Às vezes ler é uma dureza. Neste momento vou no terceiro volume da Ferrante e, findo este, acho que vou fazer uma pausa higiénica. Ó Izzie, tão valentona, tão cheia de ar que tu és, e não te aguentas à bronca? Não. Ui, temos menina? Vejam lá, criada no subúrbio puro e duro e agora deu em flor das avenidas, ai, ai.
Nada disso. A dureza não é o conteúdo - que o é, há que dizê-lo, mas é digerível, ao contrário de As Benevolentes e Viagem ao Fim da Noite, livrinhos que tive de deixar em pausa sob pena de cortar os pulsos com uma faca de plástico, e mesmo assim seria menos dolorosa a agonia.
A dureza, pá, a cena, méne, o que me mata, gaije, é a tradução e revisão. No último caso, a falta dela. Pá, não se admite. Nem é por haver muita gralha, que não há (kudos! eu distraio-me muito com gralhas, às tantas ponho o livro de parte e dou comigo a jogar-lhes pedacinhos de pão), mas há ali uns vícios que, pá, méne, cena. Muitos "a ela" e "a ele", exemplificando, mas não citando: "sicrano disse a ela", "fulana pediu a ela", por aí fora. Nerfes. Sou uma pessoa muito doente, e filha de uma senhora muito doente que amarinhava paredes quando ouvia alguém dizer "então diga a ela". Pegou-se-me. E enerva-me sobremaneira.
Ainda assim, passava. Como conheço mal o italiano (só de ouvir), ainda atribuí a coisa a um qualquer vício de tradução, afinal os italianos dizem muito "a lei" e tal (provavelmente mal grafado, não leio ou falo italiano, quanto mais escrever). O santo protector das traduções bem sabe quantas vezes o inglês "realize" acaba traduzido como uma qualquer realização, é indefensável (e preguiçoso) mas às tantas um gajo desculpa, que um gajo sofre dos nervos mas tenta ser magnânimo. A gota d'água, meujamigos, foi um desfolhar. E não se falava de uma árvore ou qualquer outra espécie vegetal, era um livro. Que alguém, ao que parece, desfolhava. Não retirando folhas, mas passando-as. Pá. Não. Se. Faz. Méne. Cena. Meretriz que deu à luz. E tal "desfolhada" nem era descrita em itálico, ou na voz de um personagem mais iletrado, o que até maizoumenos desculparia, não, era a narradora, eminente licenciada em letras. Parece mal é o mínimo. Cansei. E ainda outro dia li uma recensão que gabava a tradução. Claro que não podia gabar a inexistente revisão. Pause.
terça-feira, 12 de abril de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Welcome to the jungle
O constante ruído de rodinhas de trolley na calçada;
As gritarias estivais de bandos ébrios, que às mais indecentes horas e em diversas línguas, davam voz à sua alegria;
Os ajuntamentos de fim de tarde de gente muito loira nas filas de caixa do lídele e tiny price;
A proliferação de lojecas que vendem, essencialmente, garrafinhas de variado teor alcoólico a qualquer hora;
Vários estabelecimentos com entrada no yelp e tripadvisor;
Alguns outros, pelo menos mais que um, decorados em estilo vintage-chic-boho, a providenciar brunch;
Não se poder usar o eléctrico como meio de transporte, ali entre Abril e fins de Outubro, devido a constante sobrelotação.
Tudo isto já eram sinais mais que evidentes, a que se veio somar, agora, os folhetos de imobiliárias a aparecer na caixa de correio, semana sim, semana não, simpaticamente oferecendo os seus serviços para nos vender a casa.
Mas a ficha cai, definitivamente, quando dás com o Manuel João Vieira a transitar no bairro.
Que, quando me mudei, ainda era sítio que suscitava franzir de narizes cépticos. Sinceramente? Acho que preferia o antes. Vivia muito bem com a (injusta, aliás) má reputação do local.
Suspiros.
As gritarias estivais de bandos ébrios, que às mais indecentes horas e em diversas línguas, davam voz à sua alegria;
Os ajuntamentos de fim de tarde de gente muito loira nas filas de caixa do lídele e tiny price;
A proliferação de lojecas que vendem, essencialmente, garrafinhas de variado teor alcoólico a qualquer hora;
Vários estabelecimentos com entrada no yelp e tripadvisor;
Alguns outros, pelo menos mais que um, decorados em estilo vintage-chic-boho, a providenciar brunch;
Não se poder usar o eléctrico como meio de transporte, ali entre Abril e fins de Outubro, devido a constante sobrelotação.
