Muitas vezes me questiono se aquelas pessoas que são magras - evidentemente, comprovadamente, notoriamente, magras - e que publicam fotografias suas nas redes sociais, donde, toda a gente pode atestar que são magras, têm um problema de falta de empatia, ausência de inteligência, ou apenas de excesso de narcisismo quando:
- publicam fotos ou relatos do que comeram, para concluir que são umas lambonas / vacas / gordas;
- publicam fotos ou relatos sobre roupa que experimentaram / compraram / viram, para concluir que aquele trapo em particular as faz uma goooorda / baleia / mamute;
- publicam fotos ou relatos dos seus runnings, treinos, whatever, concluindo que a gordice que ingeriram já foi à vida, ufa, se não fosse uma goooorda / vaca / baleia / elefanta não tinha de me esforçar taaanto, c'orror.
Assinado: pessoa que pode comer batatas fritas uma vez por mês, e ó; já não se lembra da última pizza que ingeriu, hamburgueres népia, muito menos fast food, e faz refeições só de verdura para poder prevaricar com aquele gelado / chocolate que, caraças, a vida são dois dias, e também não se pode passar o tempo todo a pensar nisso, né. E não, essa pessoa que assina não é, definitivamente, magra. e também já se importou mais, que desde que o castrol e glicémias estejam controlados - e estão - , fuck it all.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
A mula da cooperativa
Se calhar é do calor, que me ferve os neurónios e faz todo o pensamento inteligente desvanecer-se em vapor, mas há cada vez mais coisas que não entendo. E faço por isso, que faço, mas não consigo. Uma limitada.
Iniciemos, então, um pequeno rol:
- Ténis (sapatilhas para o pessoal do nuorte) sem meias. Cuméquié? A avaliar pelas blogo-fotos da nossa féchion-bloga, o téne calça-se sem nada. Nem aquelas meiinhas curtas, de que só se vê uma nica. Ora se calhar os meus pés são muito sensíveis e são os únicos a ficar esfoladinhos se andar de téne sem nada, tudo bem, concedo. Mas decerto não sou a única pessoa sujeita a fenómenos de sudação palmar, acho. E subsequente fedor a chulé, que é coisa que se entranha nas fibras - naturais ou sintéticas - desse tipo de calçado, tornando-o numa etar intolerável. Umas sabrinas, tudo bem, passa-se um algodão embebido em álcool e ficam limpas e sem cheiro. Aliás, as minhas nem criam cheiro que se note (vantagens da palmilha em boa pele). Mas ténes? Ó pá, ca nojo, enfiar os mês ricos pézes num depósito de suores atrasados, num prato petri mesmo bom para criação de fungos. Meias. Sempre. E de algodão. Quero lá saber se é feio. É asseado. Ponto. Não calçam meias sujas? Então não enfiem as extremidades em ténes sudados. Iaca.
- A cena da publicidade. Só num país em que as pessoas estão mais preocupadas em procurar buracos para se escapar é que as leis têm de estar a ser continuamente revistas, a fim de prever tudo e mais um par de botas. A (ainda) actual lei da publicidade engloba blogs, sim. Bocejo. Mas claro, teve de ser clarificada, que este povo só abrindo-lhes a cabeça e enfiando lá as instruções mui-to por-me-no-ri-za-das, ou então, ah, isso não é comigo, não especifica as pessoas com mais de metro e setenta, e eu tenho mais de metro e setenta. Ainda assim, parece que há quem não se rale muito, ou não se informe, ou não queira saber. Sobre publicidade em blogs, e em vez de estar aqui a maçar (ou a ter trabalho) a explicar a minha posição, remeto para aqui, onde foi tudo tão bem explicado. Quanto aos híbridos resultantes de cruzamento entre Equus africanus asinus e Equus caballus (thanks, wiki!) que por aí abundam, e que insistem não ter mal nenhum!, foi uma coisinha que me ofereceram e até gosto muito!, não têm nada a ver se recebi alguma contrapartida para escrever / fotografar / publicar isto!, em vez de se cansarem a dizer mal, façam qualquer coisa. O quê? Ora, denunciem. É fácil: basta clicar aqui, seleccionar na coluna da esquerda (sempre, sempre à esquerda!) "Faça a sua reclamação", preencher e enviar. De nada. Não se limite a refilar: faça parte da mudança que quer ver no mundo.
Iniciemos, então, um pequeno rol:
- Ténis (sapatilhas para o pessoal do nuorte) sem meias. Cuméquié? A avaliar pelas blogo-fotos da nossa féchion-bloga, o téne calça-se sem nada. Nem aquelas meiinhas curtas, de que só se vê uma nica. Ora se calhar os meus pés são muito sensíveis e são os únicos a ficar esfoladinhos se andar de téne sem nada, tudo bem, concedo. Mas decerto não sou a única pessoa sujeita a fenómenos de sudação palmar, acho. E subsequente fedor a chulé, que é coisa que se entranha nas fibras - naturais ou sintéticas - desse tipo de calçado, tornando-o numa etar intolerável. Umas sabrinas, tudo bem, passa-se um algodão embebido em álcool e ficam limpas e sem cheiro. Aliás, as minhas nem criam cheiro que se note (vantagens da palmilha em boa pele). Mas ténes? Ó pá, ca nojo, enfiar os mês ricos pézes num depósito de suores atrasados, num prato petri mesmo bom para criação de fungos. Meias. Sempre. E de algodão. Quero lá saber se é feio. É asseado. Ponto. Não calçam meias sujas? Então não enfiem as extremidades em ténes sudados. Iaca.
