Sinto-me ofendida. Pior: estou profundamente sentida. Sinto-me sentida, portanto. Magoada, traída, espezinhada.
Eu explico: durante aqueles meses de puro inferno em que duraram as obras nas Avenidas Novas, tempos obscuros que se não levaram a um suicídio em massa em plena hora de ponta, nada levará, eu era daquelas que, em oposição à (passe a redundância) oposição direitolas, defendia com unhas e dentes a construção de ciclovias.
"Ah, ninguém anda de bicicleta em Lisboa, nunca vi", e eu "ó que andam, e havendo condições, mais andarão"; "e agora onde é que a gente estaciona, tiraram-nos o espaço para dar aos ciquelistas!", e eu "estacionam no parque, pagam e não bufam, ou, sendo demasiado sovinas para isso, estacionam na rameira que vos deu à luz, a rua é de todos".
Seguiu-se novo coro de aflitos quando se soube que a Câmara ia gastar numa cena de bicicrétes partilhadas: "Só gastam dinheiro em ilusões, não há ciclistas, nunca os vi!", e isto quando nas Avenidas Novas não faltam oculistas que tratam destes problemas.
Passado mais de um ano, há ciquelistas às paletes, ao fim de semana ainda mais, e as biclas-gira estão sempre numa roda viva. Sucesso, portanto. Yay, pensei eu. Menos um cidadão na estrada ou no metro, que é onde eu me transporto. Sim, sou interesseira.
Até ao dia em que nos vemos ali rés-vés de causar a morte ou sérios ferimentos a um ciquelista. E por culpa dele, o que não me iria acalmar e conciliar o sono.
Já perdi a conta, senhores e senhoras, às vezes em que fiquei com o coração prestes a saltar pela boca. Rodinhas em contra-mão: sim. Ciclos a passar vermelhos: confirmo. Pedalinhos a atravessar a estrada em cima da bicla e dando ao pedal, às vezes com vermelho para peões: olaré. Se em sítios sem ciclovia já é mau, em locais com essa via + sinais para ciclistas + passadeiras para o mesmo público alvo, é indefensável. Eu sei que o Código não os obriga mas, pá, fazer toda uma artéria a 20 à hora, atrás de uma ciclototó, quando tinha uma cilcovia ali ao lado, e das boas... não. Já apitei a um, o palhaço a lixar o trânsito todo, e a ciclovia, livre, desimpedida, ali a dois metros. O animal ficou muito zangado, e teve oportunidade de mo dizer quando fiquei a par, para o ultrapassar, e lhe disse para ir para a ciclovia, ó palerma, arrancando de seguida e legando-lhe as minhas melhores emissões de combustível fóssil. E depois houve aquele que vinha largado, no passeio, e atravessou pedalando numa passadeira só de peões... eu travei a tempo porque já o tinha debaixo de olho, e não confio no discernimento de ninguém. Levou apitadela, mas ainda me mandou estudar o Código. Sim, à única pessoa em causa que comprovadamente fez o respectivo exame, e passou.
A última foi ontem. Animal devidamente fardado com aquele fato-macaco de lycra, vem na ciclovia, e o meu sinal aberto. Não sei porquê - aliás, sei: não confio no discernimento de ninguém, e os ciquelistas não precisam de um atestado para saber se são daltónicos - mas fiquei com a impressão que não ia parar. Não parou, semáforo de biclas vermelho, vermelhão. Até podia jurá-lo, não se desse o caso de ter olhado, a confirmar: é um sítio que conheço bastante bem, e quando abre o verde para a lateral, está também aberto o vermelho-ciquelista. Graças à minha falta de fé na espécie, ao facto de ir a uns 20/30 à hora, consegui parar, e apitei. Ficou muito zangado, barafustou, e ainda mais se alterou quando lhe fiz o sinal universal de "deves ser ceguinho" (mão aberta a passar em frente aos olhos). Caso lhe batesse fornicava-lhe o fémur, pelo menos. Se ele me batesse, além de ficar todo tortinho ainda me lixava a lateral. Com ou sem razão, eu não me safava de me ser levantado um auto, e aberto um inquérito crime. Inerentes dores de cabeça. Estragos no meu carro? Lá iriam para os danos próprios que eu pago, que esta gente só tem direitos, deveres - carta?; seguro? - nicles.
E é isto. Estou a pensar rever a minha bonomia relativamente ao ciclo-transporte. É que na minha escala de rodo-desastres, estão ali vai não vai de destronar os táxistas; e já ultrapassaram, ó, ao tempo, os peões que atravessam olhando para o telemóvel.
Falta pouco para me plantar em frente a um ministério qualquer, a exigir a terraplanagem das prostitutas das ciclovias, e degredo de todos os praticantes.










