sexta-feira, 12 de abril de 2019

E é por isto que não posso ter coisas boas

Ou vá, gabar-me falar das coisas boas que tenho na meretriz da vida: vem o universo e zumba, castiga-me logo severamente a soberba. Ai já andas aí toda tagarela a falar da viagenzinha?, então pega lá uma revisão + inspecção + mudança de pneus do carro para equilibrar. E que grande equilíbrio: vou deixar na oficina o equivalente ao que custa a viagem e estadia, que bom, apre, mas caraças, tinham os pneus da viatura de se escalavrar todos, hã, uns deles com fissuras que, valha-me isso, foram descobertas antes de meter numa auto-estrada?  Bom, já devia esperar, parece que a vida útil do pneumático é de sete anos, confere.
É para isto que um gajo trabalha e ganha dinheiro: para depois o atirar todo pela janela, abençoadinho.
Vou ficar aqui caladinha, mazé. Chiu. A partir de agora faz de conta que vivo de côdeas de pão e visto trapos.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A minha vida é isto, uma luta de classes constante, se calhar Marx explica

Ora pois então sucede que, embora mui apreciadores do passeanço, não saímos da pátria mãe desde 2015, por vicissitudes várias que não cabe aqui explicar. Sucede ainda que não tenho férias desde 30 de Julho do passado ano (chuif), já estive menos rebentada, e se não me ponho a andar daqui para fora já sei que nas férias acabo a fazer uma perninha. Vai daí, vamos uns dias lá fora, ver se chove.

A escolha faz-se sempre da mesma forma científica: lista de sítios que não conhecemos (ainda são muitos), pesquisa de voos, escolher o que mais conv€m. Não que seja o único factor, no caso a passagem até nem é a mais barata, mas para os dias livres era jeitosa, havia vagas, e o preço do alojamento por lá foi uma alegre surpresa.

Agora entra a parte rezinga, muito derivada da minha luta interior de Olívia patroa, Olívia costureira. Por exemplo, é verdade que a vontade de ver Veneza é imensa, mas eu também sou sinto-me uma vítima da turistificação, e tenho mesmo imensa pena dos venezianos. Donde, corta. Nem calhando, a nossa última saída foi para Praga, cidade que nos parecia fazer caretas a cada esquina, toma, toma, é nisto que se está a transformar a vossa Lisboa. Sou solidária, portanto, com os nativos. Todos, mas nem tanto que me abstenha de ir seja onde for. De qualquer forma, quero crer que lá fora me comporto - e sempre comportei - de forma a representar um incómodo menor: sim senhora, ocupo espaço, mas não faço más figuras, não sou mal educada, tento passar despercebida. Ao contrário do que tenho sentido da mole humana e estrangeira que nestes últimos três anos tem invadido Lisboa. Porcões, arrogantões, gritões, malcriadões, beberrões de merda, pardon my french. Eurotrash, pura e simples. O facto de ter um alojamento local debaixo da minha alegre casinha (cuja lotação é superior aos actuais habitantes do prédio) não ajuda. Mesmo nada. O brexit já foi uma bela gota de água, mas ter um grupo de ingleses por baixo uma semana, ui, nem vos digo o que aumentou a minha xenofobia selectiva. Os alemães também benzós, mas para chegar ao nível destes ingleses ainda têm de beber muita cerveja. Literalmente.

E agora continuem comigo, por favor, sim, isto tem uma lógica, embora não pareça do raciocínio tortuoso supra: nunca tive aquela cagança de dizer que não sou turista, mas sim uma viajante, porque, noção. Claro que sou turista. Zero vergonha nisso. Posso não ser o tipo de turista da viagem organizada, autopullman do ponto A ao ponto B, resort fechado TI, etc, mas sou turista. Não sou é lixo*. E também não sou uma pedante que compra aquelas neo-tretas de ah, e tal, vou ao sítio x e quero sentir-me como se fosse de lá, tázaver, ter as experiências dos locais e coise, p'cebes, ver as cenas pelos olhos deles, dormir onde dormem, comer onde comem. Treta, treta, treta: somos sempre estrangeiros numa terra desconhecida, ainda que seja a décima quarta ida, e até já topemos as tourist traps à légua; não, não somos assimiláveis aos locais, e não, não teremos a experiência de ser local, a isso chama-se emigrar, e ainda assim só se for por uns anos valentes. Donde, a tal local experience que é vendida com o alojamento local, ei, ei, ei, venha viver num bairro local, durma com eles, compre onde eles compram, os nativos, é dos maiores golpes publicitários de sempre, e o pior é que pegou. Os grandecíssimos poios que se alojam lá no prédio são, por norma, uns valentes pés rapados, forretas, ou sei lá eu o quê, e pior, arruaceiros que se estão nas tintas para o descanso e bem-estar dos locais. Sim, sete alminhas num T2+1 (onde enfiaram duas camas de casal, uma single, e um sofá cama), a pagar uma diária, à cabeça, que nem um hostel cobra, são o quê, viajantes, curiosos do mundo e suas pessoas? Poupem-me. E se lhes devo a aliás oportuna abertura de duas lojas auchan nas proximidades, que sempre dão para desenrascar, a verdade é que ali o que mais têm para venda e os camelórios de facto compram são cenas para sandes, cerveja, e vinho mais caro que na concorrência, ao menos isso, chulem os motherfuckers.

