sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Era matá-los a todos muito bem matadinhos

Esta semana tinha um aviso na caixa de correio. Sim senhora, 'xa cá ver quem manda saudades, epá, isto aqui é ascendi?, é ascendi.
Entrei em pânico, porque é uma cena que eu sei fazer mesmo muito bem, entrar em pânico, e convém uma pessoa exercitar regularmente aquilo em que é mesmo bom, só assim poderemos atingir todo o nosso potencial nesta vida.
Atenção: eu sei o que é a ascendi (concessionária de auto-estradas), e sei o bambúrrio que uma pessoa pode ter de pagar depois de uma distracção, como passar pela via verde sem ter aderido à dita. Estava eu então num aimedês aimedês tu qués lá ver, a tentar recordar se ali na troca de carros e antes de comprar o identificador para o novo tinha metido a pata na poça, chego à conclusão que não, afinal eu sou aquela que fez duas passagens com amarelo - falta de pilha - e foi em pânico - lá está, sempre em busca da excelência - à loja dos senhores tratar da coisa.
E baixou de repente um tu qués ver. Ai o carro antigo, anda alguém aí no forrobodó.
Fui à net, esse lugar onde tudo se encontra. E encontrei o site da ascendi, onde confirmei que não circulei em nenhum dos seus percursos. E encontrei o site dos CTT, onde podemos consultar se a nossa matrícula tem alguma coisinha pendurada. Não tinha, nem a actual nem a anterior.
Ainda assim, continuei em pânico, porque a prática faz a perfeição.
Só ontem consegui ir aos correios levantar a coisa. Abri a carta logo ali e - eu sei que me repito - pânico. Aicafoda uma cena por pagar, ai jasus que s'isto vai para execução tou tramada, vou já já já ali ao multibanco já já já.
Felizmente baixou um pééééééra lá. Mas isto foi adonde? Confirmei: Guimarães. Bela localidade, onde não poiso nem os pés nem os pneumáticos para cima de uma vida. E foi quando? Confirmei: dois meses antes de adquirir a puta da viatura aos senhores da Salvador Caetano.

Modos que é isto. Calha bem, que tenho uma mudança de uma pecita marcada para a semana, materiais inflamáveis já lá há, isqueiro tenho sempre.
Na segunda vejam o telejornal, sou capaz de aparecer.


[de qualquer maneira tenho de responder à ascendi, que tenho prazo a correr. uma canseira. e tenho de ir procurar lá pela casa se ainda tenho a papelada de quando comprei a carroça, que deves estar maluques se achas que vou pedir - e pagar! - uma certidão de registo automóvel. por acaso até acho que já prescreveu, mas isso os caetanitos que se preocupem, eu só tenho de provar que não era proprietária.]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Loves

[nunca me convidam para cenas destas, pah. logo eu, que sou fortíssima no air guitar. e em coro canto tão bem.]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Stress pré-traumático

Tive esta ideia muito gira, e que deixo à consideração da comunidade psi, que é a da introdução deste novo conceito, a saber, stress pré-traumático. Assim de repente caracteriza-se por uma pessoa desenvolver sintomas de stress pós traumático, mas antes ou contemporaneamente ao evento traumático propriamente dito. Um exemplo: cada vez que vejo / leio uma notícia com imagem do Trump a assinar uma qualquer coisa (ordem executiva, cheque, autógrafo) o estômago fecha-se-me, sinto uma onda de náusea, arrepios, e assola-me uma vontade súbita de me enfiar dentro da caminha em posição fetal.
Mais alguém?


[aquele pessoal tolo crente que andava por aí com conversas de 1) ah, ele foi democraticamente eleito, aceite-se; 2) andar a protestar antes dele fazer seja o que for é estúpido, e além disso refª a ponto 1); 3) as pessoas são tão alarmistas, dêem-lhe uma oportunidade, e além disso, ver ponto 1); 4) ele é só um malcriadão / parvalhão / sem noção, não vai fazer nada daquilo que prometeu, e para além do mais, ponto 1); esse pessoal passou esta semana que passou a dormir, continua descansadinho da vida, e, em tendo filhos, completamente sereno quanto ao rumo que isto leva, ou quê?]

