segunda-feira, 19 de março de 2018

Assessoria on steroids

Mamãe teve a gentileza de me informar que, da próxima vez que pretender trocar de carro, vai comigo. Não foi bem assim, mas adoro um bom e retumbante eufemismo. A conversa nem era sobre carros, mas sobre trânsito; eu constato que mesmo com os violentos aguaceiros da semana passada o pessoal muda de fila de trânsito sem pisca, se encosta, força entradas, e ouço um "quando fores comprar outro carro vou contigo".

Não é preciso muita hermenêutica, apenas conhecer a interlocutora (47 anos de experiência, e devia ser curriculum relevante) para perceber que a) não, não era uma oferta de companhia, para o caso de me sentir sozinha e ignorada num stand; b) não, não era uma oferta de ajuda para um evento a longo prazo e/ou hipotético (o último veículo foi trocado com dez anos, ainda falta um pedaço para este chegar lá); c) e não - esta até poderá ser surpreendente - era uma demonstração de falta de confiança na minha capacidade de entender mecanês transmitido via comercialês.

O que mamãe quis dizer, muito resumidamente: a) tens de trocar de carro, depressinha; b) eu vou contigo, para não voltares a fazer asneira. E a asneira nem é comprar uma viatura automóvel a) acima das minhas possibilidades, que sou brutalmente forreta com carros; b) que não preste, apesar de, até ao presente, ter tido sempre muito azar nos lemons que me calharam; c) escolher uma cor feia. Não. O que senhora minha mãe quer é que eu compre um carro a "sério", por oposição às caixinhas de fósforos por que insisto em me apaixonar. Sim, para mamãe um yaris entra nessa categoria. Para mim representou um compromisso por um carro de "pessoa crescida", ou seja, cansativamente indistinto, banalmente citadino, aborrecidamente prático. O que eu queria, mas queria mesmo, era um Fiat 600! Fofão. Lindão. De cor menta. Não! 'marelo. Não! 'zul cueca. Mas lá está, sou uma pessoa crescida, a casa não tem arrecadação, e preciso de uma bagageira onde caibam as embalagens de skip compradas a 60%, mais o amaciador em promoção, o carrinho de transporte, cangalhada vária, uma ou duas sacas de areia dos bichos, e ainda dê para enfiar as compras da semana. Não podia ser. Fui-me então à toyota, com o coração a arrastar pela calçada; lá chegada, obriguei-me a cortejar o yaya, mas sempre de olhinho grande, cobiçoso, no aygozinho, ai tan giro, ai tan mimosinho, ai tan compactozinho, ai tan fonfon. Enchi-me de força, porque já sou cres-ci-da!, e pronto, tratei do assunto. Saída do strand, ainda fui dar umas miradas tristes na montra em frente, que o opelzinho adam é tan crido, ó, com duas corzinhas, coijinha má-boa. Mas mantive a verticalidade, o propósito: comprei o sacana chato e aborrecente.

E, nem dois anos corridos, já andava a salivar pelo meu antigo smart, que me deu tanto desgosto e despesa. Ou antes, pelo novo smart, ai que 'tá tan mais giro, ai que este é que era. Nem falando do mini, que entretanto transformaram numa banheira sensaborona, e aliás já era caro demais para a popó-forreta. Eu quero é um carro giro. Pronto. Sou veículo-adolescente. Eu quero é um boguinhas, um me-mobile, um besugo ágil e pucanitcho, uma coisa que não seja igual a 2.167 outros estacionados no mesmo piso da superfície comercial.

