quem ainda não fui freguesa, falha a colmatar). Depois, as lojas de antiguidades e velharias e os funko pop, já na lateral do edifício da praça. Contornamos em baixo, e subimos um pouco aquele que a descer era o lado direito, mas a subir é o lado esquerdo (fortíssimos na coerência), há a lojinha de joalharia e, mais acima, o Armazém das Caldas (loiça, loiça, loiça!; preciso de mais uma caneca, um pratinho, uma saladeira? sempre!). Depois é sempre a descer, se for cedo para almoçar dá-se uma vista de olhos nas bancas, ou vai-se à esplanada do jardim (vista liiinda), se não passa-se o Campo de Santa Clara (olha o mural de azulejos à esquerda), entra-se na Rua do Paraíso e segue-se para o nosso tasquinho em Santa Apolónia, onde nos espera um belo p'xinho grelhado (o chefe é que sabe, o chefe é que recomenda), choco frito ou os melhores secretos de sempre, nem falando da mousse que valhamedeuz, mas para a qual nunca temos espaço. Feito isto, rebolar até ao metro e casinha, para sesta.  

Disto sim, tenho saudades.

[este fim de semana contava matar o bicho com a Feira da Estrela - a melhor de Lisboa em artesanato - mas cancelaram. quero feiras. feiras. feiras!]

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Titi Izzie ajuda e aconselha




Muitas vezes, durante as minhas deambulações por esse grande mundo mágico e colorido, me interpelam jovens e frescas moçoilas querendo beber da minha sabedoria. "Titi Izzie, titi Izzie, nos conte, nos diga, qual o segredo de um casamento, uma relação longa e feliz?". Ah, pobres florinhas, só o meu universal amor a todo - e em especial o aflito - ser humano me impede de responder, sarcasticamente, a surdez - apesar de ser verdade. Ele há dias em que, bom, quem me dera, mas isto com a idade uma pessoa vai desenvolvendo uma surdez muito funcional e seletiva, um life saver, como diriam os mais modernos. Decido, porém, ir mais além, aprofundar, filosofar, e explico que depende, cada um é como cada qual, cada relação é tudo nada diferente, vamos aprendendo vivendo. E elas, desapontadas, naquela ânsia juvenil de encontrar respostas peremptórias, definitivas: "Oh, titi Izzie! Não acreditamos! Deverá haver um segredo, uma lição, uma máxima que connosco possa partilhar!". E eu, paciente, transbordando de magnanimidade, como aliás é meu apanágio, decido-me a levantar um pouco o véu. "Minhas queridas, posso apenas falar da minha experiência e, se vos servir, pois que façais uso dela: um dos segredos da minha (nossa) longa relação é não possuir licença de porte de arma, e manter afastados e devidamente arrumados, portanto difícieis de alcançar num piscar, objectos letais como facas aguçadas, berbequins, martelos, ferros de engomar, panelões de fundo duplo." 

Se calhar, como elas, julgais que brinco, faço pouco, estou na reinação (e se eu sou reinadia!). Nada mais errado! Se não, atentai nesta pequena vinheta da vida conjugal, passada aqui há dias. Titi Izzie posta em sossego, seguindo atentamente no tablet mais um episódio do The Crown. Passa ele e sai-lhe, "ah, estás a ver a tua novela". 

Lá está. Tivesse ali à mão objecto perfuro / corto / contundente, e acabava asinha uma longa e feliz relação, derivado da viuvez. E, sendo o mundo um sítio muito injusto, ainda me calhava ir malhar com os ossos na cadeia um horror de anos (sem uai-fai! aposto! e a temporada quatro a sair em novembro!)

Tendo eu seguido minha máxima de vida, e após um mero olhar matador, cá estamos nós, o homem vivo e com as duas rótulas inteiras, já lá vão quinze anos, faz hoje (and counting?). 





terça-feira, 25 de agosto de 2020

Como enlouquecer em coisa de uma hora, hora e meia (um tutorial de borla, que sou uma boa alma)

Precisais de mudar a titularidade de contratos de fornecimento de bens essenciais? Not so fast! Primeiro consultem o vosso seguro de saúde (quem o tiver, eu não tenho) a ver quantos dias de internamento paga numa casa de repouso (eufemismo para manicómio daqueles em bom). Não tendo esta possibilidade, passem no médico habitual e abasteçam de receitas de ansiolíticos, beta bloqueantes ou, no caso de pessoas mais dadas a fúrias incontroláveis, reguladores de humor. 