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Anyhoo

A minha vida não é isto



e há uns capítulos a precisar de correcção.

É uma chatice, que é

Quando a realidade me vem dar razão.
Isto a confiar na palavra de outros bem melhores e mais sabedores.


[claro, claro que nem todos os empregadores são assim. claro que nem todos acham normal um seu empregado, após prestar 40 horas semanais, ainda encaixar mais vinte ou, na loucura, outras 40, e isto num regime de salário "livre", porque afinal se vão para outro lado ainda fazer um part time ou um segundo emprego, é porque é gente empenhada, trabalhadora, ou se calhar gananciosa, e não porque não conseguem viver com a merreca que o dito empregador lhes paga. e claro que, em vez de andarem dois patrões a pagar, cada um, um ordenado mínimo, porque não ficar só um com o encargo de pagar a esse trabalhador incansável mais qualquer coisinha, que nunca as horas extra fixadas por lei, vá, consultemos o mercado, fica um ordenado mínimo e meio? afinal o trabalhador até poupa na deslocação para o segundo emprego, faz chichi e gasta água só num sítio, e tem um almocinho bem catita com a - belhéc - produção da casa. claro que nem todos os patrões são assim, mas muitos são, e um já seria de mais. puta c'os pariu.]  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

E isto ainda antes das oito da manhã

"São muito liberais, mas quando se vêem à rasca são todos keynesianos", disse ele, e eu ri-me alto e forte, nem eram oito da manhã. Discutia-se uma merda qualquer, provavelmente eu fazia um furioso rant sobre os fabulosos empreendedores portugueses - é possível, ali nas vésperas tinham-me calhado no prato umas giras. Ou então foi sobre a TSU, não posso assegurar, mas também daria mote para isto, que os pobres não podem mesmo pagar os quinhentos e picos por mês aos empregados, agora multiplique-se isso por X, às tantas já nem dá para a direcção andar toda de cuzinho tremido em carros de gama alta. Quinhentos e picos são eles capazes de gastar num par de sapatos, numa carteira, numa cravate, e agora com merdas, a chorar, de mão estendida, a gente paga MAS o Estado - todos nós, entenda-se - tem de contribuir. Já sei, já sei, o velhinho argumento que o dinheiro não cresce nas árvores, e é preciso recompensar o privilégio, ahém, a iniciativa, mas e a vergonha, onde está?, não têm mesmo vergonha de ganhar dez a vinte (ou upa) vezes mais que o trabalhador com salário mais baixo, não se sentem mal de ter gente a trabalhar para eles, a tempo inteiro, que ainda não ganha o suficiente para sair da escala de pobreza? Se conseguissem viver um ano com esse rendimento, calava-me já, mas não conseguiriam nunca, e sabem-no, e ainda assim insistem, e ai de que interfiram, quem fixa os ordenados é o mercado - por acaso mandado por uma meia dúzia - e a economia talital equilibra, sai fora, não regula, não mexe, não chateia. Até ao dia, claro, em que corre mal, e então papá Estado já pode dar uma mesadinha, um incentivozinho para impulsionar a economia.
E nestes dias é muito difícil manter um semblante sério, que ainda há atrasado li que oito pessoas no mundo acumulam riqueza igual à da metade mais pobre, e entre esses só reconheci dois filantropos. Três, para as féchionistas, que afinal o sô don Amâncio democratizou e tornou acessível a moda dando emprego a tanta criança gente no terceiro mundo, verdade, uma verdadeira boa alma. Dói-me, isto. Dói-me muito.

