Ainda tenho aqui muitas ponta para atar, e se calhar até já venho tarde, que a coisa finou-se esta semana, mas não podia deixar de recomendar (vivamente!, entusiasticamente!) esta American Crime Story - The People vs. O.J. Simpson.
Pá, ca ganda série. E se eu a comecei de pé atrás. É que ainda me lembro bem dos crimes, dos julgamentos (sim, a seguir houve a acção cível), da comoção, do escândalo, da exposição mediática. Tinha imenso receio que a série fosse ou a) uma coisa muito estilo documentário, seca e puramente expositiva; b) ou uma coisa muito sensacionalista, tomando partidos, fazendo eco e ressuscitando a loucura de então. Mas não. É claro que reflecte o que se passou com muitíssimo rigor, mas também há liberdade, vá, criativa. Não podemos senão imaginar os momentos em privado da equipa de defesa ou acusação, mas convenhamos: nada do que se "imagina" na série é muito difícil de crer e, por enquanto, ainda não surgiram desmentidos exaltados.
Mas o principal, que para mim é mesmo o principal, é que não se faz apologia choramingas de ninguém, nem se pretende vingança ou desforço, ou sequer apontar uma verdade absoluta. Há uma narração rigorosa dos factos, designadamente do decurso do julgamento e prova apresentada. Há espaço para as personagens (que crescem, respiram, se desenvolvem), e muito respeito por elas: afinal retrata-se pessoas reais. E muito, muito respeito pelas vítimas e sensibilidade das respectivas famílias. Isto é mesmo o que me comoveu: afinal duas pessoas tiveram uma morte prematura e horrível, e não tiveram direito à justiça que mereciam. Duas. Não é apenas a história de uma, mas de duas vítimas - e as cenas que envolvem o pai e irmã de Ron Goldman, a vítima relegada sempre para segundo plano, são de cortar o coração.
Muitas notas positivas, mas realço meia dúzia. São focados todos, mas todinhos os intervenientes nesta trama da vida real. Todos têm palavra, espaço, o seu pedaço de história. Sarah Paulson como Marcia Clark é para lá de brilhante, e Sterling K. Brown como o procurador Darden fica ali a par. Grandes escolhas de elenco para a equipa de defesa (a tal "dream team"), sim, incluindo o Travolta. Um grande "meh" para o Cuba Gooding Jr. como O.J., mas cumpre. Realização e argumento ali em cima.
[Apenas uma nota negativa para nerds maluques da continuidade: há um erro de racord no último episódio que me deixou à beira da apoplexia - quando se sabe que o júri já deliberou, OJ barbeia-se na prisão; cena seguinte, no tribunal, OJ prepara-se para ouvir o veredicto com uma magnífica barba de três dias. Cenas. Minhas. Pronto. Fico doida.]
E pronto. Nos entretantos parece que estreiam hoje duas cenas que quero mesmo muito. Rir. Preciso de rir.
sexta-feira, 29 de abril de 2016
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Raging Bull
Parece que o indivíduo lhe fez uma razia, não sei se já tinha o pé na estrada, ou se isto se passou numa passagem de peões, já lá vão muitos anos desde que me contaram e não tenho uma memória assim tão boa; para o caso nem interessa muito, o facto é que sujeito A fez razia a sujeito B, deslocando-se o primeiro de carro e o segundo a pé. Vai daí, o coisinho a penantes solta desabafo que consistiu num sonoro "filhadaputa", sucedendo que cidadão automobilizado seguia de janela aberta e ouviu. Acto contínuo, pára o carro, sai, e assenta valente castanhada no rosto do incauto peão, e isto porque, segundo a sua posterior justificação, aliás prestada a agente da autoridade que calhou assistir, ninguém faltava ao respeito à sua mãezinha, uma santa senhora, que até já tinha morrido (aposto que disse "falecido") e tudo.
E pronto, foi assim que aconteceu. Eu achei graça, mas fiz de conta que não, que sou pessoa que até se esforça por corresponder às expectativas, e meus interlocutores até mereciam uma normal circunspecção e escândalo com a historieta. Além de que como é que eu ia explicar, depois, que não, não eram gargalhadas de indiferença "ao que isto chegou!", mas em haver gente tan burra, tan limitada, tan enfim que reaja assim (e à frente de um polícia! credo, pá.) quando era por demais compreensível a oportunidade da intervenção, evidente a generalidade do insulto, que o agredido obviamente não particularizava nem desmerecia especificamente a mãe da cavalgadura. R'almente há gente com umas sensibilidades muito sensíveis.
[E do que me tenho safado, eu, pessoa tão dada ao desabafo vernacular.]
E pronto, foi assim que aconteceu. Eu achei graça, mas fiz de conta que não, que sou pessoa que até se esforça por corresponder às expectativas, e meus interlocutores até mereciam uma normal circunspecção e escândalo com a historieta. Além de que como é que eu ia explicar, depois, que não, não eram gargalhadas de indiferença "ao que isto chegou!", mas em haver gente tan burra, tan limitada, tan enfim que reaja assim (e à frente de um polícia! credo, pá.) quando era por demais compreensível a oportunidade da intervenção, evidente a generalidade do insulto, que o agredido obviamente não particularizava nem desmerecia especificamente a mãe da cavalgadura. R'almente há gente com umas sensibilidades muito sensíveis.
[E do que me tenho safado, eu, pessoa tão dada ao desabafo vernacular.]