- A cena da publicidade. Só num país em que as pessoas estão mais preocupadas em procurar buracos para se escapar é que as leis têm de estar a ser continuamente revistas, a fim de prever tudo e mais um par de botas. A (ainda) actual lei da publicidade engloba blogs, sim. Bocejo. Mas claro, teve de ser clarificada, que este povo só abrindo-lhes a cabeça e enfiando lá as instruções mui-to por-me-no-ri-za-das, ou então, ah, isso não é comigo, não especifica as pessoas com mais de metro e setenta, e eu tenho mais de metro e setenta. Ainda assim, parece que há quem não se rale muito, ou não se informe, ou não queira saber. Sobre publicidade em blogs, e em vez de estar aqui a maçar (ou a ter trabalho) a explicar a minha posição, remeto para aqui, onde foi tudo tão bem explicado. Quanto aos híbridos resultantes de cruzamento entre Equus africanus asinus e Equus caballus (thanks, wiki!) que por aí abundam, e que insistem não ter mal nenhum!, foi uma coisinha que me ofereceram e até gosto muito!, não têm nada a ver se recebi alguma contrapartida para escrever / fotografar / publicar isto!, em vez de se cansarem a dizer mal, façam qualquer coisa. O quê? Ora, denunciem. É fácil: basta clicar aqui, seleccionar na coluna da esquerda (sempre, sempre à esquerda!) "Faça a sua reclamação", preencher e enviar. De nada. Não se limite a refilar: faça parte da mudança que quer ver no mundo.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Don't quit your day job
Confesso sem problemas que sou, amiúde, atacada de acessos violentos de inveja. A minha não se caracteriza por pensamentos de tomara que morras ou odeio-te, não. Como em qualquer boa neurótica, passam pelo apertado beco onde mora o super-ego e transformam-se em auto-crítica ou auto-comiseração, ou seja, manifestam-se de formas tais como porque é que eu não sou assim, ou tanto talento para uns e outros aqui a chafurdar na mediocridade (snif).
Um desses acessos, logo seguido de profunda introspecção e auto-comiseração, deu-me quando visitei o museu Picasso. Ali pode ver-se obras executadas pelo pintor, ao longo da sua vida. E desde já advirto qualquer visitante: perante a tentação de dizer ah, aquilo nem é nada de especial, que atentem na etiqueta com a data da pintura/desenho, façam contas, e concluam com que idade é que o pequeno Pablo pincelou aquela tela. Pois. Pablito já executava perfeitamente diversas técnicas de pintura e desenho numa idade em que eu tinha, como supremo objectivo de vida, chegar ao último nível do jogo do elástico. Depressão.
Sim senhora, coisas que o talento permite, e nem toda a gente o tem, a distribuição não é democrática. Verdade, treinou muito, adquiriu técnica, que o talento só não chega, é a tal coisa de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Melhor ainda, teve meios não ao alcance de todos, que uma pessoa até pode ser genial para engenharia aereoespacial, mas se tiver de apascentar cabras para ganhar o pão nunca construirá nem a chapa de um foguete. (o pai era pintor e professor de pintura, e pequenito Pablo assistia a aulas desde criança).
Mas mais que o talento, a técnica, há algo que a muitos nunca tocará. Picasso poderia não ter passado daquilo, da mimetização de técnicas (e que bem as executava), e acabar a pintar retratos de casais endinheirados ao estilo da escola flamenga, bebés rubenescos, ou paisagens impressionistas para alindar casas de jantar da burguesia. E decerto o faria muito bem, mas não: o tipo tinha uma voz, uma visão sua. E caraças, como a tinha. E é isto que distingue os meramente talentosos, bons executantes, dos inesquecíveis: o cunho único. Não vale a pena ter-se talento (e técnica) para depois produzir mais do mesmo. Ok, concedo, dentro dos talentos singulares nem todos fundam ou são precursores de uma "escola", alguns continuam uma certa tendência, mas acrescentam sempre algo de único. Um Monet não é um Degas, nem um nem outro são mais do mesmo, e tanto um como outro são únicos. Picasso foi um bocadinho mais único, pronto.
E é aqui que queria chegar. Há quem seja talentoso e bom executante, mas não tenha voz. Porque há quem seja talentoso e bom executante, mas se mantém numa linha ou escola, não faz nada de novo, usa uma voz que não é sua para se exprimir. E há quem seja talentoso e bom executante e use inúmeras vozes alheias, sem nunca descobrir sequer uma que decida preferir. Ambos se diluem na história; poderão permanecer pendurados lá por casa, mas não farão ninguém acordar no dia seguinte a pensar que gostava de acordar todos os dias a olhar para aquilo.