Um dia

Depois de quatro dias a trabalhar com temperaturas entre os dez e quinze graus (debaixo de telha, sim, e está tudo fechado), e na quinta quase teres uma pataleca ali entre a hipotermia e fúria assassina, vais trazer um radiador lá de casa para fazer companhia ao pobre que não dá conta do recado quando lá fora estão menos de dez.
Vinte graus, e assim já conversamos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Revirar d'olhos da semana

E este foi logo a fechar, com as reacções à notícia que o rapaz agredido pelos ricos filhinhos do embaixador do Iraque tinha chegado a um acordo com esta gente e ia receber uma indemnização. Nas várias notícias online diversas pessoas, decerto encharcadas de elevadíssimos sentimentos de honorabilidade, vociferavam com o rapaz e respectiva família. Interesseiros era o mais simpático que lhes chamavam.

Ora vamos lá trocar isto por miúdos. O rapaz levou uma valente tareia que o atirou para o hospital em estado lastimoso. Várias fracturas, uns tempinhos em coma, enfim, e por baixo, podemos concordar que aquilo doeu e moeu. Os perpetradores beneficiam de um regime de imunidade diplomática, ou seja, para responderem em tribunal pelo crime praticado - ofensa à integridade física agravada, crime público que não depende de queixa do ofendido - depende-se da boa vontade do Estado iraquiano, para a levantar. Que foi pedida, mas podemos esperar sentados, e num sítio abrigado. Segundo a lei portuguesa, qualquer vítima de crime pode deduzir pedido de indemnização civil, com vista ao ressarcimento dos danos patrimoniais e não patrimoniais (dores, sofrimento, etc) sofridos.
Tal pedido de indemnização tem de, obrigatoriamente, ser deduzido no processo crime. Ora como já se viu, o processo crime não vai ter seguimento (de certezinha, nunca acerto no euromilhões mas nisto apostava em segurança), porque não vai ser levantada a imunidade, e não porque a justiça é uma porcaria e tal (como defendiam tantos comentadores online, ai, a ignorância é um bem tão equitativamente distribuído).
Seria então seria admissível deduzirem pedido de indemnização nos tribunais cíveis (não me vou por aqui a maçar com artigos e tal, é assim). Agora vamos lá hipotizar como seguiria esse processo cível: citar os réus. Boa sorte e tudo de bom. Ia ser um sarilho que não levaria menos que um ano.
Imagine-se que finalmente eram citados pessoalmente (yeah, right) ou, não sendo, eram citados editalmente, sendo representados processualmente pelo Ministério Público. Siga para julgamento, apresentação de prova, sentença, aqui já se ia, na melhor das hipóteses, em ano e meio, dois anos. Imaginemos que a sentença era favorável, e condenava os dois facínoras a pagar uma indemnização boazinha.
E agora? Boa sorte para executar a sentença. Acham que os tipinhos têm património ou rendimento em Portugal, ou sequer num país da UE? Boa anedota, siga. Ou seja, o desgraçado, além da tareia, ia ter um longo calvário na justiça, com os inerentes custos e gasto de tempo, para no final ter uma sentença para emoldurar e plantar na salinha de estar.
Em vez disso, o advogado negociou um acordo, directamente com os fulanecos, ou antes, com o papá, a embaixada, seja quem for. Chegaram a um consenso sobre quantias (que se desconhecem e não temos de conhecer, mal fora).
Ou seja, trocou o calvário acima descrito e riscos necessários por um dinheiro certo, que ao menos o compense das dores, humilhação, sofrimento. O que há de errado nisto? Nadinha. Zero. Tomara que toda a gente que é vítima de um crime, acidente, ou qualquer outra situação causada culposa ou dolosamente por alguém ter esta conclusão.
O processo crime seguirá, obviamente, visto que o ofendido não pode desistir da queixa. Vai esbarrar contra uma parede de betão, muito provavelmente; mas ao menos o rapaz não fica com as dores e ainda a frustração de ter sido todo amachucado sem qualquer compensação.
E pronto.
Mas para a populaça isto não chega, diz que se vendeu, e a honra onde fica, que não há dinheiro que pague. Tá bem, abelha. O dinheiro não paga, mas é o único "castigo" que aqueles meliantes vão ter. E ao menos a vítima não fica totalmente desprotegida, sendo que, como já expliquei, muito dificilmente obteria reparação pela via judicial (e, mais uma vez, não, não é porque a justiça é uma porcaria, é porque as leis e a vida são como são).
Tudo visto, esta é a melhor solução possível, e eu fico sinceramente satisfeita pelo rapaz. Ainda bem que obteve alguma reparação. Quem dera que sucedesse o mesmo com todos os que passam por agruras semelhantes.
E o povo ululante? Que s'a fodam, com toda a franqueza. E nunca se vejam numa situação parecida, que aí quero ver-vos, mais à vossa honra, justiça e o caracinhas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Legalmente, eu