Só depois se atrevam a aceder aos sites onde, promete-nos a modernidade tecnológica e necessidade de distanciamento social dos tempos actuais, conseguireis tratar de tudo num golpe de asa. Spoiler: não vão conseguir. A menos que se trate de um caso simples, mas mêmo-mêmo-mêmo muito simples. eu achava que os meus "casos" eram; ledo engano.

Começando pela única história de sucesso, consegui mudar a titularidade e débito directo do contrato da NOS para a minha mãe, e cancelar um serviço de segunda habitação, com apenas um telefonema. Foi um telefonema longo, que foi, mais de uma hora; mas quem me atendeu foi de uma simpatia e eficiência extrema, e ficou tudo resolvido. Além de que sendo eu cliente, o telefonema me ficou em zero euros. Kudos.

Depois seguiu-se a MEO, e ó minhanossasenhora. O telefonema, que se adivinhava longo, seria pago (e bem, que não ia ligar de um número da rede). Estávamos em confinamento, com tudo fechado, mas ainda assim a minha sovinice venceu. Safoda, mando um mail com a certidão de óbito digitalizada. Procura na factura o contacto de mail, népias. Procura no site contacto de mail, nicles. Para me contactarem tenho de lá deixar o meu número, com a patranha de que se trata de um assunto comercial (não é). Ainda assim, insiro, prometem ligar num dia. E ligaram. Duas vezes. Estava a conduzir, e o número não dava para ligar de volta. Ainda não fui à loja física, pretendo começar um plano de treino cardio / meditação zen antes. E passar na farmácia.

Serviços municipalizados de auguinha, lá da terrinha onde passamos férias e tenho habitação secundária. Telefonei e confirmei, só facilidades: preencher o impresso que está no site, enviar documentação digitalizada, booom. Só que não. Impressos de mudança de titularidade e débito directo não se podem preencher online, há que imprimir (ok, dou desconto, é por mor da assinatura). Primeira perplexidade: os espaços não dão para inserir, na íntegra, tudo o que me pedem; as quadrículas são assim, ó, e terei de escrever numa letra mesmo picarruchita. Acresce que depois terá de ser digitalizado, o que é dizer, bem digitalizado; e mesmo preenchendo a tinta preta tenha sérias dúvidas de que fique uma coisa legível. A ver vamos, enfim, coise. Note to self: passar na farmácia.

E a 'létricidade, hein, a luz? Finíssimo, o site da EDP está muito janota, aquilo é uma categoria, um utilizador médio (estou a ser optimista na minha auto-avaliação) chega facilmente onde tem de chegar para tratar das cenas. Como já tenho gás e electricidade da habitação principal na empresa, agregava tudo e pronto, uma só factura, uma só conta, tudo çimples. Só que não. A opção de juntar ambos os fornecimentos só prevê gás natural. Consulto a minha papelada, e lá na beira mar agreste a gente serve-se de gás propano. Ainda assim, a esperança é a última a morrer, donde, e porque me pedem um tal de CUI (código universal de instalação), volto a consultar a factura do actual foenecedor, onde nada consta, e devia constar. Mau. 

Segue portanto para o site do tal fornecedor, a Galp, a ver se descubro o mistério. Inicio registo, sim senhora, pedem NIF e insiro o de papai (titular), e informam que aquele NIF não está associado a qualquer contrato. Começamos bem, dado que tenho uma factura à minha frente, o titular é fulano de tal, o NIF de fulano de tal é o que inseri, e fulano de tal é, efectiva, indubitavelmente, cliente.  OK, calma. Calma. Não consigo registar, vamos ligar para o númbaro 808 que gentilmente fornecem. Faz ligação, cai. Vezes cinco. Calma, calma, calma. Procurar melhor num site que, nem por acaso, é pouco intuitivo, como posso descalçar a bota. Não consigo; felizmente há o google, que me direcciona para a página do site onde deveria ter conseguido ir ter sem este desvio. Mas calma, muita, muuuuita calma. Quem me pode informar do tal CUI é o fornecedor da zona, a benfazeja Lisboagás, que também tem um númbaro 808. Menina liga. Chamada cai. Sempre. Desisti de contar as vezes. Um cigarro, invocar mais calma, paletes de calma. 'xa cá ver nos contactos, há-de haver um ponto físico onde tratar desta joça, yay, ali em cima dá para clicar em contactos e lojas, não aparece nada. A este ponto uma pessoa já pode passar, justificadamente, aos foda-ses que caralho de puta de vida a minha, mas eu sou uma çenhoura, uma çenhoura, ouvisteS, Izzie Maria, tu tem calma. E já agora aproveita para ver se esta gente tem aqui contactos de reparadores que o teu hotspot teve uma pataleca, encontro (a custo, fodasecaralho, e mais uma vez passando pelo google, é que não há vergonha, chiçaporra) linques para a questão, e o que me recomendam as boas alminhas da galputasqueospariuatodos? Que contacte uma loja que venda o produto. Been there, done that, got the t-shirt; e lá disseram para vir ao site, calha bem. 