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Olha, que coisa mais linda
Ou mais uma estação em que me obrigam à poupança na rubrica "roupa". Não há nada que se aproveite, nem para pano de chão, çinçeramente.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
E se fosse contigo ou Do the right thing
Imginem vocelências que no decurso da vossa (a)normal actividade profissional tomam contacto com um assunto impregnado de cheiro a esturro. Como sois pessoas de afinado olfacto aquele odor incomoda-vos supinamente, mas como procurar panelas ao lume e levantar as respectivas tampas não é a tarefa que vos é exigida, nada mais resta que aguentar o dito cheirete. Acabais, portanto, por fazer o que vos é exigido, vá, digamos, misturar e temperar a salada, e fazem-no o melhor que sabem e podem, levando até em conta que, tratando-se de fregueses que deixam queimar os cozinhados, o tempero aplicado ao caso terá de ser o que mais se adequa a tal perfil. Ficam satisfeitos com o resultado final, e cientes que a saladinha foi salgada e mexida da forma mais correcta e adequada.
Ali um mês decorrido, já decerto a salada foi ingerida, digerida e restituída à natureza pelas vias normais, dão de caras com uma certa notícia, por acaso num jornal não nacional, dedicada ao tema "panelas cujo conteúdo esturra mas estão tão bem tapadas que ninguém dá conta, até agora, levantámos nós o testo, e ó a miséria de espectáculo que se apresenta". E há ali qualquer coisa que vos desperta uma memória, a saber, a específica marca de fogão - chamemos-lhe Lumex - onde normalmente se sentam tais panelas. E vocês já deram com aquele tipo de fogão, na mesma cozinha onde prepararam uma salada, e na altura até acharam que era de uma panela num plantada que vinha forte cheiro a esturro mas, como estavam ocupados com crudités, nem de tal electrodoméstico se aproximaram.
E agora coloca-se a questão. Tendes uma montanha de batatas para debulhar (e essas cascas, fininhas!), muita alface para demolhar e ripar, muito tomate para cortar e temperar. Mas não conseguem tirar da lembrança o caneco do fogão. O vosso Sherlock interior está doudo, doudo para pousar a faca de legumes e ir buscar o registo de preparação daquela salada antiga, a ver se se confirma, num exultante "ahá!" que sim senhora, naquela cozinha existia, de facto, um fogão Lumex. E panelas ao lume. Que exalavam forte cheiro a esturro. Sendo que tal conteúdo estragou-se, quando não se devia ter estragado. E que- sabedes agora - há alguém a produzir fogões Lumex, com o único mister de queimar aquilo que certos cidadãos não querem que aproveite a quem tem fominha. E, verificada tal informação, mandar tudo ao cuidado da secção, subdivisão, qualquercoisasão de alimentos cozinhados, para que vão asinha àquela cozinha destapar umas panelinhas, salvando, quiçá, umas boas carninhas ou, ao menos, indagar o que se passa.
Mas depois, ah, chega o camião do fornecedor, e despeja mais um montão de batata. E depois, ah, já temos gente na sala aos gritos pela saladinha. Então depois, ah, ah, ah.
Que fazer. Que fazer. A minha vida é isto.
Ali um mês decorrido, já decerto a salada foi ingerida, digerida e restituída à natureza pelas vias normais, dão de caras com uma certa notícia, por acaso num jornal não nacional, dedicada ao tema "panelas cujo conteúdo esturra mas estão tão bem tapadas que ninguém dá conta, até agora, levantámos nós o testo, e ó a miséria de espectáculo que se apresenta". E há ali qualquer coisa que vos desperta uma memória, a saber, a específica marca de fogão - chamemos-lhe Lumex - onde normalmente se sentam tais panelas. E vocês já deram com aquele tipo de fogão, na mesma cozinha onde prepararam uma salada, e na altura até acharam que era de uma panela num plantada que vinha forte cheiro a esturro mas, como estavam ocupados com crudités, nem de tal electrodoméstico se aproximaram.
E agora coloca-se a questão. Tendes uma montanha de batatas para debulhar (e essas cascas, fininhas!), muita alface para demolhar e ripar, muito tomate para cortar e temperar. Mas não conseguem tirar da lembrança o caneco do fogão. O vosso Sherlock interior está doudo, doudo para pousar a faca de legumes e ir buscar o registo de preparação daquela salada antiga, a ver se se confirma, num exultante "ahá!" que sim senhora, naquela cozinha existia, de facto, um fogão Lumex. E panelas ao lume. Que exalavam forte cheiro a esturro. Sendo que tal conteúdo estragou-se, quando não se devia ter estragado. E que- sabedes agora - há alguém a produzir fogões Lumex, com o único mister de queimar aquilo que certos cidadãos não querem que aproveite a quem tem fominha. E, verificada tal informação, mandar tudo ao cuidado da secção, subdivisão, qualquercoisasão de alimentos cozinhados, para que vão asinha àquela cozinha destapar umas panelinhas, salvando, quiçá, umas boas carninhas ou, ao menos, indagar o que se passa.
Mas depois, ah, chega o camião do fornecedor, e despeja mais um montão de batata. E depois, ah, já temos gente na sala aos gritos pela saladinha. Então depois, ah, ah, ah.
Que fazer. Que fazer. A minha vida é isto.
Nervocalm. Gotas.
Sabes que se calhar já andas ali a rasar o limite da insanidade quando passas uns bons cinco minutos a tentar entrar num carro que não é o teu, até dares pelo engano.
[e a pista fundamental não foi o facto de o comando, que até teria pilha porque a luz acendia, não abrir o carro; a chave não rodar na fechadura, depois de desistires do comando; ou achares estranho que a cagadela de pombo tenha passado para outra janela. Foi um pára-choques todo amassado. E isto só depois de apanhares um susto do caneco e dizeres para ti própria "ai que me f#$%am o pára-choques outra vez". O meu Yaris também cinza prata - e, pura coincidência, que só reparei depois de dar pelo engano, do mesmo mês e ano - estava, afinal, dois lugares adiante. Isto anda bom, sim senhora.]