E este palavrié todo p'ra quê, ó fulana, valhamedeuz que cheguei aqui - a custo - e não percebo onde queres chegar. A lado nenhum, ora. Ocorreu-me. É que eu, uma tola dos lápis - de cor ou grafite -, uma douda dos esborratanços, ainda com bastante menos de duas décadas de vida, tive uma epifania: faltava-me qualquer coisinha, a que chamei talento. E percebi que não era ali que ia ganhar o pão. Depois um dia, passadas as tais duas décadas, alguém me disse que o tal do talento é 90% de transpiração, e percebi que afinal o que me faltava era outra coisa, aquilo que me entrava olhos dentro quando olhava certas coisas. E pronto, talvez melhor assim. Melhor ter tido essa constatação tão cedo, melhor ninguém me ter alimentado uma ilusão narcísica, melhor eu ser dotada, talvez, de um crivo crítico feroz. E ainda bem que visitei o Museu d'Orsay com dezasseis anitos, também. Quando se caminha entre anjos uma pessoa não pode deixar de perceber a sua falta de asas.
Um desses acessos, logo seguido de profunda introspecção e auto-comiseração, deu-me quando visitei o museu Picasso. Ali pode ver-se obras executadas pelo pintor, ao longo da sua vida. E desde já advirto qualquer visitante: perante a tentação de dizer ah, aquilo nem é nada de especial, que atentem na etiqueta com a data da pintura/desenho, façam contas, e concluam com que idade é que o pequeno Pablo pincelou aquela tela. Pois. Pablito já executava perfeitamente diversas técnicas de pintura e desenho numa idade em que eu tinha, como supremo objectivo de vida, chegar ao último nível do jogo do elástico. Depressão.
Sim senhora, coisas que o talento permite, e nem toda a gente o tem, a distribuição não é democrática. Verdade, treinou muito, adquiriu técnica, que o talento só não chega, é a tal coisa de 10% de inspiração e 90% de transpiração. Melhor ainda, teve meios não ao alcance de todos, que uma pessoa até pode ser genial para engenharia aereoespacial, mas se tiver de apascentar cabras para ganhar o pão nunca construirá nem a chapa de um foguete. (o pai era pintor e professor de pintura, e pequenito Pablo assistia a aulas desde criança).
Mas mais que o talento, a técnica, há algo que a muitos nunca tocará. Picasso poderia não ter passado daquilo, da mimetização de técnicas (e que bem as executava), e acabar a pintar retratos de casais endinheirados ao estilo da escola flamenga, bebés rubenescos, ou paisagens impressionistas para alindar casas de jantar da burguesia. E decerto o faria muito bem, mas não: o tipo tinha uma voz, uma visão sua. E caraças, como a tinha. E é isto que distingue os meramente talentosos, bons executantes, dos inesquecíveis: o cunho único. Não vale a pena ter-se talento (e técnica) para depois produzir mais do mesmo. Ok, concedo, dentro dos talentos singulares nem todos fundam ou são precursores de uma "escola", alguns continuam uma certa tendência, mas acrescentam sempre algo de único. Um Monet não é um Degas, nem um nem outro são mais do mesmo, e tanto um como outro são únicos. Picasso foi um bocadinho mais único, pronto.
E é aqui que queria chegar. Há quem seja talentoso e bom executante, mas não tenha voz. Porque há quem seja talentoso e bom executante, mas se mantém numa linha ou escola, não faz nada de novo, usa uma voz que não é sua para se exprimir. E há quem seja talentoso e bom executante e use inúmeras vozes alheias, sem nunca descobrir sequer uma que decida preferir. Ambos se diluem na história; poderão permanecer pendurados lá por casa, mas não farão ninguém acordar no dia seguinte a pensar que gostava de acordar todos os dias a olhar para aquilo.
E este palavrié todo p'ra quê, ó fulana, valhamedeuz que cheguei aqui - a custo - e não percebo onde queres chegar. A lado nenhum, ora. Ocorreu-me. É que eu, uma tola dos lápis - de cor ou grafite -, uma douda dos esborratanços, ainda com bastante menos de duas décadas de vida, tive uma epifania: faltava-me qualquer coisinha, a que chamei talento. E percebi que não era ali que ia ganhar o pão. Depois um dia, passadas as tais duas décadas, alguém me disse que o tal do talento é 90% de transpiração, e percebi que afinal o que me faltava era outra coisa, aquilo que me entrava olhos dentro quando olhava certas coisas. E pronto, talvez melhor assim. Melhor ter tido essa constatação tão cedo, melhor ninguém me ter alimentado uma ilusão narcísica, melhor eu ser dotada, talvez, de um crivo crítico feroz. E ainda bem que visitei o Museu d'Orsay com dezasseis anitos, também. Quando se caminha entre anjos uma pessoa não pode deixar de perceber a sua falta de asas.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Screw you guys, I'm going home
Dois dias, dois, tirando os outros, mas agora são dois seguidinhos, a chafurdar na mais abjecta teia de mesquinhice, na mais pura e (mal) apurada merdice retórica. Dois dias, dois, a fuçar nos registos que comprovam uma triste história de incompetência alheia, uma lamentável lenda de incapacidade de resolução de problemas, uma revoltante falta de visão periférica, alargada, ao horizonte. Dois dias, dois, a destorcer o cérebro num slalom entre argumentos espiralados, a fazer uma timeline coerente de uma teia construída por uma aranha intoxicada, a passar a pente fino resmas de descrições, conclusões, ilações, a maior parte delas para as jogar fora. Dois dias, dois, a cortar palavras e reescrever frases, a limar parágrafos, a aparafusar ideias, depois de as desmontar do sítio onde não encaixam e encontrar o exacto ponto onde pertencem (a maior parte das vezes esse ponto chama-se "lixo"). Dois dias, dois, a pensar que há gente que acha que tem problemas, mas tem é moinhos de vento, queres problemas, ó vaca de merda, queres problemas, ó cabrão do caralho, senta-te aqui e eu conto-te uma história; a seguir, e para resolver esta esterqueira como deve ser, vais fazer o que digo e bico calado, chut, parou de gastar tempo e recursos a quem tem mais onde os gastar, ali, onde são mesmo precisos.