Resumindo: não consegui concluir a mudança para a EDP, esta ao menos tem lojas físicas onde terei de me deslocar; com um bocado de sorte fazem-me também o contrato para gás propano, não fazendo tenho de ficar com a Galputedo e caraças que no site parecia uma via sacra fazer a caralhada da mudança de titularidade, valha-me a minha já bastamente conhecida caaalma, serenidade e bonomia ante qualquer adversidade, ou estava já aqui a espumar da boca, e a magicar passar na decathlon para comprar um bastão de baseball e ir lá partir aquela merda toda, o que evidentemente não posso fazer porque além de bombas de gasolina e sede onde, presumo, trabalham os mui excelsos gestores que gerem a choldra e oferecem bilhetes para a bola a governantes, a galputaquepariu não acredita num contacto presencial com os fregueses.  

Mas estou calmíssima. Que remédio. Até porque não tenho seguro de saúde, vide supra.



segunda-feira, 17 de agosto de 2020

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[voltei das férias-fora-daqui, continuo nas férias-aqui, e não tenho nada de novo relevante interessante para dizer]

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Day In The Life

Hoje faz precisamente vinte e cinco anos que acabei o curso (de direito, já agora). Oral de Processo Civil II, cadeira do quarto ano que tinha deixado para trás porque só fiz Processo Civil I, curricularmente do terceiro ano, enquanto frequentava o quarto ano. Só isto já diz qualquer coisa sobre como encarei e fiz o caralhete daquele curso: como achava melhor, que fazer as cadeiras todas direitinhas, ano a ano, nope, não era para mim. Ou antes, aconteceu apenas no primeiro ano, depois ganhei algum juízo, curiosamente quando praticamente o perdi, no segundo ano (resumidamente: ansiedade descontrolada, ataques de pânico, depressão). Decidi o quê e quando, só frequentava as aulas de avaliação contínua quando o assistente valia a pena (nota de rodapé: raras vezes valia a pena), e na maioria das cadeiras estudava sozinha (a percentagem de aulas teóricas que valia a pena era ainda menor), fazia exame escrito com a preocupação de sacar o mínimo para ir a oral (sete valores), e fazia oral (funny fact, não foi uma nem duas em que entrei com nega e saí ou aprovada - nas cadeiras de merda bastava-me issso - ou com uma boa positiva. nunca esquecerei a cara de tacho do meu assistente de Direito Internacional Privado, um cadeirão com justa fama de dificílimo, que me deu dez a avaliação contínua, me viu entrar na oral com oito de exame, passar a cara de puro espanto durante a prova, ao se dar conta que afinal eu percebia daquilo. fiquei com doze. nada mau, considerando).

Foram os piores seis anos da minha vida, e acho que alguém me deve uma indemnização qualquer por, no folclore, estar bem assente a ideia de que a faculdade é a melhor época da nossa vida. Não foi a minha, e penso que é seguro afirmar que muita gente concorda. Vim do liceu uma miúda cheia de gosto pela escola e pela aprendizagem, cheia de ideais de que a universidade seria moldada à imagem daquele fresco em que na ágora Aristotles e Platão debatiam, e os alunos bebiam o seu saber. 'Tá bem abelha. Se me pedissem para retratar a minha visão daquele antro de egos, chusma de salazaritos, amontoado de sebentas velhas, onde se privilegiava não o saber mas o empinanço puro e simples, faria uma coisa muito pós-moderna, usando como meio lixo decomposto e que nem serviria para reutilização ou reciclagem. É que não obstante entrada planando em nuvens diáfanas acabei a chafurdar num aterro imundo e pestilento. True story. 