Tudo isto já eram sinais mais que evidentes, a que se veio somar, agora, os folhetos de imobiliárias a aparecer na caixa de correio, semana sim, semana não, simpaticamente oferecendo os seus serviços para nos vender a casa.
Mas a ficha cai, definitivamente, quando dás com o Manuel João Vieira a transitar no bairro.
Que, quando me mudei, ainda era sítio que suscitava franzir de narizes cépticos. Sinceramente? Acho que preferia o antes. Vivia muito bem com a (injusta, aliás) má reputação do local.
Suspiros.
Because the sky is blue
E eu, que nunca fui de montanhas russas, de rodas gigantes e sequer de carrosséis, ontem fui acometida de uma vertigem aterradora, enquanto confortavelmente sentada num também muito confortável sofá, enquanto assistia a uma não menos confortável repetição de uma série que já sabia ser causa de um confortável morninho interior. Sem surpresas, sem angústias visíveis, um domingo em branco ainda a iniciar-se, e cai de repente a certeza de que não tenho e nunca terei certezas nenhumas na minha vida. Nada, antes, o nada a bailar-me em frente dos olhos. Sei apenas o agora muito imediato, o daqui a cinco minutos poderá ser previsível e até planeado mas mantém-se desconhecido, o daqui a seis meses é apenas absurdamente longínquo, o daqui a dez anos um buraco negro. O que serei, onde estarei e com quem? Que tapete debaixo dos pés? Não sei, não posso saber.
E pronto, foi o que aprendi até agora, resta aprender a (saber) viver com esta aquisição.
E pronto, foi o que aprendi até agora, resta aprender a (saber) viver com esta aquisição.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
How beauteous mankind is!
Assim muito de repente, muito à pressa e sem querer estabelecer um ranking, parece-me que pior que aceitar dinheiros para encobrir/proteger/favorecer traficantes de droga, só fazê-lo por traficantes de pessoas, terroristas ou criminosos sexuais (abusadores de menores à cabeça). Ele há gente com uma imunidade ao vómito que faz favor.
[este post respeita e não viola o princípio de presunção de inocência, tratando-se a afirmação supra de uma enunciação perfeitamente geral e abstracta, que não imputa a qualquer pessoa em concreto a prática de factos ilícitos]
[este post respeita e não viola o princípio de presunção de inocência, tratando-se a afirmação supra de uma enunciação perfeitamente geral e abstracta, que não imputa a qualquer pessoa em concreto a prática de factos ilícitos]
quarta-feira, 6 de abril de 2016
terça-feira, 5 de abril de 2016
Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada.
[Noite fechada é exagero, mas noitinha, sim senhora. Uma vidinha que olaré.]
Querido pessoal do indie: de nada, de nada. Mandava-vos um peixinho morto embrulhado em papel de jornal. A sério? A sério? Faz-se isto a alguém que já era agarrada ao Starship Troopers antes de ser cool? Às três e meia? Num dia de semana? Agora há secção indie-xófem-inconciente, ou indie-desempregado, é? E o Robocop idem, e Total Recall - que por acaso para mim era estreia - aspas, aspas? Ah, mas o Showgirls já é a uma hora exequível, obrigado por nada, divirtam-se.
Malditos sejam, hadem arranjar muitos amigos com esse feitiozinho. Inda lá vou mazé fazer um estrago, e sair com a deixa "leave the gun, take the cannoli", é o que é.
(o que vale é que ainda estou em estado de graça por ter visto O Padrinho no telão, obrigada aos benfeitores de toda uma geração que se fez adulta tarde de mais para tal. com uma projecção de merda, mas o que conta é a intenção, e no dois parece que já vai haver um projector decente, bem-hajam por toda a eternidade)
Querido pessoal do indie: de nada, de nada. Mandava-vos um peixinho morto embrulhado em papel de jornal. A sério? A sério? Faz-se isto a alguém que já era agarrada ao Starship Troopers antes de ser cool? Às três e meia? Num dia de semana? Agora há secção indie-xófem-inconciente, ou indie-desempregado, é? E o Robocop idem, e Total Recall - que por acaso para mim era estreia - aspas, aspas? Ah, mas o Showgirls já é a uma hora exequível, obrigado por nada, divirtam-se.