Donde, orgulhosamente: não contem comigo para me alojar via airbnb. Ne-ver. Hotel, é que é. O hotel, ou qualquer estabelecimento de hotelaria, paga licenças, compra a fornecedores locais, emprega pessoas (ainda que paguem mal, essa é outra luta), paga impostos e contribuições, tem inspecções, enfim, trata-se de uma unidade económica que contribui para a criação de riqueza. Um AL (e estou a falar de apartamentos ou quartos destinados a tal, não a pequenos hostel) criam o quê? Temos de um lado, a maior parte das vezes, um proprietário que, em vez de arrendar a habitantes, arrenda a uma empresa parasita, afinal até paga menos imposto sobre o que recebe. A empresa parasita (muitas são estrangeiras, o caso da nossa é uma unipessoal cujo sócio é uma outra sociedade com sede em offshore, sim, eu fui investigar, e eu descubro tudo, assim esteja motivada) tem uma sede que não passa de uma domiciliação para correspondência, contrata tarefeiros, a recibo, para cargos tão pomposos e ocos como property manager ou host/ess, contrata empresas de limpeza cujas empregadas são tantas vezes trabalhadoras estrangeiras, a ganhar fortunas de €2 à hora, e uns trolhas para arranjos que aposto não passam facturinha.

É isto. Pedindo, de novo, antecipado perdão pelo meu francês, uma autêntica casa de putas, tudo pela porta do cavalo, por baixo da mesa, nada de emprego, nada de rendimento que acrescenta, apenas lucro fácil que, no fim, feitas as contas, e em termos globais, são trocos. E um dia, que vai chegar, mais cedo ou mais tarde, rebenta. Já aconteceu, e nessa altura fazem o quê às casas, que as pessoas que lá queriam viver não tiveram outro remédio que não se endividar na banca para comprar no subúrbio. Suspiros.

Donde, pqp, turista serei, em hotel me alojarei, e pequeno almoço fufê degustarei. E com um incomensurável menor risco de voltar com um camadão de sarna ou marcas de percevejo. Poizé. Cá por coisas que eu cá sei.


*não, não vamos tirar selfies ou fotos-recuerdo pessoais no memorial do Holocausto. não estou a brincar: já vi dissoem blogs, feice, instagrã: lixo.

sábado, 6 de abril de 2019

Entretanto comprei uma cinta lombar, a minha vida é uma féchion-excitação

Nós no ECI, rés-do-chão, entretidíssima a ver a malaria, ele a acompanhar (e não faz mais que a sua obrigação, lesse o contrato antes de assinar), quando vejo e lhe mostro olha, olha, voltou a usar-se estas bolsas de cintura, e ele isso não é uma "bolsa de cintura" [juro lhe lhe ouvi umas aspas sarcásticas], é uma fanny pack, reviro os olhos, eu sei, mas é um bocadinho diferente das antigas, e ele, é uma fanny pack, uma fanny pack é uma fanny pack, e eu, paciente, pá, reconhece que dá um certo jeito quando uma pessoa vai de viagem ou assim e é mais segu..., e ele insiste, é uma fanny pack, eu até sou muito tolerante, mas não aceito uma fanny pack, e eu, cândida, ok, pronto, mas há umas que são giras, que eu já vi, tipo uma malinha pequena com alças atrás e se prende no cinto, e ele, bruto, é uma fanny pack à mesma, e eu, eloquente, é que não consigo encontrar uma mochila jeitosa, com uma mala a tiracolo e como estão as minhas costas..., e ele, indiferente, eu amo-te muito, mas és tu a aparecer com uma fanny pack e eu fico no aeroporto, vais sozinha, e eu odeio-te tanto, não disse mas pensei, mas entretanto lembrei-me que o moinante já anunciou que vai levar a mochilona, e adivinhem quem vai carregar com os pertences aqui da menina que é uma beleza.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

[...]


Vinha para aqui com um relambório infindável que na verdade não interessa a ninguém senão a mim mesma, mas entretanto lembrei-me que a) odeio pity parties, (embora nas minhas se coma e beba muito bem, nem falando na música, mas, lamento, não trouxe chocolate para todos); b) prometi a mim mesma acabar com esta quedazinha para o oversharing (bom, na verdade foi mais um diálogo interior do tipo ó minha grande estúpida com tendência para o dramático ali a cair para a tragédia grega, filha, deixa-te disso, as pessoas estão a olhar); c) esta coisa de um blogger ser um livro aberto é muito 2015 (quoth the raven, "nevermore").

Donde, e resumindo, levou o seu sweet time, desta vez, mas vai passando.

E não, ainda não acabei. Posso estar um bocadinho acabada das cruzes, nem falando de outras pequenas maleitas, algumas até de nervos, mas ainda não acabei.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Feliz não sei quê

Na lufa-lufa matinal ainda tivemos tempo para lembrar que hoje é o dia dos namoraaaaadooooooos, uuóóóóó, ou seja, o dia das filas à porta do restaurante, do raminho de rosas, da caixinha de bombons (desde quando é preciso um dia específico, amadores), dos cartõezinhos pindéricos.
Como já somos crescidos e vá, um bocadinho cínicos, passamos.
Anyhoo, estava a dizer que vínhamos a falar sobre, e ele lembra-se imediatamente do massacre do dia de São Valentim, eu rio-me e digo-lhe que sim senhora, é um verdadeiro romântico, e ele cala-me lembrando uma das melhores comédias românticas de sempre - comédia, pronto - cuja história tem como pressuposto esse massacre, donde, full circle. Juro, são coisas destas que me fizeram apaixonar por ele, mas não sejamos fofinhos, muito menos hoje.

E o que tendes vós a ver com isso, pois. Nada, só que eu sou uma cínica, uma gozona, uma descrente nestas datas marcadas para amarrrr e namorarrrr, mas vou fazer uma sugestão para quem aprecia filmes bons, mas daqueles mesmo bons, já agora são todos comédias com uma pitada de romântico, mas um romântico em óptimo, isto é, cá lamechices, cá choro e ranho, cá fofinhices, muito humor e substraqueto, como dizia o Zé Estebes.

E vai um, que já vi / ele viu / nós vimos mais vezes que é decente admitir, e se calha passar vemos de novo. Tão bom, senhores.


