Ai, ai, ai que vai fechar a Suiça! Ai, ai, ai que Lisboa perde mais um dos seus marcos! E?
Parece que sim, que há quem esteja ralado com esta ocorrência. Há até quem, decerto num exercício de rebuscada memória, fale no encerramento da "pastelaria" Suiça. Que o nome é esse, não contesto; mas pastelaria, ei, há limites para o saudosismo, o delírio, a saudade. Aquilo, senhores, e não é de ontem, era sim um pardieiro. Uma espelunca que faz favor. E atenção, nada contra espeluncas: alguns dos nossos mais tradicionais e queridos estabelecimentos vivem disso. Olha a Ginginha do Largo de São Domingos; olha aquela tasca na esquina da Rua da Misericórdia e o Camões, em que da montra se podia apreciar a bela sertã preta retinta com o molho de bifanas mais velho que eu, olha a outra na Praça do Chile (Ribeirão Preto?) com as sandes de ovo mai'rançosas de sempre. E quem não recorda com saudade a Ti'Alice em frente ao Frágil, onde se ia degustar o belo pontapé no genital feminino? Assumidamente e orgulhosamente espeluncas.
Mas a Suiça, uhuuu, com esplanadinha para a praça, empregadinhos fardados e de bandeja, mesinhas com toalha, a cobrar os tintins e cinco tostões por uma bica mal tirada, com um interior a precisar, já nem falo de uma remodelação profunda, ao menos uma limpeza esmerada, uma lixiviazinha ali não entrava há muito, aposto, a fazer fé no cheirete a sujo entranhado. A Suiça não era nada, e já há muitos anos, quanto mais ex libris da capital. Para além de uma tourist trap mal amanhada, para o pessoal nativo não servia mais que de ponto de encontro.
E não me entendam mal: se quiserem alguém para se zangar a valer com o lupanar em que se está a transformar a Baixa, contem comigo, que ia tendo um enfarte quando vi aquela disneylandia do enlatado, aquele tugúrio de neon enfeitado, que dá pelo nome de Mundo da Sardinha, ou lá o que é. Já nem falando das "lojas" de souvenires que abrem porta sim, porta sim, onde antes havia lojinhas bem catitas e fermosas. O coração até me falhou uns batimentos quando um dia topo com uma onde antes estava a Casa dos Carimbos, esta aqui:
Linda, linda, linda. Podiam ao menos ter deixado o letreiro, mas de certeza algum sortudo se afiambrou ao mesmo.
Está tudo a fechar, verdade. Nem vou entrar pelo assunto "lei do arrendamento", porque a minha opinião não é das mais simpáticas (não, os senhorios não são a santa casa da misericórdia e não, não têm obrigação de financiar comércio local ou tradicional, ou mesmo habitação, a preços que mal cobrem custos com IMI e seguros). É o que é, não é de hoje, é verdade que o assunto turismo está a ser muito mal gerido. Nada de novo. A habitual nacional-inoperância.
Mas depois, depois lembro-me daquela vez em que entrei na tal Casa dos Carimbos, que estava de porta aberta e balcão descerrado; vejo a senhora atrás do dito e lanço um "olhe, podia dizer-me o pre..." e logo recebo de volta um rosnado de "estamos fechados para almoço!". Ah, pronto. Sim senhora. Se me diz assim tão gentilmente, então volto depois - não voltei.
Semelhante aos semblantes generosos, sorridentes, hospitaleiros dos queridos anfitriões que nos atendiam na Suiça. E a Confeitaria Nacional, na altura do Natal? Credo, uma pessoa faz-se religiosa enquanto aguarda o Bolo Rei, que só uns valentes ai-jesus nos aliviam, enquanto assistimos ao bailado lento das senhoras atrás do balcão, algumas até perdidas a olhar para o infinito, decerto ocupadas a matutar nos grandes segredos do universo.
E a gentileza, prontidão, solicitude com que somos atendidos em alguns dos (aliás lindos, lindos) estabelecimentos de retrosaria na Rua da Conceição? Não devem ter ouvido falar da feroz e eficaz concorrência da Retrosaria Zora, preços mais em conta, stocks gigantes, sempre alguma funcionária pronta a atender, e por acaso em locais com estacionamento grátis? E nem me recordem a minha última excursão à Baixa por via de lãs, credo, Brancal, Serranofil, antes encomendar na net, ou, fazendo de phyna, gastar mais no ECI.
Verdade, verdade, há muitos doutores com pressa em desligar a máquina; mas a crua realidade é que o comércio antigo e tradicional da Baixa já há muito que estava acamado, algaliado, agonizando apesar dos cuidados paliativos. Morre de velho, de caduco. É triste, é. Há alternativas mais frescas, mais apelativas, mais simpáticas, mais em conta. Mas, mesmo a receber a extrema unção, aqueles pobres anciãos insistem-se vítimas dos tempos, queixam-se de que ninguém os ampara, ninguém lhes dá a mão, e juram que morrem por abandono e descaso.
'Tá bem, abelha. Quem não vos conheça, adiante.
sexta-feira, 29 de junho de 2018
quinta-feira, 28 de junho de 2018
It’s my party and I cry if I want to
Faz agora um ano que estava a entrar nos 46 (e a trabalhar, como de costume, embora não afincada ou devotamente) quando recebi o telefonema que já temia mas esperava não chegar a acontecer. Pela enésima vez em quatro anos que já lá vão entrei em modo bombeiro, mas desta vez cm máquina de reanimação, para além da agulheta, escada magirus, e caixa de primeiros socorros. Desta vez era mesmo a sério. Tal como das outras, mas isto do fundo do poço é uma coisa muito gira, quando se pensa ter lá chegado de repente abre-se um alçapão e lá vamos nós outra vez. Isto não é uma ladainha, um queixume de buuuu, estragaram-me os anosssss, calhou lembrar. Este ano não houve crise, embora o novo rock bottom possa estar sempre ao virar da esquina. Não vamos agoirar; mas é o que é. Se há um, dois, três, quatro anos me garantissem que se pode viver assim, eu ficaria pasma. Qual quê! Nunca! Não pode ser! Ou melhora ou rebenta! Mais: ou resolve ou coiso. Não é assim que funciona, ou não é assim que funcionará para mim. É o que é e eu sou o que sou: não arredo. No retreat, no surrender. Não é sempre fácil, mas torna-se mais gerível. E prova disso é que cá estamos, a entrar nos 47 firme e hirta, depois de um ano do caracinhas, do caralho, vá, a bater bolas com não sei quantos Federer (é assim que o tipo se chama?) e a apanhar com muitas em cheio na cara. Auch. Ainda que. Porque. Já esteja ali a uns 60, 70% grisalha, debaixo da tinta; as articulações não me deixem esquecer as muitas horas de cu sentado e computador; o estômago se manifeste cada vez mais caprichoso; as vitaminas tenham passado de suplemento a constante; já tenha de levar uns fideputa de uns ólicos na mala para conseguir ler cenas pucaninas que se me atravessem no caminho (mentira, esqueço-me propositadamente dos óculos e finjo que estou a ver lindamente, embora de bracinho esticado). Mas. Todavia. No entanto. Ainda consigo estudar e ter pica a aprender coisas novas; ainda me sinto a campeã do universo quando deslindo o enigma, encontro a saída do labirinto, coloco a última peça do puzzle; ainda fico com o friozinho na barriga porque vou ter de enfrentar aquele touro muito, mas muito grande e cornudo, e macacos me mordam se o cabrão percebe que estou aos gritos de pavor por dentro; ainda passo demasiado tempo a uivar à lua a cada nova tarefa hercúlea que me caia no colo, ainda que já comece a acreditar que, bom, enfim, talvez consiga - e acabo por conseguir sempre, porra, porque sim, mesmo com o grilinho irritante constantemente a bichanar-me ao ouvido que me meti a besta, way over your head, vais-te espalhar ao comprido e toda a gente a ver, vão descobrir-te a careca de incompetente, inapta, burra, incapaz e pôr-te na rua, nua, e ao frio e à chuva. No retreat, no surrender. Em nada, por nada, nunca, foda-se, nunca. Vamos indo. Vamos.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Preciso mesmo de (futilmente) falar disto
Não faltam, decerto, assuntos fracturantes. Ui, é só escolher. Eu escolho não abordar nenhum, porque já bem me basta saber que existem, e andar consumidinha com eles. Escolho, portanto, fazer um exercício umbiguista, levantar uma poeirinha sobre um assunto mais que banal, para lá de corriqueiro. Também tenho direito ao alheamento. Vamos a isso. Cá vai. Preparados para a mais inútil e inconsequente polémica de sempre? Jasus, aos abrigos. Vou atirar, ainda estão a tempo de ir ler o NYT, o Guardian, ou outra coisa mais elevada. Eu avisei.
(ahém)
Por que raios é que existe este estigma social de que senhoras ou meninas têm de envergar vestido ou saia em casamentos? Porquê, porquê, porquê?!??
Digo já: sou contra. Não porque odeie saias ou vestidos, tenho até vários, mas tendo de me definir em termos de vestuário, eu é mais calças. Ele há dias em que me apetece perna ao léu, ele há dias - mais - em que não me apetece. É uma questão de feitio do dia, de vento, de hormonas, não sei; é o que é.