Se podia acabar isto hoje? Podia. Mas não me merecem essa consideração.
[como diz a minha mãezinha, depois de ouvir as minhas longas queixas e lamentos sobre a qualidade dos cidadãos contribuintes que me calham na sorte, deixa lá, filha, se as pessoas não fossem assim não tinhas trabalho. meh.]
Se podia acabar isto hoje? Podia. Mas não me merecem essa consideração.
[como diz a minha mãezinha, depois de ouvir as minhas longas queixas e lamentos sobre a qualidade dos cidadãos contribuintes que me calham na sorte, deixa lá, filha, se as pessoas não fossem assim não tinhas trabalho. meh.]
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Green Acres
Às vezes bate uma nostalgia dos tempos da minha infância, em que a televisão se via a preto e branco (e umas cinquenta sombras de cinza), a opção real repartia-se entre o que estava a dar ou fazer outra coisa qualquer (sim, ainda sou do tempo em que a emissão não era non-stop, e a dois só abria à noitinha). Foi o tempo da missa ao domingo e só depois bonecos animados, com o Vasco Granja ou, como eu o referia, ó mãããããe, o homem nunca mais se cala e nunca mais começa o Pernalonga*. Em dias santos, que pediam missa alongada, nicles, nada de Pato Maluco** (mas vê lá se cancelavam o TV Rural ou o 70 x 7, caneco; a gente não tinha direitos, a gente não tinha qualidade de vida, a gente não era target, a canalha sofria e calava). Foi o tempo em que achávamos que entretenimento era assistir às descobertas musicais, entrevistas, e rábulas apresentadas pelo Júlio Isidro (tudo em directo, sem rede, sem fios); quais fechar uma data de rafeirões numa casa e ficar a ver. Foi também o tempo em que nos telejornais tínhamos peças satírico-informativa-humorísticas com o senhor Fernando e esta, hein? Peça, e também havia tempo para aligeirar com aquilo a que agora se blogo-chamaria não-assuntos.
Ora, entre os não-assuntos mais tele-famosos e sistematicamente na berlinda, era o horto-assunto. Quero acreditar que ainda há quem se lembre dos fenómenos do Entroncamento, dada a prevalência da zona em tais reportagens. Ele era a batata de quilo, a abóbora de arroba, o pimento com a cara do Bochechas, o pepino de metro - e chalaças mesmo a propósito. Um fartote. Não havia mês, pelo menos, sem um hortícola ter os seus quinze minutos de fama.
E agora chegámos ao ponto: é disto (e do Pernalonga, vá) que tenho nostalgia, e para onde é que ligo para me irem fazer uma reportagem lá a casa? Juro que deixo crescer o bigode e ponho um lenço na cabeça, eu dou uma rústico-patusca muito janota, prometo.
(são ou não são os chilis mais compostinhos que já viram, hein?)
(se alguém vem com a conversa do ah, e tal, dá-me ideia que as tuas mãos são enfezaditas de pequenas, apesar de rechonchas, não vale: isso é inveja, isso é ser má pessoa.)
*Bugs Bunny, para os nascidos depois de mil nove e oitenta.
**Duffy Duck, para os nascidos depois de mil nove e oitenta.
Ora, entre os não-assuntos mais tele-famosos e sistematicamente na berlinda, era o horto-assunto. Quero acreditar que ainda há quem se lembre dos fenómenos do Entroncamento, dada a prevalência da zona em tais reportagens. Ele era a batata de quilo, a abóbora de arroba, o pimento com a cara do Bochechas, o pepino de metro - e chalaças mesmo a propósito. Um fartote. Não havia mês, pelo menos, sem um hortícola ter os seus quinze minutos de fama.
E agora chegámos ao ponto: é disto (e do Pernalonga, vá) que tenho nostalgia, e para onde é que ligo para me irem fazer uma reportagem lá a casa? Juro que deixo crescer o bigode e ponho um lenço na cabeça, eu dou uma rústico-patusca muito janota, prometo.
*Bugs Bunny, para os nascidos depois de mil nove e oitenta.
**Duffy Duck, para os nascidos depois de mil nove e oitenta.
And so it goes
Estou impante com a minha nova aquisição. Um par de sapatos supint? Uma mala/carteira patinfa? Um autefit chumpachi? Não. Uma velharia supint-patinfa-chumpachi.
Ok, ok, não é uma Remington ou uma Underwood, mas funciona impecavelmente, é gira que se farta e, o mais importante, não pesa uma tonelada (essencial quando o transporte é a pé / transportes públicos) como aquelas, já não é feita em metal, mas de baquelite. Tão contentinha.