E agora surge mamãe, que após aquela inusitada interpelação, completou: precisas de um carro sólido, que te proteja. Pânico. Mamãe imagina-me numa banheira, se calhar daquelas de hidromassagem a que se chama suv. De repente sou de novo a chavalita de 15 anos, a argumentar com a progenitora nos provadores de Os Porfírios: não, mãe, eu gosto é disto, não, mãe, esse é colorido demais, não, mãe, o preto usa-se sempre. Ó mãe. Pá. Que chata, pá. Deixa-me 'tar.



quarta-feira, 14 de março de 2018

Aaaaaaaaaaaai a minha vida



Fosse eu pessoa de fé, e já tinha uma fortíssima candidata a santa padroeira: Nossa Senhora da Asneira.
Aliás, mesmo não sendo pessoa creste, e muito menos devota, começo a acreditar que existe esta santinha, e é ela a responsável por tudo, tudo!, o que esta pobre macaca erecta e letrada tem sofrido nos últimos tempos.
Não há condições. R'almente. A uns sai o euromilhões, outros fazem carreira montados em CV que são obras de ficção (e mestrados com umas conclusões escritas pelo senhor que estava no banco do lado no autocarro, aquele senhor que é disléxico com vírgulas mas consegue elaborar um parágrafo onde não diz absolutamente nada e onde encaixa várias palavras de sete e quinhentos), e eu aqui, ó, enterrada em papel, e ora cercada por gente que parece ter saído do casting dos Sopranos, ou acossada pelo gémeo ainda pior do Gordon Gekko, ou então tenho sorte, e apenas me calha um molhinho de Looney Tunes. Ou os chimpazés do 2001, ainda não tenho a certeza.


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Redículas

Sabem aquelas pessoas, já ouviram falar, que têm pacotes de bolachas e snacks tipo twix e toffee crisp nas gavetas do trabalho, e logo em packs económicos de três ou quatro, que já não lhes faltava serem lambaronas ainda são pechinchonas, e depois comem aquilo e guardam os invólucros na mala, para jogar no lixo em casa ou numa papeleira na rua, porque têm vergonha que a empregada da limpeza os veja e pense mal delas? Sabem? Ouviram falar? Ahahahahahahah, pois é.
Não conheço nenhuma.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Post com banda sonora*

*é esta. escuso-me a reproduzir o títalo no títalo do post porque eles andem pedalem aí, e o google e não sei quê, ainda me cai aqui a pandilha, com um not all cyclists, e hoje não me apetece