Sucede que tenho um evento matrimonial no próximo fim-de-semana. De início não me preocupei muito com a farpela, sapatos e carteira já tenho - graçádeuz neste particular nunca tenho grandes dificuldades -, vestidos também há, que s'a lixe. Mas depois pus-me a pensar bem no recheio do roupeiro: os meus vestidinhos são, quase todos, em preto predominante. Chato. Já violei esta regra de não-usarás-preto-em-casamentos mas, desta vez, pronto, chamem-me conformista, não. Há duas outras hipóteses mas - surpresa! - são mais uma vez em preto e... branco, este predominante. Antes que se pergunte: não, não há limite para o número de vestidos em preto e branco que se pode ter, mostrem-me a lei. Há um outro exemplar em que entre o preto e branco se intromete outra corzita, mas está muito usado, e nota-se. E depois há um em beringela, que, coiso, é muito escuro? Bof.
Depois do mood não-te-rales-tenho-lá-tempo-para-me-chatear-com-isto, segunda-feira caiu o pânico de última hora e comecei a atacar lojas (net já não dá tempo, e nunca sei qual é o meu número). Experimentei uma resma, e senti-me sempre a Miss Matrafona 2018. Revi a estratégia: saias. Saias, blusa bonita, feito. Não há saias. Melhor, não há saias de que goste: simples, que possa voltar a usar, pelo joelho. E as que tenho são mesmo muito... casuais. Nos entretantos, em calhando, topei com umas calças mêmo giras. Mêmo. Com bolas, a fazer um padrão muito retro, parece mosaico hidráulico. E, surpresa!, em preto e branco. Sou uma originalona, eu sei. Vão ficar giríssimas com uma blusa preta, ou outra branca, que já tenho. Sapatos e carteira, vide supra. Baton vermelhão, eye liner, uns brincos (o problema é escolher), e sou eu. Sou eu como muitas vezes venho trabalhar, excepto o baton vermelho e carteira pucanina. Mas sou eu.
E vou ser só eu, de certeza, assim ataviada.
Entre o ser eu, e o ser só eu, a minha frágil personalidade neurótica balança.
Ainda tenho até sexta. Não tenho é tempo, mas não há-de ser nada.
(adoro as meretrizes das calças, fonix)
(ahém)
Por que raios é que existe este estigma social de que senhoras ou meninas têm de envergar vestido ou saia em casamentos? Porquê, porquê, porquê?!??
Digo já: sou contra. Não porque odeie saias ou vestidos, tenho até vários, mas tendo de me definir em termos de vestuário, eu é mais calças. Ele há dias em que me apetece perna ao léu, ele há dias - mais - em que não me apetece. É uma questão de feitio do dia, de vento, de hormonas, não sei; é o que é.
Sucede que tenho um evento matrimonial no próximo fim-de-semana. De início não me preocupei muito com a farpela, sapatos e carteira já tenho - graçádeuz neste particular nunca tenho grandes dificuldades -, vestidos também há, que s'a lixe. Mas depois pus-me a pensar bem no recheio do roupeiro: os meus vestidinhos são, quase todos, em preto predominante. Chato. Já violei esta regra de não-usarás-preto-em-casamentos mas, desta vez, pronto, chamem-me conformista, não. Há duas outras hipóteses mas - surpresa! - são mais uma vez em preto e... branco, este predominante. Antes que se pergunte: não, não há limite para o número de vestidos em preto e branco que se pode ter, mostrem-me a lei. Há um outro exemplar em que entre o preto e branco se intromete outra corzita, mas está muito usado, e nota-se. E depois há um em beringela, que, coiso, é muito escuro? Bof.
Depois do mood não-te-rales-tenho-lá-tempo-para-me-chatear-com-isto, segunda-feira caiu o pânico de última hora e comecei a atacar lojas (net já não dá tempo, e nunca sei qual é o meu número). Experimentei uma resma, e senti-me sempre a Miss Matrafona 2018. Revi a estratégia: saias. Saias, blusa bonita, feito. Não há saias. Melhor, não há saias de que goste: simples, que possa voltar a usar, pelo joelho. E as que tenho são mesmo muito... casuais. Nos entretantos, em calhando, topei com umas calças mêmo giras. Mêmo. Com bolas, a fazer um padrão muito retro, parece mosaico hidráulico. E, surpresa!, em preto e branco. Sou uma originalona, eu sei. Vão ficar giríssimas com uma blusa preta, ou outra branca, que já tenho. Sapatos e carteira, vide supra. Baton vermelhão, eye liner, uns brincos (o problema é escolher), e sou eu. Sou eu como muitas vezes venho trabalhar, excepto o baton vermelho e carteira pucanina. Mas sou eu.
E vou ser só eu, de certeza, assim ataviada.
Entre o ser eu, e o ser só eu, a minha frágil personalidade neurótica balança.
Ainda tenho até sexta. Não tenho é tempo, mas não há-de ser nada.
(adoro as meretrizes das calças, fonix)
sexta-feira, 22 de junho de 2018
quinta-feira, 21 de junho de 2018
Resumindo
Tenho poucas certezas na vida, mas uma delas é que se os homens menstruassem de certezinha que tinham direito a pelo menos duas faltas justificadas por mês.
[Não tá fácil, esta semana. Por norma são dois dias de incapacidade parcial, menor ou maior, mas este mês já vai em quatro dias muito mauzinhos. Mesmo com analgésico. Sim, sim, eu devia ir ao médico. Ou não. Depois de mais de trinta anos a ver desvalorizado este "incómodo", uma pessoa dispensa gastar quase uma centena para, de novo, lhe ser explicado que é mesmo assim, suspiro. O chocolate fica mais em conta e ao menos consola. E se engorda, tal como as merdas hormonais que volta e meia gostariam que eu experimentasse, ao menos fá-lo de uma forma deliciosa.]
sexta-feira, 15 de junho de 2018
[la-di-da]
[e hoje é um desses dias em que bem apetecia, cá por coisas e derivado de irritações da minha vida, e acresce até que às tantas calhava bem, afinal já tenho raízes, ó, e isto a pente zero, pronto, quatro, ficava tudo no mesmo tom e amanhã já não tinha de ir gramar duas horinhas de químicos a carcomer-me o escalpe, enquanto uma pessoa tenta ler aquele livro de letras grandes que levou, aquele que dispensa a acrescida miséria do óculo de presbiopia ao já maldito ritual corrector de grisalhia, ler, dizia eu, com banda sonora de secador e tesoura, não sei se já contei daquela vez que estava tão embrenhada que alcei do indicador e cocei mesmo a cabeça, e ainda que limpando logo fiquei com um indicador de mecânico auto que upa upa, enfim, isto anda tudo a correr cá d'uma maneira, era máquina zero e guarda-chuvada no primeiro que me aparecesse, e ai de quem dissesse ai c'a gaja 'tá maluca. sabedes lá da minha vida.]
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Como perder duas horas e dezassete minutos
Pontos prévios:
a) Me mate grava tudo o que é filme. Bom, tudo-tudo não, que eu não deixo, dado que a box a partir de 250 horas gravadas (por acaso é só metade da quota) começa a ficar lelé, e depois eu aborreço-me, e pronto, é uma discussão que se poupa. Mas grava tanta merdinha, benzó. Diz o ser original que se aprende muito a ver mau cinema, e por mim tudo bem, ele que aprenda lá o que quiser, desde que não me encrave o bezidróglio.
b) Tirando os filmes de terror (90% deles muito merdosos, vide considerando que antecede), que já sabe que bate à porta errada, o home pergunta sempre se aquilo que ele achou por bem gravar, me interessa partilhar de sua visualização. Ele há dias em que acordei mais magnânima, benemérita, praticamente zen, e digo que sim. Mesmo com todos os sistemas de alarme a tilintar cá dentro. Foram esses sistemas de alarme que me pouparam às sequelas de Matrix, por exemplo. É um excelente sistema de alarme.
c) Sou fã(zorra) da colecção Valérian e Laureline ali desde os meus 13 anos de idade. Li todos, tinha metade (eram outros tempos, as BD eram caras) e reli estes vezes sem conta. Laureline era a minha heroína, e queria ser como ela.
Dito isto, maldita a hora em que me mate gravou Valerian e Cidade dos Mil Planetas, remaldita a hora em que me perguntou se avançava sozinho ou eu o acompanhava, e re - mil vezes! - maldita a hora em que eu respondi "bora lá ver isso".
[pequena pausa para engolir o choro]
[ok, já estou melhor, mais recomposta]
[não estou nada, mas coragem, coragem, Izzie, conta ao mundo a tua história, ajuda alguém a salvar-se]
O filme é uma bosta tão grande, credo. Uma enorme, fumegante, bosta.
Por onde começar?
