terça-feira, 10 de março de 2026

E pur si muove

 Da escuridão dos últimos tempos, rompeu o canto das andorinhas que voltaram ao seu ninho, construído no saguão do prédio. Tomo duche a ouvi-las cantar o alongar dos dias. Já vou ao ginásio de dia, deixo o caminho para as pessoas civilizadas e corto pelo relvado pejado de manchinhas brancas, passo de perto junto das romanzeiras já pintalgadas de brotos novos, sinto o cheiro da terra ainda húmida e fértil. Não danço sem salto por vergonha, que seria!, senhor guarda, senhor guarda, está ali uma senhora grisalha de leggings e mochila a saltaricar como uma mocinha, leve-a, tranque-a; não, na verdade não danço nem salto por atenção à minha L4-L5, deunossossenhor a mantenha controlada, como a operada e bem comportada L5-S1, ambas muito sugadinhas, por favor. A ansiedade continua, e o psi autoriza-me a tomar dois ansiolíticos por dia, mas vou evitar. A tristeza, é aguentar, que estou resvés a dose máxima e é preciso uma margem de manobra. Tenho chorado muito, nem tanto de tristeza mas de amor prestes perdido. Aumentei - nem sabia que era possível! - o mimo à gatinha enferma, agora é intencional, se estou a trabalhar em casa sinto saudades e vou matá-las, dias como hoje desforro-me à noitinha, mas e depois, como será. Semana passada tive um raro momento de intensa felicidade, uma coisa tão rara e, desta vez, nada fugaz, durou quase 24 horas seguidas: saí da aula de desenho em êxtase, consegui fazer uma coisa que nunca pensei que me fosse possível, sério, e isto é muito raro, não é gabarolice, já mamei muita frustração naquelas aulas, o ruim do carvão ia-me tirando a vontade de viver, mas na quinta, consegui, e gostei (muito) do resultado; sexta de manhã saí de casa de sorriso posto, ainda a pensar nesta conquista, de como preciso de insistir, treinar mais, pô, eu chego lá, e na rádio passam o Tiny Dancer, tem a mesma idade que eu, e senti-me uma miúda, a miúda que passava tardes a cantarolar cantigas inventadas, a desenhar a sua vida de aventuras futuras, em vinhetas toscas saídas de um lápis rombo e demasiado carregado. Feliz. Radiante. Confiante. Entretanto meteu-se a vida e já passou, mas sei que consigo. Ainda consigo. E vou continuar a conseguir.   

Valsa do adeus

 A Scully está a morrer. 

(estamos todos)

O que quero dizer é que a Scully vai morrer, como vamos todos, mas ela está já, inexoravelmente, a caminho, levada por um linfoma que só deu sinais há um mês (?) e foi confirmado a semana passada. Não tem cura. Podíamos comprar mais uns meses da sua existência em troca se sessões semanais de quimio, seis meses vezes quatro, vinte e quatro semanas, sem garantia de quanto tempo, de que recupere a capacidade (vontade) de se alimentar por si, ganhe algum peso, o tratamento não lhe cause mal estar, dor, ou sofrimento.

Quando a trouxemos do hospital veterinário viemos com a lição da alimentação por sonda aprendida; a folha A4 de cuidados, doses, intervalos horários semi decorada e esclarecida; e a esperança que a TAC e biópsia provassem que era tudo um engano, entrou-lhe uma pedrinha da areia para o nariz e inflamou, tem nada um linfoma, dez ou onze aninhos, uma doce refilona, não pode ser. Mas ali estava ela, uma pluminha acabrunhada, apática, deitada na almofadinha em frente ao radiador, escondida no túnel, um ruído raspado a cada respiração, com força apenas para se debater à hora da refeição dada num tubo. Preparámo-nos para o pior, a decisão, a necessidade da decisão. Quatro dias depois a médica veterinária explica-nos o resultado da TAC, e desabamos. Dias depois, a biópsia, e tudo se confirma. Vamos pensar no fim de semana, vamos pensar, dizemos, sabendo que o que vamos é preparar o coração, a decisão está tomada, vamos só roubar uns dias para nós, para nos despedirmos.

E uma manhã, de repente, toca o despertador e a Scully em cima da cama, a dar-nos os bons dias. A  ondular a cauda. E segue-nos para todo o lado, até às taças de comida - sustemos a respiração, mas nada, não lhes toca. Pede festas. Ensaia ronrons. Dorme com satisfação. Quer ser escovada. Dá marradinhas aos irmãos. Volta a miar por atenção. E resmungar só porque sim. Adormece ao colo de me mate. E, de repente, não podemos. Ela quer estar em casa, é na sua casa que vai estar. A Vet alinha em guiar-nos e ir verificando o estado da menina. Ao mínimo sinal de sofrimento, a decisão está tomada. Mas, por enquanto, tomou ela uma decisão, e vamos respeitá-la. A pequenina quer morrer em casa, na sua casa. Assim seja.