[e a pista fundamental não foi o facto de o comando, que até teria pilha porque a luz acendia, não abrir o carro; a chave não rodar na fechadura, depois de desistires do comando; ou achares estranho que a cagadela de pombo tenha passado para outra janela. Foi um pára-choques todo amassado. E isto só depois de apanhares um susto do caneco e dizeres para ti própria "ai que me f#$%am o pára-choques outra vez". O meu Yaris também cinza prata - e, pura coincidência, que só reparei depois de dar pelo engano, do mesmo mês e ano - estava, afinal, dois lugares adiante. Isto anda bom, sim senhora.]
terça-feira, 19 de abril de 2016
Que talhas com o teu machado as tábuas do meu caixão
Ficou-me vivamente marcado, de todo o conteúdo da série Shogun [explicação aos novos: é uma coisa do século passado, i.e., vintage], uma situação em que se relatava um castigo dado a um inimigo derrotado: enterraram o homem, deixando-lhe apenas a cabeça de fora; puseram ao lado caninhas de bambu; cada transeunte que passasse, tinha por obrigação passar a aresta de uma caninha no pescoço do indivíduo.
Ora bem, mutatis mutandis, e não querendo ser uma drama queen, que por acaso até sou, estou a sentir a memória daquela cena muito presente. Bastavam umas pequenas mudanças de cenário e acessórios, assim um Shogun meets The Office, mas sucede que estive aqui quinze dias enterrada na mais chata papelada, uma pilha que valhamenossasenhora, a acrescer ao "normal", e agora, que já tinha lambido, lido, anotado, conferido, e, julgava eu, enfim livrado daquilo, vem um senhor da guerra que me encosta ao pescoço uma pen, embora não afiada, há que ser justo e verdadeiro, e me solicita que lhe grave ali tudo. Na boa, pá. Na boa. São só, quê, quantos anos de cenas e quantas centenas e tal de ficheiros? Na boa, pá. Até vem aí um fim-de-semana em grande e tudo, diz que é o dia da liberdade que se celebra, tomara eu.
Ora bem, mutatis mutandis, e não querendo ser uma drama queen, que por acaso até sou, estou a sentir a memória daquela cena muito presente. Bastavam umas pequenas mudanças de cenário e acessórios, assim um Shogun meets The Office, mas sucede que estive aqui quinze dias enterrada na mais chata papelada, uma pilha que valhamenossasenhora, a acrescer ao "normal", e agora, que já tinha lambido, lido, anotado, conferido, e, julgava eu, enfim livrado daquilo, vem um senhor da guerra que me encosta ao pescoço uma pen, embora não afiada, há que ser justo e verdadeiro, e me solicita que lhe grave ali tudo. Na boa, pá. Na boa. São só, quê, quantos anos de cenas e quantas centenas e tal de ficheiros? Na boa, pá. Até vem aí um fim-de-semana em grande e tudo, diz que é o dia da liberdade que se celebra, tomara eu.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
You pay now!
Ele há dias em que sou muito grata à minha forretice. Hoje é um desses dias. É que quando se soube que vinham cá os AC/DC, lá em casa ouviu-se um "yay!". Depois soubemos o preço dos bilhetes, e toda eu me desfiz em piretes.
Tendo sido conhecida agora avoz personalidade que encabeçará tão almejado evento, tenho a dizer, já sei que me repito, bendita forretice. Não dou dois dias para haver quem até pague para se desfazer do bilhete.
Tendo sido conhecida agora a
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Os meus problemas
O que me chateia neste tempo (inusitadamente, vá, não me lembro de um Abril assim, adágios populares à parte) diluviano é tão somente isto: os meus vasinhos de suculentas, devidamente acondicionados em cache-pot sem furiscos, que estão já no seu habitual poiso estival, a acumular auguinha. Se não lhes acudo, afogam-se.
(pior: apodrecem-lhes as raízes, ai minhanossasenhoradagalocha que vou mêmo apanhar uma molha e arriscar uma perna partida, c'o piso, c'a chuva, escorrega com'ó caraças, esqueçam a cena do revestimento anti-derrapante, que até é, eu sei, fui eu c'o escolhi, mas aquilo anti-derrapa depois de uma regadela, com lençol d'auga é cada um por si, mas aiminharicaverdura que se não lh'acudo fina-se)
(pior: apodrecem-lhes as raízes, ai minhanossasenhoradagalocha que vou mêmo apanhar uma molha e arriscar uma perna partida, c'o piso, c'a chuva, escorrega com'ó caraças, esqueçam a cena do revestimento anti-derrapante, que até é, eu sei, fui eu c'o escolhi, mas aquilo anti-derrapa depois de uma regadela, com lençol d'auga é cada um por si, mas aiminharicaverdura que se não lh'acudo fina-se)
terça-feira, 12 de abril de 2016
Ai, ai, ai, minha machadinha
Às vezes ler é uma dureza. Neste momento vou no terceiro volume da Ferrante e, findo este, acho que vou fazer uma pausa higiénica. Ó Izzie, tão valentona, tão cheia de ar que tu és, e não te aguentas à bronca? Não. Ui, temos menina? Vejam lá, criada no subúrbio puro e duro e agora deu em flor das avenidas, ai, ai.
Nada disso. A dureza não é o conteúdo - que o é, há que dizê-lo, mas é digerível, ao contrário de As Benevolentes e Viagem ao Fim da Noite, livrinhos que tive de deixar em pausa sob pena de cortar os pulsos com uma faca de plástico, e mesmo assim seria menos dolorosa a agonia.
A dureza, pá, a cena, méne, o que me mata, gaije, é a tradução e revisão. No último caso, a falta dela. Pá, não se admite. Nem é por haver muita gralha, que não há (kudos! eu distraio-me muito com gralhas, às tantas ponho o livro de parte e dou comigo a jogar-lhes pedacinhos de pão), mas há ali uns vícios que, pá, méne, cena. Muitos "a ela" e "a ele", exemplificando, mas não citando: "sicrano disse a ela", "fulana pediu a ela", por aí fora. Nerfes. Sou uma pessoa muito doente, e filha de uma senhora muito doente que amarinhava paredes quando ouvia alguém dizer "então diga a ela". Pegou-se-me. E enerva-me sobremaneira.