Olha, nem vás mais longe o título. Vamos lá por pontos.
i) Porquê "Valerian e(...)", porquê só "Valerian"? A Laureline também vai, a Laureline é membro da equipa, a Laureline tem o seu nome nos álbuns da série. Então porque eliminam o seu nome do título do filme? Piretes.
ii) Já agora, o resto do título é publicidade enganosa. Um dos álbuns (bem bom, por sinal) tem como nome O Império dos Mil Planetas, mas não, nãããão é essa a história que aqui se vai contar. Porque deram este nome a um (fideputa de ruim de) filme que é baseado (muito livremente, já lá vamos) n' O Embaixador das Sombras? Sei lá. Mais um raminho de piretes.
iii) Começam logo o estraganço de celulóide a apresentar-nos o local onde se desenvolverá a maior e mais central parte da trama. E eu a enervar-me porque aquilo não é Alpha nem o falo que os fornique, é Ponto Central, estúpidos de fezes. Cestinho de piretes, com um lacinho à roda.
iv) O actor que faz de Valérian. Pausa. Suspiro. Soluço. Qu'esta merda, pá? Eu nem precisava de o ver a actuar, o gajo não tem focinheira para Valérian. Valérian é um homem feito, nos seus vinte e muitos trinta e poucos, e não um fulanito que nem tem vestígio de barba. Olha, nem merece um pirete.
v) E depois começa a narrativa, com uma cena de assédio macho-mucho-stupido de Valérian sobre a sua parceira Laureline. Uma cena inenarrável, para quem conheça os livros. Havia tensão sexual? Havia sim senhora. Que, a dado momento, mas muuuuito lá para a frente, chegou a vias de facto? Confirmo. Mas a cena deles tinha classe, c-l-a-s-s-e. O bate boca, ai o bate boca. Se Valérian fizesse a Laureline metade do que aparece ali no filme, levava um banano que lhe virava a cara do avesso. Detestável. E mau texto. E química zero. Um bidon de piretes.
vi) E pronto, nem cinco minutos decorridos e começa a ficar bem patente que vão jogar na mesa toda a téquenologia possível, (d)efeitos especiais com fartura, tudo para encher o olho e a gente não perceber que o conteúdo está muito mauzinho. Entretanto confirma-se que a história base é a d'O Embaixador das Sombras, mas fortemente adaptado: afinal o original conta com a Laureline a dominar e protagonizar a narrativa do princípio ao fim, e aqui têm de justificar o nome do "herói" no título. Uma pick-up de piretes.
vii) Adormecemos ali entre o meio e o fim. Não perdemos nada. Acordámos antes do fim, e isso é que foi uma pena, um soninho tão bom, tão perfeitinho, tão bem feito, a estragar-se assim. O fim é [inserir ruído de vómito]. O amorrrr, o amorrrr, olha, aqui é mesmo um camião TIR de piretes, haja decência, haja pudor em fazer isto a uma fã(zorra), e transformar a Laureline numa partenaire, numa sidekick que finalmente não resiste ao "herói", rameira que deu à luz.
Em conclusão, não há direito. Também é para estas situações que serve o Tribunal Penal Internacional, digo eu. Genocídio de obra, insisto. Apanhem-nos, que ainda andam aí.
Não faço ideia se os criadores tiveram alguma coisa a ver com isto, se apenas cederam direitos e/ou colheram dinheiros, mas pronto, espero que não tenham tido qualquer participação artística.
[vai ver ficha técnica]
Não tiveram, o único responsável pelo argumento, com dolo intenso e directo, foi o Besson, que arda num autocarro de piretes.
Descubro entretanto que Mézières foi designer/consultor n'O 5º Elemento (este é bem bom, por acaso, e envelheceu bem - estão a passar tudo do Besson nos telecine).
E fazer isto a Pierre Christin, que escreveu os (para mim) melhores três álbuns de Bilal (A Cidade Que Não Existia, A Falange da Ordem Negra, e A Caçada).
Miserável. Deplorável. Angustiante. Dói-me aqui. Na alma.
a) Me mate grava tudo o que é filme. Bom, tudo-tudo não, que eu não deixo, dado que a box a partir de 250 horas gravadas (por acaso é só metade da quota) começa a ficar lelé, e depois eu aborreço-me, e pronto, é uma discussão que se poupa. Mas grava tanta merdinha, benzó. Diz o ser original que se aprende muito a ver mau cinema, e por mim tudo bem, ele que aprenda lá o que quiser, desde que não me encrave o bezidróglio.
b) Tirando os filmes de terror (90% deles muito merdosos, vide considerando que antecede), que já sabe que bate à porta errada, o home pergunta sempre se aquilo que ele achou por bem gravar, me interessa partilhar de sua visualização. Ele há dias em que acordei mais magnânima, benemérita, praticamente zen, e digo que sim. Mesmo com todos os sistemas de alarme a tilintar cá dentro. Foram esses sistemas de alarme que me pouparam às sequelas de Matrix, por exemplo. É um excelente sistema de alarme.
c) Sou fã(zorra) da colecção Valérian e Laureline ali desde os meus 13 anos de idade. Li todos, tinha metade (eram outros tempos, as BD eram caras) e reli estes vezes sem conta. Laureline era a minha heroína, e queria ser como ela.
Dito isto, maldita a hora em que me mate gravou Valerian e Cidade dos Mil Planetas, remaldita a hora em que me perguntou se avançava sozinho ou eu o acompanhava, e re - mil vezes! - maldita a hora em que eu respondi "bora lá ver isso".
[pequena pausa para engolir o choro]
[ok, já estou melhor, mais recomposta]
[não estou nada, mas coragem, coragem, Izzie, conta ao mundo a tua história, ajuda alguém a salvar-se]
O filme é uma bosta tão grande, credo. Uma enorme, fumegante, bosta.
Por onde começar?
Olha, nem vás mais longe o título. Vamos lá por pontos.
i) Porquê "Valerian e(...)", porquê só "Valerian"? A Laureline também vai, a Laureline é membro da equipa, a Laureline tem o seu nome nos álbuns da série. Então porque eliminam o seu nome do título do filme? Piretes.
ii) Já agora, o resto do título é publicidade enganosa. Um dos álbuns (bem bom, por sinal) tem como nome O Império dos Mil Planetas, mas não, nãããão é essa a história que aqui se vai contar. Porque deram este nome a um (fideputa de ruim de) filme que é baseado (muito livremente, já lá vamos) n' O Embaixador das Sombras? Sei lá. Mais um raminho de piretes.
iii) Começam logo o estraganço de celulóide a apresentar-nos o local onde se desenvolverá a maior e mais central parte da trama. E eu a enervar-me porque aquilo não é Alpha nem o falo que os fornique, é Ponto Central, estúpidos de fezes. Cestinho de piretes, com um lacinho à roda.
iv) O actor que faz de Valérian. Pausa. Suspiro. Soluço. Qu'esta merda, pá? Eu nem precisava de o ver a actuar, o gajo não tem focinheira para Valérian. Valérian é um homem feito, nos seus vinte e muitos trinta e poucos, e não um fulanito que nem tem vestígio de barba. Olha, nem merece um pirete.
v) E depois começa a narrativa, com uma cena de assédio macho-mucho-stupido de Valérian sobre a sua parceira Laureline. Uma cena inenarrável, para quem conheça os livros. Havia tensão sexual? Havia sim senhora. Que, a dado momento, mas muuuuito lá para a frente, chegou a vias de facto? Confirmo. Mas a cena deles tinha classe, c-l-a-s-s-e. O bate boca, ai o bate boca. Se Valérian fizesse a Laureline metade do que aparece ali no filme, levava um banano que lhe virava a cara do avesso. Detestável. E mau texto. E química zero. Um bidon de piretes.
vi) E pronto, nem cinco minutos decorridos e começa a ficar bem patente que vão jogar na mesa toda a téquenologia possível, (d)efeitos especiais com fartura, tudo para encher o olho e a gente não perceber que o conteúdo está muito mauzinho. Entretanto confirma-se que a história base é a d'O Embaixador das Sombras, mas fortemente adaptado: afinal o original conta com a Laureline a dominar e protagonizar a narrativa do princípio ao fim, e aqui têm de justificar o nome do "herói" no título. Uma pick-up de piretes.
vii) Adormecemos ali entre o meio e o fim. Não perdemos nada. Acordámos antes do fim, e isso é que foi uma pena, um soninho tão bom, tão perfeitinho, tão bem feito, a estragar-se assim. O fim é [inserir ruído de vómito]. O amorrrr, o amorrrr, olha, aqui é mesmo um camião TIR de piretes, haja decência, haja pudor em fazer isto a uma fã(zorra), e transformar a Laureline numa partenaire, numa sidekick que finalmente não resiste ao "herói", rameira que deu à luz.
Em conclusão, não há direito. Também é para estas situações que serve o Tribunal Penal Internacional, digo eu. Genocídio de obra, insisto. Apanhem-nos, que ainda andam aí.
Não faço ideia se os criadores tiveram alguma coisa a ver com isto, se apenas cederam direitos e/ou colheram dinheiros, mas pronto, espero que não tenham tido qualquer participação artística.
[vai ver ficha técnica]
Não tiveram, o único responsável pelo argumento, com dolo intenso e directo, foi o Besson, que arda num autocarro de piretes.
Descubro entretanto que Mézières foi designer/consultor n'O 5º Elemento (este é bem bom, por acaso, e envelheceu bem - estão a passar tudo do Besson nos telecine).
E fazer isto a Pierre Christin, que escreveu os (para mim) melhores três álbuns de Bilal (A Cidade Que Não Existia, A Falange da Ordem Negra, e A Caçada).