Malditos sejam, hadem arranjar muitos amigos com esse feitiozinho. Inda lá vou mazé fazer um estrago, e sair com a deixa "leave the gun, take the cannoli", é o que é.
(o que vale é que ainda estou em estado de graça por ter visto O Padrinho no telão, obrigada aos benfeitores de toda uma geração que se fez adulta tarde de mais para tal. com uma projecção de merda, mas o que conta é a intenção, e no dois parece que já vai haver um projector decente, bem-hajam por toda a eternidade)
quarta-feira, 30 de março de 2016
quinta-feira, 24 de março de 2016
Telescola
Se ainda há quem diga que não se aprende nada a ver tubisão, é porque não anda bem sintonizado. É caro, que seja; mas já não passo sem o meu cabinho. Netflix ainda não entrou, a não ser por portas travessas (delinquenteahééém), mas o resto, oh momma. A ser preciso exemplos, cá vai:
Não fosse a tubisão, a bem dizer os sempre mãos largas da HBO (santinha seja), e mais concretamente o senhor Martin Scorcese (nossosenhoroconserve) ainda hoje não sabia quem era Howlin Wolf. Mate sabia, mas como é caixinha, não tinha contado. Mate has the blues. E também foi ele quem, na sequência de um episódio de Sobrenatural, me confirmou que a lenda sobre o próximo senhor existia, sim senhor, e que era um grande autor (provavelmente o primeiro a integrar o club dos 27). Rimei, mas veja-se lá se não é verdade:
E pronto, é isto. E a série Vinyl está muito bem e recomenda-se. Devia esperar pelo fim para falar do assunto, que já me espalhei ao comprido com a Empire (que prometia, prometia, mas espetou-se a cento e oitenta contra uma parede de betão ali à roda do episódio dez). Esta, ao menos, tem melhor música. Com guitarrinhas.
Não fosse a tubisão, a bem dizer os sempre mãos largas da HBO (santinha seja), e mais concretamente o senhor Martin Scorcese (nossosenhoroconserve) ainda hoje não sabia quem era Howlin Wolf. Mate sabia, mas como é caixinha, não tinha contado. Mate has the blues. E também foi ele quem, na sequência de um episódio de Sobrenatural, me confirmou que a lenda sobre o próximo senhor existia, sim senhor, e que era um grande autor (provavelmente o primeiro a integrar o club dos 27). Rimei, mas veja-se lá se não é verdade:
E pronto, é isto. E a série Vinyl está muito bem e recomenda-se. Devia esperar pelo fim para falar do assunto, que já me espalhei ao comprido com a Empire (que prometia, prometia, mas espetou-se a cento e oitenta contra uma parede de betão ali à roda do episódio dez). Esta, ao menos, tem melhor música. Com guitarrinhas.
We are all mad here
Tive de ver/ouvir duas vezes, para confirmar. Não o óbvio e a que nem vou dar tempo de antena, mas um pequeno pormenor: um professor doutor (minúscula propositada) de uma Universidade Pública, com estudos na área de Relações Internacionais e sua história, chama à colação do seu (aliás tresloucado) discurso um infame livro de Rosenberg, cujas teorias, e aqui estou a citar, que ouvi duas vezes para ter a certeza que foi isso que foi dito, "foram aproveitadas pelo nazismo".
Fiquei mal disposta. Com tudo; mas relativamente ao discurso do ódio, nem vou entrar na discussão. É que dizer que Nietzsche foi aproveitado pelo nazismo, sim senhor. Mas Rosenberg não foi "aproveitado", Rosenberg foi O teórico, ideólogo, do nazismo, Rosenberg foi membro inicial do partido nazi, Rosenberg fez parte do "aparelho" do III Reich, Rosenberg advogou e foi cúmplice do extermínio de judeus e outros povos, Rosenberg foi julgado, condenado e executado em Nuremberga. Rosenberg não tem méritos académicos (as suas publicações e "estudos" não têm qualquer valor científico, e isto não é a minha opinião, o tipo não tinha formação, nem dados, nem suporte para as suas "teorias"), não é citável, não é referência de nenhuma pessoa de bem. Ouvir, no século XXI, na Europa ocidental, um académico dizer o que disse, no contexto em que o disse, citar Rosenberg e caracterizar a sua obra como "tendo sido aproveitada pelo nazismo", preocupa-me mais que mil bombas armadas por fanáticos. Porque actos de terror não estão sob o nosso controlo, mas como lhes reagimos, sim. Tão importante como não sucumbir ao medo, é resistir ao ódio; e o ódio cria-se na ignorância. Rejeitá-la é um dever. Que, obviamente, este "académico" desconhece.