Já viram? Vejam outra vez, que não vos caem os parentes na lama. E deslumbrem-se com a mais bela história de amor de sempre. Não, não é a do Curtis e Monroe, é a destes:


'cause nobody's perfect.

Apanhando o embalo, e aproveitando que neste ponto já concordamos que Billy Wilder escrevia que era uma maravilha e filmava ainda melhor, arranjem um buraquinho na agenda para este seguinte:




Uma pérola, uma pérola, e agora que estamos todos verdadeiramente empolgados, podemos seguir com este:


Que também, não desfazendo, é daqui, ó.

E pronto, fomos românticos mas com critério e sem azeite, que é o que se deseja.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Actual estado de coisas





Não tenho nada para vender, mas fregueses insistentes não me largam a porta.
E sem música de fundo.

domingo, 27 de janeiro de 2019

É (saber) lidar

I.
Foi na já longínqua década de oitenta (século passado, como dói escrever isto) que comecei, com quinze anitos, a frequentar aulas de inglês no British Council. Passei lá um total de quatro anos, embora não corridos, com preparação e exame do First Certificate (um ano) e Certificate of Proficiency (três anos). Nesta última fase não fiz os trimestres todos corridos, que calhou sobrepor-se a preparação para provas específicas e tal, que tinham (natural) prioridade. Donde, apanhei um grande rol de professores, alguns apenas um trimestre. Não me recordo de todos, obviamente, só me ficaram os mais memoráveis e, como é habitual nestas coisas da lembrança, pelas melhores ou pelas piores razões.
Certo ano calhou-me uma simpática velhota inglesa, daquelas que nos suscitaria, à primeira impressão, um ternurento ohhh, que bom, uma Miss Marple. Bom, para além da cabeleira prata, habitual twinset e saia de tweed, rematado com aqueles horrendos e mui britânicos sapatos sensatos (juro, não havia daquilo cá, de certeza os comprava lá), pouco mais. Vivia cá há trinta anos (nota: os professores do Britânico, entre actividade lectiva, falavam, por norma, muito de si), e pouco falava de português. O mínimo, penso que essencial à sobrevivência, e mesmo esse com uma pronúncia chocante. E não, não nos contou isto em jeito de contrição, mas de algum orgulho, ali a roçar a soberba, brilhozinho nos olhos, sorriso superior. E, credo, não entendia a maioria das nossas "coisinhas", enfim, hábitos tão típicos de uma civilização decerto a precisar de uma preciosa lavagem a sessenta graus que ela e seus conterrâneos aqui desterrados, na nobre missão de ensinar a língua e elevada cultura britânica, haviam abraçado como um ministério. Isto mesmo: não se coibia de partilhar connosco as suas impressões, espanto e mesmo desagrado sobre como se organizava ou funcionava esta cultura latina e suas instituições. Desde pequenas coisas do dia-a-dia, a situações mais... institucionais.
Pessoalmente, achava uma lata do caraças. Não, do caralho. Mas sou uma pessoa educada, eu e os outros, e nunca pensei ou vocalizei um não gostas volta para a tua terra. Tenho a certeza que nas suas inúmeras interacções com os patuscos nativos alguma vez lho exprimiram, ou decerto não deixaria de nos contar. E seria muito desagradável se tal sucedesse, convenhamos.
Outro que me calhou na rifa nem tinha um aspecto agradável de personagem de romance que o absolvesse. Além do mais, recordo vivamente a gravata (quase sempre a mesma!) esfiapada nas pontas, e as calças de linho que pareciam ter sido meticulosamente amarrotadas antes de vestir. Era o que se pode definir como um pompous ass, do tipo que vim a reconhecer, muitos anos mais tarde, no personagem principal de I Like it Here. Juro que foi um espanto e uma aprendizagem lidar com o criaturo, notoriamente tão contrariado por ter de se submeter a viver numa nação notoriamente tão aquém dos seus elevados padrões britânicos. Do muito que se queixava, reclamava, apontava - sempre com um sneer marcadamente sarcástico - nunca constou que o tivessem mandado para a sua terra, se esta deixava tanto a desejar.
A verdade é que, por muito desagradáveis que fossem, tinham direito à sua opinião - embora desprezassem a dos próprios locais. É encolher os ombros e lidar.