Miserável. Deplorável. Angustiante. Dói-me aqui. Na alma.
sexta-feira, 8 de junho de 2018
[ sometimes it hits too close to home ]
Talvez um dia consiga falar (novamente) sobre o assunto. Hoje não consigo, tal como não consegui aquando de Chris Cornell ou Robin Williams. Não que me faltasse o que dizer, mas não tinha (nem tenho) o como e, principalmente, o porquê. É muito bonito, esse (hoje) firmado incentivo e convicção de coachers e life-stylers da treta para usar o coração fora do peito, de não ter medo da vulnerabilidade, mas, sinceramente, não vale a pena. Ou antes, muitos dos que andam aí não (me) valem a pena. A maior parte das pessoas, se não lhes calhar em jeito a demora, não consegue sequer respeitar uma passadeira, quanto mais. Não sabem - porque não querem - ver o outro, reconhecê-lo, respeitá-lo. Ver ou tentar ver as coisas da sua perspectiva. Reparar. Nem os que mais apregoam a sua boa-vontade, a sua çençibilidade - se lhes calhar em jeito, são os primeiros a sacar da adaga. Ou a passar adiante. Ou a forçar a sua bem intencionada (sempre bem intencionada! deuz nos livre de duvidar disso!) mundividência. Ouvem enquanto não se lhes torna insuportavelmente tedioso ouvir, e logo atalham com um "sim, mas", ou equivalente.
Não ia dizer nada, mas já disse demais. Mas que safoda, não apago.
Hoje, apenas um brinde por um camarada caído em combate.
[You only know when you know.
Cheers.
Take care.]
quarta-feira, 6 de junho de 2018
[actualização]
Por alguma razão que desconheço, tinha aqui uns comentários por aprovar, e dos quais não fui notificada para o email de contacto que ainda se mantém nas definições do blog.
Surpreendentemente, mesmo depois de aprovados os comentários estes não "caíram" no tal endereço de mail. Nem sequer no spam.
Não faço a mais pequena ideia do que se passou, mas a gerência apresenta as suas desculpas, de qualquer forma. Raisparta a téquenologia.
Surpreendentemente, mesmo depois de aprovados os comentários estes não "caíram" no tal endereço de mail. Nem sequer no spam.
Não faço a mais pequena ideia do que se passou, mas a gerência apresenta as suas desculpas, de qualquer forma. Raisparta a téquenologia.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
terça-feira, 29 de maio de 2018
E ainda diria mesmo mais
A proposta de legalização da eutanásia, na minha opinião, apenas peca por defeito.
Sim senhora, é preciso começar por algum lado e, ainda assim, mesmo sendo claro e cristalino que apenas se fala de manifestação de vontade pessoal, por pessoa capaz de a exprimir, portanto não afectada de doença ou incapacidade mental, por exemplo, já há quem augure um holocausto. Como se fosse fácil saltar por cima da tal cena da vontade livremente expressa.
E é precisamente aí que peca por defeito, digo eu. Para além de só se querer permitir acesso à morte assistida a quem esteja afectado de doença irreversível e terminal (pá, terminal é a vida) e em sofrimento considerável (hum, um bocadinho vago, já lá vou), a pessoa tem de estar, no momento em que se verificam tais condições , capaz de exprimir, reiterada e seriamente, a vontade de morrer. Não, não quero substituir esta vontade e liberdade pessoal por vontade alheia, mal fora. Mas e uma vontade séria e livremente formulada, em momento anterior a tal estado terminal, irreversível, e por antecipação de um sofrimento que, para a pessoa em causa, seja incomportável imaginar?
Exemplificando: é-me intolerável imaginar que, um dia, o diabo seja surdo e essa treta toda, caso esteja afectada de demência irreversível ou outra condição semelhante, confinada a um invólucro até capaz de funcionar automaticamente mas sem qualquer expectativa de recuperar aquilo que me faz ser eu, a consciência, a lucidez, me seja imposto continuar a definhar até morrer. Que continue a, meramente, existir; sem "miolo", sem o que me faz pessoa, a vegetar, a ocupar espaço, a gastar ar, a dar trabalho, a fazer sofrer quem ainda me sobreviva e de mim tenha de cuidar. Esta possibilidade, esta antecipação, causa-me imenso sofrimento. E gostava que me fosse permitido deixar expressa, livre, voluntária e previamente, a vontade de que, nessa situação, me despachem. Tal como gostava que me permitissem exprimir tal vontade - e vê-la respeitada - se e quando, ainda mantendo a lucidez e capacidade para o exprimir, o meu corpo fosse apenas um fardo, a idade e a teimosia de existir apenas uma moratória. Nem num nem no outro caso existiria ou a tal faculdade de dispor, ou a doença terminal irreversível, ou o sofrimento intenso. Um demente, atingido determinado estádio, não sofre; aliviado da consciência de si, existe só como um amontoado de células em piloto-automático. Uma pessoa muito idosa, com as maleitas naturais que vão anunciando a partida, não está afectada de doença terminal e irreversível; apenas é vítima, sim, da irreversibilidade do tempo e falência natural da máquina. E esse sofrimento, esse arrastar, não é valorado porquê?
Isto é o que gostaria para mim. De poder fazer um testamento vital em condições, em que previsse todas as situações possíveis. Que me fosse permitido esse supremo exercício de vontade e liberdade que é dizer que, caso esteja em determinada situação, e impedida de manifestar vontade, ela é esta, a de que me encurtem a existência então meramente simbólica. Que caso mantenha as faculdades mentais, não esteja no tal profundo sofrimento - que insistem em fazer equivaler a dor física! - mas entenda encontrar-se irremediavelmente comprometida a minha qualidade de vida, a minha razão de viver, me seja facultado escolher partir, simplesmente. De forma digna, o menos traumática possível, e portanto com ajuda, claro.
Talvez um dia lá se chegue, e eu gostava que ainda fosse durante o meu período de vida e na posse das minhas faculdades mentais. Aliviava-me imenso, digo mesmo, confortava-me muitíssimo. Não vejo qualquer qualidade redentora no sofrimento, qualquer sentido no prolongar de uma vida que já não o é. E a mim, só a mim deveria caber a decisão sobre o quando. E o porquê, bom, esse também seria meu (e não abdico).
Sim senhora, é preciso começar por algum lado e, ainda assim, mesmo sendo claro e cristalino que apenas se fala de manifestação de vontade pessoal, por pessoa capaz de a exprimir, portanto não afectada de doença ou incapacidade mental, por exemplo, já há quem augure um holocausto. Como se fosse fácil saltar por cima da tal cena da vontade livremente expressa.
E é precisamente aí que peca por defeito, digo eu. Para além de só se querer permitir acesso à morte assistida a quem esteja afectado de doença irreversível e terminal (pá, terminal é a vida) e em sofrimento considerável (hum, um bocadinho vago, já lá vou), a pessoa tem de estar, no momento em que se verificam tais condições , capaz de exprimir, reiterada e seriamente, a vontade de morrer. Não, não quero substituir esta vontade e liberdade pessoal por vontade alheia, mal fora. Mas e uma vontade séria e livremente formulada, em momento anterior a tal estado terminal, irreversível, e por antecipação de um sofrimento que, para a pessoa em causa, seja incomportável imaginar?
Exemplificando: é-me intolerável imaginar que, um dia, o diabo seja surdo e essa treta toda, caso esteja afectada de demência irreversível ou outra condição semelhante, confinada a um invólucro até capaz de funcionar automaticamente mas sem qualquer expectativa de recuperar aquilo que me faz ser eu, a consciência, a lucidez, me seja imposto continuar a definhar até morrer. Que continue a, meramente, existir; sem "miolo", sem o que me faz pessoa, a vegetar, a ocupar espaço, a gastar ar, a dar trabalho, a fazer sofrer quem ainda me sobreviva e de mim tenha de cuidar. Esta possibilidade, esta antecipação, causa-me imenso sofrimento. E gostava que me fosse permitido deixar expressa, livre, voluntária e previamente, a vontade de que, nessa situação, me despachem. Tal como gostava que me permitissem exprimir tal vontade - e vê-la respeitada - se e quando, ainda mantendo a lucidez e capacidade para o exprimir, o meu corpo fosse apenas um fardo, a idade e a teimosia de existir apenas uma moratória. Nem num nem no outro caso existiria ou a tal faculdade de dispor, ou a doença terminal irreversível, ou o sofrimento intenso. Um demente, atingido determinado estádio, não sofre; aliviado da consciência de si, existe só como um amontoado de células em piloto-automático. Uma pessoa muito idosa, com as maleitas naturais que vão anunciando a partida, não está afectada de doença terminal e irreversível; apenas é vítima, sim, da irreversibilidade do tempo e falência natural da máquina. E esse sofrimento, esse arrastar, não é valorado porquê?
Isto é o que gostaria para mim. De poder fazer um testamento vital em condições, em que previsse todas as situações possíveis. Que me fosse permitido esse supremo exercício de vontade e liberdade que é dizer que, caso esteja em determinada situação, e impedida de manifestar vontade, ela é esta, a de que me encurtem a existência então meramente simbólica. Que caso mantenha as faculdades mentais, não esteja no tal profundo sofrimento - que insistem em fazer equivaler a dor física! - mas entenda encontrar-se irremediavelmente comprometida a minha qualidade de vida, a minha razão de viver, me seja facultado escolher partir, simplesmente. De forma digna, o menos traumática possível, e portanto com ajuda, claro.
Talvez um dia lá se chegue, e eu gostava que ainda fosse durante o meu período de vida e na posse das minhas faculdades mentais. Aliviava-me imenso, digo mesmo, confortava-me muitíssimo. Não vejo qualquer qualidade redentora no sofrimento, qualquer sentido no prolongar de uma vida que já não o é. E a mim, só a mim deveria caber a decisão sobre o quando. E o porquê, bom, esse também seria meu (e não abdico).
segunda-feira, 28 de maio de 2018
1475
Uma pessoa nem se consegue alegrar convenientemente com o que sucedeu na Irlanda, porque ficou entalado entre notícias de retirada forçada de filhos a pais/mães migrantes e respectivo "internamento" em "instalações" "específicas", e o "desaparecimento" de 1475 dessas crianças. E isto não aconteceu num país de terceiro mundo, ou um canto terreno afligido por guerra, fome ou terrorismo, aconteceu ali do outro lado do oceano, com um regime constitucional e um governo/presidente eleito.