Sinto-me ofendida. Pior: estou profundamente sentida. Sinto-me sentida, portanto. Magoada, traída, espezinhada.
Eu explico: durante aqueles meses de puro inferno em que duraram as obras nas Avenidas Novas, tempos obscuros que se não levaram a um suicídio em massa em plena hora de ponta, nada levará, eu era daquelas que, em oposição à (passe a redundância) oposição direitolas, defendia com unhas e dentes a construção de ciclovias.
"Ah, ninguém anda de bicicleta em Lisboa, nunca vi", e eu "ó que andam, e havendo condições, mais andarão"; "e agora onde é que a gente estaciona, tiraram-nos o espaço para dar aos ciquelistas!", e eu "estacionam no parque, pagam e não bufam, ou, sendo demasiado sovinas para isso, estacionam na rameira que vos deu à luz, a rua é de todos".
Seguiu-se novo coro de aflitos quando se soube que a Câmara ia gastar numa cena de bicicrétes partilhadas: "Só gastam dinheiro em ilusões, não há ciclistas, nunca os vi!", e isto quando nas Avenidas Novas não faltam oculistas que tratam destes problemas.
Passado mais de um ano, há ciquelistas às paletes, ao fim de semana ainda mais, e as biclas-gira estão sempre numa roda viva. Sucesso, portanto. Yay, pensei eu. Menos um cidadão na estrada ou no metro, que é onde eu me transporto. Sim, sou interesseira.
Até ao dia em que nos vemos ali rés-vés de causar a morte ou sérios ferimentos a um ciquelista. E por culpa dele, o que não me iria acalmar e conciliar o sono.
Já perdi a conta, senhores e senhoras, às vezes em que fiquei com o coração prestes a saltar pela boca. Rodinhas em contra-mão: sim. Ciclos a passar vermelhos: confirmo. Pedalinhos a atravessar a estrada em cima da bicla e dando ao pedal,  às vezes com vermelho para peões: olaré. Se em sítios sem ciclovia já é mau, em locais com essa via + sinais para ciclistas + passadeiras para o mesmo público alvo, é indefensável. Eu sei que o Código não os obriga mas, pá, fazer toda uma artéria a 20 à hora, atrás de uma ciclototó, quando tinha uma cilcovia ali ao lado, e das boas... não. Já apitei a um, o palhaço a lixar o trânsito todo, e a ciclovia, livre, desimpedida, ali a dois metros. O animal ficou muito zangado, e teve oportunidade de mo dizer quando fiquei a par, para o ultrapassar, e lhe disse para ir para a ciclovia, ó palerma, arrancando de seguida e legando-lhe as minhas melhores emissões de combustível fóssil. E depois houve aquele que vinha largado, no passeio, e atravessou pedalando numa passadeira só de peões... eu travei a tempo porque já o tinha debaixo de olho, e não confio no discernimento de ninguém. Levou apitadela, mas ainda me mandou estudar o Código. Sim, à única pessoa em causa que comprovadamente fez o respectivo exame, e passou.
A última foi ontem. Animal devidamente fardado com aquele fato-macaco de lycra, vem na ciclovia, e o meu sinal aberto. Não sei porquê - aliás, sei: não confio no discernimento de ninguém, e os ciquelistas não precisam de um atestado para saber se são daltónicos - mas fiquei com a impressão que não ia parar. Não parou, semáforo de biclas vermelho, vermelhão. Até podia jurá-lo, não se desse o caso de ter olhado, a confirmar: é um sítio que conheço bastante bem, e quando abre o verde para a lateral, está também aberto o vermelho-ciquelista. Graças à minha falta de fé na espécie, ao facto de ir a uns 20/30 à hora, consegui parar, e apitei. Ficou muito zangado, barafustou, e ainda mais se alterou quando lhe fiz o sinal universal de "deves ser ceguinho" (mão aberta a passar em frente aos olhos). Caso lhe batesse fornicava-lhe o fémur, pelo menos. Se ele me batesse, além de ficar todo tortinho ainda me lixava a lateral. Com ou sem razão, eu não me safava de me ser levantado um auto, e aberto um inquérito crime. Inerentes dores de cabeça. Estragos no meu carro? Lá iriam para os danos próprios que eu pago, que esta gente só tem direitos, deveres - carta?; seguro? - nicles.

E é isto. Estou a pensar rever a minha bonomia relativamente ao ciclo-transporte. É que na minha escala de rodo-desastres, estão ali vai não vai de destronar os táxistas; e já ultrapassaram, ó, ao tempo, os peões que atravessam olhando para o telemóvel.
Falta pouco para me plantar em frente a um ministério qualquer, a exigir a terraplanagem das prostitutas das ciclovias, e degredo de todos os praticantes.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

E não nos conhecemos d'ontem

Já é a segunda (ou terceira, já perdi a conta) vez que a minha operadora me liga, para informar que vão premiar a minha fidelidade e longa relação comercial com seis meses de sport tv à borla, basta eu dizer e activam.
Ou tiraram o curso de marketing na Universidade de Alguidares de Cima, ou não querem premiar porra nenhuma, pois não, seus sonsos?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

[ ]