Fiquei mal disposta. Com tudo; mas relativamente ao discurso do ódio, nem vou entrar na discussão. É que dizer que Nietzsche foi aproveitado pelo nazismo, sim senhor. Mas Rosenberg não foi "aproveitado", Rosenberg foi O teórico, ideólogo, do nazismo, Rosenberg foi membro inicial do partido nazi, Rosenberg fez parte do "aparelho" do III Reich, Rosenberg advogou e foi cúmplice do extermínio de judeus e outros povos, Rosenberg foi julgado, condenado e executado em Nuremberga. Rosenberg não tem méritos académicos (as suas publicações e "estudos" não têm qualquer valor científico, e isto não é a minha opinião, o tipo não tinha formação, nem dados, nem suporte para as suas "teorias"), não é citável, não é referência de nenhuma pessoa de bem. Ouvir, no século XXI, na Europa ocidental, um académico dizer o que disse, no contexto em que o disse, citar Rosenberg e caracterizar a sua obra como "tendo sido aproveitada pelo nazismo", preocupa-me mais que mil bombas armadas por fanáticos. Porque actos de terror não estão sob o nosso controlo, mas como lhes reagimos, sim. Tão importante como não sucumbir ao medo, é resistir ao ódio; e o ódio cria-se na ignorância. Rejeitá-la é um dever. Que, obviamente, este "académico" desconhece.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Tenho andado caladita, sem grande vontade de alardes, e ainda menos de polémicas. Não me apetece, a modos que. Mas hoje quebro o jejum, e nem é para lançar e me meter em baderna, é só para registar algumas perplexidades, inquietações e dúvidas que se amontoam, ainda por cima a propósito de um assunto sobre o qual sempre tive muitas certezas. Cá vai.
Sou e sempre fui a favor da eutanásia, tal como do aborto. Não à baldex, claro, há que impor e prever limites, dentro do razoável, quanto ao aborto basta dizer que entendo o actual enquadramento legislativo como perfeitamente razoável, que perfeito não há nada. Relativamente à eutanásia, fiquei toda contente quando se avançou com a cena do testamento vital (que eu, como perfeita anormal e procrastinadora, ainda não fiz), e mais ainda quando se teve a coragem de dar o passo em frente e trazer para a linha da frente o tema, sem paninhos quentes. E depois comecei a ver e ler coisas, e comecei a matutar, a congeminar, e a ficar preocupada. A vexata quaestio, como dizem os juriconsultos, é aquele pequenino pormenor da noção, da definição, que daí parte tudo; a saber, definição de limites, o quando, o a quem, o porquê da coisa.
Eutanásia, sem tretas, é terminar uma vida. Matar, pronto. Escusamos de estar com merdiquices. Não é bonito, pois claro que não é bonito. Na minha maneira de ver as coisas, há situações em que se justifica. Há aquela eutanásia mais light, que é a omissão de cuidados quando se entende que estes apenas prolongam uma existência sem esperança e sofrimento sem sentido, deixa-se morrer. E depois há uma mescla de omissão/acção, em que não se prolonga a vida retirando o suporte (artificial) que a mantém, o famoso "desligar a máquina". Estas já se praticam amplamente, e não são consideradas a eutanásia que agora se quer regular. Não ressuscitar é já prática corrente (e que podemos até determinar, o tal testamento vital), desligar a máquina pratica-se em casos de morte cerebral ou em que esta é quase certa, sendo que a "vida" física apenas é mantida com respiração e batimento cardíaco artificial. São situações consideradas de não retorno, ou quase não retorno. Ainda assim, dependem de um acto de vontade e consentimento, do próprio ou terceiros, e parecer médico. Mas não oferecem grandes problemas éticos - acho eu.