Mil. Quatrocentas. Setenta. Cinco.
Nem consigo ter palavras para isto, nem consigo elaborar mais, é de um horror e crueldade indizíveis.
(entretanto, numa outra rubrica de horror diário, no Iraque julga-se e condena-se à morte mulheres de militantes do daesh. ele há dias em que acordar e continuar funcional é muito complicado)
Mil. Quatrocentas. Setenta. Cinco.
Nem consigo ter palavras para isto, nem consigo elaborar mais, é de um horror e crueldade indizíveis.
(entretanto, numa outra rubrica de horror diário, no Iraque julga-se e condena-se à morte mulheres de militantes do daesh. ele há dias em que acordar e continuar funcional é muito complicado)
terça-feira, 22 de maio de 2018
Hoje lembrei-me disto
O Pintrest devia estar na lista de substâncias aditivas. É só uma opinião. Uma pessoa inscreve-se, começa por ver uns padrões de crochet porque ai tanta coisa que eu gostava de fazer, segue pelo ponto de cruz dado que ai que giro, dava uns quadrinhos tão ricos, entretanto o bicho já começou a recomendar crafts porque está tudo relacionado e uma indivídua lá abre mais um álbum, entretanto a criatura lembra-se que até vai remodelar uma casa de banho, e se pesquisasse um bocadinho, da realidade passa-se para o ai gostava tanto de também ter uma cozinha nova e lá estamos nós, à desfilada, e nem dois anos depois já temos quase duas dezenas de álbuns, uns deles já organizados com até nove secções, e os pins em si, bom, não conto, que ainda tenho vergonha. E consome tempo em que podia estar a pesquisar novos pins. Hihihi.
Mas e as coisas giras que se descobre. hein?
Alguma semelhança com a (actual) realidade de algumas cabeças é pura coincidência.
(comunistajjjjj...)
quarta-feira, 16 de maio de 2018
The Cat Diaries (14) We Have to Talk About Max
E o mai'novo, hein? Ainda é vivo? Ou andas aqui a apregoar uma felinilusão de felicidade quando, na verdade, felimãe negligente e imprestável que és, às tantas o bicho não te sobreviveu nas mãos.
Não, não, Max é vivo - e nota-se - e é Mad, Mad as hell, Mad as a hatter, e não foi por inalação ou contacto com chumbos ou o caneco.
Mad Max vive e gosta disso. E de o demonstrar. Basta o anúncio do nascer do dia, a mais fina réstia de luz, e lá está ele, a anunciar alegria de viver. Não, não se dorme, naquela casa. Não podemos, não estamos autorizados; pelo menos antes de algum de nós vencer o estupor do sono e levantar-se, por o bicho fora do quarto, e fechar a porta.
Ah, tanta queixinha, então porque dormem de porta aberta?
Porque situações.
Designadamente aquelas de ele gostar muito de dormir enroscado aos pés da cama, e ninguém resiste, a menos que tenha uma pedra no lugar do coração.
Ó a coija ma'boa, a mimir.
A sério, o bicho é uma delícia, uma fofura. A menos que esteja naqueles momentos de profunda euforia, que são cerca de 75% dos que passa acordado.
Nos restantes 25%, vai-nos receber à porta de casa com marradinhas e roçadelas, adora festas e miminhos, aceita colo e beijinhos no cocuruto, é um guloso que não vira a cara a petisco nenhum, uma companhia adorável.
De repente, dá-lhe a loucura de existir, e está a saltar para cima da bancada da cozinha enquanto alguém tenta preparar uma refeição (posso gabar-me de ser uma pro em pô-lo a andar sem comprometer a higiene de mãos e alimentos; quanto à bancada, bof, não se poisa lá nada que tenha como destino a boca humana, para isso servem as tábuas). Felizmente já lhe passou a mania de saltar para a mesa enquanto jantamos ou pequeno-almoçamos, dêmos graças pelas pequenas bênçãos.
Mas a fruteira continua vazia, sob pena de não haver pêra ou maçã que escape a uma jogatana e venha a ser encontrado num recanto qualquer. Até as malaguetas, jesussenhor, até as malaguetas serviam para a brincadeira (dica da semana: aquelas caixinhas plásticas com fechos de pressão - onde também são guardados os biscoitos catisfaction: menino conseguiu, à força de dente, rebentar duas embalagens e esvaziar o interior. ainda experimentámos um tupperware pequeno, mas nã: sua excelência jogava-o ao chão, abria-se, e banquete. mais esperto que a encomenda.). A nossa vida passou a ser isto: todos os dias entrar em casa e ter uma surpresa à espera. E estas são só as de cozinha.
Porque há as outras. E a verdadeira prova de amor, isto é, o ficar bem assente que gente gosta mesmo, mesmo do bicho, e não há nada que faça que o destine ao tacho? O momento em que ficou claro, clarinho, que não vai ser transformado em estola em consequência de fúria com justa causa? O instante em que percebi que pronto, é mesmo assim, é ter paciência, coerência, insistência na educação, e dias melhores virão? Que não é defeito, é feitio, e podemos trabalhar com isso? Que pronto, 'tá bem, fez esta, é muito mau, mas vou ali enrolar-me em posição fetal e gritar para dentro?
Não, não foi com a insistência em jogar os meus óculos de sol do alto do camiseiro para o chão (passei a poisá-los noutro sítio).
Não foi o planticídio de quase toda a espécie envasada lá de casa (é por os vasos em locais mais altos, e alguns, trazer aqui para a chafarica onde trabalho).
Não foi a mania de, quando era mesmo um piolhito, a meio da noite passar por cima de mim e deitar-se em cima da minha cabeça, não sem antes cardar devidamente a peruca natural que ainda tenho (já passou, já passou).
Não foi o ser um chato mordedor/arranhador, perito em emboscadas a membros inferiores e superiores, que fez de nós umas autênticas velhotas a comparar mazelas (isso? um arranhão? isso não é um arranhão, já viste a minha canela?)
Não foi acordar-nos de madrugada todos, mas todos os sábados e domingos, alguns deles enquanto raspava a porta do roupeiro, dado que descobriu que yay!, é divertidíssimo andar lá dentro a brincar ao esconde-esconde entre pernas de calças e mangas de camisas.
Não foi o ter de esconder todos os carregadores porque, atenta a sua semelhança com fitinhas, acabavam promovidos a brinquedo de perseguir, chutar, mastigar.
Não foi o facto de ter (quase) desistido de usar saia, porque Sua Ruindade achava graça saltar e pendurar-se nas bainhas, ou atacar as pernas já revestidas de collants (hoje vesti. nada a relatar. ufa).
Não foi o ter de me lembrar de só colocar echarpes ou cachecóis só à saída, e tirá-los à entrada, porque fitas, ver supra, imaginar a loucura.
Não foi aquela vez em que, observando me mate a por a gravata (vide assunto fitinhas), lhe saltou ao lombo e rasgou uma camisa (nova, por sinal).
Não foi ter descoberto que roeu o cabo de internet que liga ao portátil.
Não foi o termos, tantas, tantas vezes, uma série ou filme interrompidos porque o demonico resolveu brincar atrás do móvel da tv e desligou o cabo.
Não foi o enésimo rolo de papel higiénico destruído, nem o facto de termos de fechar sempre a porta da casa de banho, e, nunca fiando, deixar o rolo escondido.
Não foi o dar cabo da paciência à Scully com emboscadas constantes (acho que já percebeu que não, não se faz. vá, já não é tão frequente).
Não foi os vasos partidos por estarem no caminho de corridas e saltos, não foi a terra fora dos ditos vasos e o constante varrer da varanda, não foi o ter de encontrar uma solução para não chacinar (também) todas as plantas da varanda.
Não foi o ter roído a minha capa do telemóvel, arrancando ali 1 cm2 da dita; não foi eu ter mandado vir outra capa, que chegou numa sexta (recordo vivamente) em que logo procedi à substituição, para no dia seguinte, logo de manhã, descobrir suaves e ternas marcas de caninos na nova capa.
Não, não foi nada disto.
Foi aquele dia em que percebi que aquele som, aquele que por vezes ouvíamos quando ainda tentávamos - debalde! - roubar mais uns minutos de sono, aquele som que não era bem igual ao raspar no arranhador, mas era tão parecido que, vá, se calhar era na pelúcia da plataforma do arranhador, não era, de facto, causado por unha no dito arranhador. Aquele som, que ainda hoje me persegue, me assombra, aquele réc! súbito, aquele som era um estertor agonizante do cortinado*.
.
.
.
A sério, se eu não o matei nesse dia, não mato nunca.
Mas quando se porta bem (já disse?) é tão fofinho, tão querido. Ó.
*graçádeuz são cortinas duplas, e a mais grossinha, de seda, é forrada; Sir Unhaifas não atingiu o tecido. a mais translúcida, uma rede fininha que pelos vistos estava mesmo a pedi-las, nem a alma se aproveita. eu gostava mesmo daquele conjunto de cortinas. suspiros. choro. soluços.