Persisti e acabei e curso apenas por teimosia. E despeito. E porque prometi ao meu pai. Acabei quase acabada, sem quaisquer perspectivas (o nepotismo e amiguismo é fortíssimo, naquela instituição, e eu não tinha passe para o caminho das pedras), mas lá me amanhei. Arranjaram-me um Patrono (um clínico geral da advocacia, sem pergaminhos, conhecimentos ou fama) que me pôs a trabalhar (de borla, claro) comó caraças, e foi então que comecei a perceber para que servia aquela merdunça toda que me obrigaram a enfiar na cabeça. Toda, não: cerca de metade, que o resto do curso serve (servia?) apenas para encher chouriços e dar emprego a medíocres. Fiz de tudo: bater conservatórias, notários, repartições de finanças; ir para o tribunal com uma listinha de processos para consultar e tomar notas e, já agora, recolher guias de pagamento, ou ir para a fila da distribuição com petições novinhas em folha, dar entrada de peças. Assisti a muitas diligências judiciais (acompanhava o meu patrono a todas as que fazia) e fiz os sessenta julgamentos / diligências que o estágio obrigava a assistir. Bastava uma por dia (vinte a crime, vinte a cível, vinte a trabalho), mas muitas das vezes deixava-me ficar a assistir a mais. Porque estava a aprender, finalmente. A absorver tudo. A construir a minha estrutura de profissional, mais do que de licenciada numa porra qualquer. A amanhar peixe para depois o saber cozinhar bem. A perceber, enfim, para que servia o Direito.

E para que serve, hein? Para os outros não sei, para mim serve para resolver problemas. Simplesmente. E se a resolução que a lei aponta é chocante, bizarra, aberrante, é porque não se está a fazer Direito, está-se a aplicar mal a lei parvamente. Não, dura lex não sed lex. A lex não é um fim em sim mesmo, o Direito é um sistema, e é preciso ter mais que a capacidade de ler e decorar os canhenhos e transferir para o caso. É preciso imaginação (quem diria, hein), sentido crítico, duvidar metódica e constantemente, principalmente perante resultados que ferem a mais elementar noção de justiça e adequação, voltar atrás, estudar mais, pensar e, nunca esquecer, ter sempre presente que somos falíveis, facilmente nos atolamos em atavismos que facilitam a vida mas não aliviam a consciência, mas temos a obrigação de fazer o melhor possível porque a lei - o Direito! - serve a sociedade e o cidadão, e não o contrário.

Vinte e cinco anos passados, valeu a pena? Meh. Tenho um trabalho que me paga as contas, me proporciona uma vida confortável, e até me traz algum prazer (em dias muito alternados). Por outro lado, falhei redondamente. Não segui uma "vocação". Não deixei tudo para trás quando percebi que aquilo não me fazia feliz, e não insisti num sonho que (obviamente!) seria alcansável, para tanto bastaria que eu acreditasse mesmo e me esforçasse o suficiente. Verdade seja dita: a minha vida não se assemelha, minimamente, à vida que um dia sonhei para mim (and there's nothing wrong with that). E pronto, para os vendedores de banha da cobra do self-help, coaching e tretas do género, falhei redonda e retumbantemente. Para uma pessimista como eu - sendo que a minha definição preferida de pessimista é a de um optimista bem informado - acho que até me safei muito razoavelmente. Sou independente e não peso a ninguém. Tenho uma vida melhor que a de muitos. Esforcei e continuo a esforçar-me, mas tenho noção de que também tive muita sorte. O que de melhor tenho na vida não aconteceu apenas em virtude de qualquer esforço ou mérito, mas muito porque calhou. Tal como as coisas más não serviram para me castigar: simplesmente calhou acontecerem. Padeço muito de overthinking, self-doubting e sou uma poster girl do síndrome de impostor; continuo a batalhar com a ansiedade e depressão, não me alimento saudavelmente, fumo, não cuido de mim como devia, canso-me com facilidade, cedo mais do que gostava ao ennui. Ou seja, não tenho nada a ensinar a ninguém sobre a inefável arte de viver. Nem quero, credo. A minha ted talk seria não só uma das mais curtas como deprimentes de sempre, e terminaria com um "isto é mesmo assim, geralmente calha cocó, e um gajo tem é de saber lidar, muita forcinha".  