Ah, e foi mais barata que isto aqui abaixo (e vai durar mais, visto não se destinar a ingestão e a ser eventualmente expelido. cada um com os seus fétiches):
Ok, ok, não é uma Remington ou uma Underwood, mas funciona impecavelmente, é gira que se farta e, o mais importante, não pesa uma tonelada (essencial quando o transporte é a pé / transportes públicos) como aquelas, já não é feita em metal, mas de baquelite. Tão contentinha.
Ah, e foi mais barata que isto aqui abaixo (e vai durar mais, visto não se destinar a ingestão e a ser eventualmente expelido. cada um com os seus fétiches):
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Lisboa, menina e moça
A quem pergunta qual a vantagem de viver em Lisboa, posso responder que estou a dez minutos a pé disto:
E disto:
E disto, também:
Nem tudo é bom, claro. Um gajo também pode apanhar com isto pela frente:
E depois sente-se melhor ao ver que pode optar por ir pelo próprio pé, em vez de gramar com isto:
E disto, também:
Nem tudo é bom, claro. Um gajo também pode apanhar com isto pela frente:
E depois sente-se melhor ao ver que pode optar por ir pelo próprio pé, em vez de gramar com isto:
terça-feira, 7 de julho de 2015
Há dias assim, dias de alma vaga
Uns queixam-se do polén, do mal que lhes faz aos narizinhos, das tosses e ranhos que provoca; outros andam de olhos no alto a admirar os céus mais floridos (e olhos no chão, a deleitar-se com os tapetes de colorido).
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Ding, dong, the witch is dead
Uma pessoa escreve um post a concluir que a cabrice não é feitio, é opção, e não das boas, e tau, acaba o dia a dar de caras com uma rechonchuda, fofinhucha, peluda cabrice. Pronto, ninguém recebeu o meu memo, certo? Ou então o problema é ao nível da falta de opções, isso, o tédio é muito mau conselheiro. Tanta coisa gira para fazer, uns dias tão lindos e soalheiros, uns passeios bons que se davam, resmas de livros à venda, há para para todos os gostos, mesmo os maus, e ainda assim as pessoas entretêm-se a enfiar o apêndice na vida alheia, e unhaca ali a escarafunchar o que não lhes diz respeito. Tchhhhh.
Isso, quero crer que é falta de informação relativamente às opções, e não apenas uma vida triste, uma cabeça poucochinha, uma mentalidade atrasadinha que faz as pessoas persistir nesta estranha forma de vida.
You're just an empty cage girl If you kill the bird
Contava ela como foi alvo do comentário e interpelação de estranhos, num local público. Não estendendo uma mãozinha na aflição em curso, não dando uma palavrinha de ânimo ou consolo, mas sussurrando desaprovação, apontando o que (supostamente) estava fazendo de errado. Alguém ultrapassou a barreira do pudor e decoro e abordou-a, agressivamente: não via o que estava a fazer de errado?, não percebia que devia fazer y ou mesmo x?, porque estava ali tão caaalma, em vez de fazer assim e assado?, e mais, e pior, e mais intenso. Contava ela que, já aflita, paralisou; em vez de mandar aquela gente toda enfiar as opiniões de onde nunca deveriam ter saído, acabou justificando-se; que, debaixo das rajadas da outra, o fez já balbuciando, com emoção, embora sabendo que mais valia ficar calada; que se sentiu acossada, isolada, encurralada, e finalmente cedeu às lágrimas.
Eu ouvia aquilo de boca aberta, e tristeza profunda. A primeira reacção, porque não entendo o que leva alguém a, vendo outra pessoa em situação que só a si cabe gerir, meter o bedelho, de modo brutamente intrusivo, e ainda por cima de forma gratuitamente agressiva. A segunda, porque a pessoa e situação em causa não mereciam semelhantes investidas e invectivas. Bastava conhecê-la, a pessoa, para o saber. Obviamente, quem se deu licença para assim agir não sabia, nem cuidou de saber: viu, julgou e achou por bem actuar, e com essa actuação não só não contribuiu para resolver o problema, como feriu outrem. Mais: viu com os olhos inclementes com que olha os outros; julgou com os padrões cegos com que avalia todos os outros. Duvido que, apontando esses olhos e padrões a si própria, aquela pessoa pudesse ser absolvida, mas que interessa isso, quando se é alguém que se autoriza a ser agente autuante, juiz e carrasco? Nada, nadinha.
Juro que ainda me surpreendo com coisas destas. Quatro décadas e picos de provas em contrário, e ainda tenho a ousadia de achar que as pessoas são melhores que isto, mais elevadas que a sua mesquinhez, com mais horizontes que os que a sua tacanhez impõe. E imagino que, confrontando-se tais pessoas, perguntando-lhes se achavam bem o que faziam, não reflectiriam nem um segundo, antes me responderiam que tinham direito à sua opinião, e a verbalizá-la. Claro que sim, toda a gente tem direito à sua opinião. E a dá-la. O que não significa que devam fazê-lo, ou que seja decente decidir dar essa opinião, a quem não tem o dever de a ouvir ou a considerar. Mas não importa: têm o direito. E se têm o direito, embora exercê-lo, embora! É só agarrar na forquilha e archote, olha ali alguém a fazer algo que, em princípio, acho errado, marchar, marchar.