Não, não, Max é vivo - e nota-se - e é Mad, Mad as hell, Mad as a hatter, e não foi por inalação ou contacto com chumbos ou o caneco.
Mad Max vive e gosta disso. E de o demonstrar. Basta o anúncio do nascer do dia, a mais fina réstia de luz, e lá está ele, a anunciar alegria de viver. Não, não se dorme, naquela casa. Não podemos, não estamos autorizados; pelo menos antes de algum de nós vencer o estupor do sono e levantar-se, por o bicho fora do quarto, e fechar a porta.
Ah, tanta queixinha, então porque dormem de porta aberta?
Porque situações.
Designadamente aquelas de ele gostar muito de dormir enroscado aos pés da cama, e ninguém resiste, a menos que tenha uma pedra no lugar do coração.
Ó a coija ma'boa, a mimir.
A sério, o bicho é uma delícia, uma fofura. A menos que esteja naqueles momentos de profunda euforia, que são cerca de 75% dos que passa acordado.
Nos restantes 25%, vai-nos receber à porta de casa com marradinhas e roçadelas, adora festas e miminhos, aceita colo e beijinhos no cocuruto, é um guloso que não vira a cara a petisco nenhum, uma companhia adorável.
De repente, dá-lhe a loucura de existir, e está a saltar para cima da bancada da cozinha enquanto alguém tenta preparar uma refeição (posso gabar-me de ser uma pro em pô-lo a andar sem comprometer a higiene de mãos e alimentos; quanto à bancada, bof, não se poisa lá nada que tenha como destino a boca humana, para isso servem as tábuas). Felizmente já lhe passou a mania de saltar para a mesa enquanto jantamos ou pequeno-almoçamos, dêmos graças pelas pequenas bênçãos.
Mas a fruteira continua vazia, sob pena de não haver pêra ou maçã que escape a uma jogatana e venha a ser encontrado num recanto qualquer. Até as malaguetas, jesussenhor, até as malaguetas serviam para a brincadeira (dica da semana: aquelas caixinhas plásticas com fechos de pressão - onde também são guardados os biscoitos catisfaction: menino conseguiu, à força de dente, rebentar duas embalagens e esvaziar o interior. ainda experimentámos um tupperware pequeno, mas nã: sua excelência jogava-o ao chão, abria-se, e banquete. mais esperto que a encomenda.). A nossa vida passou a ser isto: todos os dias entrar em casa e ter uma surpresa à espera. E estas são só as de cozinha.
Porque há as outras. E a verdadeira prova de amor, isto é, o ficar bem assente que gente gosta mesmo, mesmo do bicho, e não há nada que faça que o destine ao tacho? O momento em que ficou claro, clarinho, que não vai ser transformado em estola em consequência de fúria com justa causa? O instante em que percebi que pronto, é mesmo assim, é ter paciência, coerência, insistência na educação, e dias melhores virão? Que não é defeito, é feitio, e podemos trabalhar com isso? Que pronto, 'tá bem, fez esta, é muito mau, mas vou ali enrolar-me em posição fetal e gritar para dentro?
Não, não foi com a insistência em jogar os meus óculos de sol do alto do camiseiro para o chão (passei a poisá-los noutro sítio).
Não foi o planticídio de quase toda a espécie envasada lá de casa (é por os vasos em locais mais altos, e alguns, trazer aqui para a chafarica onde trabalho).
Não foi a mania de, quando era mesmo um piolhito, a meio da noite passar por cima de mim e deitar-se em cima da minha cabeça, não sem antes cardar devidamente a peruca natural que ainda tenho (já passou, já passou).
Não foi o ser um chato mordedor/arranhador, perito em emboscadas a membros inferiores e superiores, que fez de nós umas autênticas velhotas a comparar mazelas (isso? um arranhão? isso não é um arranhão, já viste a minha canela?)
Não foi acordar-nos de madrugada todos, mas todos os sábados e domingos, alguns deles enquanto raspava a porta do roupeiro, dado que descobriu que yay!, é divertidíssimo andar lá dentro a brincar ao esconde-esconde entre pernas de calças e mangas de camisas.
Não foi o ter de esconder todos os carregadores porque, atenta a sua semelhança com fitinhas, acabavam promovidos a brinquedo de perseguir, chutar, mastigar.
Não foi o facto de ter (quase) desistido de usar saia, porque Sua Ruindade achava graça saltar e pendurar-se nas bainhas, ou atacar as pernas já revestidas de collants (hoje vesti. nada a relatar. ufa).
Não foi o ter de me lembrar de só colocar echarpes ou cachecóis só à saída, e tirá-los à entrada, porque fitas, ver supra, imaginar a loucura.
Não foi aquela vez em que, observando me mate a por a gravata (vide assunto fitinhas), lhe saltou ao lombo e rasgou uma camisa (nova, por sinal).
Não foi ter descoberto que roeu o cabo de internet que liga ao portátil.
Não foi o termos, tantas, tantas vezes, uma série ou filme interrompidos porque o demonico resolveu brincar atrás do móvel da tv e desligou o cabo.
Não foi o enésimo rolo de papel higiénico destruído, nem o facto de termos de fechar sempre a porta da casa de banho, e, nunca fiando, deixar o rolo escondido.
Não foi o dar cabo da paciência à Scully com emboscadas constantes (acho que já percebeu que não, não se faz. vá, já não é tão frequente).
Não foi os vasos partidos por estarem no caminho de corridas e saltos, não foi a terra fora dos ditos vasos e o constante varrer da varanda, não foi o ter de encontrar uma solução para não chacinar (também) todas as plantas da varanda.
Não foi o ter roído a minha capa do telemóvel, arrancando ali 1 cm2 da dita; não foi eu ter mandado vir outra capa, que chegou numa sexta (recordo vivamente) em que logo procedi à substituição, para no dia seguinte, logo de manhã, descobrir suaves e ternas marcas de caninos na nova capa.
Não, não foi nada disto.
Foi aquele dia em que percebi que aquele som, aquele que por vezes ouvíamos quando ainda tentávamos - debalde! - roubar mais uns minutos de sono, aquele som que não era bem igual ao raspar no arranhador, mas era tão parecido que, vá, se calhar era na pelúcia da plataforma do arranhador, não era, de facto, causado por unha no dito arranhador. Aquele som, que ainda hoje me persegue, me assombra, aquele réc! súbito, aquele som era um estertor agonizante do cortinado*.
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A sério, se eu não o matei nesse dia, não mato nunca.
Mas quando se porta bem (já disse?) é tão fofinho, tão querido. Ó.
*graçádeuz são cortinas duplas, e a mais grossinha, de seda, é forrada; Sir Unhaifas não atingiu o tecido. a mais translúcida, uma rede fininha que pelos vistos estava mesmo a pedi-las, nem a alma se aproveita. eu gostava mesmo daquele conjunto de cortinas. suspiros. choro. soluços.
quarta-feira, 9 de maio de 2018
Passa-se que
Depois de uns dias em que pude andar com o meu trajo preferido de camisa-calça-sapato ou, na versão fim-de-semana, camisa-jean-téne (sou originalíssima, já sei, mas ainda acrescento o pormenor tchanam de uma echarpe, hã), tenho outra vez frio, e voltei ao casaquinho de malha. Chugs.
A Rua de Angola continua fechada, e faz-me muito transtorno. Principalmente porque continuo a esquecer-me que a Rua de Angola está fechada, e a insistir a entrar no bairro por ali. A sair lembro-me, vá lá, mas a alternativa, também, venha o diabo e escolha.
Continuando bairrista, ainda não consegui averiguar se foi a churrascaria Cova da Beira que ardeu ou outra coisa lá ao pé. A minha velhota cusca interna anda que nem pode.
Falando em velhota, nunca mais vimos a senhora e respectiva cadelinha com que nos cruzávamos todas as manhãs. Tomara esteja(m) bem.
Finalmente, depois de mais de um mês a adiar a coisa porque ir a superfícies comerciais comprar grandes electrodomésticos dá-me seca, já se tratou da máquina da loiça e, aproveitando, da roupa. Foram 17 anos de bom serviço, paz às suas almas. O chato é que os senhores que foram entregar, recolher e instalar avisaram que aqueles canos de escoamento, nã, muito provavelmente não aguentam a pressão destas máquinas novas. Ou seja, o esfregão e fairy continuam a uso, e ainda bem que fizemos máquinas de roupa no fim-de-semana. Double chugs.
Voltando às vantagens bairristas, o que vale é que me lembro, assim de repente, de três lojinhas de bairro onde simpáticos prestadores de serviços tratam destas merdinhas. Yay.
No tema de máquinas de 17 anos, recordo que, quando há 15 fui para ali, as pessoas que calhava quererem informar-se do meu novo local de habitação tinham uma não entusiástica reacção do tipo "aahhh... moras aí???". Actualmente, parece que a zona foi promovida a "centro histórico", e tenho de estar mazé caladinha e não me queixar se foi invadida de alojamentos locais, turistas de pé descalço, muito mais lixo, trânsito, o infernal barulho de rodinhas na calçada, e alegres confraternizações ébrias de magotes de visitantes. Sim senhor, mais reabilitação, duas lojas auchan, um lidl todo remodeladinho e bonito, as pessoas já dizem "Ah! Moras aí!", mas,ainda assim.Diz que é o mercado, e traz dinheiro, mas ainda não consigo perceber como é que um andar alto, sem elevador, a precisar de remodelação total, se vende a muito mais do que custou mi casita. E haver ali perto um último andar (grandito, verdade, mas... último. andar. escadas.) a mais de um milhão é coisa para me deixar perplexa. Uns dizem progresso, eu respondo bolha, vamos ver quem tem razão. Sinto-me uma irredutível gaulesa, cercada de romanos, e a recusar capitular. Sem poção mágica.