Ainda assim, passava. Como conheço mal o italiano (só de ouvir), ainda atribuí a coisa a um qualquer vício de tradução, afinal os italianos dizem muito "a lei" e tal (provavelmente mal grafado, não leio ou falo italiano, quanto mais escrever). O santo protector das traduções bem sabe quantas vezes o inglês "realize" acaba traduzido como uma qualquer realização, é indefensável (e preguiçoso) mas às tantas um gajo desculpa, que um gajo sofre dos nervos mas tenta ser magnânimo. A gota d'água, meujamigos, foi um desfolhar. E não se falava de uma árvore ou qualquer outra espécie vegetal, era um livro. Que alguém, ao que parece, desfolhava. Não retirando folhas, mas passando-as. Pá. Não. Se. Faz. Méne. Cena. Meretriz que deu à luz. E tal "desfolhada" nem era descrita em itálico, ou na voz de um personagem mais iletrado, o que até maizoumenos desculparia, não, era a narradora, eminente licenciada em letras. Parece mal é o mínimo. Cansei. E ainda outro dia li uma recensão que gabava a tradução. Claro que não podia gabar a inexistente revisão. Pause.
Nada disso. A dureza não é o conteúdo - que o é, há que dizê-lo, mas é digerível, ao contrário de As Benevolentes e Viagem ao Fim da Noite, livrinhos que tive de deixar em pausa sob pena de cortar os pulsos com uma faca de plástico, e mesmo assim seria menos dolorosa a agonia.
A dureza, pá, a cena, méne, o que me mata, gaije, é a tradução e revisão. No último caso, a falta dela. Pá, não se admite. Nem é por haver muita gralha, que não há (kudos! eu distraio-me muito com gralhas, às tantas ponho o livro de parte e dou comigo a jogar-lhes pedacinhos de pão), mas há ali uns vícios que, pá, méne, cena. Muitos "a ela" e "a ele", exemplificando, mas não citando: "sicrano disse a ela", "fulana pediu a ela", por aí fora. Nerfes. Sou uma pessoa muito doente, e filha de uma senhora muito doente que amarinhava paredes quando ouvia alguém dizer "então diga a ela". Pegou-se-me. E enerva-me sobremaneira.
Ainda assim, passava. Como conheço mal o italiano (só de ouvir), ainda atribuí a coisa a um qualquer vício de tradução, afinal os italianos dizem muito "a lei" e tal (provavelmente mal grafado, não leio ou falo italiano, quanto mais escrever). O santo protector das traduções bem sabe quantas vezes o inglês "realize" acaba traduzido como uma qualquer realização, é indefensável (e preguiçoso) mas às tantas um gajo desculpa, que um gajo sofre dos nervos mas tenta ser magnânimo. A gota d'água, meujamigos, foi um desfolhar. E não se falava de uma árvore ou qualquer outra espécie vegetal, era um livro. Que alguém, ao que parece, desfolhava. Não retirando folhas, mas passando-as. Pá. Não. Se. Faz. Méne. Cena. Meretriz que deu à luz. E tal "desfolhada" nem era descrita em itálico, ou na voz de um personagem mais iletrado, o que até maizoumenos desculparia, não, era a narradora, eminente licenciada em letras. Parece mal é o mínimo. Cansei. E ainda outro dia li uma recensão que gabava a tradução. Claro que não podia gabar a inexistente revisão. Pause.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Welcome to the jungle
O constante ruído de rodinhas de trolley na calçada;
As gritarias estivais de bandos ébrios, que às mais indecentes horas e em diversas línguas, davam voz à sua alegria;
Os ajuntamentos de fim de tarde de gente muito loira nas filas de caixa do lídele e tiny price;
A proliferação de lojecas que vendem, essencialmente, garrafinhas de variado teor alcoólico a qualquer hora;
Vários estabelecimentos com entrada no yelp e tripadvisor;
Alguns outros, pelo menos mais que um, decorados em estilo vintage-chic-boho, a providenciar brunch;
Não se poder usar o eléctrico como meio de transporte, ali entre Abril e fins de Outubro, devido a constante sobrelotação.
Tudo isto já eram sinais mais que evidentes, a que se veio somar, agora, os folhetos de imobiliárias a aparecer na caixa de correio, semana sim, semana não, simpaticamente oferecendo os seus serviços para nos vender a casa.
Mas a ficha cai, definitivamente, quando dás com o Manuel João Vieira a transitar no bairro.
Que, quando me mudei, ainda era sítio que suscitava franzir de narizes cépticos. Sinceramente? Acho que preferia o antes. Vivia muito bem com a (injusta, aliás) má reputação do local.
Suspiros.
As gritarias estivais de bandos ébrios, que às mais indecentes horas e em diversas línguas, davam voz à sua alegria;
Os ajuntamentos de fim de tarde de gente muito loira nas filas de caixa do lídele e tiny price;
A proliferação de lojecas que vendem, essencialmente, garrafinhas de variado teor alcoólico a qualquer hora;
Vários estabelecimentos com entrada no yelp e tripadvisor;
Alguns outros, pelo menos mais que um, decorados em estilo vintage-chic-boho, a providenciar brunch;
Não se poder usar o eléctrico como meio de transporte, ali entre Abril e fins de Outubro, devido a constante sobrelotação.
Tudo isto já eram sinais mais que evidentes, a que se veio somar, agora, os folhetos de imobiliárias a aparecer na caixa de correio, semana sim, semana não, simpaticamente oferecendo os seus serviços para nos vender a casa.