Sem ilusões: devemos agir e opinar, sim. Agir contra a injustiça e ilegalidade, denunciando-a; o sistema, bom ou mau, existe. E só não funciona se não o usarmos e lhe dermos a manutenção devida. Idem aspas para o opinar, se bem que as palavras são ocas e inócuas se não houver uma acção eficaz que as secunde. Apontar não chega. Apontar cegamente, a qualquer coisa, por qualquer capricho de opinião, é estúpido. É matar moscas com uma G3.
Por mim continuo a regar esta utopia, de que mais cedo ou mais tarde as pessoas entenderão que ser uma cabra tresloucada sem filtro, um cabrãozeco ululante e enfurecido, é uma opção. Optar não o ser é que é de valor.
Eu ouvia aquilo de boca aberta, e tristeza profunda. A primeira reacção, porque não entendo o que leva alguém a, vendo outra pessoa em situação que só a si cabe gerir, meter o bedelho, de modo brutamente intrusivo, e ainda por cima de forma gratuitamente agressiva. A segunda, porque a pessoa e situação em causa não mereciam semelhantes investidas e invectivas. Bastava conhecê-la, a pessoa, para o saber. Obviamente, quem se deu licença para assim agir não sabia, nem cuidou de saber: viu, julgou e achou por bem actuar, e com essa actuação não só não contribuiu para resolver o problema, como feriu outrem. Mais: viu com os olhos inclementes com que olha os outros; julgou com os padrões cegos com que avalia todos os outros. Duvido que, apontando esses olhos e padrões a si própria, aquela pessoa pudesse ser absolvida, mas que interessa isso, quando se é alguém que se autoriza a ser agente autuante, juiz e carrasco? Nada, nadinha.
Juro que ainda me surpreendo com coisas destas. Quatro décadas e picos de provas em contrário, e ainda tenho a ousadia de achar que as pessoas são melhores que isto, mais elevadas que a sua mesquinhez, com mais horizontes que os que a sua tacanhez impõe. E imagino que, confrontando-se tais pessoas, perguntando-lhes se achavam bem o que faziam, não reflectiriam nem um segundo, antes me responderiam que tinham direito à sua opinião, e a verbalizá-la. Claro que sim, toda a gente tem direito à sua opinião. E a dá-la. O que não significa que devam fazê-lo, ou que seja decente decidir dar essa opinião, a quem não tem o dever de a ouvir ou a considerar. Mas não importa: têm o direito. E se têm o direito, embora exercê-lo, embora! É só agarrar na forquilha e archote, olha ali alguém a fazer algo que, em princípio, acho errado, marchar, marchar.
Sem ilusões: devemos agir e opinar, sim. Agir contra a injustiça e ilegalidade, denunciando-a; o sistema, bom ou mau, existe. E só não funciona se não o usarmos e lhe dermos a manutenção devida. Idem aspas para o opinar, se bem que as palavras são ocas e inócuas se não houver uma acção eficaz que as secunde. Apontar não chega. Apontar cegamente, a qualquer coisa, por qualquer capricho de opinião, é estúpido. É matar moscas com uma G3.
Por mim continuo a regar esta utopia, de que mais cedo ou mais tarde as pessoas entenderão que ser uma cabra tresloucada sem filtro, um cabrãozeco ululante e enfurecido, é uma opção. Optar não o ser é que é de valor.
sábado, 4 de julho de 2015
Welcome to the twilight zone (5)
Uma pessoa a relatar publicamente actos de outrem susceptíveis de integrar o crime de ameaça ou o crime de devassa da vida privada. Acto continuo, dita pessoa praticar actos susceptíveis de integrar o crime de denúncia caluniosa e também devassa da vida privada.
[não estivesse eu no tablet e não percebesse um boi de fazer copy paste nesta joça, e punha aqui um gif de velhinhas a bater palmas]
[não estivesse eu no tablet e não percebesse um boi de fazer copy paste nesta joça, e punha aqui um gif de velhinhas a bater palmas]
sexta-feira, 3 de julho de 2015
I'm going slightly mad
Sobre rituais pós-morte, e onde enfiam restos mortais de quem quer que seja, quero cá saber - apesar de achar pouco higiénico desenterrar um corpo só um ano depois, iaca.
Sobre quem está ou não está ou devia estar no raio do Panteão, não me podia ralar menos - nunca lá entrei, não faço tenções de entrar.
Sobre fazerem um cortejo gigantesco, num dia de semana, e com caloraça, não me incomoda - por acaso até tiveram a decência de não se cruzar nos meus caminhos.
Sobre estarem uns cinco ou seis canais a passar aquilo em directo, não me afecta - é por essas e outras que pago cabo.