Mas cá estamos. Lidando (uns dias mais, outros menos) e botando (muita, chata, interminável) faladura. 
Muita forcinha, hein? Hein.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Entretanto




Na simpática vila balnear onde costumamos passar férias, e para onde rumámos no fim-de-semana na expectativa de uns dias descansados longe do inferno lisboeta, as pessoas baixaram o ficheiro "férias" sem o anexo "pandemia", e passeiam-se alegre e despreocupadamente sem máscara. Tudo bem que na praia não a usem - desde que respeitem as devidas e higiénicas distâncias, nada contra. Mas saem da praia sem, andam pela rua de cara ao fresco, passam umas pelas outras, conversam, convivem, enfim, vivem la vida loca sem paninho na boca e nariz. Apanhámos um camadão de nervos, tive várias vezes vontade de desatar a vociferar com estranhos na rua - mais valia, ao menos afastavam-se, que a loucura assusta mais que um vírus - e começamos a imaginar umas férias sui generis sem esplanada, com um único trajecto casa-praia-casa, zero sardinhas, nicles de pizza em forno de lenha, e muito sedoxil.

Haters gonna hate

Frugal sou eu. 
Os holandeses são é somíticos, unhas de fome, sovinas, avarentos, fonas, mesquinhos, agarrados, forretas, fuinhas e forra-gaitas (esta desconhecia, adorei).
E não têm muito sentido de comunidade, além disso; excepto quando toca a facilitar a domiciliação de empresas e a empochar os impostinhos destas.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

O ar é de todos

Via tuíter (again) tomei conhecimento de uma polémica relativa à ciclovia da Almirante Reis, ainda a estavam a construir: parece que muita gente - alegadamente residente na zona - se opunha, e até foi constituído um grupo no feicebuque, denominado "vizinhos de Arroios", onde se reclamava a reposição da via no seu esplendor anterior.

Cusca como sou, e porque também tinha em vista ir espreitar umas utilidades domésticas à Vicrilana, fui ver. E pá, çinçeramente, há gente que deve ter uma vida muito fixe, porque só reclama e se chateia com merdelhunças que haja noção. Lá a ver.

A ciclovia suprimiu uma das quatro faixas disponíveis, e apenas no sentido ascendente, que nem por acaso é aquele que costuma ter menos tráfego (disclaimer: não é ciência, é a impressão de quem vive na zona há 17 anos). Está delimitada por pilaretes porque isto aqui é um país de sociopatas que só não comete a bela infracção se tiver um polícia mesmo à sua beira. Fica livre para Sua Excelência, Alteza Sereníssima, o Automóvel, uma faixa nesse sentido, que é também a que tem carris e onde passa o eléctrico; portanto, a faixa mais à direita. 

Sobre se a dita ciclovia está bem planeada e implementada, se constitui um risco - ou não - para ciclistas, não me pronuncio; não sou ciclista, ergo não tenho conhecimentos para dar bitaites (não que isso impeça seja quem for, mas eu tenho um nico de noção). Este é o argumento a que, em última ratio, se agarram os puristas do asfalto: depois de desfiarem o triste rosário de como a cilcovia vai piorar a) o trânsito de superfície, porque acumula carros numa só faixa; b) o calvário dos comerciantes, agora onde é que vão deixar o carro - em segunda fila - para fazer cargas e descargas ); c) e o estacionamento, jasuscredo, que não há, vai diminuir ainda mais (?) e óspois quem sofre é o comércio local.

Ahééém. Izzie ispilica. 

Ponto a): A faixa que agora é ciclovia estava quase permanentemente bloqueada. Facto: regular ou mesmopermanentemente, aquilo era o parque de estacionamento não pago de comerciantes, habitantes e outros meliantes, pelo que argumento a), já foste. Ali não se circulava, estacionava-se. Ou parava-se, como preferem dizer. Sim, sim. Parava-se umas horitas, enquanto se ia tratar de vidinha.
Ponto b): Ao longo da faixa mais à direita há lugares de estacionamento e mesmo lugares dedicados a cargas e descargas, donde, os comerciantes que acordem cedinho, que a quem madruga diz que deuz ajuda. Se por um estranho acaso, nunca antes ocorrido (ironia), pretenderem deixar a viatura comercial todóóóó dia ali perto, mais à mão, nunca se sabe, a vida desta gente é tão complicada, de repente é preciso não sei quê, fazem como o resto dos cidadãos, entre os quais os moradores de Lisboa que têm a ideia de levar um automóvel para ali: parque pago. Há um no Martim Moniz, mesmo a jeito para os comerciantes, olha que conveniente.
Ponto c) Estacionamento há, mas a pagar, vide ponto anterior. É pouco? Pois é, aquela parte da cidade foi construída quando quase ninguém tinha automóvel. Aquela e outras. Mas quem se queixa até parece que não tem a opção de deixar a carripana num local onde até nem se pague estacionamento, e apanhar o metro. É só uma ideia, fica a sugestão. Quarenta e nove anos, e nunca na rameira da minha vida levei o carro para a Baixa ou arredores. Achava eu que por ser uma pessoa prática e fuínha (olha pagar parque, só quando tem mesmo de ser), afinal é porque não gosto de andar às voltinhas, a gastar combustível e paciência, e a malhar em quem gere a edilidade. Donde, a falta de estacionamento não é obstáculo para o freguês do comércio local. Na loucura, apanhem um táxi, um uber, um ataque de caspa, mas não se queixem (mais) da falta de estacionamento no centro. Tema além de estafado, muito chaaaato.