Mas a ficha cai, definitivamente, quando dás com o Manuel João Vieira a transitar no bairro.
Que, quando me mudei, ainda era sítio que suscitava franzir de narizes cépticos. Sinceramente? Acho que preferia o antes. Vivia muito bem com a (injusta, aliás) má reputação do local.
Suspiros.
Because the sky is blue
E eu, que nunca fui de montanhas russas, de rodas gigantes e sequer de carrosséis, ontem fui acometida de uma vertigem aterradora, enquanto confortavelmente sentada num também muito confortável sofá, enquanto assistia a uma não menos confortável repetição de uma série que já sabia ser causa de um confortável morninho interior. Sem surpresas, sem angústias visíveis, um domingo em branco ainda a iniciar-se, e cai de repente a certeza de que não tenho e nunca terei certezas nenhumas na minha vida. Nada, antes, o nada a bailar-me em frente dos olhos. Sei apenas o agora muito imediato, o daqui a cinco minutos poderá ser previsível e até planeado mas mantém-se desconhecido, o daqui a seis meses é apenas absurdamente longínquo, o daqui a dez anos um buraco negro. O que serei, onde estarei e com quem? Que tapete debaixo dos pés? Não sei, não posso saber.
E pronto, foi o que aprendi até agora, resta aprender a (saber) viver com esta aquisição.
E pronto, foi o que aprendi até agora, resta aprender a (saber) viver com esta aquisição.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
How beauteous mankind is!
Assim muito de repente, muito à pressa e sem querer estabelecer um ranking, parece-me que pior que aceitar dinheiros para encobrir/proteger/favorecer traficantes de droga, só fazê-lo por traficantes de pessoas, terroristas ou criminosos sexuais (abusadores de menores à cabeça). Ele há gente com uma imunidade ao vómito que faz favor.
[este post respeita e não viola o princípio de presunção de inocência, tratando-se a afirmação supra de uma enunciação perfeitamente geral e abstracta, que não imputa a qualquer pessoa em concreto a prática de factos ilícitos]
[este post respeita e não viola o princípio de presunção de inocência, tratando-se a afirmação supra de uma enunciação perfeitamente geral e abstracta, que não imputa a qualquer pessoa em concreto a prática de factos ilícitos]
quarta-feira, 6 de abril de 2016
terça-feira, 5 de abril de 2016
Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada.
[Noite fechada é exagero, mas noitinha, sim senhora. Uma vidinha que olaré.]
Querido pessoal do indie: de nada, de nada. Mandava-vos um peixinho morto embrulhado em papel de jornal. A sério? A sério? Faz-se isto a alguém que já era agarrada ao Starship Troopers antes de ser cool? Às três e meia? Num dia de semana? Agora há secção indie-xófem-inconciente, ou indie-desempregado, é? E o Robocop idem, e Total Recall - que por acaso para mim era estreia - aspas, aspas? Ah, mas o Showgirls já é a uma hora exequível, obrigado por nada, divirtam-se.
Malditos sejam, hadem arranjar muitos amigos com esse feitiozinho. Inda lá vou mazé fazer um estrago, e sair com a deixa "leave the gun, take the cannoli", é o que é.
(o que vale é que ainda estou em estado de graça por ter visto O Padrinho no telão, obrigada aos benfeitores de toda uma geração que se fez adulta tarde de mais para tal. com uma projecção de merda, mas o que conta é a intenção, e no dois parece que já vai haver um projector decente, bem-hajam por toda a eternidade)
Querido pessoal do indie: de nada, de nada. Mandava-vos um peixinho morto embrulhado em papel de jornal. A sério? A sério? Faz-se isto a alguém que já era agarrada ao Starship Troopers antes de ser cool? Às três e meia? Num dia de semana? Agora há secção indie-xófem-inconciente, ou indie-desempregado, é? E o Robocop idem, e Total Recall - que por acaso para mim era estreia - aspas, aspas? Ah, mas o Showgirls já é a uma hora exequível, obrigado por nada, divirtam-se.
Malditos sejam, hadem arranjar muitos amigos com esse feitiozinho. Inda lá vou mazé fazer um estrago, e sair com a deixa "leave the gun, take the cannoli", é o que é.
(o que vale é que ainda estou em estado de graça por ter visto O Padrinho no telão, obrigada aos benfeitores de toda uma geração que se fez adulta tarde de mais para tal. com uma projecção de merda, mas o que conta é a intenção, e no dois parece que já vai haver um projector decente, bem-hajam por toda a eternidade)
quarta-feira, 30 de março de 2016
quinta-feira, 24 de março de 2016
Telescola
Se ainda há quem diga que não se aprende nada a ver tubisão, é porque não anda bem sintonizado. É caro, que seja; mas já não passo sem o meu cabinho. Netflix ainda não entrou, a não ser por portas travessas (delinquenteahééém), mas o resto, oh momma. A ser preciso exemplos, cá vai:
Não fosse a tubisão, a bem dizer os sempre mãos largas da HBO (santinha seja), e mais concretamente o senhor Martin Scorcese (nossosenhoroconserve) ainda hoje não sabia quem era Howlin Wolf. Mate sabia, mas como é caixinha, não tinha contado. Mate has the blues. E também foi ele quem, na sequência de um episódio de Sobrenatural, me confirmou que a lenda sobre o próximo senhor existia, sim senhor, e que era um grande autor (provavelmente o primeiro a integrar o club dos 27). Rimei, mas veja-se lá se não é verdade:
E pronto, é isto. E a série Vinyl está muito bem e recomenda-se. Devia esperar pelo fim para falar do assunto, que já me espalhei ao comprido com a Empire (que prometia, prometia, mas espetou-se a cento e oitenta contra uma parede de betão ali à roda do episódio dez). Esta, ao menos, tem melhor música. Com guitarrinhas.