Já tenho carta de condução desde Abril de 1995 (sei-o porque vi há pedaço), e desde 1998 que já não resido na morada que lá consta. Sim, ainda é daquelas em cartolina cor-de-rosa, dobrada em três, uma coisa de museu.
Na minha carreira de condutora já fui mandada parar em operações stop, ou fui sujeita a vistoria de documentos, pelo menos três vezes. Na primeira nada a declarar: soprei no balão, viram o selo, a vinheta do seguro, os faróis, e ala, que os senhores guardas tinham já uma fila de ébrios para autuar. Na seguinte não tive tanta sorte. A seguir ao balão fizeram-me notar, com ar muito repreendedor, que as moradas do bilhete de identidade e carta não coincidiam, e isso era contra-ordenação, dá direito a coima, aiaiai. E eu, cidadã pacata e respeitadora, suspirei e expliquei que tinha lá tempo para as filas da DGV, compreende, senhor agente?, e ele sorriu e compreendeu. Não precisou de saber, e também não lhe contei, que já ia na segunda morada depois daquela, adiante. Agradeci à grande sorte, jurei a mim mesma que tratava daquilo, nas próximas férias, asap. Não tratei. Mudei outra vez de casa. Contribuinte, sim senhora; eleitor nem por isso (andei uns bons dez anos a votar no concelho ao lado, siga). Calha um dia uma indivídua muito colérica abalroar-me, e preferir armar um barraco a preencher a declaração amigável. Chama-se a autoridade que, chegada ao local, percebe logo o que se passou, e tem uma conversa firme lá com a douda. A senhora agente, papelada na mão, aponta de novo a divergência de moradas, desta feita entre o documento único e a carta (do cartão de cidadão já não consta essa devassa), aiaiaiai, é contra-ordenação, coima e tal. E eu de novo, o meu ar de bambi, de poizé, sabe lá da minha vida. Ela, pelos vistos, sabia. Vá lá, desta passa, trate disso e que não se repita. Não sabia, porque eu omiti e também ninguém perguntou, que tivesse eu o carro anterior e um bilhete de identidade, seriam três as moradas divergentes, mas adiante. Agradeci a todos os santinhos em que não acredito, e que desta é que era, à terceira não falha e papo mesmo com a coima, vou mesmo tratar disto, nas próximas férias, asap. Não tratei.
Foi hoje. Porque já dá para fazer online. Na internet!, essa invenção recente. Finalmente já é possível logar no IMTT com o NIF e respectiva senha, e pedir a prostituta da alteração da meretriz da morada, e pedir para emitir uma rameira de uma carta toda linda, modernaça, naquele modelo que já vigora aí há uma década e picos. Tchinapai. Custava muito, custava?