Ah, tenho um AL no andar de baixo. Primeiros hóspedes asiáticos, nem se dava por eles. Aguardo impante e com ansiolíticos de reserva os hunos. O que vale é que temos mangueira. E cocó de gato com fartura. Guerrilha urbana, o último recurso do habitante (d)esquecido e ostracizado. Afinal, talvez tenha poção mágica.
quinta-feira, 3 de maio de 2018
[resumidamente]
Desde quinta/sexta passada a rapar frio, e a fazer de conta que tudo bem. Não, não vou ligar radiadores em Maio. Mas já voltei ao casaquinho de fazenda.
Membros de partido que devia ter melhor orientação moral começam a admitir, publicamente, que não, não é ok que uma pessoa que exerça cargo público de governação viva de "mesada" dada por terceiros, nem por um acaso com valentes interesses privados. Demorou, hein? Chiça. Mas olhem que eu não esqueço estes anos todos a assobiar para o lado.
Lisboa está impossível. Já não punha os pés na Baixa há meses, mas tive que lá ir uns dias seguidos (trabalho, bof) e fiquei um nadinha (mal) impressionada. Para lupanar não está mal, os fregueses querem lá saber se o circo é genuíno ou a barraca foi montada à pressa e com lona made in China, para lhes agradar. O que ainda me consola é que (até hoje) não vi portugueses a comer pastéis de bacalhau com queijo da serra, ou a comprar conservas naquelas baiucas muito retro-neon que abriram na Rua dos Fanqueiros - e uma delas com um nome perigosamente parecido com o da original. O que também não é novo: a tal dos pastéis com queijo ostentava uma placa que dizia "since 1942", se não me engano, e na Rua Augusta abriu uma pastelaria que responde por qualquer coisa como "Fábrica dos Pastéis de Nata", se calhar a tentar confundir com esta. E, logo ao lado, uma pastelaria que por acaso já existe há décadas, e sempre exibiu uma montra boleira de fazer água na boca, adiante. Tive a breve alegria de ver duas orientais com pastéis da Manteigaria, ao menos estas não foram ao engano. Ao contrário dos muitos totós que ainda frequentam as inúmeras lojas de souvenires a transbordar de imitação rasca de azulejo / cerâmica / cortiça, ou os restaurantes todos pimpões onde podem degustar massas e pizzas congeladas. Fuck them: se não se informam, também não merecem melhor. Já não saio de cá desde 2015, e já não tenho muita vontade. Ganhei vergonha de ser turista. Embora sempre tente portar-me normalmente, não chatear, não atravancar, não incomodar, a verdade é que não deixo de ser barata. Maldita seja esta auto-consciência.
Para acamar e acabar bem, tomei recentemente conhecimento de que existe uma coisa, ou comunidade, ou conjunto de "pessoas" (aspas propositadas) que se auto-intitulam incel, e o que os motiva, o que defendem (ou do que se queixam), e o que reivindicam. Não tinha esta sensação de vómito e sufoco desde que li The Handmaid's Tale, no ano passado. Sim, sim, o feminismo já não faz sentido nas sociedades avançadas de primeiro mundo. Um valente pirete para quem se atreva a viver cego, tendo olhinhos para ver e cérebro para entender.
quinta-feira, 26 de abril de 2018
E o que é que se faz?
Not much. Fora o trabalho, o soninho, as arrumações de primavera (que já começaram há atrasado, mas, como sempre, a passo de caracol), o estar cansada como se fosse véspera de férias.
Nos entretantos, vai sobrando tempo - uma horita, vá - para, antes da deita, ver qualquer coisa. E o quê, o quê, nossa gurua televisiva (querias)?
No campo do vê-se muito bem, é divertido e dá para mamar dois de seguida, Black-ish, a última temporada dos Simpsons a aterrar na Fox, e espera-se pela segunda parte da temporada 5 de The Goldbergs.
No campo do gostei da primeira, agora vamos lá a ver se mantém a pedalada, Westworld, que, graçádeuz mantém o Jeffrey Wright, um actor do caraças. Não matem o Bernard, por amor da santa.
No campo do vi o primeiro e promete, Barry.
No campo do ai ca nervos, ai não consigo ver, ai que tenho de ver, ai que grandes, grandes nervos, a que acumula um elenco do caraças, uma história do caracinhas, e um ritmo tão mas tão inquietante, The Terror, que deve ser a coisinha ma'boa que já nos passou no tubisor desde há muito.
E é isto.
Entretanto, e porque me mate mal soube começou a bater palminhas como um catraio e eu não sou pessoa de o deixar ir a coisas destas sozinho, vamos ver estevelhote lenda (por enquanto) viva:
Nos entretantos, vai sobrando tempo - uma horita, vá - para, antes da deita, ver qualquer coisa. E o quê, o quê, nossa gurua televisiva (querias)?
No campo do vê-se muito bem, é divertido e dá para mamar dois de seguida, Black-ish, a última temporada dos Simpsons a aterrar na Fox, e espera-se pela segunda parte da temporada 5 de The Goldbergs.
No campo do gostei da primeira, agora vamos lá a ver se mantém a pedalada, Westworld, que, graçádeuz mantém o Jeffrey Wright, um actor do caraças. Não matem o Bernard, por amor da santa.
No campo do vi o primeiro e promete, Barry.
No campo do ai ca nervos, ai não consigo ver, ai que tenho de ver, ai que grandes, grandes nervos, a que acumula um elenco do caraças, uma história do caracinhas, e um ritmo tão mas tão inquietante, The Terror, que deve ser a coisinha ma'boa que já nos passou no tubisor desde há muito.
E é isto.
Entretanto, e porque me mate mal soube começou a bater palminhas como um catraio e eu não sou pessoa de o deixar ir a coisas destas sozinho, vamos ver este
segunda-feira, 23 de abril de 2018
sexta-feira, 20 de abril de 2018
Where do they all belong?
À conta do tema e cumbersé no post abaixo, musicóles para aqui, musicóles para ali, dei por mim num momento facepalm ao me dar conta que esqueci de mencionar (e com as devidas honras) aquele que é talvez!, quiçá!, o filme musical que mais me influenciou, marcou, emocionou, alegrou, e cujos temas ainda hoje cantarolo tantas vezes nesta cabecita de vento.
Sim, sim, o Yellow Submarine. Não faço ideia da idade que teria quando o vi pela primeira vez, mas era criança, não teria ainda dez anos, julgo, foi de certeza no tempo dos dois canais de tv. Fui levada por um conjunto de factores que eram total e completamente enganosos: desenhos animados + cantoria, ainda por cima dos Beatles (tooooda a gente sabia quem eram os Beatles, tooooda a gente já tinha ouvido uma ou cinco deles, toooda a gente gostava dos Beatles, incluindo a minha heroína de papel, a Mafaldinha). Tinha que ver, e fiquei a ver.
E tau, não era nada, nada o que esperava. Os desenhos, pá, os desenhos animados não eram nada do costume! Mesmo para uma garota habituada a todos os experimentalismos koniec apresentados pelo querido Vasco Granja, e que já levava no curriculum inúmeras visualizações de O Bichinho Gaspar (ainda alguém se lembra deste desenho animado?), a coisa mais fora que já tinha visto, aquilo era muito, muito bizarro. Muito colorido e histriónico, ou como sei agora, psicadélico. Que raios. Mas agarrou-me logo, não sei se graças aos Blue Meanies, se à Glove, dear Glove. E depois aquele pedaço mágico, em que o submarino entra num mundo real de recortes monocromáticos e em movimento aflitivamente repetitivo, e entra o Eleanor Rigby. Céus, alguma coisa acordou e nunca mais adormeceu em mim. All the lonely people. All the lonely people. De onde vêm, onde pertencem. E a música, credo, a música, a coisa mais bela, melódica, una de sempre. Uma sinfonia à e de solidão.
Havia quem soubesse de nós, quem percebesse estas existências. A dos eternamente sós num lugarzinho dentro de si. Que não sabem de onde vêm, para onde vão, onde pertencem. Num mundo de bulício e rebuliço estridente, a constante da solidão.
Parece triste, mas não é. Não é triste que uma garota tão nova soubesse identificar o sentimento, passados todos estes anos sei que não seria, decerto, caso único. E não é triste porque naquela música encontra-se conforto, o calor do reconhecimento. Além de que, apesar de all the lonely people, há uma casa onde um capitão de marinha bate à porta, gritando help!, help!, e onde recebe de resposta thanks, we don't need any. Ainda hoje me rio, só de pensar nessa cena. E há um submarino (amarelo!), uma missão de salvamento - que no caminho também inclui salvar um nowhere man que também reconhecemos e tememos um dia sejamos nós - uma terra de onde foi abolida a alegria e a música, mas esta volta graças à Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, YAY!, os Blue Meanies derrotados. E continuam a ser derrotados, hoje e sempre, nem que seja à força, à bruta, ao estalo. E pode-se sempre começar com esta aqui, do mesmo bando de despenteados. Recomendo vivamente. It's all in the mind, dizia o George no filme, e a mind é nossa, fazemos com ela o que nos apetecer, ora.