Não fosse a tubisão, a bem dizer os sempre mãos largas da HBO (santinha seja), e mais concretamente o senhor Martin Scorcese (nossosenhoroconserve) ainda hoje não sabia quem era Howlin Wolf. Mate sabia, mas como é caixinha, não tinha contado. Mate has the blues. E também foi ele quem, na sequência de um episódio de Sobrenatural, me confirmou que a lenda sobre o próximo senhor existia, sim senhor, e que era um grande autor (provavelmente o primeiro a integrar o club dos 27). Rimei, mas veja-se lá se não é verdade:
E pronto, é isto. E a série Vinyl está muito bem e recomenda-se. Devia esperar pelo fim para falar do assunto, que já me espalhei ao comprido com a Empire (que prometia, prometia, mas espetou-se a cento e oitenta contra uma parede de betão ali à roda do episódio dez). Esta, ao menos, tem melhor música. Com guitarrinhas.
We are all mad here
Tive de ver/ouvir duas vezes, para confirmar. Não o óbvio e a que nem vou dar tempo de antena, mas um pequeno pormenor: um professor doutor (minúscula propositada) de uma Universidade Pública, com estudos na área de Relações Internacionais e sua história, chama à colação do seu (aliás tresloucado) discurso um infame livro de Rosenberg, cujas teorias, e aqui estou a citar, que ouvi duas vezes para ter a certeza que foi isso que foi dito, "foram aproveitadas pelo nazismo".
Fiquei mal disposta. Com tudo; mas relativamente ao discurso do ódio, nem vou entrar na discussão. É que dizer que Nietzsche foi aproveitado pelo nazismo, sim senhor. Mas Rosenberg não foi "aproveitado", Rosenberg foi O teórico, ideólogo, do nazismo, Rosenberg foi membro inicial do partido nazi, Rosenberg fez parte do "aparelho" do III Reich, Rosenberg advogou e foi cúmplice do extermínio de judeus e outros povos, Rosenberg foi julgado, condenado e executado em Nuremberga. Rosenberg não tem méritos académicos (as suas publicações e "estudos" não têm qualquer valor científico, e isto não é a minha opinião, o tipo não tinha formação, nem dados, nem suporte para as suas "teorias"), não é citável, não é referência de nenhuma pessoa de bem. Ouvir, no século XXI, na Europa ocidental, um académico dizer o que disse, no contexto em que o disse, citar Rosenberg e caracterizar a sua obra como "tendo sido aproveitada pelo nazismo", preocupa-me mais que mil bombas armadas por fanáticos. Porque actos de terror não estão sob o nosso controlo, mas como lhes reagimos, sim. Tão importante como não sucumbir ao medo, é resistir ao ódio; e o ódio cria-se na ignorância. Rejeitá-la é um dever. Que, obviamente, este "académico" desconhece.
Fiquei mal disposta. Com tudo; mas relativamente ao discurso do ódio, nem vou entrar na discussão. É que dizer que Nietzsche foi aproveitado pelo nazismo, sim senhor. Mas Rosenberg não foi "aproveitado", Rosenberg foi O teórico, ideólogo, do nazismo, Rosenberg foi membro inicial do partido nazi, Rosenberg fez parte do "aparelho" do III Reich, Rosenberg advogou e foi cúmplice do extermínio de judeus e outros povos, Rosenberg foi julgado, condenado e executado em Nuremberga. Rosenberg não tem méritos académicos (as suas publicações e "estudos" não têm qualquer valor científico, e isto não é a minha opinião, o tipo não tinha formação, nem dados, nem suporte para as suas "teorias"), não é citável, não é referência de nenhuma pessoa de bem. Ouvir, no século XXI, na Europa ocidental, um académico dizer o que disse, no contexto em que o disse, citar Rosenberg e caracterizar a sua obra como "tendo sido aproveitada pelo nazismo", preocupa-me mais que mil bombas armadas por fanáticos. Porque actos de terror não estão sob o nosso controlo, mas como lhes reagimos, sim. Tão importante como não sucumbir ao medo, é resistir ao ódio; e o ódio cria-se na ignorância. Rejeitá-la é um dever. Que, obviamente, este "académico" desconhece.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Tenho andado caladita, sem grande vontade de alardes, e ainda menos de polémicas. Não me apetece, a modos que. Mas hoje quebro o jejum, e nem é para lançar e me meter em baderna, é só para registar algumas perplexidades, inquietações e dúvidas que se amontoam, ainda por cima a propósito de um assunto sobre o qual sempre tive muitas certezas. Cá vai.
Sou e sempre fui a favor da eutanásia, tal como do aborto. Não à baldex, claro, há que impor e prever limites, dentro do razoável, quanto ao aborto basta dizer que entendo o actual enquadramento legislativo como perfeitamente razoável, que perfeito não há nada. Relativamente à eutanásia, fiquei toda contente quando se avançou com a cena do testamento vital (que eu, como perfeita anormal e procrastinadora, ainda não fiz), e mais ainda quando se teve a coragem de dar o passo em frente e trazer para a linha da frente o tema, sem paninhos quentes. E depois comecei a ver e ler coisas, e comecei a matutar, a congeminar, e a ficar preocupada. A vexata quaestio, como dizem os juriconsultos, é aquele pequenino pormenor da noção, da definição, que daí parte tudo; a saber, definição de limites, o quando, o a quem, o porquê da coisa.