Lá na escola do subúrbio onde cresci havia um indivíduo completamente passado da mona. Já não era bem do meu tempo, quem o acompanhou foi o meu irmão - teriam mais ou menos a mesma idade - mas eu conhecia o irmão mais velho do criaturo, que era meu contemporâneo. Não acredito nestas cenas e muito menos em determinismos, mas estes dois irmãos eram a prova a que muitos se agarrariam para argumentar que o mal existe, e a sua semente se propaga em certas linhagens. O mais velho era um bandido da pior espécie, violento, mas de uma forma insidiosa e matreira. Consumia drogas, que suspeito seriam de calibre superior à mera ganza, mas de uma forma controlada, ou seja, não sucumbiu ao vício de modo a acabar um farrapo acampado no Casal, agulha espetada no braço. Possuidor de um espírito empreendedor e oportunista, passou do consumo ao tráfico e, das últimas vezes que lhe pus a vista em cima, andava muito bem vestido e conduzido. Passou de adolescente semi-carocho e homem de mão para quem precisava de costas quentes para um kingpin semi-carocho com uma entourage de músculo subcontratada. O mais novo não tinha a mesma cabeça fria, e consumia mais ávida e descontroladamente. Não que precisasse de drogas para passar do zero aos cem em segundos, bastava um olhar de que não gostasse, um gesto que interpretasse como um desafio. Na escola não havia quem não morresse de medo dele. As tareias que aplicou a um e outro, sem razão ou por motivos absolutamente fúteis, não eram uma lenda, eram um facto verificável. Conhecia um moço que ficou com a cara num bolo porque "se estava a rir para ele", outro que se refugiou aterrorizado em casa umas duas semanas depois de um "estavas a olhar para mim porquê, a gente depois fala". Ainda não tinha os 16 feitos e já tinha ficha na polícia, e a cara gravada na memória de todos os agentes da localidade. Quando fez os 16, recebeu uma prenda da esquadra em peso, e dada em mão. Nessa altura já tinha sido expulso da escola, depois de o Conselho Directivo não ter podido contemporizar ou fechar olhos a uma facada dada a um colega. Apesar disso, continuava a entrar na escola, ou pulando muros, ou coagindo o funcionário do portão, que não tinha nem corpo nem coragem (nem ganhava para isso) para ele. Um dia o meu irmão chegou a casa com uma história, parece que às oito e meia o fulano, já completamente embriagado/drogado, armou uma valente escaramuça no portão da escola, a dizer que ia matar o conselho directivo em peso. Totalmente descontrolado, foi detido pelos agentes chamados ao local; e digo detido no sentido não jurídico, porque era menor de 16, não podia ser "preso". Várias vezes me perguntei, e aos amigos e colegas do meu irmão, como não se juntava um grupo para lhe dar uma lição; era assim que se resolviam os "problemas", ali. Mas a resposta era óbvia: o "e depois", somado ao irmão, na altura já uma figura de peso. Morreu nem tinha ainda os 18 feitos, overdose. Ninguém teve pena. Aliás, a notícia era propalada com um misto de alegria e alívio. Não tenho vergonha de o dizer, foi com esse sentimento que a recebi.

E hoje lembrei-me disto porque imaginei que, se calhava ser possível àquele animal entrar numa superfície comercial e adquirir mais que um canivete, sei lá, uma pistola, respectiva munição, ou mesmo uma arma automática, que faria. Que faria, caneco. O meu irmão e muitos amigos, uns quantos irmãos de amigas, andavam naquela escola. Eu, e muitas amigas, andávamos por ali, era a nossa rua, o nosso bairro, a nossa comunidade. Que faria, pá, um doido sem escrúpulos destes ter acesso a uma máquina de matar muito e depressa. Gente desta, sempre os haverá; o que me faz confusão é em alguns países evoluídos ainda haver quem não conclua que a diferença entre uma tragédia ou uma situação mais ou menos descontrolada é o acesso. E permitirem-no, todavia.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Está fresquinho, está

Estou aqui a fumar o último cigarrinho do dia, enquanto olho com alguma satisfação a pilha do "feito", e muita angústia a (muito maior) pilha do "a fazer", ponderando que material levarei para casa para estudar, se o assunto A ou o B ou ambos, e a matutar que para pessoa que acabou o curso a ferros e com asco, que jurou um dia estudar uma coisa que gostasse mêmo, mêmo, mêmo a sério, virar a vida do avesso e fazer só o que gostasse, as coisas estão mêmo, mêmo, mêmo mal encaminhadas, porra, e ou a vida, o universo, sei lá quem tem um sentido de humor muito negro, ou então é mesmo para isto que eu sirvo e aos 46 já tinha aceitado essa inevitabilidade.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Nada mais a declarar

além de que este documentário é mesmo, mesmo, mesmo imprescindível



para quem é cat-lover e, se calhar, talvez, principalmente, para quem não é. O respeito por uma forma de vida, o amor desinteressado pelos animais, a harmonia entre seres (caraças, até os cães!, nem os cães bulem!), deixa-nos um sorriso besta e um calorzinho no peito.