Resumidamente: há espaço para todos, é preciso é saber partilhar, distribuí-lo por todos, de acordo com as suas necessidades. Sim, é marxismo rodoviário. Ou, como eu prefiro, puro bom senso. Corolários?
- A cidade pertence a todos, residentes ou visitantes.
- As estruturas da cidade têm de servir todos: peões, ciclistas, motociclistas, automobilistas; e garantir que todos podem circular em segurança.
- Nenhum dos apontados tem mais direitos ou prevalência sobre outro (engraçado, muitos até se inserem em mais que um grupo);
- Donde, automobilista só muda de faixa depois de olhar para os retrovisores e accionar pisca (pode lá vir um motociclista), todos páram nos vermelhos, páram nas passadeiras, circulam abaixo de 30km/hora nas imediações de escolas ou zonas residenciais, não estacionam em cima do passeio ou passadeiras; todos respeitam limites de velocidade; ciclistas também não passam vermelhos de peões; motociclistas não fazem razias, que há pessoas de coração fraco. Ah, e se os automobilistas tiverem a consideração de não se posicionarem em cima da linha separadora de vias, é um favor que fazem à circulação de motas. Eles agradecem. A sério, agradecem mesmo, eu sei.   
- E perante as necessidades de muitos, os poucos cedem, isto é, quem pára em cima de carris de eléctrico, faixas de trasnporte público, ou bloqueia paragens dos ditos, é uma vergonha de pessoa. Aliás, é meramente uma peçoa, que está ali rés-vés peçonha.
 
Pronto, ide lá à vossa vida, que hoje não vos maço mais.

(disclaimer: não sou ciclista, já andei mais de transporte público, actualmente sou 80% automobilista e 20% peão. mas a minha avó era uma senhora que insistia muito que é preciso é respeito e educação, ficou-me.)

Para os saudosistas, ficam umas imagens da almirante Reis, do tempo em que havia espaço à larga para automóveis (e estacionar, the good old days, snif):







quarta-feira, 8 de julho de 2020

Sem embargo, FML

Porque no total e considerando aqueles produtos em específico me ficava mais barato, resolvi dar uma segunda chance à Tiendanimal. Afinal já passou um (dois?) anos desde que a transportadora deles (seur) fez o número de registar entrega falhada porque não estava ninguém, e eu a receber o email do incidente... em casa, de onde nunca tinha saído.
Ora hoje, nas minhas contas, é o terceiro dia em que a encomenda deveria ser entregue (no primeiro fizeram o número, os agendamentos feitos no site e não rejeitados por este parece que foram para o espaço). Encomenda de 29.06, primeira (falsa) tentativa de entrega dia 2.07.
Eu sei que custa alombar com quatro sacos de areia de 14 quilos cada; por isso é que mando vir. Derivado de uma cena nas costas ficaria entrevadinha se os fosse buscar ao vosso pick up point (que é o que eles querem, piretes). Por isso, e como terei mesmo de ir comprar à loja (já fui buscar um remedeio, mas há três caixotes para mudar, já não vamos lá de remendos), já mandei mailzinho ao simpático comerciante (que não tem um simpático operador de call center, já agora) para ficarem com a fideputa ruim da mercadoria e me devolverem a bagalhoça.
Anyhoo, zooplus, de joelhos peço perdão, não mais te atraiçoarei. 

De meio vazio a meio cheio, ou o comprovado efeito psicoterapeutico da schadenfreude

Uma pessoa até pode acordar do lado errado da vida e passar o dia inteiro a sentir-se a latrina da humanidade, mas depois vai ao twitter e vê uma carantonha (infelizmente) conhecida a ser caracterizada como a Karen* do twitter e, parecendo que não, melhora.

[internacionalizou, é certo, mas eu é que fui a primeiras a cunhar-lhe o cognome de maria vieira da blogosgera]