Agora o c@r@lho dos helicópteros, pá, sinceramente, não podiam ir "avoar" noutra freguesia, hein, se eu gostasse de viver perto de ruído aeronáutico tinha escolhido ali Alvalade ou a Quinta do Lambert, fod@-se.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
To sleep, perchance to dream
O dia inteiro a lutar com esta baixa de tensão. Cafeína? Check. Hidratos rápidos? Check. Chocolate? Check. Na mesma. Só que com uma overdose de estimulantes que me pôs, ali desde as três da tarde, a hiperventilar. Falta a derradeira solução: caminha. Credo. É o que dá trabalhar duas semanas numa, e ainda hoje é quinta.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
terça-feira, 30 de junho de 2015
Psycho killer
Tenho um sonho, um sonho mui singelo, apesar de ilegal: um dia pegava em todos os motivadores da treta que apregoam inanidades como a vida resolve-se sozinha ou é preciso fazer aquilo que nos apaixona ou acredita e atreve-te ou tu consegues, tens é de trabalhar para isso, e caracinhas do mesmo teor, tirava-lhes tudo, o tecto, o rendimento, a rede de apoio (sim, família, amigos, tudo), a saúde, a certeza do jantar mais logo, o sossego de saber o amanhã, e ia largá-los ali a dormir numa caixa de cartão, nas arcadas do Martim Moniz, a ver o que acontecia. Façam lá uns workshops motivacionais entre os locais, façam; larguem lá umas larachas positivas e encorajadoras, larguem. Alguém há-de recolher o vosso cadáver.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
The final countdown
Custa-me imenso que haja quem se congratule com a desgraça alheia (e mais ainda porque a acham merecida), mas não consigo entender que haja quem não entenda que a União Europeia é só tão forte como o seu elo mais fraco.
Avizinham-se tempos aterradores, e há quem ainda não tenha aberto os olhos para além do seu umbigo e vislumbrado que a Europa está cercada. Isto não é só uma questão de dinheiro. Antes fosse.
Avizinham-se tempos aterradores, e há quem ainda não tenha aberto os olhos para além do seu umbigo e vislumbrado que a Europa está cercada. Isto não é só uma questão de dinheiro. Antes fosse.
sábado, 27 de junho de 2015
O direito do mais forte à liberdade
Quando era pequinititxa, mesmo ali na pré e primeiros anos da primária, tinha uma amiguinha, aquilo a que se chamaria a melhor amiga, que era uma pessoa, como direi, não é bem de personalidade forte, era entre isto e o atirar para o impositivo, alpha bitch, totalmente. Sempre que havia uma discordância, uma diferença de opiniões - e, naquelas idades, para surgir uma discussão que caiba neste espectro basta lançar um tema como "a que é que vamos brincar agora" -, e calhava eu não ceder, era um sarilho do caneco.
Note-se, apesar de eu ser bastamente conhecida pelo mau feitio e teimosia, a verdade é que, perante situações de impasse por coisas que não sejam de fundo ou implicassem um enxovalho superior ao que seria capaz de tolerar, eu cedia. Tudo a bem da paz (podre, verdade), e porque, enfim, há batalhas que não vale a pena travar.
Mas, de quando em vez, ela fornicava-me o juízo mais do que achava que devia contemporizar, e impunha-me. E ela, bom, reagia como reage uma criança habituada a levar a sua avante, pouco habituada a colocar-se no lugar do outro, ou a tentar perceber outras perspectivas. Zangava-se. Deixava de me falar, "já não sou tua amiga!", um drama do caralho. Mas não se ficava por aí. Acto contínuo, lançava-se na campanha de se eleger a vítima da malvada da Izzie, buhuuu, que a contrariou, e houve ainda aquela vez que. Isso mesmo: ia de coleguinha em coleguinha, fazendo o número de coitadinha, contando agravos presentes e passados, como eu era má, feia, e que não se dessem comigo, porque "tu és minha amiga, não és?".
E eu? Bom, eu ficava triste, claro que ficava. E não fazia mais nada. Para além de não nunca ter sido uma criança propriamente expansiva, que tivesse lata de andar, depois de uma zanga com a bff, a angariar um piquete de piedade e amizade com a minha pessoa, achava aquilo tudo muito palerma e desnecessário. E ficava no meu canto. Triste. Mas sem o deixar transparecer, às tantas - sim, estas cenas repetiam-se, assim como se repetiam a reconciliações e posteriores recidivas. E, se ficava triste com a atitude dela, mais triste ficava com a atitude das demais que, sem se cansarem a impor-se, ou averiguar seja o que for, se colocavam do seu lado. Achava uma injustiça. Aos poucos, e à custa de repetições, percebi que não o fazia por maldade ou pura parcialidade; era apenas um descaso, um desinteresse, um não se querer chatear com uma briga que não era delas. Entender isto capacitou-me para lhes perdoar um bocadinho. Afinal, não era mesmo com elas, pois não? Mas, ainda assim, magoava-me que fossem assim deixa-andar. Que fossem permeáveis à primeira - e única - abordagem, e tão facilmente deixassem de fazer caso de quem não tem estrutura para andar a cativar simpatias,a exigir solidariedade absoluta, a açambarcar a companhia com o propósito de também me privar dela.
Lembro-me de muitas vezes pensar que era tudo tão estúpido, tão poucochinho. De me animar pensando que um dia as coisas deixariam de ser assim, a vida já não seria um recreio de escola, as pessoas seriam crescidas e capazes de dizer a alguém, com estas atitudes, "hei, calma aí, resolve os teus assuntos com quem tens de resolver, mas não venhas tentar antagonizar, eu gosto da X e vou continuar a dar-me com ela." Mas não, parece que ninguém faz isto. É engraçado, porque eu faço. Se calhar (?) sou muito, muito estúpida, mas se alguém me tenta encurralar, isolar de outra pessoa só por causa de um diferendo lá entre elas, reajo mal, muito mal. Nunca me peçam para escolher entre a espada e a parede. Nunca me tentem afastar de alguém só porque passou a ser pessoa non grata a alguém do grupo. Nunca.