Eutanásia, sem tretas, é terminar uma vida. Matar, pronto. Escusamos de estar com merdiquices. Não é bonito, pois claro que não é bonito. Na minha maneira de ver as coisas, há situações em que se justifica. Há aquela eutanásia mais light, que é a omissão de cuidados quando se entende que estes apenas prolongam uma existência sem esperança e sofrimento sem sentido, deixa-se morrer. E depois há uma mescla de omissão/acção, em que não se prolonga a vida retirando o suporte (artificial) que a mantém, o famoso "desligar a máquina". Estas já se praticam amplamente, e não são consideradas a eutanásia que agora se quer regular. Não ressuscitar é já prática corrente (e que podemos até determinar, o tal testamento vital), desligar a máquina pratica-se em casos de morte cerebral ou em que esta é quase certa, sendo que a "vida" física apenas é mantida com respiração e batimento cardíaco artificial. São situações consideradas de não retorno, ou quase não retorno. Ainda assim, dependem de um acto de vontade e consentimento, do próprio ou terceiros, e parecer médico. Mas não oferecem grandes problemas éticos - acho eu.
Agora matar-matar. Pois. É que cabe aqui muita coisa, seja "apressar" a morte (por exemplo, ir aumentando gradualmente doses de morfina até que a pessoa, que se encontra num estado terminal de grande sofrimento, enfim sucumba, sem que retorne à dor), ou o auxílio ao suicídio. E mesmo homicídio a pedido. E aqui é que a suína torce a caudita. Quando, em que situações, a quem? Toda a gente merece morrer com dignidade? Não nego. Toda a gente merece escolher a hora da sua morte? Não contesto. Mas quando é que alguém pode, legitimamente, pedir a outrem que se encarregue de fazer chegar tal morte? Quando, em que situações, deve e pode o Estado - que é isso que se trata - avançar, tomar nas suas mãos a execução da decisão alheia?
E aqui fico embatucada. Não sei, pá. Não sei como se legisla isto. Em casos particulares não teria grandes dúvidas. Alguém deixa um documento, um "testamento vitalíssimo", em que manifesta expressa vontade que lhe dêem ordem de marcha caso um dia se encontre um vegetal, ou num estado de demência tão profundo que não possua réstia daquilo a que se possa chamar consciência, alguém em estado terminal de uma doença dolorosa, sem possibilidade de cura: sem dúvida. Ressalvado que seja que aquela manifestação de vontade tenha sido expressa enquanto na posse das suas faculdades.
E noutros casos? Tenho uma doença terminal, mas tenho mobilidade, capacidade de por termo à minha vida. Existe porventura algum fundamento moral que me permita pedir a outrem que me despache? A minha existência é muito limitada por determinada doença, vivo em sofrimento e desejo que acabe, mas nada me impede de tomar uma overdose de qualquer coisa: idem. Sofro de depressão profunda crónica, não há tratamento que não tenha tentado e tudo sem efeito, não vejo sentido em continuar vivo: idem. Epá, levando o assunto com alguma ligeireza, porquê encarregar o Estado de praticar o odioso, quando a iniciativa privada pode resolver o assunto?
Vêm todas estas inquietações a propósito de uma reportagem que vimos outro dia, e me incomodou imenso. Um médico (acho que suíço ou holandês) falava do direito à morte, etc e tal, e se, de início estava a 100% com ele quanto a questões como dignidade, fim do sofrimento inútil e por aí, de repente começou-se a falar de casos concretos. Uma senhora com uma profundíssima depressão, após a morte da sua única filha, que não reagiu a qualquer tratamento, e ele deu parecer favorável para eutanásia. E nós "woa!". Pá, não. E sai-se mate, uns relatos de casos mais à frente "este gajo gosta de matar". Dei-lhe a cotovelada da praxe rematada com o habitual "não sejas assim", mas passou-me um frio na espinha. Gostar não seria o verbo que escolheria, mas digamos que se sentia demasiado à-vontade com a cena de. Talvez um tiquinho de complexo de deus. E seguiam-se estatísticas, números de pedidos e deferimentos de eutanásia, números esses em cavalgada ascendente. E as causas. Problemas psiquiátricos a tomar dianteira de doenças terminais, gente muito, muito jovem a pedir para ser encaminhada para a quinta das tabuletas. E começo a pensar que phoda é esta. Desde quando é que se pode permitir que o homicídio a pedido - sim, já não é um mero auxílio ao suicídio - se torne uma regra em vez de uma excepção. Aparece ainda um tipo que já foi a favor da eutanásia, fez parte de uma comissão de ética relacionada, e entretanto deixou de conseguir dormir. Demitiu-se e mudou de ideias. E assim estou eu. Principalmente desde que soube que num desses "países evoluídos" deram parecer favorável e despacharam uma garota de 24 anos, com uma depressão "intratável". Pá, não.
Retorno ao título do post: Pessoa sabia o que dizia. É só isto. E não quero, recuso, rejeito ser cúmplice ideológica de uma cena que pode descambar naquilo que actualmente se pratica no norte da Europa. Mas vivia muito mais descansada se soubesse que um dia, esperemos que não, calhando estar um vegetal a babar pelo canto da boca, ou em dores terríveis e entubadinha até à alma, alguém teria a piedade de me acabar com a miséria, em vez de ficarem ali a assistir uma decadência inexorável e sem sentido. Mas se para garantir a minha dignidade na morte é necessário sancionar a indignidade de cortar vidas que dizem que não querem mais ser vividas, então pronto, assumo o risco. Contrariada, mas assumo. E vou forçar, lá em casa, um pacto Amour.
Sou e sempre fui a favor da eutanásia, tal como do aborto. Não à baldex, claro, há que impor e prever limites, dentro do razoável, quanto ao aborto basta dizer que entendo o actual enquadramento legislativo como perfeitamente razoável, que perfeito não há nada. Relativamente à eutanásia, fiquei toda contente quando se avançou com a cena do testamento vital (que eu, como perfeita anormal e procrastinadora, ainda não fiz), e mais ainda quando se teve a coragem de dar o passo em frente e trazer para a linha da frente o tema, sem paninhos quentes. E depois comecei a ver e ler coisas, e comecei a matutar, a congeminar, e a ficar preocupada. A vexata quaestio, como dizem os juriconsultos, é aquele pequenino pormenor da noção, da definição, que daí parte tudo; a saber, definição de limites, o quando, o a quem, o porquê da coisa.