II.
Cresci num subúrbio onde não havia muita variedade racial. A maioria da população era branca, classe média nas suas nuances, desde a remediada até à confortável; ou pobre, desde a mesmo muito pobre que vivia em barracas até à pobre em habitação muito abaixo dos padrões de dignidade e decência. Mas havia, como em todo o lado, as chamadas minorias étnicas, sendo as mais prevalentes a comunidade cigana ou indiana. Mesmo branca, e inserida na classe média confortável, cresci a ver na polícia o inimigo ou, ao menos, a classe profissional a evitar, qualquer que fosse o tipo de interacção. Estamos a falar no tempo em que a simples posse de droga, mesmo um mísero charrito, ainda era crime, e o facto de este ser encontrado nas mãos de um menor não evitava um grande aborrecimento. Não sei se por excesso de zelo, para mostrar serviço, ou simplesmente por bravata, a polícia tinha por hábito ou hobby abordar adolescentes em cujas mãos ou bocas estivesse algo que pudesse ser um cigarro, ou não. Qué que 'tás a fumar. Consoante a reacção do interpelado, que normalmente não era complacente ou agradável (ei, juventude), podia dar lugar a uma mera revista ou uma visita de estudo à esquadra. Apesar da normal desfaçatez e arrogância de qualquer teen, claro que esta última hipótese era sempre de evitar. Porque toda a gente sabia o que acontecia lá dentro. Ouvi muitas histórias, contadas na primeira pessoa. Ouvi muitas histórias de rusgas a cafés ou salões de jogos, em que acabava tudo na esquadra, para um tratamento "informal" da ocorrência, ou no governo civil, para identificação - ninguém ia ao café de bairro com o BI, por norma, mas passou-se a ir.
Nunca me calhou, felizmente. Nunca saí de casa à noite, ou mesmo de dia, sem medo que me acontecesse. Lembro-me de muitas vezes estar no jardim, parque, esplanada com amigos e haver o alerta olhá bófia (os fardados era fácil, os das então chamadas brigadas de justiça já eram conhecidos) e cigarros eram apagados, trocos retirados de cima da mesa (não viesse a acusação de que se estava a jogar a dinheiro e tau, revista / esquadra). Calhou uma vez ao meu irmão, no café de bairro, felizmente ele e os amigos tinham BI. A eventualidade de rusga era uma constante.
Lembro-me afinal que calhou-me uma vez, na rua, em frente ao prédio onde vivia: apanhei o cagaço de uma vida, pensei que os tipos de mau ar que se aproximaram dois de cada lado nos iam assaltar, mas não, era só para nos identificar. Calhou que na altura eu já tivesse mais de 20 anos, curso de direito feito, estágio de advocacia a meio, e código penal e de processo penal bem sabido. Era a única sem BI, aliás, tinha saído de casa só com trocos no bolso e um maço de tabaco, afinal vivia ali ao lado. Embicaram comigo, claro. E à solicitação de nome completo e morada, eu retrucava com a redacção do artigo pertinente, perguntando porque nos estavam a identificar, e dando as hipóteses legais em que o podiam fazer. Nem isso os demoveu: insistiram, e mais queriam saber o que fazia ali, bem antes da meia noite, eu, uma cidadã livre. Fui identificada pelo meu irmão, e acedi a dar o nome dos nossos pais, enquanto eles verificavam no BI dele se estava a dizer a verdade. Enquanto isso, e porque cada vez estava mais zangada, também adiantei que podiam subir comigo ao prédio, onde se podiam apresentar aos meus pais e explicar-lhes porque identificavam a filha na rua, em frente a casa, lhes facultaria de bom grado a consulta do meu BI, e aproveitavam para me deixar tomar nota das suas identificações, como a lei permite.
O episódio acabou por ali, foram-se embora, sem uma explicação, sem me darem nota da razão porque andavam ali a identificar quem calhasse, e dando-se ao luxo de nos aconselharem a ir para casa, que não eram horas de estar na rua. Se não era para nós, para eles também não, e muito menos ali, onde não se passava nada. E, oh, se havia onde se passava. E lá, onde se passava, ou antes, nos arredores de onde se passava, era habitual chegar um ou dois carros, às vezes uma carrinha, e era tudo encostado, revistado, e levado num passeio nada recreativo. Posso dizer que com 15, 16 anos já conhecia as técnicas todas: as toalhas molhadas, as listas telefónicas, e como eram escorregadias as escadas da esquadra, onde os visitantes à força tinham o mau e constante hábito de cair.
Isto passava-se, num subúrbio "branco", e era considerado normal. Só muito mais tarde vim a conhecer a realidade de outros subúrbios, principalmente dos respectivos bairros "não brancos", onde a tal "normalidade" atingia níveis que deveriam chocar qualquer um. Não chocavam.

III.
Ao longo dos anos tive o sincero gosto de ver mudar não só a postura como a actuação da polícia. À medida que entravam novos - mesmo novos, de idade, e com outra e melhor formação - efectivos, as coisas mudavam. Entretanto saí do subúrbio e vim para Lisboa, onde havia muitas zonas problemáticas; mas a "lei da droga" e o paradigma com que se lidava com o "problema" e os toxicodependentes mudou, parecia que sim senhora, as coisas evoluíam. Nos subúrbios, e mesmo na cidade, iam desaparecendo os bairros problemáticos, as pessoas a viver em situações sub-humanas eram realojadas, enfim, ainda havia - e há - alguns focos mas nada que se compare à loucura que existia. Continuaram a existir "histórias" de incursões policiais e "excursões" de putativos prevaricadores ou quem calhava ter o azar de ali estar, mas menos. Havia e há, no entanto, um traço comum que se mantém. Uma, vá, como dizer, "preferência" nos locais e alvos pessoais target das incursões. No centro da cidade, como se sabe, há cada vez menos bairros guetizados, mas tanto aqui como nos arredores ainda existem locais onde a presença policial se faz sentir de uma forma mais musculada. Onde certas pessoas são tratadas como presumíveis suspeitos, e isso é considerado normal. Não é. Não pode ser. O facto de ser pobre, ter determinada cor de pele ou viver num determinado local não é presunção de "alguma anda a fazer". Percebo que em zonas problemáticas a polícia actue com mais nervosismo, pudera, são pessoas, têm medo. Mas o medo, se é aceitável, não pode ser o móbil ou a justificação de determinada forma de lidar com o cidadão, seja ele quem for. Um polícia actuando dominado pelo medo, e sendo esse medo determinado por preconceito, não faz um bom trabalho. Prejudica em primeiro lugar a nobreza da sua função, e, em última instância, a segurança de todos.
É preciso reconhecer isto, e trabalhar no sentido de abordar com coragem, frontalidade e perspectiva este estado de coisas. Reconhecer que ainda falta fazer muito. Ainda não tivemos um Tamir Rice, mas até quando, até quando. Não quero que aconteça.