E, pelo meio, também nos dá piquenas prendas como esta perolazita:


O grafito, pah <3

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Qualidade, o caraças

Uma pessoa percebe que o casaquinho deve ser upa-upa gostoso quando se dá conta que, apesar de todos os seis meses gastar umas boas coroas a renovar as pendurezas anti-bicheza, o maldito está todo traçado.

Que desgosto. E se ainda ao menos houvesse costureiras daquelas que sabem virar casacos, mas nem isso.

(vou virar-me para as parkas em poliéster e penas, ó, ó)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Micro Machinhos

Já lá vão mais de uma vintena (não vou contar para não deprimir) de anos de volante, devidamente encartada, e já perdi a conta a sermões, interpelações, e outros ões oferecidos por senhores condutores: ou me mandam tirar a carta (lamento, já tenho; nunca tive muita queda para fora-da-lei), ou perguntam onde a tirei (eh pá, nem sei se ainda existe, e também não recomendava); piretes (dois, que destes guardo perfeita recordação: um taxista e um sôtor com a respectiva no banco do pendura); e, o top dos tops, mandaram-me para casa coser meias. Nunca veio à baila a dita carta ter-me saído por sorteio ou na farinha amparo, e tenho pena, que os clássicos não deviam morrer.

Não sou imune a auto-asneirada, também as faço. Por norma (isto é, se der tempo) peço desculpa, faço aquele ar encavado de "ai, já fiz merda", acompanhado da mãozinha direita levantada. Por casualidade, as três últimas interpelações (e, já agora, todas as que resultaram em sermão) vieram de quem, na situação concreta, estava a fazer merda. E da boa, do tipo, basta ter levemente presentes regras básicas para lá chegar.

Então porque fui eu o alvo de mimos como "vai estudar o código da estrada" (vindo de um ciclista que circulava num passeio sem ciclovia, e resolveu atravessar numa passadeira sem passagem de ciclistas assinalada, depois de levar uma valente buizinadela); ou "quando tirou a carta não lhe ensinaram a marcha atrás?" (de um sujeito que circulava na via obstruída mas achava que eu, já encostada ao lancil do lado direito, é que tinha de lhe fazer o jeitinho). Excesso de confiança no seu conhecimento de normas estradais? Burrice pura e dura? Má-criação congénita? Ou algo mais? Porque acharão estes exemplares, todos eles do género masculino*, que num país em que as raparigas e mulheres os ultrapassam à vontadinha nas pautas escolares; que já são uma confortável e em tantos casos larga maioria nas universidades; que já dão cartas em áreas de trabalho onde há uns tempos nem pensavam e muito menos sonhavam aceder; porque presumem eles que numa situação concreta o conhecimento e a identificação da norma a aplicar, bem como a correcta interpretação da mesma, é a deles? Juro que isto me deixa perplexa. Estatisticamente, ao menos, não.

Mas pronto, é o que é. Ou uma pessoa desenvolve uma elevada resistência à frustração, ou começa a andar com um taco de baseball no carro. Daqueles de alumínio.