Ainda assim, percebo quem não reaja da mesma forma. É a tal coisa da paz social. As pessoas já têm muito que as rale, vão agora tomar posição numa situação destas. Deixam andar. A sério, percebo. Desprezo um bocadinho a falta de espinha, mas percebo. Afinal haverá muito quem pense que, se calhar, e porque eu não o mostro, se calhar também não me importo. E como não faço campanhas, se calhar também pensam que mais vale ficarem com quem se aproximou, e não com quem ficou ali, na boa, a ver o que acontecia, a confiar que, nã, vai lá ser tudo igual outra vez. Mas é. É uma constante. O elo mais fraco é descartado - não, esquecido. Como não se faz notado, é natural, ou habitual que assim seja.
E pronto, as coisas seguem. São como são. Tudo na mesma, como a lesma. E eu vejo-os a ir. E razão tinham os romanos, uma paliçada dá uma trabalheira a levantar, mas a probabilidade de se apanhar pancada lá dentro é muito menor.
Note-se, apesar de eu ser bastamente conhecida pelo mau feitio e teimosia, a verdade é que, perante situações de impasse por coisas que não sejam de fundo ou implicassem um enxovalho superior ao que seria capaz de tolerar, eu cedia. Tudo a bem da paz (podre, verdade), e porque, enfim, há batalhas que não vale a pena travar.
Mas, de quando em vez, ela fornicava-me o juízo mais do que achava que devia contemporizar, e impunha-me. E ela, bom, reagia como reage uma criança habituada a levar a sua avante, pouco habituada a colocar-se no lugar do outro, ou a tentar perceber outras perspectivas. Zangava-se. Deixava de me falar, "já não sou tua amiga!", um drama do caralho. Mas não se ficava por aí. Acto contínuo, lançava-se na campanha de se eleger a vítima da malvada da Izzie, buhuuu, que a contrariou, e houve ainda aquela vez que. Isso mesmo: ia de coleguinha em coleguinha, fazendo o número de coitadinha, contando agravos presentes e passados, como eu era má, feia, e que não se dessem comigo, porque "tu és minha amiga, não és?".
E eu? Bom, eu ficava triste, claro que ficava. E não fazia mais nada. Para além de não nunca ter sido uma criança propriamente expansiva, que tivesse lata de andar, depois de uma zanga com a bff, a angariar um piquete de piedade e amizade com a minha pessoa, achava aquilo tudo muito palerma e desnecessário. E ficava no meu canto. Triste. Mas sem o deixar transparecer, às tantas - sim, estas cenas repetiam-se, assim como se repetiam a reconciliações e posteriores recidivas. E, se ficava triste com a atitude dela, mais triste ficava com a atitude das demais que, sem se cansarem a impor-se, ou averiguar seja o que for, se colocavam do seu lado. Achava uma injustiça. Aos poucos, e à custa de repetições, percebi que não o fazia por maldade ou pura parcialidade; era apenas um descaso, um desinteresse, um não se querer chatear com uma briga que não era delas. Entender isto capacitou-me para lhes perdoar um bocadinho. Afinal, não era mesmo com elas, pois não? Mas, ainda assim, magoava-me que fossem assim deixa-andar. Que fossem permeáveis à primeira - e única - abordagem, e tão facilmente deixassem de fazer caso de quem não tem estrutura para andar a cativar simpatias,a exigir solidariedade absoluta, a açambarcar a companhia com o propósito de também me privar dela.
Lembro-me de muitas vezes pensar que era tudo tão estúpido, tão poucochinho. De me animar pensando que um dia as coisas deixariam de ser assim, a vida já não seria um recreio de escola, as pessoas seriam crescidas e capazes de dizer a alguém, com estas atitudes, "hei, calma aí, resolve os teus assuntos com quem tens de resolver, mas não venhas tentar antagonizar, eu gosto da X e vou continuar a dar-me com ela." Mas não, parece que ninguém faz isto. É engraçado, porque eu faço. Se calhar (?) sou muito, muito estúpida, mas se alguém me tenta encurralar, isolar de outra pessoa só por causa de um diferendo lá entre elas, reajo mal, muito mal. Nunca me peçam para escolher entre a espada e a parede. Nunca me tentem afastar de alguém só porque passou a ser pessoa non grata a alguém do grupo. Nunca.
Ainda assim, percebo quem não reaja da mesma forma. É a tal coisa da paz social. As pessoas já têm muito que as rale, vão agora tomar posição numa situação destas. Deixam andar. A sério, percebo. Desprezo um bocadinho a falta de espinha, mas percebo. Afinal haverá muito quem pense que, se calhar, e porque eu não o mostro, se calhar também não me importo. E como não faço campanhas, se calhar também pensam que mais vale ficarem com quem se aproximou, e não com quem ficou ali, na boa, a ver o que acontecia, a confiar que, nã, vai lá ser tudo igual outra vez. Mas é. É uma constante. O elo mais fraco é descartado - não, esquecido. Como não se faz notado, é natural, ou habitual que assim seja.
E pronto, as coisas seguem. São como são. Tudo na mesma, como a lesma. E eu vejo-os a ir. E razão tinham os romanos, uma paliçada dá uma trabalheira a levantar, mas a probabilidade de se apanhar pancada lá dentro é muito menor.
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