Hoje tive o grato prazer de assistir à cativante cena que consistiu em um ciquelista a) passar um vermelho; b) acto contínuo, não parar numa passadeira, onde dois piquenos cidadãos se preparavam para atravessar a estrada.
Esmiuçando:
a) o vermelho estava mesmo muito vermelhão, só um daltónico não o perceberia e, ainda assim, não serve de desculpa, que todos sabem que o vermelho é a primeira luzinha a contar de cima. e a minha certeza de que estava vermelho-vermelho prende-se com o facto de se tratar de um entroncamento, e a minha luz estar definitivamente verde.
b) a passadeira em causa i) está pintadinha de fresco no chão (benditas eleições autárquicas); ii) elevada por uma lomba; iii) como se isto não bastasse - e bastaria - a permissão de atravessamento é assinalada por um semáforo, que estava verde, verdão para peões; iv) está em frente a uma escola; v) quem se preparava para atravessar eram dois garotos não tão pequenitos assim, viam-se bem; vi) já tinham ambos o pé na estrada, e o ciquelista passou-lhes bem rente, sem parar - já tinha dito - nem tampouco abrandar, e após nem sequer levantou uma mãozinha para pedir desculpa.
Esta foi só a última, e se me irritou imenso foi porque podia ter magoado duas crianças que, ao contrário do animal ciclotransportado, conhecem, respeitam, e decerto confiam que os demais também, as regras do código da estrada.
Já perdi conta a sustos com biciclistas em contra-mão; a atravessar em passadeiras com marcação só para peões - sim, há umas que têm marcação para ciclistas, e portanto estes podem atravessá-las ciclando, mas nessas o automobilista vai avisado pela dita marcação - montadinhos na rodinhas e em boa velocidade; a passar vermelhos; a não respeitar a prioridade geral ou sinalização vertical em entroncamentos e cruzamentos. Também já levei com a minha dose de palerminhas a circular na via, em locais onde têm à disposição ciclovia - e eu sei que podem, mas não deviam poder, e aliás o bom senso até desaconselharia, mas quem sou eu, se acham graça a empatar o trânsito todo e correr riscos desnecessários, força.
Eu sei que os ciquelistas são uns desgraçadinhos, coitadinhos, tão desrespeitadinhos, ninguém os ama, e sei porque, tal como os vegan, não perdem uma oportunidade para falar do seu modo de vida e opressão de que são vítimas. Também já vi cenas em que automobilistas puseram em risco estes legítimos frequentadores da via pública - embora sejam mais as situações de risco para motociclistas que já vi. Sou 100% a favor do uso de bicicleta como meio de transporte, e é com muito agrado que venho assistindo ao transformar da minha cidade num local ciclo-aprazível. Meia dúzia de idiotas não me farão mudar esta opinião. Mas, o que me chateia, me indispõe a pontos de hoje de manhã ter tido vontade de passar um a ferro, e ainda sair do carro e espancá-lo com a manivela do macaco, é que a par dos muiiitos direitos que foram reconhecidos aos ciquelistas, haja uma correspondência ali a roçar o zero ao nível da responsabilidade e, tantas vezes, sentido cívico. Obrigatoriedade de seguro? Népia. Exame de código? Nicles. Obrigação de capacete? Ess'agora.
E seria importante, digo eu. Código, nem se fala: se andam ali na estrada, têm de atestar saber de cor a meretriz da sinalização e rameiras das regras. Seguro: de vida ao menos. Fora de brincadeira, se apanho com um bestão destes em contra-mão e me amolga o carro, cuméquié? E se o paspalho de hoje aviasse um dos garotos, hein? Capacete: pá. Senso comum. Ainda assim, e se este não abundar, evita que, no caso da contra-mão, por exemplo, eu não tenha de viver com a imagem de um crânio esborrachado no asfalto ou no capot gravada para sempre na minha memória. Civismo: nem é preciso explicar. Eu sei que em termos de conduta cívica na estrada os automobilistas ainda ocupam o pódio todo, mas caneco, ainda há quem pare nas passadeiras e respeite as regras, e espere que os outros também o façam. E o facto de haver mais meliantes dentro de um caixote com rodas não desculpa a eventual conduta delinquente dos duas-rodas.
E pronto, é só isto.