Agora matar-matar. Pois. É que cabe aqui muita coisa, seja "apressar" a morte (por exemplo, ir aumentando gradualmente doses de morfina até que a pessoa, que se encontra num estado terminal de grande sofrimento, enfim sucumba, sem que retorne à dor), ou o auxílio ao suicídio. E mesmo homicídio a pedido. E aqui é que a suína torce a caudita. Quando, em que situações, a quem? Toda a gente merece morrer com dignidade? Não nego. Toda a gente merece escolher a hora da sua morte? Não contesto. Mas quando é que alguém pode, legitimamente, pedir a outrem que se encarregue de fazer chegar tal morte? Quando, em que situações, deve e pode o Estado - que é isso que se trata - avançar, tomar nas suas mãos a execução da decisão alheia?
E aqui fico embatucada. Não sei, pá. Não sei como se legisla isto. Em casos particulares não teria grandes dúvidas. Alguém deixa um documento, um "testamento vitalíssimo", em que manifesta expressa vontade que lhe dêem ordem de marcha caso um dia se encontre um vegetal, ou num estado de demência tão profundo que não possua réstia daquilo a que se possa chamar consciência, alguém em estado terminal de uma doença dolorosa, sem possibilidade de cura: sem dúvida. Ressalvado que seja que aquela manifestação de vontade tenha sido expressa enquanto na posse das suas faculdades.
E noutros casos? Tenho uma doença terminal, mas tenho mobilidade, capacidade de por termo à minha vida. Existe porventura algum fundamento moral que me permita pedir a outrem que me despache? A minha existência é muito limitada por determinada doença, vivo em sofrimento e desejo que acabe, mas nada me impede de tomar uma overdose de qualquer coisa: idem. Sofro de depressão profunda crónica, não há tratamento que não tenha tentado e tudo sem efeito, não vejo sentido em continuar vivo: idem. Epá, levando o assunto com alguma ligeireza, porquê encarregar o Estado de praticar o odioso, quando a iniciativa privada pode resolver o assunto?
Vêm todas estas inquietações a propósito de uma reportagem que vimos outro dia, e me incomodou imenso. Um médico (acho que suíço ou holandês) falava do direito à morte, etc e tal, e se, de início estava a 100% com ele quanto a questões como dignidade, fim do sofrimento inútil e por aí, de repente começou-se a falar de casos concretos. Uma senhora com uma profundíssima depressão, após a morte da sua única filha, que não reagiu a qualquer tratamento, e ele deu parecer favorável para eutanásia. E nós "woa!". Pá, não. E sai-se mate, uns relatos de casos mais à frente "este gajo gosta de matar". Dei-lhe a cotovelada da praxe rematada com o habitual "não sejas assim", mas passou-me um frio na espinha. Gostar não seria o verbo que escolheria, mas digamos que se sentia demasiado à-vontade com a cena de. Talvez um tiquinho de complexo de deus. E seguiam-se estatísticas, números de pedidos e deferimentos de eutanásia, números esses em cavalgada ascendente. E as causas. Problemas psiquiátricos a tomar dianteira de doenças terminais, gente muito, muito jovem a pedir para ser encaminhada para a quinta das tabuletas. E começo a pensar que phoda é esta. Desde quando é que se pode permitir que o homicídio a pedido - sim, já não é um mero auxílio ao suicídio - se torne uma regra em vez de uma excepção. Aparece ainda um tipo que já foi a favor da eutanásia, fez parte de uma comissão de ética relacionada, e entretanto deixou de conseguir dormir. Demitiu-se e mudou de ideias. E assim estou eu. Principalmente desde que soube que num desses "países evoluídos" deram parecer favorável e despacharam uma garota de 24 anos, com uma depressão "intratável". Pá, não.
Retorno ao título do post: Pessoa sabia o que dizia. É só isto. E não quero, recuso, rejeito ser cúmplice ideológica de uma cena que pode descambar naquilo que actualmente se pratica no norte da Europa. Mas vivia muito mais descansada se soubesse que um dia, esperemos que não, calhando estar um vegetal a babar pelo canto da boca, ou em dores terríveis e entubadinha até à alma, alguém teria a piedade de me acabar com a miséria, em vez de ficarem ali a assistir uma decadência inexorável e sem sentido. Mas se para garantir a minha dignidade na morte é necessário sancionar a indignidade de cortar vidas que dizem que não querem mais ser vividas, então pronto, assumo o risco. Contrariada, mas assumo. E vou forçar, lá em casa, um pacto Amour.