IV.
Dando a volta, completando o círculo, retomando. Ninguém é estrangeiro na terra onde vive, e muito menos na terra onde nasceu. E muito menos é indesejado por um factor tão aleatório como a cor de pele (ou etnia, ou religião, ou país onde nasceu, ou género, ou orientação sexual, ou seja o que for).
Finalmente, seja um britânico ou um senegalês, têm direito à sua opinião, seja sobre o preço da batata ou a forma de actuação das instituições ou dos elementos que as integram. Podemos não concordar com essa opinião ou com a forma como é expressa, e oh, tantas vezes eu não concordo com tanta coisa, mas vivemos num, somos um país livre, onde todos, mas mesmo todos, têm este direito inalienável à sua opinião e sua livre expressão. Em não concordando, abre-se o debate. O que é inaceitável é a reacção via insulto, apoucamento, ameaça, e muito menos vinda de quem veste uma farda ou exerce uma função do Estado. Não conseguindo reagir de outra forma, que se calem. Lidem. Aprendam a lidar.
Que eu, pelo menos, não estou para vos ouvir, e muito menos partilhar o mesmo espaço com este tipo de gente. Aos quinze, dezasseis, e até aos vinte e muitos e trinta e poucos era aquela idealista que debatia com tudo e todos, que achava que da esgrima de ideias nasceria a luz e a evolução, mas, sinceramente, já me passou a inocência. Não resulta. Debater com um preconceituoso é como falar com uma parede, ainda que esta última hipótese seja mais agradável. Não me podem obrigar a tolerar os intolerantes, nem a dar-lhes voz, amplificação, ou os ouvir. Não finjo que não existem - erro crasso - mas não admito que ponham em causa, com a sua abordagem, ideias feitas, sinapses de betão, os mais básicos fundamentos de uma sociedade democrática e livre, segura e justa para todos, onde tenho, temos, o direito de existir. Em paz, de preferência.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

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Tenho uma carga de trabalho que nem sei já a quantos estamos. Andamos em arrumações de cat-proofing, i.e., legos e traquitanas pequenas antes fechadas numa divisão agora devidamente acondicionadas em duas vitrinas - yay, espero ter sido a última vez que limpei o pó a legos, ninguém merece. Idem para livros, donde, houve muita montagem, muito limpa pó, muito acarta, mas já se vê o tampo da secretária. Preciso de encomendar os estores de rolo, mas saio antes e chego depois da loja abrir / fechar. Pondero trocar a mobília de quarto, porque preciso de uma cómoda a sério e não o brinquedo sem arrumação que lá temos. Também em apreciação a aquisição de mais estantes, mas ninguém sabe a loucura que é arranjar coisas estreitas e que caibam onde as precisamos: é para livros, não preciso de espaço à frente para bibelots, thank you very nice. Selina continua a antibiótico, à cautela, e sente-se muito melhor, o que se nota nos sprints que ela e Mad Max fazem interpolados de sonecas, sendo que ocasionalmente também temos corridas de obstáculos, sendo estes as duas almas cansadas que por acaso calha estarem a dormir. Ah, Selina brindou-nos com o seu primeiro cio, cereja no topo do bolo. Yay, a felicidade, principalmente porque não está em condições de ser operada tão cedo. Dana Scully e Fox Mulder mostram que antiguidade é posto e olham com desdém - manifestado, no caso de Scully - as diabruras dos júniores. Ainda havemos de ser uma família feliz - e sugadita. Estou cansada. Tenho um cabelo estilo esfregona, se as esfregonas tivessem raízes grisalhas. Preciso de renovar o silicone na base de duche. Pendurar quadros e fazer os respectivos furos. No fim de semana passado não tive tempo para fazer uma sopa e este estômago que agora emite ruídos não vê um vegetal desde sei lá quando. A ementa da semana tem variado entre sandes e tostas. E maçãs, que isso temos. Quero fazer um bolo. Preciso de dar um jeito ao pátio. Tenho gente a almoçar lá no sábado. Gostava muito de encetar os novelos que já comprei há mais de dois meses. Levo mais de um mês a ler um livro, porque duas páginas e desfaleço. Tenho fome. Tenho sono. Tenho frio. Não tenho paciência. Não tenho vagar. Não tenho nada de relevante para dizer ou acrescentar à sociedade. Mas gostava.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

The Cat Diaries (17)



Selina Kyle* está muito doentinha. Selina Kyle está, desde ontem, internada. Selina Kyle está, desde domingo, diagnosticada com uma pneumonia e a antibiótico duas vezes por dia. Todavia, Selina Kyle piorou, de repente.

Selina Kyle começou a ter uma tossita seca na primeira semana em que esteve connosco, tossita que passou a mais ruidosa no fim-de-semana seguinte. Selina Kyle foi levada prontamente ao vet do bairro, onde auscultaram, desvalorizaram (que seria uma bronquitezita, toma lá antibiótico de largo espectro, mas provavelmente é viral e blablablá o sistema imunitário vai funcionar). Selina Kyle continuou, como sempre esteve até aí, aliás, muito bem disposta, ronronante, e comilona. Até que no domingo passado volta a tosse cavernosa e, encostando o ouvido ao pequenito tórax, se nota uma farfalheira do caraças.
Corremos para o hospital veterinário, onde somos atendidos por uma vet que sabe da poda: pela primeira vez, primeira vez, repito, tiram-lhe a temperatura e observam a boca (sim, achei estranho que a vet novinha no coiso lá do bairro não o tivesse feito, afinal já vamos no 5º felino, mas eles é que tiraram o curso, né) , felizmente não tem febre, mas há a notícia que ela será mais velha que pensámos (já tem dentição definitiva), é mas é pequenina, passou fominha e privações. Sabemos lá há quanto tempo estaria na rua, como foi tratada antes, o que isso lhe fez ao desenvolvimento e sistema imunitário, e explica a vontade e alegria com que comia, que pelo menos numa semana e meia aumentou meio quilo. A vet ausculta, fica com a certeza mas faz raio x para confirmar: pneumonia. E pronto, medicada, cheios de recomendações, voltámos a casa.
Ontem de manhã estava, como habitual, comunicativa, bem disposta, tinha despachado todo o granulado que lhe deixámos, e ainda aviou quase meia latinha de patê com o comprimido lá disfarçado. Ao fim da tarde estava apática, olhar perdido, arfante, e recusou o patê (!!!). Ambos tivemos a mesma premonição negra e corremos para o vet, onde se fez novo raio x e se confirmou que não estava melhor, pelo contrário. Ficou lá, e nós fomos para casa com a lágrima a rebentar (ah, fosga-se, chorámos, ok? so what? ), tentar dormir, e pronto. Hoje de manhã já se ligou e a menina está estabilizada, continua com uma frequência respiratória muito acelerada, continua com prognóstico reservado, e vão avançar para um antibiótico mais agressivo, porque os benefícios são superiores aos potenciais riscos (atraso no crescimento, que se lixe, prefiro uma gatinha bonsai mas viva).