Sim, sim, o Yellow Submarine. Não faço ideia da idade que teria quando o vi pela primeira vez, mas era criança, não teria ainda dez anos, julgo, foi de certeza no tempo dos dois canais de tv. Fui levada por um conjunto de factores que eram total e completamente enganosos: desenhos animados + cantoria, ainda por cima dos Beatles (tooooda a gente sabia quem eram os Beatles, tooooda a gente já tinha ouvido uma ou cinco deles, toooda a gente gostava dos Beatles, incluindo a minha heroína de papel, a Mafaldinha). Tinha que ver, e fiquei a ver.
E tau, não era nada, nada o que esperava. Os desenhos, pá, os desenhos animados não eram nada do costume! Mesmo para uma garota habituada a todos os experimentalismos koniec apresentados pelo querido Vasco Granja, e que já levava no curriculum inúmeras visualizações de O Bichinho Gaspar (ainda alguém se lembra deste desenho animado?), a coisa mais fora que já tinha visto, aquilo era muito, muito bizarro. Muito colorido e histriónico, ou como sei agora, psicadélico. Que raios. Mas agarrou-me logo, não sei se graças aos Blue Meanies, se à Glove, dear Glove. E depois aquele pedaço mágico, em que o submarino entra num mundo real de recortes monocromáticos e em movimento aflitivamente repetitivo, e entra o Eleanor Rigby. Céus, alguma coisa acordou e nunca mais adormeceu em mim. All the lonely people. All the lonely people. De onde vêm, onde pertencem. E a música, credo, a música, a coisa mais bela, melódica, una de sempre. Uma sinfonia à e de solidão.
Havia quem soubesse de nós, quem percebesse estas existências. A dos eternamente sós num lugarzinho dentro de si. Que não sabem de onde vêm, para onde vão, onde pertencem. Num mundo de bulício e rebuliço estridente, a constante da solidão.
Parece triste, mas não é. Não é triste que uma garota tão nova soubesse identificar o sentimento, passados todos estes anos sei que não seria, decerto, caso único. E não é triste porque naquela música encontra-se conforto, o calor do reconhecimento. Além de que, apesar de all the lonely people, há uma casa onde um capitão de marinha bate à porta, gritando help!, help!, e onde recebe de resposta thanks, we don't need any. Ainda hoje me rio, só de pensar nessa cena. E há um submarino (amarelo!), uma missão de salvamento - que no caminho também inclui salvar um nowhere man que também reconhecemos e tememos um dia sejamos nós - uma terra de onde foi abolida a alegria e a música, mas esta volta graças à Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, YAY!, os Blue Meanies derrotados. E continuam a ser derrotados, hoje e sempre, nem que seja à força, à bruta, ao estalo. E pode-se sempre começar com esta aqui, do mesmo bando de despenteados. Recomendo vivamente. It's all in the mind, dizia o George no filme, e a mind é nossa, fazemos com ela o que nos apetecer, ora.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Como perder duas horas e oito minutos desta já curta vida
Empenhem-se num acto de fé, daqueles tipo "caraças, havia boas críticas e até foi nomeado", e vejam o La La Land.
Que. Grandecíssima. Seca. E. Refinadíssima. Bosta.
Lá a ver, às postas, pequeninas, a ver se consegue mastigar melhor.
"Ai, é uma história menita e remântica".
Então não é. Está para a complexidade dramática e romântica como aquelas novelas em papel jornal da colecção Arlequim*. Passo.
"Ai, tem o Ryan Gosling e a Emma Stone, e fazem um casal tan menito".
Sim senhora, o Ryan é um belo exemplo do seu género, mas para quem já mostrou do que é capaz em "Lars e e Verdadeiro amor", não sei que lhe deu para se meter nisto. E há pares de jarras também muito lindos, o que não significa que façam uma boa decoração.
"Ai, tu és mazé uma intelequetualoide e não gostas é de musicóles"
Ai não que não gosto. Até mais do que seria decente confessar. Admito: sou uma parolona por musicais. Vem-me de miúda: já vi o "Música no Coração" tantas vezes que nem as consigo contar. E trauteio o My Favorite Things em situações críticas da vida, não necessariamente trovoada, gosto de trovoada. E canto muitas vezes a me mate "How do You Solve a Problem Like Maria", quando ele asneira. E nem me façam lembrar do Mary Poppins, que nunca mais saio daqui. E depois vocês precisavam de uma Spoon full of Sugar para ler o post até ao fim.
"Ai, não percebestes nada, é uma homenagem, um back memory lane, de quando Óliuode era um sítio para sonhar e assim"
Uma homage, dizeis vós? (puxa fumaça do cachimbo imaginário). Ó valhamedeuz. Homenagem era as pessoas conhecerem os clássicos onde este pretende colar, ou, como dizeis, homenagear, para verem que é como oferecer um molhinho de trevos e azedas a quem tem um roseiral. Mas já lá vamos.
"Ai, a música é muita winda, e as cenas de dança também"
Drogais-vos? Ou nunca visteis um musical a sério, foi? Já disse que sou uma parolona (embora não necessariamente uma especialista) por musicais? E que passei muita féria escolar a papar Fred Astaire e Ginger Rogers? Sapatear é isto. E isto, se quisermos avançar para a outra lenda, Gene Kelly. E quereis mais romântico, e com música que, por si só, é um regalo? Então pegai no balde de pipocas e gritai Kelly!, Gershwin! Isto sim, é romântico. E se não amais por aí além a dança, que tal a natação? Yay Esther Williams!
Agora a sério, qual homage? Amerdalharam os clássicos, isso sim. Ou tentaram, que não se consegue.
E se não sois de lamechices, bom, não falta escolha. Também temos o bizarro. O musical no ácido - e acho que não é só figurativamente - como este (não encontro nenhum clip completo , buá), com a assinatura Brian de Palma. Se quiserem um bizarro mais user friendly, mais icónico e não tão obscuro, bom, é dar uma chance ao Dr. Frank-N-Furter, tão bom, pá.
Até o Chicago, nem que seja pelo Cell Block Tango, dá quinze a zero a este La La Blah.
*sim, eu li uma. por pura curiosidade. gasto muito mal o tempo que me foi dado nesta existência. mas ópois estou habilitada a dizer mal. que estou.
Que. Grandecíssima. Seca. E. Refinadíssima. Bosta.
Lá a ver, às postas, pequeninas, a ver se consegue mastigar melhor.
"Ai, é uma história menita e remântica".
Então não é. Está para a complexidade dramática e romântica como aquelas novelas em papel jornal da colecção Arlequim*. Passo.
"Ai, tem o Ryan Gosling e a Emma Stone, e fazem um casal tan menito".
Sim senhora, o Ryan é um belo exemplo do seu género, mas para quem já mostrou do que é capaz em "Lars e e Verdadeiro amor", não sei que lhe deu para se meter nisto. E há pares de jarras também muito lindos, o que não significa que façam uma boa decoração.
"Ai, tu és mazé uma intelequetualoide e não gostas é de musicóles"
Ai não que não gosto. Até mais do que seria decente confessar. Admito: sou uma parolona por musicais. Vem-me de miúda: já vi o "Música no Coração" tantas vezes que nem as consigo contar. E trauteio o My Favorite Things em situações críticas da vida, não necessariamente trovoada, gosto de trovoada. E canto muitas vezes a me mate "How do You Solve a Problem Like Maria", quando ele asneira. E nem me façam lembrar do Mary Poppins, que nunca mais saio daqui. E depois vocês precisavam de uma Spoon full of Sugar para ler o post até ao fim.
"Ai, não percebestes nada, é uma homenagem, um back memory lane, de quando Óliuode era um sítio para sonhar e assim"
Uma homage, dizeis vós? (puxa fumaça do cachimbo imaginário). Ó valhamedeuz. Homenagem era as pessoas conhecerem os clássicos onde este pretende colar, ou, como dizeis, homenagear, para verem que é como oferecer um molhinho de trevos e azedas a quem tem um roseiral. Mas já lá vamos.
"Ai, a música é muita winda, e as cenas de dança também"
Drogais-vos? Ou nunca visteis um musical a sério, foi? Já disse que sou uma parolona (embora não necessariamente uma especialista) por musicais? E que passei muita féria escolar a papar Fred Astaire e Ginger Rogers? Sapatear é isto. E isto, se quisermos avançar para a outra lenda, Gene Kelly. E quereis mais romântico, e com música que, por si só, é um regalo? Então pegai no balde de pipocas e gritai Kelly!, Gershwin! Isto sim, é romântico. E se não amais por aí além a dança, que tal a natação? Yay Esther Williams!
Agora a sério, qual homage? Amerdalharam os clássicos, isso sim. Ou tentaram, que não se consegue.
E se não sois de lamechices, bom, não falta escolha. Também temos o bizarro. O musical no ácido - e acho que não é só figurativamente - como este (não encontro nenhum clip completo , buá), com a assinatura Brian de Palma. Se quiserem um bizarro mais user friendly, mais icónico e não tão obscuro, bom, é dar uma chance ao Dr. Frank-N-Furter, tão bom, pá.
Até o Chicago, nem que seja pelo Cell Block Tango, dá quinze a zero a este La La Blah.
*sim, eu li uma. por pura curiosidade. gasto muito mal o tempo que me foi dado nesta existência. mas ópois estou habilitada a dizer mal. que estou.
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