Sou e sempre fui a favor da eutanásia, tal como do aborto. Não à baldex, claro, há que impor e prever limites, dentro do razoável, quanto ao aborto basta dizer que entendo o actual enquadramento legislativo como perfeitamente razoável, que perfeito não há nada. Relativamente à eutanásia, fiquei toda contente quando se avançou com a cena do testamento vital (que eu, como perfeita anormal e procrastinadora, ainda não fiz), e mais ainda quando se teve a coragem de dar o passo em frente e trazer para a linha da frente o tema, sem paninhos quentes. E depois comecei a ver e ler coisas, e comecei a matutar, a congeminar, e a ficar preocupada. A vexata quaestio, como dizem os juriconsultos, é aquele pequenino pormenor da noção, da definição, que daí parte tudo; a saber, definição de limites, o quando, o a quem, o porquê da coisa.
Eutanásia, sem tretas, é terminar uma vida. Matar, pronto. Escusamos de estar com merdiquices. Não é bonito, pois claro que não é bonito. Na minha maneira de ver as coisas, há situações em que se justifica. Há aquela eutanásia mais light, que é a omissão de cuidados quando se entende que estes apenas prolongam uma existência sem esperança e sofrimento sem sentido, deixa-se morrer. E depois há uma mescla de omissão/acção, em que não se prolonga a vida retirando o suporte (artificial) que a mantém, o famoso "desligar a máquina". Estas já se praticam amplamente, e não são consideradas a eutanásia que agora se quer regular. Não ressuscitar é já prática corrente (e que podemos até determinar, o tal testamento vital), desligar a máquina pratica-se em casos de morte cerebral ou em que esta é quase certa, sendo que a "vida" física apenas é mantida com respiração e batimento cardíaco artificial. São situações consideradas de não retorno, ou quase não retorno. Ainda assim, dependem de um acto de vontade e consentimento, do próprio ou terceiros, e parecer médico. Mas não oferecem grandes problemas éticos - acho eu.
Agora matar-matar. Pois. É que cabe aqui muita coisa, seja "apressar" a morte (por exemplo, ir aumentando gradualmente doses de morfina até que a pessoa, que se encontra num estado terminal de grande sofrimento, enfim sucumba, sem que retorne à dor), ou o auxílio ao suicídio. E mesmo homicídio a pedido. E aqui é que a suína torce a caudita. Quando, em que situações, a quem? Toda a gente merece morrer com dignidade? Não nego. Toda a gente merece escolher a hora da sua morte? Não contesto. Mas quando é que alguém pode, legitimamente, pedir a outrem que se encarregue de fazer chegar tal morte? Quando, em que situações, deve e pode o Estado - que é isso que se trata - avançar, tomar nas suas mãos a execução da decisão alheia?
E aqui fico embatucada. Não sei, pá. Não sei como se legisla isto. Em casos particulares não teria grandes dúvidas. Alguém deixa um documento, um "testamento vitalíssimo", em que manifesta expressa vontade que lhe dêem ordem de marcha caso um dia se encontre um vegetal, ou num estado de demência tão profundo que não possua réstia daquilo a que se possa chamar consciência, alguém em estado terminal de uma doença dolorosa, sem possibilidade de cura: sem dúvida. Ressalvado que seja que aquela manifestação de vontade tenha sido expressa enquanto na posse das suas faculdades.
E noutros casos? Tenho uma doença terminal, mas tenho mobilidade, capacidade de por termo à minha vida. Existe porventura algum fundamento moral que me permita pedir a outrem que me despache? A minha existência é muito limitada por determinada doença, vivo em sofrimento e desejo que acabe, mas nada me impede de tomar uma overdose de qualquer coisa: idem. Sofro de depressão profunda crónica, não há tratamento que não tenha tentado e tudo sem efeito, não vejo sentido em continuar vivo: idem. Epá, levando o assunto com alguma ligeireza, porquê encarregar o Estado de praticar o odioso, quando a iniciativa privada pode resolver o assunto?