Anyhoo, estamos os dois cá com uma motivação para trabalhar que nem vos digo, nem vos conto. Numa angústia que esperei nunca voltar a sentir. Numa ansiedade que não se explica. Com o coração com o exacto tamanho e formato de uma uva passa.
[qué a minha bebecas boa e de volta]


*acabou por ser escolhido Selina Kyle por razões de temperamento: à nossa frente um anjinho com cara de quem não parte um prato, mas na primeira noite que a deixámos na divisão onde habita - escritório - com a porta da jaula aberta, armou cá uma barraca, jasus, trepou onde achámos que não conseguiria trepar, escavou um vaso e provou uma planta (não é tóxica, a casa está cat-proofed), além de que achou giro jogar areia na exacta direcção da porta da caixa. Uma santa de dia, uma cat burglar do mal de noite. Confere.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Let's look at the traila

Não, ainda não subscrevemos o Netflix. E já não tenho pressa: com o pacote de cabo que temos já não nos sobra tempo, quanto mais. Ultimamente tenho / temos racionado muito, que às nove e meia, dez da noite estamos podres de todo (é isto, a meia idade?), mas no fim de semana vingo-me, porque nunca consigo dormir para lá das oito e meia (sim, deve ser a meia idade), e ponho episódios em dia.

E não, também não vamos ao cinema. Desde logo, sessão da noite, a gente adormece (definitivamente, é a meia idade). Acresce que somos seres anti-sociais e claustrofóbicos, para quem estar numa sala fechada já é complicado, mas junte-se a isso gente que não consegue estar duas horas a apreciar uma história, calada, sem olhar para o telelé, ou sem mastigar, e temos as condições perfeitas para um ataque psicótico. Não faz mal: espera-se e passa nos canais de filmes.

Então o que tem passado na tela lá de casa, quase vos ouço, a explodir de curiosidade (façam-me a vontade, a minha vida não é muito interessante):

- Dois filmes muitíssimo janotas, para lá de bons, e que até é pena não ter visto numa tela a sério: Três Cartazes à Beira da Estrada e Moonlight. Adorámos ambos os dois, apesar de, em estilo não terem nada a ver.
Nem era eu se não mandasse a boca, cá vai: aquelas pessoas que dizem que não há cá nenhuma discriminação nas nomeações para prémios, porque não há filmes escritos / protagonizados / realizados por negros, e que isto deve-se a não haver quem os faça, olha, ide-vos fornicar, ponde os olhinhos neste e de caminho no Straight Outta Compton, que é cá um estoiro de filme, pá, e olhem que eu abomino, odeio rap. Se não há mais é porque não os conseguem fazer, digo eu, aposto eu. Porque gente de altíssima qualidade não falta. Acesso, acesso é privilégio que certas pessoas não têm. end of rant.

- De caminho acedi a fazer companhia a me mate num dos seus fetiches (western spaguetti), e vimos o Django. O original. Adorei. Como acompanhamento, tive direito a palestra de me mate sobre o género, o realizador (Sergio Corbucci - que parece que era uma beca comunista, e nota-se), Franco Nero, e por aí fora, mais a promessa (ameaça?) que um dia destes me punha a ver Giallos. Deves.

- De séries, começámos Escape at Dannemora, que parece sim senhora, mas a ver vamos. Já eu, aproveito o (pouquíssimo) me time para o meu fetiche, isto é, o género policial. Se for de produção britânica, ainda melhor; mesmo que levezinho como o Father Brown entretém e satisfaz q.b. Para dias em que uma pessoa aguenta e almeja algo mais encorpado, tenho lá a terceira temporada de Shetland para aviar. Adoro, pá.

- Na secção comédia, tenho que confessar que o preconceito puro, bruto e burro nos ia privando de uma série que deve ser das coisinhas mais bem escritas e montadas dos últimos tempos, e com um elenco que upa-upa. Embora tenha sido precisamente o preconceito quanto a um dos actores que nos afastou até recentemente - eh pá, o que eu embirro com o Andy Samberg, aquela cara é mêmo boa para um par de estalos. Não tanto como embirro com o Adam Sandler (vómito), mas quase. Falo de Brooklin 99, que é awwwwwsome. Tão bom. Tão bem escrito. Com tanto ritmo. Com personagens tão bons. Com tanto absurdo e tontice. A nossa dose diária de descompressão. E o que eu amo o Capitão Holt? Emoji carinha com corações nos olhos.

E pronto, estamos assim.
Como é habitual, qualquer recomendação, faz favor, a gerência agradece.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

[o estado a que chegámos]



[já me aconteceu.
também já aconteceu parar o carro, enfiar o casaco, por mala a tiracolo, pegar na demais tralhôncia que tinha para carregar, abrir porta, não conseguir sair, verificar se prendi saia/casaco/alça da mala em qualquer coisa, não, voltar a tentar sair, que raio, estou presa, preeesaaaaa, aahhhhh, que feitiçaria é esta, socorrooooo, ah, o cinto. tirar o cinto. pois.
não puxar o travão de mão, parar e esquecer de desligar a ignição antes de tirar os pés dos pedais: paletes.
e tomo eu vitaminas, que faria.]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

The Cat Diaries (16) Decisões, decisões

A bolinha de pelo, o novelinho de breu, continua viva e recomenda-se. Não estou a tentar ser engraçadinha: isto dos gatinhos bebés é muito fofinho, muito queriduchos, mas são muito mais frágeis que um (gato) jovem ou adulto, e de um momento para o outro pode dar-lhes uma coisinha má. Quando levámos o Max para casa dormi mal uns dois meses. O primeiro com esse medo, o segundo já com medo que me matasse ele (diz que a meio da noite era costume trepar-me pela cara, assentar arraiais no alto da minha cabeça, onde cardava o cabelo até fazer uma caminha a gosto. sofri muito.)

