Em lar-doce-lar uso muito a expressão
esta casa está um bordel. Também uso versões mais específicas, como por exemplo
este escritório está um bordel,
esta cozinha idem aspas, ou, em dias bons, consegue-se restringir a coisa a uma determinada peça de mobiliário, como
esta estante está um bordel (esta é recorrente). Não que aconteça entrar em casa e dar com a prática de actos de prostituição aqui ou ali, não; é uma figura de estilo, e não me perguntem qual que nem a saberia identificar nem esta tem nada de literário. É a minha forma colorida (e parva) de definir uma confusão dos diabos, local desorganizado, desarrumado. Ontem, surgindo uma determinada cena na tv, diz ele, metendo-se comigo, que aquela casa é que estava um bordel. E eu atalhei logo,
ei, aquilo não está um bordel, está uma pocilga, e esta (nossa) casa pode até estar um bordel, mas chiqueiro não. E é verdade. Podemos não ter as melhores qualidades de donos-de-casa, não temos (de certezinha) a mania das arrumações e limpezas, podemos ser (ambos, os dois) umas pessoas um bocado caóticas no que diz respeito à disposição de cenas, mas calminha: porcaria é que não. Um bocado de pó a mais, concedo; um ocasional cotão que leva logo guia de marcha, acontece; um lava-loiça transitoriamente não vazio (que a máquina está cheia de loiça lavada e nós cheios de preguiça), quem nunca. Mas cocó, sujeira, nojice, parou.
E é por isso que tenho cá as minhas reservas sobre certas e determinadas situações. O que se passa portas dentro (dos outros) não me diz respeito, certíssimo, mas ele há coisas que, ahém. O ar é de todos, e os cheiros circulam. Ele há chiqueiros que é impossível restringir só ao alheio lar-doce-lar. Atacando e pondo o dedo na ferida, houve uma proposta do anterior governo que me fez dar palminhas, mas depois não foi avante, a saber, a restrição ao número de animais que se pode ter num apartamento.
Ai, pá, ó Izzie, mas há pessoas que vivem num zoo mas são muito limpinhas. 'Tá bem, abelha. Até haverá, mas também acontece amiúde que quem vive numa ETAR não nota nada de estranho no ar. E também sucede que quem vive perto de uma suinicultura raramente se congratula com o aroma a campo. Nunca ouvi dizer que um gajo asseado se habituasse ao cheirinho da lixeira do vizinho.
Agora imaginemos, por pura hipótese, que dois gajos asseados partilham o seu castelo com um felino, mas até usam areia aglomerante que é diariamente inspeccionada, têm a casinha aspirada duas vezes por semana (mínimos, pá, mínimos), escovam a bicha, e tudo e tudo. Mas
ópois coabitam no mesmo caixote urbano com doze almas em três assoalhadas, sendo que apenas três dessas almas são humanas, e as restantes nove não usam nem sabem usar uma retrete e respectivo autoclismo. E nota-se. Quer dizer, os tais e hipotéticos dois gajos notam, que cada (tanta, tanta!) vez que passam em frente a determinada porta, ou abrem as janelas que deitam para o espaço exterior das outras doze almas, não se conseguem abstrair do cheirinho a estrebaria. Que não incomoda, notoriamente, quem lá vive. Como também não incomoda que cinco das doze almas trepe paredes e salte muros, e, ele há dias, escolha outras retretes muito mais limpinhas que aquelas a que os humanos lá deles os sujeitam. E eu sei que são mais limpinhas, porque calham situar-se num local exterior que tais dois gajos possuem, e por acaso se vêm na contingência de limpar mais vezes que o que seria normal*. E há quem achasse uma canseira varrer folhas quinzenalmente. Saudades das folhinhas. Muita saudadinha.
Maneiras que é isto. Sim senhora, será um exagero aprovar uma lei que imponha restrições à liberdade individual, cada um manda na sua casa, é preciso é bom senso, os condomínios podem aprovar regras, mas a verdade é que não funciona. Do
ai que giro, tanto bichinho, ao
ai que canseira, não vou limpar isto todos os dias / todos os pares de dias / todos os fins-de-semana, é um pulinho. E viver ao pé de um
pulinho destes, pessoas, pá. Às tantas um gajo já sonha com uma lei musculada, uma polícia da higiene, um tarrafal dos porcalhões onde os ponham todos.
Era só isto, por hoje.
*nunca os apanhei em flagrante, que são bichos mas não são parvos. mas há ali uma coincidência temporal do tipo "antigamente isto não acontecia". tenho a certeza, mas népia de provas a apresentar para condenar o ilícito. suspiros.