Vêm todas estas inquietações a propósito de uma reportagem que vimos outro dia, e me incomodou imenso. Um médico (acho que suíço ou holandês) falava do direito à morte, etc e tal, e se, de início estava a 100% com ele quanto a questões como dignidade, fim do sofrimento inútil e por aí, de repente começou-se a falar de casos concretos. Uma senhora com uma profundíssima depressão, após a morte da sua única filha, que não reagiu a qualquer tratamento, e ele deu parecer favorável para eutanásia. E nós "woa!". Pá, não. E sai-se mate, uns relatos de casos mais à frente "este gajo gosta de matar". Dei-lhe a cotovelada da praxe rematada com o habitual "não sejas assim", mas passou-me um frio na espinha. Gostar não seria o verbo que escolheria, mas digamos que se sentia demasiado à-vontade com a cena de. Talvez um tiquinho de complexo de deus. E seguiam-se estatísticas, números de pedidos e deferimentos de eutanásia, números esses em cavalgada ascendente. E as causas. Problemas psiquiátricos a tomar dianteira de doenças terminais, gente muito, muito jovem a pedir para ser encaminhada para a quinta das tabuletas. E começo a pensar que phoda é esta. Desde quando é que se pode permitir que o homicídio a pedido - sim, já não é um mero auxílio ao suicídio - se torne uma regra em vez de uma excepção. Aparece ainda um tipo que já foi a favor da eutanásia, fez parte de uma comissão de ética relacionada, e entretanto deixou de conseguir dormir. Demitiu-se e mudou de ideias. E assim estou eu. Principalmente desde que soube que num desses "países evoluídos" deram parecer favorável e despacharam uma garota de 24 anos, com uma depressão "intratável". Pá, não.
Retorno ao título do post: Pessoa sabia o que dizia. É só isto. E não quero, recuso, rejeito ser cúmplice ideológica de uma cena que pode descambar naquilo que actualmente se pratica no norte da Europa. Mas vivia muito mais descansada se soubesse que um dia, esperemos que não, calhando estar um vegetal a babar pelo canto da boca, ou em dores terríveis e entubadinha até à alma, alguém teria a piedade de me acabar com a miséria, em vez de ficarem ali a assistir uma decadência inexorável e sem sentido. Mas se para garantir a minha dignidade na morte é necessário sancionar a indignidade de cortar vidas que dizem que não querem mais ser vividas, então pronto, assumo o risco. Contrariada, mas assumo. E vou forçar, lá em casa, um pacto Amour.
sexta-feira, 18 de março de 2016
quinta-feira, 17 de março de 2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
quinta-feira, 10 de março de 2016
The horror, the horror
Interrompo esta blogo-sabática para vir aqui prestar um verdadeiro, único, premente serviço público na área da saúde pública, que os telejornais abrem, meiam e terminam com lixo vário, entre o qual diversas notícias sobre um tal de zika, mas sobre isto nicles, nada, népia, e a coisa - não querendo ser alarmista mas sendo, porque é preciso que alguém o seja, caramba, alerta, alerta, aos abrigos! - parece que já deixou de ser pontual, pelo menos a confiar na minha observação meramente casuística, e já toma proporções que não quero apelidar de dantescas, que essa qualificação fica reservada para jornalistas em época de fogos florestais, mas pronto, são preocupantes.
O fenómeno é o seguinte: pessoas relativamente jovens, do sexo feminino, de cútis laranja. Fosse eu um Nilton, e acrescentava "o que é isto?", mas não é caso para piadas, mesmo más. É um caso sério. Seríssimo. Com o qual contactei numa recente feira, onde diversas vendedeiras de produtos pseudo-féchion e tópe - e que não passavam de cenas importadas via ebay, ou ideias copiadíssimas ou tunning de acessórios banais via aplicação de fitinhas e outras merdinhas adquiridas chez chenez - apresentavam tal característica. Afligiu-me. Muito. Afastada a hipótese de solário ou férias na neve - muito laranja e pouco bronze - restou-me não aproximar muito, que nunca se sabe a origem e transmissibilidade da bicheza responsável por aquela sintomatologia. Como sou uma pessoa deveras optimista, pensei que podia ser um excesso de beta-caroteno, adquirido por ingestão de qualquer das iguarias grumê que também eram vendidas em viaturas trêndi-vintage naquele espaço.
Passou-se. Mas, entretanto, detectei a coisa fora de recintos com características semelhantes, que aliás não voltei a frequentar. Queria adiantar, para efeitos puramente científicos, o meu contributo para um estudo epidemiológico: detectei o fenómeno só em indivíduos do sexo feminino, aparentando menos de trint'anos, e, dentro deste grupo, moçoilas com ar beto-urbano, vestidas de acordo com blogo-tandances. Alguém pegue nisto, alguém arregace as mangas e investigue, alguém detenha esta catástrofe. Se a coisa se pega, vamos ser o país mais côlalanja possíííííível, em coisa de dois, três meses. Já ando de máscara, por via das dúvidas.