*claro que há condutoras ineptas, mas esta aqui nunca teve o desprazer de ser descomposta por uma, e muito menos nos termos descritos. lá ficarão a refilar dentro do seu habitáculo, mas a retinta lata de abordar a contraparte, nunca me aconteceu.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

[até me esqueci de dar um título a isto]

Ah, as pausas. No trabalho, quero eu dizer. Todos precisam; diz que é higiénico, há quem defenda que retempera e faz recuperar a capacidade produtiva, e depois há os realistas como eu, que as aproveitam para reflectir no horror existencial que é esta rat race, a escravatura do ordenado, e no tanto – ou nada – a que nos poderíamos dedicar não fosse haver continhas para pagar. Ah, a chafurdice em auto-comiseração – quem nunca?

Mais saudável que o cigarrinho é um hábito de pausa que adquiri. Ou daí não, porque poderá advogar-se tratar-se de uma prática um nadica obsessiva-compulsiva. Mas adiante: passear naquele site de venda de cenas, que começa por “O” (não faço pub, que não me pagam para isso). Assim a título de exemplo, podemos escolher pesquisar imóveis em Lisboa, e rir muito quando nos pedem 450 mil batatas por um apartamento com quarenta anos e que se viu uma camadinha de tinta desde que foi construído é já ser optimista. Ou então, ruma-se aos móveis, escreve-se como critério de busca “vintage”, e depois gargalhamos à parva quando se constata que, nos tempos que correm, há quem tenha um conceito tão lato da palavra que até inclui na categoria uma bola de cotão com mais de cinco anos. Enfim, um fartote.
No entretanto, e como ainda não perdi a esperança de arranjar uma coffe table mêmo, mêmo gira, ainda que a precisar de uma mãozinha, esta é uma das minhas opções. Já tropecei em coisas inacreditáveis, como gente a tentar despachar coisas do Ikea a preço de custo (ou mais), ou foleiradas que nem dadas, mas esta minha última descoberta, oh pá.
Vede, vede:








A descrição que acompanha o anúncio:
“Mesa de centro com Mosaico de Azulejos Centenários (mosaico abstrato de Azulejos clássicos, branco e azul cobalto). A estrutura da mesa é em Madeira de Carvalho. Peça única (exclusiva), de autor.”

Tradução:
Por “azulejos centenários” entenda-se cacos dos ditos, ou apanhados numa demolição (opção optimista), ou deliberadamente partidos a partir da peça gamada / comprada a quem gamou ou receptou. “Peça única” porque, r’almente, quem se lembrava disto. “De autor”, sim, alguém é autor do crime, embora não digam quem. Pelo preço proposto, fica a suspeita, a insinuação, a esperança que se trate de artista consagrado, quiçá um Pomar, talvez um Cargaleiro, poderei sonhar uma Vieira da Silva, ou mesmo um… Gaudi? Que por acaso até é um sujeito que se lembrou disto.

O preço? Oh, uma pechincha. Só 720 biscas. Isso mesmo: setecentos e vinte. Sete nas centenas, dois nas dezenas. Sete, dois, zero.


Fica à consideração do amável leitor, que eu passo. Mas só porque as medidas não me satisfazem, só por isso.
Corram, corram que ainda a apanham!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ai não, que não me pirava

Nota prévia: não aprecio filmes de terror. Mentira, a verdade é que detesto. Sangue e tripas, pá, não. Se quiser uma emoção valente, vou ao site das finanças ver quanto me retêm em impostos por ano. Se, além disso, quiser ficar enojada, com o estômago colado, e um fastio de quinze dias, é ler a revista da amnistia.
Portanto, não, não gosto, não aprecio, dispenso. Ainda assim, se for um terror levezinho, do tipo "susto", ainda me levam. Claro que corro o risco de não dormir uma semana, andar a gritar por dentro, e a dar pulos de metro a qualquer ruído, mas quem me manda ser caguinchas. Mas sou uma pessoa tão curiosa, diabos me carreguem.