(agora só me faltava ser fiscalizada neste ínterim, mas vamos acreditar na sorte)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bochechas

Apesar de ter fortíssimas antipatias por diversas personas políticas, não me lembro de alguma vez ter odiado alguma a pontos de lhe desejar a morte, ou rejubilar com a mesma. Por isso não entendo quem alimenta esse tipo de sentimentos, e menos ainda quem os manifesta. O Cavaco, por exemplo. Desejei muitas vezes que se fizesse de morto e desaparecesse, mas que morresse? Nem por isso. Falando na peste: já se dignou a vir a público dizer alguma coisa sobre a vida, a propósito da morte, do seu congénere? Não pois não? Bem me parecia. Aguardo impante a sua aparição em alguma das cerimónias fúnebres. Mate aposta que não vai acontecer, mas eu ainda tenho alguma esperança que lhe reste um mínimo de noção e sentido de Estado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Então cá estamos

E que melhor forma de desejar um feliz ano novo? Com boas notícias. Esta série. Esta. Série. Netflix, cá vou eu.




 



Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events é capaz de ser a melhor série de livros infantis que já me passou pelas retinas. Impossível encontrar por cá, traduzido - juro que tentei, para infectar os meus sobrinhos, mas parece que desistiram a meio -, a única solução para o leitor curioso passa pela encomenda via net. A nossa colecção veio de Nova Iorque, pela mão de me mate, treze livrinhos de capa dura (e lindos), pesa p'a caraças, mas ei, ir a Londres ou NI e não trazer uma mala atafulhada de livros é capaz de ser crime. A história? Oi. Recheada de tragédia, aventura, desventura, mistério, momentos de suspense de cortar à faca. Depois da morte imprevista, súbita e... suspeita de seus pais, os manos Baudelaire vêem-se sozinhos na vida, e sucessivamente entregues a tutores que variam entre o puramente malvado, completamente desvairado, ou simplesmente bizarro. O primeiro e sempre presente desses tutores é o sinistro Conde Olaf (interpretado pelo Neil Patrick Harris!, lágrimas de alegria!), que os persegue incansavelmente, com o propósito de lhes sacar a fortuna herdada. Estou em pulguinhas, de joelhos e mãos postas rezando ao santinho protector das adaptações para que não saia uma coisa tão rofenhé como o Preacher (vi o primeiro episódio, não vejo mais, lamento; a vida é curta e tenho muito chão para passar a pano).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

fail again. fail better.

Como começar, bom, começando. Já está, ultrapassado aquele momento embaraçoso de iniciar seja o que for que nem sabemos muito bem no que vai dar. Como este blog, ou qualquer outro que tenha tido, por exemplo. Mentira: antes custava menos. Capaz de ser um daqueles momentos de alinhamento planetário que só se dá de tantos em tantos anos, mas é isto: não sei o que dizer escrever.

Não é que se tenham acabado as opiniões chatas, parvas, desagradáveis, exaltadas, quiçá despropositadas; nopes, continuo a ter. Mas muito anémicas, fraquinhas que dá dó, optam por se enrolar numa mantinha no sofá, enquanto dão vazão a um pacote de bolachinhas. Das boas. Com chipas de chocolate.

Não que me faltem trivialidades ou historietas enfadonhas; disso também temos, e sempre em demasia, que a minha vida é uma sinuosa vereda num bosque polvilhado das mais aborrecidas e repetidas espécies. Mas acabam a partilhar a mantinha c'as outras, ou não são minhas, só minhas, e não me cabe partilhar. Estas são muitas, aliás, e andam ali num frenesim louco, guinchando, rodopiando, na arrecadação onde as fecho a modos de conseguir um bocadinho de concentração para fazer aquilo que me dá a ganhar o pão.

Aborreço-me, portanto. Por vezes, numa tonta tentativa de alternância, maço-me, somente. Deixei de ter novelos de palavras para desfiar com a ponta dos dedos. Ou esfumam-se numa preguiça sem fim. Opto pela indolência de ficar encostadinha a uma parede, vendo as dos outros passar. Às vezes digo-lhes adeus, outras nem isso. Não tenho confiança com a maioria, e quase nenhumas me conhecem; não quero que me tomem pela tolinha do blogobairro.