O fenómeno é o seguinte: pessoas relativamente jovens, do sexo feminino, de cútis laranja. Fosse eu um Nilton, e acrescentava "o que é isto?", mas não é caso para piadas, mesmo más. É um caso sério. Seríssimo. Com o qual contactei numa recente feira, onde diversas vendedeiras de produtos pseudo-féchion e tópe - e que não passavam de cenas importadas via ebay, ou ideias copiadíssimas ou tunning de acessórios banais via aplicação de fitinhas e outras merdinhas adquiridas chez chenez - apresentavam tal característica. Afligiu-me. Muito. Afastada a hipótese de solário ou férias na neve - muito laranja e pouco bronze - restou-me não aproximar muito, que nunca se sabe a origem e transmissibilidade da bicheza responsável por aquela sintomatologia. Como sou uma pessoa deveras optimista, pensei que podia ser um excesso de beta-caroteno, adquirido por ingestão de qualquer das iguarias grumê que também eram vendidas em viaturas trêndi-vintage naquele espaço.
Passou-se. Mas, entretanto, detectei a coisa fora de recintos com características semelhantes, que aliás não voltei a frequentar. Queria adiantar, para efeitos puramente científicos, o meu contributo para um estudo epidemiológico: detectei o fenómeno só em indivíduos do sexo feminino, aparentando menos de trint'anos, e, dentro deste grupo, moçoilas com ar beto-urbano, vestidas de acordo com blogo-tandances. Alguém pegue nisto, alguém arregace as mangas e investigue, alguém detenha esta catástrofe. Se a coisa se pega, vamos ser o país mais côlalanja possíííííível, em coisa de dois, três meses. Já ando de máscara, por via das dúvidas.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Whatever
[se o tempo que se ganha é o tempo que não se perde, isto de não ter qualquer urgência de encher o tasco de opiniões, derivações ou simples ocasiões, de não ter a necessidade de vigiar e aprovar comentários, de não ter logo a pulsão de fotografar qualquer bizarria para postar, de não me importar mais, enfim, apresenta um saldo muito positivo. o que tenho lido, senhores. podia partilhar, que podia. mas plantar uma foto de capa e copiar uma sinopse não é a minha cena, e não me apetece mais.]
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Against all odds
Qual é a probabilidade de me baterem duas vezes*, da mesmíssima forma, no mesmíssimo sítio, a horas mui próximas? E se acrescentar que a) os danos são semelhantes; b) das duas vezes fui abalroada por um carro preto; c) conduzido por uma mulher?
Já sei, já sei: vou jogar no eurocoiso.
*não foi com o mesmo carro, mas não podemos querer tudo
Já sei, já sei: vou jogar no eurocoiso.
*não foi com o mesmo carro, mas não podemos querer tudo
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
In the name of love
E do rigor, também, que eu sou muito rigorosa, não gosto do cartaz. É que Jesus não tinha dois pais, tinha uma mãe (que foi emprenhada por um gabiru que só deu as caras quando lhe interessou) e um padrasto.
E quanto às reacções que vão por aí, fizeram lembrar-me isto:
Vá. Vá. A pôr o comprimido debaixo da língua. Depois os muçulmanos é que nãoseiquê, e reagem mal a umas piadas e blablablá.
E quanto às reacções que vão por aí, fizeram lembrar-me isto:
Vá. Vá. A pôr o comprimido debaixo da língua. Depois os muçulmanos é que nãoseiquê, e reagem mal a umas piadas e blablablá.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
My friends all drive Porsches, I must make amends
Gosto muito daquela anedota sobre a devota que reza, reza, reza que lhe saia a taluda; vai um dia, deunossosenhor, fartinho de a ouvir, responde "Oh, senhora, ao menos compre uma cautela!"
Assim estou eu: dava-me um jeitão que me caíssem no colo uns vinte milhões*, mas lembrar-me de jogar, 'tá quieto.
*valor que, contas por alto, daria para uma casa de sonho, uns projectos, e não ter de trabalhar até ao fim dos meus dias. não, não é para gastar tudo em chocolates. só algum.
Assim estou eu: dava-me um jeitão que me caíssem no colo uns vinte milhões*, mas lembrar-me de jogar, 'tá quieto.
*valor que, contas por alto, daria para uma casa de sonho, uns projectos, e não ter de trabalhar até ao fim dos meus dias. não, não é para gastar tudo em chocolates. só algum.
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