Donde, com a promessa de ausência de sangue e tripas, puseram-me a ver isto:



Oh. Meu. Deus. Em quem não acredito, já agora.
Ainda não viram? E estão à espera do quê, exactamente?
Não vou estar aqui a mandar toques e elaborar opiniões sobre o filme, que ainda me sai um spoiler maior e mais feio que a Sé de Braga (é quase impossível não spoilar). Mas caraças, que belo, bom, sumarento filme. Ele há cagaço? Há, sim senhora, e do bom. Ele há uma inquietação muito, muito visceral, ali dos dez minutos ao fim? Ui. E eu já conhecia o twist (me mate tem uma espécie de incontinência verbal que eu às vezes estimulo), que faria se não soubesse.
Uma maravilha.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Como perder 1h57m de vida

É verem isto:


Havia tanto para dizer sobre este filme. Desnecessário, redundante, inútil, são algumas das coisas que me ocorrem. A menos que se seja uma daquelas pessoas que tem absoluta necessidade de saber o que vai acontecer a seguir, ou dali a vint'anos, né. Dispenso: não vou a sequelas, e por norma não o lamento. Não confundir com trilogias ou coisas do género, histórias em que faz sentido haver seguimento. Mas, por exemplo, Matrix 2? E 3? Para quê, perguntei-me eu na altura, e pronto, nunca vi. Diz que fiz bem. Anyhoo, se também se for uma pessoa muito nostálgica, daquelas que lacrimejam ao ver um daqueles brinquedos foleiríssimos e provavelmente perigosíssimos (cheios de arestas em lata - tétano! - e, capaz de apostar, tinta de chumbo) com que se passava os tempos livres ali nas décadas de 70/80 do século passado, também podem ver. Aaaah, que bonito, os fléch-béques de uns forty-something sobre os bons velhos tempos de camaradagem, em que eram uns agarrados, gatunos, por aí fora.
Pá. A sério. Maldita seja a minha curiosidade.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Resumo de uma semana*

*e ainda hoje é quinta.

Tanto barro, tão pouca parede.

(até me daria para rir, não se dando o caso de a parede ser eu)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Porque sou uma pessoa insistentemente positiva, que persiste em trilhar os caminhos da felicidade diária e em manifestar sincera gratidão por cada nova alvorada

Onde alguns diriam "que chatice [ou pior, um palavrão! daqueles gordalhufos! e cabeludos!] a máquina da louça avariou";

A Izzie borboletas coloridas a avoar, zen e florinhas diz:

"Ena, um lago interior, isto dá imenso cachet à casa!";

ou

"Uau, que bela oportunidade para um exercício de braços-pernas e agachamentos pós jantar!"

ou

"Ufa, ao menos a iauga não chegou ao corredor, onde decerto me estragaria o soalho! Grata, universo!"

ou

"Ui, que bom, de volta à simplicidade da vida, sem téquenologias massificadoras, barriga encostada ao lava louça, comunhão mágica entre mãos e binómio água quente - detergente!"

ou

"Obrigada, maquineta, por nos teres servido tão fielmente e sem percalços estes quinze anos! Respeito pelo teu leal e gostoso labor!".

Sinto-me tão mindful e assim e coise.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tudo na mesma, como a lesma

Nem uma semana de ano novo, e temos dois líderes mundiais com poder de disposição sobre armas de destruição maciça engajados numa guerra de pilas.


[não que tivesse grande esperança na humanidade, desde aquele dia em que tive de contornar  um carro estacionado em terceira fila na Paiva Couceiro, mas ainda assim]