Eutanásia, sem tretas, é terminar uma vida. Matar, pronto. Escusamos de estar com merdiquices. Não é bonito, pois claro que não é bonito. Na minha maneira de ver as coisas, há situações em que se justifica. Há aquela eutanásia mais light, que é a omissão de cuidados quando se entende que estes apenas prolongam uma existência sem esperança e sofrimento sem sentido, deixa-se morrer. E depois há uma mescla de omissão/acção, em que não se prolonga a vida retirando o suporte (artificial) que a mantém, o famoso "desligar a máquina". Estas já se praticam amplamente, e não são consideradas a eutanásia que agora se quer regular. Não ressuscitar é já prática corrente (e que podemos até determinar, o tal testamento vital), desligar a máquina pratica-se em casos de morte cerebral ou em que esta é quase certa, sendo que a "vida" física apenas é mantida com respiração e batimento cardíaco artificial. São situações consideradas de não retorno, ou quase não retorno. Ainda assim, dependem de um acto de vontade e consentimento, do próprio ou terceiros, e parecer médico. Mas não oferecem grandes problemas éticos - acho eu.
Agora matar-matar. Pois. É que cabe aqui muita coisa, seja "apressar" a morte (por exemplo, ir aumentando gradualmente doses de morfina até que a pessoa, que se encontra num estado terminal de grande sofrimento, enfim sucumba, sem que retorne à dor), ou o auxílio ao suicídio. E mesmo homicídio a pedido. E aqui é que a suína torce a caudita. Quando, em que situações, a quem? Toda a gente merece morrer com dignidade? Não nego. Toda a gente merece escolher a hora da sua morte? Não contesto. Mas quando é que alguém pode, legitimamente, pedir a outrem que se encarregue de fazer chegar tal morte? Quando, em que situações, deve e pode o Estado - que é isso que se trata - avançar, tomar nas suas mãos a execução da decisão alheia?
E aqui fico embatucada. Não sei, pá. Não sei como se legisla isto. Em casos particulares não teria grandes dúvidas. Alguém deixa um documento, um "testamento vitalíssimo", em que manifesta expressa vontade que lhe dêem ordem de marcha caso um dia se encontre um vegetal, ou num estado de demência tão profundo que não possua réstia daquilo a que se possa chamar consciência, alguém em estado terminal de uma doença dolorosa, sem possibilidade de cura: sem dúvida. Ressalvado que seja que aquela manifestação de vontade tenha sido expressa enquanto na posse das suas faculdades.
E noutros casos? Tenho uma doença terminal, mas tenho mobilidade, capacidade de por termo à minha vida. Existe porventura algum fundamento moral que me permita pedir a outrem que me despache? A minha existência é muito limitada por determinada doença, vivo em sofrimento e desejo que acabe, mas nada me impede de tomar uma overdose de qualquer coisa: idem. Sofro de depressão profunda crónica, não há tratamento que não tenha tentado e tudo sem efeito, não vejo sentido em continuar vivo: idem. Epá, levando o assunto com alguma ligeireza, porquê encarregar o Estado de praticar o odioso, quando a iniciativa privada pode resolver o assunto?
Vêm todas estas inquietações a propósito de uma reportagem que vimos outro dia, e me incomodou imenso. Um médico (acho que suíço ou holandês) falava do direito à morte, etc e tal, e se, de início estava a 100% com ele quanto a questões como dignidade, fim do sofrimento inútil e por aí, de repente começou-se a falar de casos concretos. Uma senhora com uma profundíssima depressão, após a morte da sua única filha, que não reagiu a qualquer tratamento, e ele deu parecer favorável para eutanásia. E nós "woa!". Pá, não. E sai-se mate, uns relatos de casos mais à frente "este gajo gosta de matar". Dei-lhe a cotovelada da praxe rematada com o habitual "não sejas assim", mas passou-me um frio na espinha. Gostar não seria o verbo que escolheria, mas digamos que se sentia demasiado à-vontade com a cena de. Talvez um tiquinho de complexo de deus. E seguiam-se estatísticas, números de pedidos e deferimentos de eutanásia, números esses em cavalgada ascendente. E as causas. Problemas psiquiátricos a tomar dianteira de doenças terminais, gente muito, muito jovem a pedir para ser encaminhada para a quinta das tabuletas. E começo a pensar que phoda é esta. Desde quando é que se pode permitir que o homicídio a pedido - sim, já não é um mero auxílio ao suicídio - se torne uma regra em vez de uma excepção. Aparece ainda um tipo que já foi a favor da eutanásia, fez parte de uma comissão de ética relacionada, e entretanto deixou de conseguir dormir. Demitiu-se e mudou de ideias. E assim estou eu. Principalmente desde que soube que num desses "países evoluídos" deram parecer favorável e despacharam uma garota de 24 anos, com uma depressão "intratável". Pá, não.
Retorno ao título do post: Pessoa sabia o que dizia. É só isto. E não quero, recuso, rejeito ser cúmplice ideológica de uma cena que pode descambar naquilo que actualmente se pratica no norte da Europa. Mas vivia muito mais descansada se soubesse que um dia, esperemos que não, calhando estar um vegetal a babar pelo canto da boca, ou em dores terríveis e entubadinha até à alma, alguém teria a piedade de me acabar com a miséria, em vez de ficarem ali a assistir uma decadência inexorável e sem sentido. Mas se para garantir a minha dignidade na morte é necessário sancionar a indignidade de cortar vidas que dizem que não querem mais ser vividas, então pronto, assumo o risco. Contrariada, mas assumo. E vou forçar, lá em casa, um pacto Amour.
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