A pequenita come bem (nos dois primeiros dias parecia um aspirador, comia tudo num ápice, bebia imensa água. donde se conclui que estava mortinha de fome, abandono, quase de certeza), usa a areia, já percebeu que mantinha é fixe, e está a perder a timidez. Já lhe fazemos festas e ela gosta: ronrona, dá a cabeça, rebola e oferece a barriga, uma loucura. Começámos este fim de semana a tirá-la da jaula e pô-la ao nosso colo, numa mantinha; das primeiras vezes pareceu assustada, escondia a cara, mas já está a habituar-se, até adormeceu ao colo de me mate (tenho um bocadinho de inveja, assumo).

O Max está curiosíssimo, e acompanha-nos nas visitas. Cheira tudo, só lhe soprou uma vez, não está mal. Não os deixamos tocar-se, por enquanto, porque vírus. Aliás, apesar de ela parecer muito bem, com apetite, de vez em quando tosse, e hoje vai ao senhor doutor.

Agora o problema: sim, já lhe tínhamos dado nome. Mas agora estamos indecisos, porque personalidade. A personalidade também pesa nesta decisão, e há que pensar também como a vamos chamar (primeiro, segundo nome), enfim, uma canseira.

Donde, vamos a uma sondagem (resultados não vinculativos, e sabe-se lá se será um destes, que nós somos como os malucos, depende do vento):


Mrs. Emma Peel


Selina Kyle


Diana Prince

(ainda não há fotos - decentes - porque não é fácil. esconde-se, confunde-se com o fundo, e tentem lá fotografar uma mini-gata enrodilhada numa manta ao vosso colo. aliás, nem me lembro de puxar do telelé)

sábado, 24 de novembro de 2018

Então essa bléque fraidei?

Tudo comprado? A descontos muito bons? Uma grande correria nas superfícies comerciais (grandes, médias, piquenas)? Houve estalada, ou conseguiram sair ilesos?
Enapai, que bom.

A nossa foi maizoumenos igual: muita correria, nervos, joelhos no chão, apanhando frio e vento, paciência e espera, e tudo para adquirir um grande molho de brócolos ao preço de duas ou três fatias de fiambre e duas latinhas de gourmet gold.

Yep, apanhámos uma bolinha de pêlo. Andava a deambular perto do meu trabalho, num parque de estacionamento, a esconder-se debaixo de carros, e a miar a quem passava. Calhou passar me mate, que pericaso vinha almoçar comigo (está de férias). E pronto, foi o que foi, é o que é. Levante a mão quem conseguia deixar um bebezolas ao relento, morto de fome, num local onde não há nenhuma colónia (ou alguém o largou, ou apanhou boleia num carro). Pois.

Anyhoo, graças à nossa insanidade, e ajuda de pessoas-anjos que ainda existem, umas que param e dão uma mãozinha a dois trapalhões, outras a quem basta pedir que estendem a ajuda que podem, já mora lá em casa numa jaula emprestada, numa divisão isolada, a fazer a sua quarentena e adaptação. Isto depois de uma passagem pelo vet para ser desparasitada e onde armou uma fuga digna de filme de Hollywood e uma perseguição e captura que nos vai valer ou uma recordação para contar em eventos familiares ou sermos banidos daquele vet para todó sempre.

Visto que já lhe demos nome, parece que coiso.
(até ontem, dizia eu na brincadeira, estava one cat short of crazy cat lady, entretanto parece que já não)
Ah, é uma menina, toda pretinha e uma manchinha branca no peito. Winda.
(sempre disse que adoraria ter uma gatinha preta. toma e embrulha, diz o universo, a rir-se.)

(o nome segue a tradição familiar de personagem de filme / série. dadas as características físicas da ferinha, alguém ousa adivinhar? esta é difícil :P)

(agradeço comentários de apoio e a dizer que nããããão, não somos nada doidos varridos, e fizemos muito bem e tal, vá, venha daí esse reforço positivo que ainda não estou em mim, e o senhor Mad Max já topou que há marosca e anda a cheirar e arranhar a porta feito louco, já nem falando que está mais doudo/ciumento que o habitual, ai a minha vida.)

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Coisas muito boas

O que faz uma pessoa que todos os dias, ao raiar do dia, se vem enfiar em areias movediças, e, à noitinha, chega a casa exausta do esforço de se manter à tona? E nem contando com o resto, tal como as condições atmosféricas favoráveis a nevoeiro, granizo ou furacões que são o estado habitual da sua pobre cabeça?

Comédia, claro.
(já nem falando dos químicos, 'cause if you can't make your own neurotransmitters, store bought are fine)

Portanto, cá vai a receita do dia. Andy Kaufman.

(não será grande novidade para quem viu este - espectacular, maravilhoso - filme, mas hey, o original é sempre melhor)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Too soon?