sábado, 30 de dezembro de 2017

I'm a constant fucking delight

Deu-me a coragem, mergulhei na piscina dos crescidos, e parece que ainda sei nadar - umas vezes com mais estilo, outras à cão, mas respira-se e avança-se, ainda à tona. O síndrome do impostor continua a zunir aos meus ouvidos, a meretriz da ansiedade tem dado ares da sua graça, não tenho tempo para nada e adio tudo, mas voltei a estudar, a aprender, e a sentir as rodas dentadas do cérebro a funcionar - com muita guincharia, mas valha-me o DW40, bof.
Rendi-me à evidência e comprei óculos de ver ao perto. É só uma dioptria mas incomoda muito, e avacalhou completamente os meus hábitos de leitura. Nem falando na eventual e necessária costura, ou o crochet e tricot, que estão em pausa. Ainda não me conformei, é das poucas inevitabilidades da idade que me custa.
Li algures que cada português consome anualmente, em média, dois quilos de chocolate. Fiz contas por alto e deu-me uma pena imensa dos outros portugueses que não sabem o que andam a perder.
Continuo a receber e a comprar mais livros que os que consigo ler, e isso angustia-me muito.
Já não tenho paciência para lojas e compras.
Levei uma estocada que não me matou mas moeu muito, vinda de quem nunca o esperaria. A pessoa foi à vida dela, eu também, e um bocadinho mais triste por ver a minha misantropia confirmada, embora espere sempre que a realidade ma desminta.
De qualquer forma, tenho mais sorte que juízo nas pessoas que me calharam como companheiros de estrada no trabalho.
Ainda me surpreendo e comovo muito quando calha alguém me manifestar carinho e me verbalizar consideração  - e acho sempre que estão a exagerar.
Persistem o peso e as sequelas de um grande choque e uma monumental decisão, que não me arrependo de ter tomado.
Acredito que o amor salva e muda, ao menos o nosso mundo, ou a forma como o vemos e entendemos. E isso já é tanto.
Continuo a recusar ceder à facilidade do ódio, a sucumbir à ignorância das avaliações superficiais e fáceis: se acho algo errado, antes da pura rejeição informo-me e educo-me. Muitas vezes é doloroso abrir a mente a realidades que nos são estranhas, por implicar o reconhecimento de que estávamos errados, mas é muito libertador. 
Adoptamos três gatos, e ainda não nos arrependemos - apesar de não passar um dia em que não me apeteça estrangular o mai'novo. Eles dão e ensinam muito mais do que vale o abrigo e paparoca que proporcionamos.
Insisto em reciclar furiosamente, e mordo a língua cada vez que pessoas, muitas vezes com filhos que vão herdar esta monumental lixeira, acham imeeeeensa piada a esta militância.
Ainda não foi este ano que aderi ou me filiei em algum partido, clube desportivo, congregação, movimento, religião, ou sequer  um ginásio. Live free or die trying.
Vi muitos, muitos filmes, a maior parte dos quais bons ou excelentes - maldita seja a curiosidade, o tempo que perdi com o Batman vs. Superman já ninguém mo devolve. Nunca me apeteceu escrever sobre eles, embora ache eu muitas pessoas nesta blogolândia devessem ser obrigadas a assistir a alguns.
Arranjei coragem e prometi-me a assinar o Netflix - adeus mundo, não contem comigo para mais nada - além do trabalho, claro, porque
Ainda não ganhei o Euromilhões e acho mal, que tinha planos fantásticos para a guita, e nenhum deles passava pela aquisição de um bólide amarelo canário.
Tenho pena de ver e estar menos com algumas pessoas que estimo muito, e tenho medo de não lhos dizer directamente tanto quanto devia.
Sinto um vazio enorme na "minha" blogosfera, com a ausência de alguns espaços que sentia tão meus - a vida, essa grande cabra, levou as pessoas para melhores entreténs e outras paragens, onde também tenho a sorte de as acompanhar, mas esta nostalgia ficará sempre.
Continuo a alternar uma alimentação de sopas e saladas com os maiores enfardanços de calorias vazias, mas curiosamente parece que mantenho o mesmo tamanho - para alguma coisa servirá o stress.
Aboli o objecto balança, e vivo melhor - e menos obcecada - assim.
E continuo a achar que podia ser bem mais feliz a viver da jardinagem e bricolage, mas diz que paga muito mal.

(O ano que vem? Bom, a ver vamos, venha de lá isso.)



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

The story so far





Termino 2017 como o comecei: (sempre) com muito que dizer, e muito pouca vontade de o fazer.