E se calhar é aqui que está a coisa: isto gentrificou-se; a maltinha da minha criação mudou-se para subúrbios menos turistificados, e eu acabo por preferir reunir com quem conheci (também) aqui, mas se mudou, nesses outros bairros. Perde-se em diversidade, talvez, mas ganha-se em profundidade. É possível ter uma conversa com princípio meio e fim, seja ela dedicada a livros que sim senhor, séries/filmes que também, ou a forma correcta de cozinhar verduras (true story, e é um assunto mais fracturante que à primeira vista se possa imaginar). E ganha-se também em sossego.

Juro que de há uns tempos a esta parte isto tudo me parece aqueles bailes de província tão bem descritos por Jane Austen: reencontra-se velhas e boas amizades, põe-se conversa em dia, mas ainda assim há muito peralvilho e flausina a rondar, a insistir em se fazer notado, a interromper ou, ao menos, incomodar com a estridência da sua presença. E nem um Darcy para nos aguçar a vista. Nem um Wilde para nos espicaçar o neurónio. Tudo muito a armar, muito alta burguesia convencida que é nobreza, e depois lá vêm as manas enfadadas de Mr. Darcy escarnecer de todos como que mostrando o que é a verdadeira sociedade, aquela onde rodam, mas que apenas as atura não mercê dos seus encantos pessoais, mas da sua heráldica e rendimento. Quando uma pessoa dá por si já arredou dos abafados salões e está a apanhar um fresquinho na varanda, com os velhos conhecimentos do costume, mas ainda assim, irra!, não há maneira de os ditos outros espampanantes deixarem de passar, fazendo-se insistentemente notados, sem que alguém ali os queira notar. Ah, se ao menos desse para fechar a porta. Encosta-se, pronto, já está. Ou não, credo.

E o que fazer disto, não é? Que uma pessoa até pode estar momentaneamente calaceira, mas tal talvez derive mais de não saber o que fazer disto do que de propriamente falta de vontade de fazer. Assim me encontro, num mar de sargaços de tema. O que fazer disto.

Talvez destacar-me. Recortar-me. Reservar o que é reservado para onde seja apreciado ou, pelo menos, bem acolhido. Talvez espaçar. Talvez seleccionar. Talvez apreciar os silêncios. Os entretantos, Talvez optar por outro caminho, outra linha. Talvez tentar voltar a ter prazer com isto. Tentar outra vez, talvez falhar, mas falhar melhor. Vem aí um ano novo, é um marco como outro qualquer, e diz que se apresenta novinho em folha, por estrear. Cá estaremos.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Oh brother where art thou

Continua a (minha) saga da busca da mesa de centro perfeita adequada. Faz em Fevereiro um ano, se não me engano. Volta e meia faço um périplo por lojas, sempre para chegar à conclusão que a) é demasiado grande; b) é horrenda; c) cara comó caraças; d) quem é que compra isto? Já tive a feliz fortuna de acumular todas, só eu. Regularmente vou ainda ao olx, porque sou crente, ou masoquista, ou já nem sei.

Como sou uma pessoa extremamente altruísta e empática, e porque pode andar aí outra boa alma na mesma empresa, deixo aqui umas boas sugestões encontradas nesse mercado virtual (e que eu não aproveito porque minha humilde morada não é digna de tais peças):





Correi, correi que isto são exemplares para desaparecer num ai.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

42 ou o Sentido da Vida

Ainda não tenho a certeza, porque dá muito trabalho a investigar e númbaros não é o meu forte, mas o que sei é que vi o Deadpool e me diverti como uma tolinha. Um dia todos os filmes de super-heróis serão assim. Uma hora e quarenta, muito palavrão e piadas só para adultos, ritmo, mortes macabras mas muito warner bross., e sem super-herói. Já ninguém tem paciência para palhaçadas messiânicas de três horas, e muito menos para monos a fingir um ar pensativo/intenso como o Ben Affleck.
Falando em psicopatas ricos com poder de compra para brincar ao super-heroísmo, acho que vem aí a uma versão definitiva:




 Yay.