Treze (treuze, treuze!) anitos acabados de fazer, já muito respondão e com a mania que sabe tudo (suspiros, sabe nada, é ele e o Jon Snow) e que tem imensa piada (às vezes até tem, sublinho: às vezes, e ainda lhe falta sentido de timing, mas eu não desisto de tentar incutir-lho), taradinho de Star Wars (abençoadinho), mas ainda não se afeiçoou ao Star Trek nem conhece o Doctor Who (temos tempo); doudo-doudo-doudo por super-heroísmo e papa todó filme e série sobre (está a cair-me uma lágrima); seríssimo aficcionado de Lego (um lencinho de papel, por caridade), e também jogos de playstation e em app (que não faço ideia do que são porque pá, também tenho os meus limites, lá em casa só há um gamer e não sou eu).
Donde, presente de aniversário, o dilema. Lego, já nem sei o que tem (ele e o mai'novo), o que quer ou lhe falta. Action figures?, podia ser, não sei se gostará dos pop vynil, fica para averiguar. Vai daí, pensei que se calhar já era altura de uma bedêzinha mais madura, mas encontrar traduzida, 'tá bem abelha, raisparta as editoras e, principalmente, as livrarias, que o que há não têm.
Vai daí, atirei-me à (magérrima, aliás, raisparta as livrarias) prateleira de fantasia / terror, porque, ainda não disse, menino já vê filmes que eu até acho que upa-upa, mas gaba-se que não lhe faz impressão nenhuma, anda a melgar me mate pelo Pesadelo em Elm Street. Halloween e Sexta Feira Treze ó, há uns tempos, mas só com autorização parental.
Bom, trouxe o Carrie (Stephen King) e o Neverwhere (Neil Gaiman). 

Amável público: é de ir trocar, ou sim senhora?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Good morning sunshine!

Sobre a semana passada nem vou falar, mas esta foi estreada com uma avaria macaca no quadro eléctrico que me "apagou" metade das tomadas da casa, as da sala incluídas. Nota: só temos um televisor. Na sala. Ou seja, ontem leu-se imenso e fez-se muita sesta. O que veio mesmo a calhar, dado que estou muito doentinha. Quer dizer, muito doentinha na perspectiva da própria, dado que sinto cada mílímetro da garganta, respiro mal, dói muito a cabeça, e os ouvidos e ossos também começam a dizer "estou aqui!, estou aqui!". Do ponto de vista de um médico de família mediano, estou porreiríssima e em condições de trabalhar - nem sequer tenho febre ou pus nas amígdalas, ahahahah, coisas de meninos, para a classe médica. Donde, não fui perder tempo numa qualquer urgência, tenho paracetamol e ibuprofeno em casa, tanquiuverinaice. Enquanto o ibu faz efeito não me dói tanto a garganta, enquanto o paracetas faz efeito não me dói a cabeça; não se pode ter tudo, mas parece que também têm de ser tomar alternados, fuquit. Ainda não disse, mas estou enjoada como, olha, não sei, como alguém que ande sempre muito enjoado, derivado de meu estômago não se dar com o ibu e andarem ambos à bulha. Supimpas.
Para acamar, mate recebeu a notícia (verbalmente, lol) de que vai ter de mudar de local de trabalho no fim do mês, sendo que ainda não lhe disseram qual o novo local de trabalho. Digamos que se algum dia vos inquirirdes porque os tribunais de trabalho estão a abarrotar, uma das respostas possíveis poderá ser o facto de a) o pessoal dos recursos humanos não saber contar prazos; b) o pessoal dos recursos humanos não ter lá grande formação jurídica, ou então têm um código do trabalho só deles e que só eles é que conhecem. Se funcionam assim com uma merdiquice de alteração de local de trabalho, nem quero pensar no resto, adiante. Já que estou com a mão na massa, não sei porque se insiste em chamar "gabinete de recursos humanos" a uma categoria/área profissional que, na verdade, faze é "gestão de pessoal", para não dizer "de existências", ou também "esses chatos". Esse é que é o "core"  deles, não é assim que se diz? Afinal eles não trabalham para nem se focam nos tais "recursos humanos", mas gerem sim os ditos "recursos humanos", portanto, sejamos honestos, o pessoal, os trabalhadores, e de acordo com os interesses e directivas da entidade patronal. Nada de errado nisso, note-se; escusava-se era de fomentar esta hipocrisia linguística, e que se insiste em actos mentirosos de "estamos aqui por vós". Tretas. Já agora, também se deixava de gastar em formação tipo gustavo santos dos gestores de pessoal, e estes escusavam de fazer figura de idiotas ao empregarem larachas motivacionais que, em situações de alteração da vida das pessoas e, portanto, geradoras de stress e incerteza, acabam por se revelar dichotes um nadinha insensíveis, se não mesmo ofensivos.
Anyhoo, parece que já arranjei um electricista lá na freguesia, cuja primeira pergunta foi se eu fazia questão em recibo com NIF. Suspiros, desisto. Já desisti, aliás. E que me há-de ligar. Se calhar. Quando puder. Donde, vou arrastar um dos, O monstro de trabalho desta semana, todo ele um monumento ao desperdício de recursos do Estado em favor de um idiota teimosão que acha que tem, tem que ter razão. Bom, alguém tem de se chegar à frente e assumir a trabalheira de matar o bicho bem matado, antes que nos continue a sangrar. Claro que, da perspectiva dos progenitores do bicho, o Estado blablabla, uma vergonha, não liga (buhu) aos direitos dos cidadãos contribuintes, e leva (buhuhu) um tempão para resolver seja o que for, ainda que este "tempão" tenha sido essencialmente gasto pelos tais progenitores com papelada que não lembra ao diabo, e o "seja o que for" consista numa quimera montada por quem não tinha mais do que fazer ( e eu tenho, tenho tanto mais que fazer, incluindo babysitting a outras quimeras, tentando separá-las das pobres criancinhas desvalidas que despejam amiúde aqui na roda dos expostos que é o meu xervixo, e que, essas sim, precisam mesmo de atenção, solução, e rapidinho).
Boa semana para todos, caso ainda não tenha dito. Com lágrimas. De sangue.

domingo, 28 de outubro de 2018

Gente feliz com lágrimas

Fui ao lidl por mor de fruta e ovos, e havia disto. Ah, esqueci-me dos ovos, já não há bolinho, mas não faz mal.